Sempre no ataque


O jornalista Juca Kfouri conta tudo o que sabe sobre a proteção que o governo brasileiro proporcionou ao megaempresário Boris Berezovski, procurado pelas polícias da Rússia e da Suíça; revela como foi enganado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva e pelo ex-ministro José Dirceu; narra o que considera deslumbramento pelo poder por parte do presidente da Câmara, deputado Aldo Rebelo. Relata ainda como funciona a manipulação de resultados e diz que o Brasil, favorecido pela arbitragem em Copas anteriores, será prejudicado agora na Alemanha. Explica que o êxodo de jogadores brasileiros para fora do país teria ocorrido mesmo sem o fim do passe e sem a Lei Pelé e justifica a ida de jovens amadores para o exterior como uma melhoria das condições de vida deles e de suas famílias. Expõe como dirigentes, entre eles Eurico Miranda, se tornam ricos em meio à miséria dos clubes brasileiros. E fala ao mesmo tempo de seu carinho e sua decepção em relação a Pelé. Em suma, Juca é uma metralhadora giratória que atira contra tudo e contra todos.


ENTREVISTADORES: Natalia Viana, Marcos Zibordi, Hélio Alcântara, João de Barros, Maurício Reimberg, Roberto Manera, Renato Pompeu, Thiago Domenici, Sérgio de Souza. Fotos: Johnny.



NATALIA VIANA - O que você achou dessa visita do Berezovski ao Brasil?
Acho um escândalo. Não pairam dúvidas sobre quem seja o Berezovski. Há até quem. para defendê-lo, diga: “Não, Berezovski é um cara perseguido por um déspota chamado Vladimir Putin”. Admitamos a hipótese de que ele estivesse sendo perseguido pelo Putin por ser da turma do Yeltsin, e que a privatização na União Soviética tenha transcorrido da maneira mais límpida. cristalina. honesta, e que todo o dinheiro dele seja absolutamente justificado. de origem santa. Esse cara vai para a Inglaterra, lá consegue o status de exilado político porque chega com quase 4 bilhões de dólares e com, um jornalista faz um livro inatacável do ponto de vista jornalístico. O Poderoso Chefão do Kremlin, sobre Berezovski. e é morto com quatro tiros na porta da sucursal da revista Forbes, revista que ele dirigia em Moscou. Ah. bom. as autoridades russas suspeitam que tenha sido a mando do Berezovski. Mas suspeita é suspeita, você não comprova nada. Tá bom! Aí há uma ordem de prisão contra ele. do governo russo? Esqueça. Mas tem também ordem de prisão do governo suíço...


SÉRGIO DE SOUZA - Por quê?
Por lavagem de dinheiro e contratos não cumpridos, de negócios, petróleo e de siderurgia com o governo Suíço. Tem um mandado internacional de prisão contra esse cara na Interpol Eu tenho o mandado de prisão dele. Esse cara entra no Brasil, ninguém sabe. Na sexta-feira. alguém sabe e publica. Uma hora e meia depois que sai publicado, ele abandona o hotel em que estava com sua comitiva, deixa as malas, não faz
checkout, e zarpa no seu jato particular com a justificativa de que tinha uma importante reunião com o tal do Badri Patarkatsishvili na Geórgia. É a versão oficial Tem até um certo sentido, porque o Patarkatsishvili tinha vendido 30 ou 40 por cento das suas ações de mídia para o Murdoch. Olha o tamanho das coisas! Aí, na terça-feira, Berezovski volta ao Brasil Então. ele está abertamente com a garantia do Itamaraty de que não vai acontecer nada contra ele, porque o Brasil não tem tratado de extradição com a Rússia.

RENATO POMPEU - Mas e com a Suíça?
Com a Suíça tem. Agora conto o que ouvi do deputado Vicente Cândido. O deputado aparece na sexta-feira no hotel para dar garantias de que ele, Berezovski, não seria preso porque era um compromisso do governo brasileiro. Que o ministro da justiça, Márcio Thomaz Bastos, chancelou para o Romeu Tuma Júnior por telefone: "Ele está aqui com autorização. Não há nada contra ele".


SÉRGIO DE SOUZA - O Tuma Júnior queria prender o homem...
Sim. E quis saber do Márcio Thomaz Bastos por que o homem estava aqui à vontade. Ai ligo para o Vicente Cândido: “O que você estava fazendo no hotel?” Tenho uma velha relação com o Vicente Cândido. Ele havia ido ao hotel garantir que o homem não seria preso. Ele falou: “Muito simples. Tenho um trabalho com médios e microempresários, uma área de interesse desse investidor. Sei tudo o que se fala do Berezovski, mas não há nada contra ele provado aqui, e, Juca. a origem do dinheiro dele é uma coisa que deve preocupar o país de onde esse dinheiro vier”. “Mas, ô, Vicente, esse aí é o argumento do Alberto Dualib!” “Mas aí eu tô de acordo. Entrou pelo Banco Central meu, tá carimbado!”


NATALIA VIANA - E por que o governo brasileiro teria dado essa garantia?
Aí vou fazer uma especulação. O que se diz é que ele é um eventual interessado na Varig e veio conversar com a Petrobras, porque a Petrobras é uma das principais credoras da Varig. A especulação: acho que esse cara está procurando uma rota de fuga. A situação na Inglaterra está mudando. O primeiro-ministro Tony Blair já não é mais o rei da cocada preta. Então, talvez o cara esteja se preparando para a eventualidade de que, diante de uma mudança na Inglaterra em que se venha a discutir esse asilo dele, ele tenha para onde ir. E isto aqui é o país ideal.


JOÃO DE BARROS - A gente sabe que tem uma máfia russa, essa do Berezovski, do Badri etc., e tem uma outra, a máfia israelense. Elas se comunicam?
Ao que tudo indica, sim. Até porque um deles estava aqui no Pacaembu no dia do Corinthians e River Plate. Estou tentando lembrar o nome, ele quer comprar o Flamengo...


NATALIA VIANA - Pini Zahavi?
Pini Zahavi. Estava aí. Como se diz, também que não existe dissensão entre o Abramovich e o Berezovski. O que há é um jogo de aparências, porque o Abramovich preserva ótimas relações com o Putin, e não interessa que seja pública sua boa relação com Berezovski. Há quem jure isso. e quem garanta que não. que são inimigos figadais. Não acredito. Até pela presença desse Joorabchian que transita entre os dois na absoluta paz.


THIAGO DOMENICI - O que você acha do Kia Joorabchian? Você já teve contato com ele?
Tive um contato muito ruim, como com um chefinho da Máfia. Assim que publiquei a história das três identidades dele, e que o Boris Berezovski estava por trás, fui com a minha nora, sete meses de gravidez, meu filho e minha mulher ao restaurante Gero. Estávamos em pé esperando por uma mesa quando entra uma turma de uns nove caras, entre os quais Kia Joorabchian. Daí a pouco ele vem, tira um bloco do bolso, uma caneta e diz: “Eu queria um autógrafo, o senhor me quer tão bem, tem falado tão bem de mim”. Olhei pra ele e falei assim: “Não vou lhe dar esse autógrafo, senhor Kia, o senhor que me dê um autógrafo, que o mágico é o senhor”. Aí ele bate os calcanhares, vira e segue. Agora, veja bem. Ele estava no Brasil fazia três meses, se tanto, Pelo sim, pelo não, abordava um jornalista razoavelmente conhecido na cidade na frente de todo mundo, como se dissesse: “Não tenho nenhum temor e já te conheço”.


SÉRGIO DE SOUZA - Ele estaria no esquema da lavagem de dinheiro também?
Ele é um funcionário do esquema.


SÉRGIO DE SOUZA - Mas o que já teriam ganho de dinheiro até agora com o que estão fazendo? Acho que ainda não ganharam. Mas, por exemplo, no caso do Tevez tem 6 milhões de dólares que ninguém explica. O Boca Juniors diz que vendeu o Tevez por 22 milhões de dólares, o Corinthians diz que comprou por 16. E o que se sabe é que nenhuma das transações grandes feitas pelo Corinthians passou pelo Banco Central. O que vai redundar em multas - daqui a cinco. seis anos, quando esses processos terminarem - de 100 por cento do valor da transação. e o Corinthians vai quebrar. O Corinthians, não a MSI, porque não tem uma assinatura do Kia Joorabchian em contrato. As assinaturas são do presidente do clube, Alberto Dualib, ele e o vice-presidente. Qual a justificativa de não ter passado pelo Banco Central? Que a MSI, empresa que tem sede em Londres, comprou um jogador em Buenos Aires e fez a operação via banco inglês com o Banco Central argentino. E assim o Roger com Portugal, e assim o Mascherano com o River Plate, e assim o Carlos Alberto... Veja que coisa fantástica, o Corinthians quase não compra jogador aqui. Comprou Marcelo Mattos e Sílvio Luís, ambos de quem? Do São Caetano, clube que tem duas grandes subvenções. Na origem, da prefeitura de São Caetano. e o respaldo das Casas Bahia. Que não se dá por intermédio da publicidade das Casas Bahia, mas sim da Consul, que é parceira. Parceria essa Casas Bahia-São Caetano, da qual muito pouco se fala na imprensa. entre outras coisas porque estamos tratando do maior anunciante hoje do país, que é Casas Bahia.


SÉRGIO DE SOUZA - Mas onde entra a máfia aí?
Eu não sei até que ponto. Até agora, ninguém foi capaz de me explicar qual é o interesse das Casas Bahia em respaldar o São Caetano, se o time nem sequer propagandeia a marca da empresa no uniforme. Pode ser benemerência. Ou uma paixão pela cidade de São Caetano... Mas que há uma coisa estranha nessa relação, há.


SÉRGIO DE SOUZA - Então. as Casas Bahia lavariam dinheiro, seria por aí?
Eu não sei, eu vi o presidente Lula dizer que as Casas Bahia é um exemplo para o país, e o Estadão dar em manchete. Que foi uma das coisas que eu mais estranhei nos últimos tempos na imprensa: “Casas Bahia são um exemplo para o país. diz presidente Lula”.


NATALIA VIANA - Mas o que eles querem com o Corinthlans? Fizeram isso para lavar só 6 milhões?
Isso aí é tão simples como o seguinte: houve um determinado momento na história do Rio de Janeiro em que os bicheiros eram os donos da cidade. Tiravam foto na porta do palácio com O governador Moreira Franco. Eram grandes beneméritos. Compravam máquinas de cobalto para o Hospital do Câncer, financiavam as escolas de samba, mas nada disso dava a eles o reconhecimento social que eles buscavam e que eles começaram a entender ser possível por intermédio do futebol. Então, um foi para o Botafogo, outro foi para o Bangu, as coisas continuaram e assim eles tomaram conta do futebol do Rio. O Castor de Andrade não precisava de mais nenhum tostão. Ele queria ser reconhecido e ser chamado de doutor Castor. E entrar para o Country Club, coisa que não conseguiu, mas que esses caras estão buscando é poder sair na rua e viver reconhecidos como gente bem-sucedida, e o esporte é um caminho muito bom para chegar a isso.


SÉRGIO DE SOUZA - O que mudou no futebol, de sua primeira entrevista à
Caros Amigos. em 1997, para cá?
Mudaram muitas coisas. E não mudou nada. O que mudou? Tivemos duas CPIs sobre futebol na Câmara e no Senado. O grande mérito das CPIs foi que aquilo que era atribuído a alguns jornalistas mal-humorados ou que eventualmente tinham problemas pessoais com os cartolas - um argumento ridículo, como vou ter problema pessoal com quem mal conheço? - veio à tona e a sociedade brasileira pôde saber a exata dimensão de tudo o que se fazia nos bastidores do nosso futebol Só o Ricardo Teixeira tem dezessete pedidos de indiciamento. bem documentados. Aí, o que acontece em seguida? Vamos para a esfera do judiciário. O que acontece no judiciário? Por questões técnicas, barra um indiciamento aqui, barra outro ali, faz prescrever outro acolá. Quem faz? Uma justiça no Rio de janeiro cujos desembargadores, boa parte, freqüenta os chamados vôos da alegria da CBF em épocas de Copa do Mundo, como foi fartamente demonstrado em 94 nos Estados Unidos e em 98 na França.


SÉRGIO DE SOUZA - Veremos agora também?
Certamente. Estamos todos de olho. Conto uma rapidíssima história: durante a Copa de 98 fui notificado de que tinha sido condenado num processo que o Ricardo Teixeira movia contra mim...


THIAGO DOMENICI - Quantos processos ele moveu contra você?
Precisaria contar, mas são mais de sessenta, entre civis e criminais. Nesse aí fui condenado a seis meses de cadeia ou uma pena pecuniária, uma multa de não sei quantos reais. Fiquei estarrecido. Era o Arthur Lavigne o meu advogado lá no Rio. E ele viu que a sentença da juíza dizia que as minhas testemunhas de defesa tinham se pronunciado contra mim. E, onde elas diziam “não, o jornalista Juca Kfouri não é um bandido, como diz Ricardo Teixeira”, ela tinha invertido para dizer “sim, o jornalista Juca Kfouri é um bandido, como diz Ricardo Teixeira”. A sentença foi anulada em quinze dias. Volto da Copa e vou saber quem era essa juíza. Filha de um dos desembargadores que estavam na Copa de 98. As coisas estão todas muito mais ligadas do que a gente imagina. Se eles são capazes de fazer uma violência dessas com um cara como eu, que, pelo menos, tenho espaço pra contar essas coisas, imagina como é com o cidadão comum. Então, continuando o que eu vinha falando, a CPI tem esse efeito benéfico, pelo menos a sociedade brasileira foi informada. Disso sai a necessidade da reforma dos textos legais do esporte brasileiro. Ainda no governo Fernando Henrique são paridos e aprovados por unanimidade os textos do Estatuto do Torcedor e da Lei da Moralização. Aí, o Lula tem a grandeza de como primeiras duas leis que assinou no seu governo serem essas duas. Pede que me liguem para saber se eu ia à assinatura das leis. O secretário dele falou assim: “O presidente gostaria muito que o senhor viesse”, “Diga a ele que vou.” E fui. Chego lá, ele me manda sentar na primeira fila. Abre o discurso dizendo o seguinte: “Nunca mais vamos ouvir o jornalista Juca Kfouri dizer que o torcedor brasileiro é tratado como gado, que os cartolas brasileiros não têm uma legislação que os puna, e estou falando isso porque quero homenagear na figura dele todos os jornalistas que lutaram e que foram processados”, etc. etc. Para tempos depois estar de braço dado com o Ricardo Teixeira no jogo do Haiti... O poder de sedução do futebol, o poder de visibilidade que o futebol dá é uma coisa aparentemente tão sedutora que nem o Lula resistiu, porque, diferentemente do Fernando Henrique, que pergunta quem é a bola, que acha que Biro Biro é uma jogada e não o nome de um jogador, o Lula sabe tudo, Vamos lembrar o seguinte: o Lula se elegeu. dois dias depois pediu para um grupo no qual estavam José Trajano, Sócrates, a Paula, o Bebeto de Freitas, a Ana Moser, eu, Portela, mais gente, eram umas doze pessoas, que fizesse um projeto de política esportiva para o país, que o PT não tinha, mas que entregasse antes da posse. Nos reunimos feito loucos durante 25 dias, cinco. seis horas. Quatro dias antes da posse estávamos no quartel-general do PT, ali perto do Hospital do Servidor Público, em São Paulo...


JOÃO DE BARROS - Vila Mariana.
Entregar pra ele o projeto, dando a cara pra bater, fazendo uma coisa que na verdade não era nosso papel. Mas é aquela coisa: jornalista sim, cidadão antes. Então, por que não? O cara acaba de ser eleito de maneira gloriosa. está querendo um troço, enfim vamos ter uma política esportiva de inclusão social no Brasil. Não tinha dúvida nenhuma disso. Pois não aproveitaram uma única linha. Do ministério não saiu nada. Do cara do PC do B, ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, que virou estafeta do Nuzman, que se hospedou no Queen Mary, no mesmo navio-hotel em que estava o Bill Gates durante as Olimpíadas de Atenas, E veja que não estou fazendo o discurso da miséria. É óbvio que um ministro de Esporte do Brasil tem que estar hospedado onde quer que vá. Mas ele tem que ter também o mínimo de respeito ao país no qual ele é dirigente para saber que pega mal ele estar no mesmo lugar do Bill Gates. Lambuzou-se. Não fez nada, nada. E conta uma história de carochinha que existe 1 milhão de crianças assistidas pelo Segundo Tempo, que não é nada mais do que um plano que vinha do governo anterior e ele rebatizou. E todas as vezes que você se aprofunda no Segundo Tempo você encontra porcaria, denúncia e desvio de dinheiro.


SÉRGIO DE SOUZA - O que é isso?
É um programa para atender crianças fora do período escolar. O Tribunal de Contas da União já detectou uma série de desvios de recursos de merenda, de uniforme...


RENATO POMPEU - Essa corrupção toda do futebol brasileiro chega à manipulação de resultados?
Pois é, faz algum tempo, ouvi essa figura impoluta do J. Hawilla dizendo que
“manipulação de resultado de futebol é uma coisa que já faz parte do folclore; havia antigamente, hoje em dia os controles são tamanhos, a televisão, etc., que é impossível” Muito bem. Olhemos a gestão Ricardo Teixeira. Tivemos três escândalos de arbitragem: Iris Mendes. Armando Marques-Loeblin, Edilson Pereira de Carvalho. Esqueça o Brasil. Estamos vendo o presidente da Federação Italiana de Futebol renunciar, porque o seu presidente de comissão de arbitragem tem fitas gravadas de telefonemas com o diretor-geral da Juventus, que lhe prometeu uma Maserati, e ele prestando contas a esse cara, que pôs o árbitro X na partida Y da Juventus na Copa dos Campeões. E o juiz italiano designado para a Copa do Mundo está sob suspeita. Então a manipulação se dá e pelos mais diversos motivos. Entre outros, hoje, pelo movimento de apostas. As legais e as clandestinas. E é de hoje isso? Por que o Paulo Rossi estava suspenso dois anos antes da Copa de 82? Você se lembra? O tal do Totonero? Em 82. Isso aconteceu em 80. Estamos falando de 26 anos. E isso está inalterado. Por quê? Porque a estrutura é rigorosamente a mesma. O que mudou é que você deixou de ter as figuras folclóricas do Ripolli, do Mendonça Falcão, do Vicente Matheus e, entre essas figuras, algumas até foram mecenas, que tiraram do bolso pra pôr no clube, substituídas por gente que enriqueceu à custa do futebol como o Eurico Miranda. Que guarda um aspecto folclórico também, mas absolutamente deletério, como o Caixa-d'Água.


SÉRGIO DE SOUZA - Como é que o Eurico ganha dinheiro?
Com compra e venda de jogador, com estabelecimento de patrocínio, com caixa dois. O Brasil é um país tão absolutamente fantástico, que conseguiu nas primeiras parcerias espantar o dinheiro dos parceiros. Dizem que dinheiro não aceita desaforo, tiveram que aceitar, e foram embora correndo. O Eurico Miranda pôs o Bank of America pra fora, porque ninguém quer brigar com o Vasco. Banco nenhum vai querer ficar mal cotado com a torcida do Vasco, com a do Flamengo. A Petrobras continuou bancando um tempo o Flamengo, com o Flamengo endividado com o governo, e está lá na lei que não pode. Nos últimos tempos é que estabeleceu algum tipo de dificuldade para o Flamengo receber o dinheiro. Aí vem o presidente Lula e diz, como disse semana passada:
“Um ano que o governo não cobre as dívidas dos clubes é problema dos clubes; dois anos, é problema dos clubes; três anos. passa a ser problema do governo, Não é mais dos clubes. Vamos fazer a Timemania, e uma lei de incentivo pra salvar os clubes”. Então eu só conto o que vi. Daí o tamanho da minha decepção. Dois dias antes da assinatura da Timemania, o ministro José Dirceu telefona pra mim, diz que queria um encontro “com você, o Sócrates e a Soninha pra discutir Timemania. Parece que vocês são contra”. “Somos, ué, já escrevemos: “Quero entender, que não estou entendendo direito: E marcou um encontro com a gente na Secam. na avenida Paulista, numa agência do Banco do Brasil. Fomos lá os três. Mostramos pra ele que era absurdo criar uma loteria pra dar dinheiro na mão dos caras que tinham construído essas dívidas, sem exigir deles nenhuma contrapartida de mudança de modelo de gestão, de responsabilização pela gestão do dinheiro. E que não se justificava fazer aquilo por medida provisória porque aquilo não tinha relevância nem urgência. Era uma segunda-feira. Na quarta-feira seria anunciada a medida provisória. E iam entregar as galinhas para as raposas. Na nossa frente, ele faz uma ligação em viva voz para o Tofolli, chefe do serviço jurídico da Casa Civil. “Tofolli, estou aqui com fulano, beltrano, sicrano, eles estão me dizendo isso e isso, bate?” A gente ouve a voz do Tofolli: “Ministro. não há o que justifique medida provisória pra uma loteria em cujo cerne está colocado que, se ela for aprovada amanhã, só entra em vigor daqui a oito meses”. A prova provada de que não havia urgência. Aí, o Zé Dirceu bate na mesa e fala: “Vai pra projeto de lei”. E o Tofolli: “Tenho dito isso há seis meses”. Aí, o Zé Dirceu desliga, olha para nós todos: “Vocês têm dez minutos?” Sai e volta: “Vocês têm vinte minutos pra esperar, que o Lula quer conversar com vocês?” Claro. esperamos o Lula. O Lula manda entrar. Ele vem: “Juquinha. me explica isso aqui tudo, da Timemania”. “Já explicamos pro Zé, papapá", Ele olha e fala pro Zé: “É assim?” O Zé: “É!” “Nem por cima do meu cadáver assino isso como medida provisória”, E eu, babaca, leal: “Vai te criar um problema, porque o Agnelo está convidando todo mundo pra assistir à assinatura da medida provisória”. E ele: “Problema do Agnelo, ele que se vire”. Tchau, tchau, levantamos, fomos embora. Na saída falo: “Zé. tem trinta jornalistas lá embaixo, o que a gente fala?” “Fala a verdade.” “Tá legal.” Saímos, demos entrevista os três, e eles ouviram a nossa posição contra a MP etc. Fui embora, ouvindo a Rádio CBN: “O presidente Lula e José Dirceu anunciam que quarta-feira será assinado o projeto de lei da Timemania”.
Vou pra CBN, gravo o meu programa, conto essa história como estou contando aqui; vou pra TV Cultura. participo do jornal do Heródoto Barbeiro, conto, mais reduzido, evidentemente, escrevo e passo para o jornal esportivo
Lance!. Quinze pra meia-noite estou em casa já, vendo o Jornal da Globo. Ana Paula Padrão anuncia: “Quarta-feira o presidente Lula assina a medida provisória da Timemania”. Toca o telefone. O editor do Lance!: “Ô, Juca, você viu?” “Vi” “E aí? Estamos dando que é projeto de lei não é medida provisória.” “Se você quiser, você muda. Se você acha que é a Ana Paula Padrão que tem a notícia certa, quando passei uma hora com o ministro e com o presidente da República, não foi uma fonte privilegiada que me contou, eu assisti, você faz o que quiser.” “Não, vou manter.” Quarta-feira o Lula assina a medida provisória...


SÉRGIO DE SOUZA - Por cima do cadáver dele mesmo?
É...


THIAGO DOMENICI- Não se falou mais no assunto depois?
Escrevi na quinta-feira seguinte uma coluna irada, dizendo que o presidente Lula estava governando o país, para ser educado, em cima das pernas. A vontade que eu tinha era de escrever “nas coxas”. Mas contei essa história toda.


SÉRGIO DE SOUZA - E depois o que você soube?
Depois o Zé Dirceu me disse:
“Fomos traídos”. O Agnelo disse para o Lula que seria a desmoralização dele, e o Lula teria dito que não poderia permitir que um ministro dele fosse desmoralizado.


THIAGO DOMENICI - E o Agnelo com os cartolas?
É essa relação promíscua, de carregar mala do Nuzman. Fez tudo para os esportes de alto rendimento, fez tudo para os esportes de competição, levou a medalha do Luisão na Copa América. O Luisão se machucou, foi para o hospital e ele ficou com a medalha do Luisão. É o ministro “medalhão”, os jogadores da seleção de futebol o chamam assim, não sou eu. E ele saiu do governo pra ser candidato a governador do Distrito Federal. Urna decepção. Negou no programa
Roda-Viva que tivesse assinado dois vetos a dois capítulos moralizantes do Estatuto do Torcedor, e eu mostrei pra ele no ar a assinatura dele para os dois vetos. Ele empalideceu, lá fora me abordou, olhou de novo o papel: “Isso aqui é falso. Essa assinatura não é minha, vou processá-lo”.


THIAGO DOMENICI- Processou?
Eu sou bobo? Nasci ontem? Acha que eu não tinha verificado a autenticidade da assinatura? Claro que não processou. Nesse episódio, a decepção não é ele, porque dele eu não esperava mais nada. A decepção é com o assessor de imprensa dele, de quem felizmente agora esqueci o nome, figura de quem eu gostava muito, que escreveu, aliás, um belíssimo livro sobre a CPI do Futebol e que falou:
“Juca, você se ferrou, essa assinatura não é dele”.


SÉRGIO DE SOUZA - E o Aldo Rebelo, o que aconteceu entre você e ele?
O Aldo pra mim é mais complicado. Deixo claro uma coisa: conheço o Lula desde 79. Eu era diretor do Sindicato dos Jornalistas e fui um dos designados pra acompanhar as greves do ABC. Então, de lá vem uma camaradagem com ele, com o Jacob Bittar, o Djalma Bom, enfim, uma gente de quem eu gostava muito. Com o Aldo é mais recente, foi muito em função da CPI do Futebol, raras vezes vi alguém ser tão firme na condução de um processo delicado, difícil, porque a Bancada da Bola estava organizada pra sabotar, até conseguiu sabotar, não se aprovou o relatório. Durante todo o período inicial do governo, o Aldo, até onde eu assisti, se comportou muitíssimo bem, mas chegou um momento em que bateu a coisa da...


RENARO POMPEU - Da mosca azul.
Não da mosca azul só, da encruzilhada mesmo. Ou dá ou desce, pra que lado eu vou. Por mais que o partido não tenha o Agnelo em boa conta, é o ministro do partido. É o PC do B que está em jogo. E aí é o seguinte, o Aldo falou pra mim lá em casa. É o discurso que a gente conhece, que até faz sentido, o discurso da correlação de forças, é difícil, se não fizer assim, pô, vamos ter em conta que o simples fato de este país ter eleito um operário pra presidente já é um baita ganho histórico, já andamos pra frente pra burro, mesmo que o governo dê com os burros n' água... Tudo isso eu admito, eu entendo, acho isso mesmo. Mas acho que você não transige sobre princípios. Tem que ter cintura, a vida política é muito mais complicada do que a gente imagina, a gente às vezes fala bobagens do tipo “basta ter vontade política pra fazer isso”, e não é assim Tudo isso eu acredito, mas não tenho dúvida em dizer que esse processo todo foi absolutamente antropofágico, liquidou com reputações e, o que é mais grave, ele não liquidou apenas com a imagem de algumas pessoas. Essa é a coisa que eu menos desculpo no Zé Dirceu. Eles destruíram a imagem de uma geração, a tal geração de 68. O Aldo é de uma geração posterior, já pegou o processo de distensão lenta e gradual já não corria risco de ir pra cadeia, ir para o DOI-Codi, ser torturado. É mais compreensível até que tenha adotado esse discurso pragmático, realista, de que as coisas são assim.


SÉRGIO DE SOUZA - Mas o que o Aldo fez? Apoiou a Timemania?
Apoiou a Timemania com todas as forças. Foi homenageado pelo Eurico Miranda dentro de São Januário. O Eurico Miranda, que na CPI ele mandou calar a boca. Tenho a fita.
“O duro de dirigir isso aqui é ter que conviver com canalhas como vossa excelência”. Eu nunca tinha visto essa cena no parlamento. Razão da minha admiração, não é gratuita. Posso errar na avaliação das pessoas, mas por algum motivo concreto. E aí mudou, em nome desse pragmatismo.


THIAGO DOMENICI - O Eurico era um dos participantes daquela Bancada da Bola. A bancada ainda existe?
Cada vez mais forte.


THIAGO DOMENICI - Quem são?
Quer saber um de pasmar? Delcídio Amaral. Levou 100.000 reais da CBF na campanha dele. Você entra naquele site da Transparência Brasil, pega os financiamentos de campanha e clique lá: “CBF”. Tem quinze deputados dos mais variados partidos. embora no estatuto da CBF esteja escrito que é uma entidade apartidária.


NATALIA VIANA - Você vai votar em quem agora?
Neste momento, na Heloísa Helena.


MARCOS ZIBORDI - Falando dessas altas esferas do futebol. queria te perguntar: esses agenciadores, buscando craques novos etc., ganham dinheiro?
Muito dinheiro.


MARCOS ZIBORDI -Quem são essas pessoas, nomes?
Você tem um hoje, esse que é do Robinho, o Wagner Ribeiro... Veja bem, essa é outra discussão que foi muito falseada no Brasil. O que se acusa: crime cometido pela Lei Pelé, acabou o passe, os jogadores deixaram de ser escravos dos clubes - nunca vi escravo ganhando 200.000 reais por mês, queria ser escravo assim - e passaram a ser escravos dos empresários. Eu sempre argumento de duas maneiras: uma, com o concreto, como as coisas são; outra, no campo dos princípios, talvez como eles devessem ser ou como eu gostaria que fossem. Vamos primeiro para o concreto: se não houvesse a Lei Pelé, o êxodo de jogadores brasileiros para a Europa continuaria exatamente igual ao que se vê neste momento.
Por uma razão singela: a Fifa não reconhece mais o passe desde 1995. Não depende de nós, o passe poderia estar vigorando ainda, se não houvesse a Lei Pelé, no mercado interno, no mercado externo não. Então, é mentira que a Lei Pelé colaborou para o êxodo dos jogadores brasileiros para a Europa.
Ponto dois, dado de realidade, eu pergunto: você começou a ouvir falar da ida de brasileiros pra Europa só depois da Lei Pelé? Isso é do começo dos anos 80. E de empresários do futebol? Só começou a ouvir agora? Ou você já ouviu falar do Juan Figger?


MARCOS ZIBORDI - É dos primeiros nomes que a gente começa a guardar...
Então é o seguinte: com a perda do passe por parte do clube, o cartola que vendia jogador em nome do clube e tornava comissão está sendo prejudicado, porque não é o clube mais que está negociando; acaba o contrato do cara, e o cara negocia e o cartola fica a ver navios. Também pergunto: a situação falimentar dos clubes brasileiros é pós-Lei Pelé ou anterior à Lei Pelé? Esse é o campo dos fatos, da realidade. Vamos aos princípios. Caso me perguntassem
“Juca, se o preço de acabar o passe fosse acabar o futebol você acha que seria justo pagar esse preço?”, eu diria: sim, porque não é possível que no século 21 alguém seja dono de alguém. O Corinthians não pode ser dono do Tevez, o Tevez tem que ter o direito de, cumprido seu contrato, ir trabalhar pra quem ele quiser. Outra questão de principio: se eu era objeto, patrimônio, mercadoria de um clube de futebol, me libertei e escolhi você pra cuidar das minhas coisas, é absolutamente diferente de que, para poder trabalhar, eu tenha que ser mercadoria do clube. Por livre-arbítrio escolhi você e disse pra você: quero que cuide dos meus negócios, quero ganhar 200 paus por mês, se você conseguir 220, 20 são teus. Vou fazer um anúncio pro banco não sei das quantas, banco da praça, quero 1 milhão, o que você conseguir acima é teu. Isso foi se deformando, é verdade, de tal forma, que o cara passa a ganhar até na compra da casa do jogador. Cada negócio que realiza ele toma uma parte, mas você escolheu. E você é que dá um pé na bunda desse cara na hora que terminar o contrato que fez com ele, se é que fez contrato. Esse cara não te prende.


HÉLIO ALCÂNTARA - Só que tem uma coisa que a Fifa fez, ela regulamentou...
Sim, existe a figura do agente Fifa. Mas você percebe que estamos falando de coisas de qualidades diferentes. E pra culminar ouvi de um jogador de futebol a seguinte frase, depois de perguntar pra ele por que tinha procurador, agente, por que não cuidava ele mesmo. Ele respondeu:
“Você sabe por que, Juca? Porque pra falar com bandido preciso de um”.


MARCOS ZIBORDI - A gente fica vendo os astros jogadores brasileiros indo pra Europa, mas existe uma quantidade avassaladora de garotos indo também. Qual é a situação dessa molecada?
Outro dia falei disso no blog e levei porrada pra cacete, é divertido ver como as pessoas não fazem certas ponderações e, depois que você chama as pessoas pra ponderar. elas falam: “Pô, realmente, eu não tinha pensado nisso, desculpa”. Esse Wagner Ribeiro estava querendo levar um menino do Santos, o Neimar. pro Real Madrid...


HÉLIO ALCÂNTARA - De 14 anos.
Isso, parece que o menino é um novo Robinho e tal. Como é que esse menino pode ir pro Real Madrid? Com 14 anos, não pode assinar contrato, só a família é autorizada. Que que a Fifa exige? Pra que ele vá, os pais têm que ir junto e o clube tem que arrumar emprego pra eles. Aí estavam arrumando um emprego pro pai desse menino, de mecânico na Audi, que é patrocinadora do Real - ia ser o mecânico mais bem pago do mundo. Contei essa história no blog,
vieram seiscentas porradas. Aí eu, como faço às vezes, pus lá um comentário: “Ponha-se na posição do pai desse menino, você ficaria em Santos, desempregado. com o menino podendo vir a ser um Robinho, podendo não vir a ser um Robinho, ou se mandava com ele pra Espanha, onde ele vai estudar, vai ter assistência médica, você vai trabalhar, vai ganhar um bom dinheiro? Que que você faria pela sua família?” E aí desmontou... A CBF quis que se legislasse proibindo a ida de menores de 18 anos, e eu digo: chega o cara do PSV, como chegou na favela da Rocinha, foi lá buscar um garoto, pegou o pai e a mãe, levou os três pra Eindhoven, instalou-os numa casa direita, intérprete.. Que direito você tem de falar pra esses pais que é melhor continuar vivendo na Rocinha? Agora, se você me disser que há muitos casos em que o moleque não dá certo e fica por lá vagando e vira prostituição infantil, é verdade; então tem que cuidar, cada um que sair tem que sair com essas garantias, ele vai treinar, ele vai pra escola, entende?, porque, se é trabalho infantil em relação ao padrão europeu...
É aqui também, porque vai lá na escolinha do Corinthians, do Santos, do Palmeiras: é a garotada que está lá correndo atrás de um prato de comida. Agora. é muito melhor do que ficar fazendo chuteira e tênis lá na Indonésia.


THIAGO DOMENICI - Mudando de assunto, estou achando a imprensa esportiva, principalmente de televisão, muito parcial e muito chata. O que você acha?
Acho o seguinte: na chamada programação esportiva da televisão aberta você tem dois problemas; um é TV Globo. e outro, os outros, que não fazem jornalismo, fazem camelódromo. O
shop tour aos domingos à noite. entremeado com gols aqui e ali e três ou quatro folclóricos fazendo merchandising e dando opiniões estapafúrdias pra ver se esquentam o Ibope. Está certo, quer dizer, não estamos falando de jornalistas. Na TV Globo você tem o quê? Gente de qualidade fazendo o Globo Esporte e não sei o que etc., mas você tem uma invencível tendência a fazer um jornalismo esportivo chapa branca. Curiosamente, se você observar, o Jornal Nacional conseguiu se desvencilhar muito mais da imagem negativa que tinha em relação à promiscuidade com o poder do que o jornalismo esportivo que se faz na Globo, e não é por falta de bons profissionais. Mas a Globo escolheu que isso que estamos discutindo aqui não é assunto, assunto é o gol, quem vai ser convocado, quem vai ser contratado, é o drama do goleiro que comeu um frango... belíssimas matérias! Mas discutir o poder no futebol não, porque “nós temos uma relação com esse poder que precisamos preservar”. Que é comprar o futebol! Aí, o futebol padece por dois motivos: porque a rede amplamente majoritária, hegemônica. não informa - exceção. vamos citar, um Globo Repórter demolidor mostrando quem era Ricardo Teixeira, no período da CPI. O segundo crime contra o futebol é confundir a grade de programação da Globo com tabela de campeonato. E aí você vê futebol às 10 horas da noite. Até admito que uma vez por semana, na quarta-feira do futebol da Rede Globo, houvesse um jogo destacado pras 10 da noite. O problema é que tem um pra São Paulo, um pro Rio, um pra Belo Horizonte, um pra Porto Alegre, tem quatro, cinco. As pessoas têm que trabalhar no dia seguinte. E você se despreocupa e o responsável pelo Globo Esporte, o Marcelo Campos Pinto, diz isso com todas as letras: “Não é problema da TV Globo se tem gente no estádio, o problema da TV Globo é ter audiência no futebol”. Mas não há nada pior pro futebol do que ver um jogo sem torcida no estádio. Então acho que, a médio prazo. eles “desvendem”, deixam de vender, o futebol como produto deles mesmos. Sou crítico da política esportiva da Rede Globo e acho que defendo melhor os interesses que deveriam ser os interesses dela do que os próprios que estão lá trabalhando, porque acho que estão matando a galinha dos ovos de ouro, não estão entendendo o quanto são coresponsáveis pela fragilidade dos nossos clubes. Como se pra eles isso fosse interessante, porque não vou discutir com um cara que fala: “Ah, o Corinthians você não vai levar por esse preço. Não, porque eu vendo pra outro”. Então, ter o controle disso acaba redundando em mau jornalismo. Porque existe uma confusão entre ser sócio e cobrir. E essa é uma solução que a televisão norte-americana descobriu há muito tempo. Uma coisa é a divisão de entretenimento, outra coisa é o jornalismo. Na hora em que estou entretendo, encho a bola do espetáculo, o Galvão faz o que quiser, mas o repórter que vai fazer a matéria do dia seguinte vai mostrar o que teve de errado. É óbvio, são certas coisas em que estamos na pré-história ainda. Isso me angustia, às vezes perco a paciência... Sou muito chamado pra fazer palestra em faculdades de jornalismo e é impressionante como até hoje tem menino que pergunta: “E esse negócio - por que jornalista não pode fazer propaganda?” Eu digo: “Meu deus do céu! Nos Estados Unidos, na Itália, na França, na Alemanha, o jornalista que fizer propaganda num dia, no dia seguinte, está expulso do sindicato. Isso não é uma discussão, não cabe discutir se há conflito de interesse entre o cara que faz propaganda e diz que é jornalista, não é uma discussão isso, é uma obviedade. Não posso ser garoto-propaganda do Bradesco e colunista de economia. Mas tem que explicar isso ainda no Brasil. E, o que é pior, pra boa parte isso está virando a coisa, não há como fazer diferente... E aí sabe o que eu ouço? “Ah! Mas você pode recusar, porque é o Juca Kfouri” Sou o Juca Kfouri hoje, 36 anos depois de começar, e nunca fiz! Nunca fiz nada que ferisse um princípio meu. O que não significa que não tenha feito coisas das quais discordasse, que meu chefe me mandou fazer uma capa, eu queria fazer a capa com o menino que estava surgindo no Palmeiras e ele quis que eu fizesse a capa com o ídolo do Corinthians, eu disse: “Pô, mas já fiz trinta vezes essa capa!” “Faça a trigésima primeira que vai vender mais.” E eu fiz a melhor trigésima primeira capa que pude. Ou quando quis fazer a Malu Mader na Playboy, e o dono da Abril queria que fizesse a Loira do Tchan porque vende mais... e fiz a melhor Loira do Tchan que pude e vendeu mais. Agora, não me peça pra fazer uma capa laudatória em torno do Ricardo Teixeira porque eu vou embora... ou pra fazer merchandising porque vou embora.


MARCOS ZIBORDI - E o jogador de futebol fazer propaganda de bebida alcoólica? Cabe discussão nisso?
Acho errado! O Ronaldo faz propagada de bebida alcoólica num esporte que não é esporte, a tourada... E ainda abre a garrafa no chifre do touro, que coisa de mau gosto. Agora, acho do cacete o Maradona cantando o hino do Brasil e tem algumas coisas do Ronaldinho aí também no ar que são muito boas. Acho que tudo bem artistas fazerem, como o Jô Soares, mas jornalista não pode. E vejam a prova provada de que essa discussão é maluca, conversem com o Antônio Fagundes e ele contará a depressão que teve por causa do Boi Gordo, lembram do Boi Gordo? Ele era garoto-propaganda do Boi Gordo, no auge daquela novela... O
Rei do Gado. Levou famílias e famílias à ruína, porque as pessoas não compravam o Boi Gordo sabendo que havia um empresário atrás daquele anúncio, compravam porque o Fagundes estava mandando comprar, e ele era o rei do gado... Pega essa menina que é um encanto. a Lorena Calabria, um amorzinho de pessoa, né? Vinte e cinco dias antes de o Banco Santos quebrar, ela virou garota-propaganda do Banco Santos... Eu só imagino esta cena, só esta: aquela viúva de 80 anos, que tinha aquela cadernetinha de poupança que o saudoso deixou, da pensão dela lá na Caixa Econômica Estadual, aí lá viu a Lorena (imita): “Adoro essa menina... adoro, acho uma gracinha, vejo na TV Cultura, vou pôr esse meu dinheirinho no Banco Santos pra ajudar essa menina, que ela falou que lá...” Vinte e cinco dias depois, essa velhinha não tinha mais sua poupança, foi uma jornalista que a levou a isso. Eu vou discutir isso?


NATALIA VIANA - Ó, Juca, o Brasil vai ganhar a Copa?
Acho que não. Se o Brasil ganhar pela sexta vez a Copa do Mundo, será pela segunda vez campeão na Europa, coisa que nunca aconteceu. Nunca um não-europeu ganhou na Europa, a não ser o próprio Brasil, em 1958, porque aí surpreendeu todo mundo, ninguém esperava. A Copa depois desta, que seria a do hepta, será na África do Sul. Todas as vezes que jogou a Copa do Mundo num país sem tradição em futebol o Brasil ganhou. Foi assim em 58 na Suécia, em 62 no Chile, em 70 no México. em 94 nos Estados Unidos, em 2002 no Japão. Então, a possibilidade de ser heptacampeão seria enorme na África do Sul. A outra Copa, ao que tudo indica, será aqui. O Brasil não vai perder duas aqui, já perdeu uma. Seria octa. E ia ficar monótono. Neguinho vai falar:
“Pô, entrega logo a Copa pra eles”.


HÉLIO ALCÂNTARA - Só interessa ir até a final, né?
Isso. Então acho que, ao contrário do que aconteceu nas outras duas Copas, e que, em dúvida, a arbitragem apitava pró-Brasil, dessa vez apitará contra. E isso é o suficiente pra te tirar da Copa do Mundo. Lembremos o gol do Wilmotz pela Bélgica na Copa de 2002 e alguém aqui me explique por que aquele gol foi anulado. Um dia perguntei isso pro Felipão na ESPN Brasil. ele falou:
“Tchê, eu também não sei, ninguém sabe, mas gostei porque anularam pra nós.”


THIAGO DOMENICI - Você está falando que a Copa é direcionada sempre?
O Renatão me perguntou aqui da manipulação. Você tem alguma dúvida? Tem alguma dúvida? O Brasil, pra ser hexacampeão, terá de ganhar de adversários fortes e da arbitragem. Pode acontecer. Por exemplo, pega a Copa de 94. Sabe como é que faz isso? Isso não se faz de maneira descarada.


NATÁLIA VIANA - Como é que decide?
Vou explicar. Na Copa de 94, que o Brasil ganhou, o jogo que era visto como a final antecipada foi jogado nas quartas-de-final: Brasil e Holanda, em Dallas. Duas baitas seleções. O Brasil não tinha tomado um gol até então, melhor defesa da Copa. Sabe de onde era o árbitro que apitou aquele jogo? Da Costa Rica. Aí, o Brasil estava ganhando de 2 a 0, sem nenhuma interferência dele. Aí, a Holanda empata, 2 a 2. porque acontecem coisas fora do script. Aí, o Branco faz uma falta no jogador da Holanda e o juiz marca falta pro Brasil. O Branco vai e faz o gol, eliminou a Holanda. Dá pra levar esse raciocínio até o fim. Aquela era uma Copa que estava escrito: se o Brasil seguisse a trilha que se imaginava que poderia seguir, corno seguiu, só encontraria os grandes papões lá na frente, lá na final. E acabou encontrando a Itália. Então era Copa pro Brasil ganhar. O jogo acabou 0 a 0. E foi pros pênaltis. E na hora dos pênaltis não tem juiz que roube. Tem juiz que interfira: o goleiro andou, volta.


THIAGO DOMENICI - O Zico tem razão nas declarações de que o Japão foi prejudicado no sorteio?

É claro que tem razão. Aí que a gente precisa aprender a ler certos sinais. Existem certas figuras de quem você vai vendo a trajetória e aprende a respeitar. E, quando fala, você pode até discordar, mas por que ele está falando isso? O Zico é uma delas. Telê Santana era outra. Muito do AVC (acidente vascular cerebral) que o Telê Santana teve foi de indignação. Porque ele estava envenenado, no final da vida, com futebol. Telê chegou a dizer: futebol não é coisa pra gente séria. Ele ficava indignado com o fato de a bola escolhida não ser a melhor, mas ser a bola do patrocinador da federação. Ficava indignado que o time do São Paulo ia jogar a final do Mundial no Japão, os cartolas iam de primeira classe e os jogadores iam de econômico. Tinha lugar pra ele na primeira classe, mas ele não ia. Ia com os jogadores. Chegava estressado: “Os caras que vão jogar estão encolhidos 24 horas num avião e a cartolagem está na primeira classe dormindo, tomando uísque!” Então, a manipulação que ele percebia o adoeceu. E o Zico vai pro mesmo caminho, e vão roubar o Zico. Se tem manipulação? É famosa a história. A União Soviética sempre foi esbulhada em Copa do Mundo. Na de 86, no México, teve o jogo Bélgica e União Soviética, que é um dos casos mais clamorosos da história do futebol Mas nego esquece porque foi a União Soviética. Marcaram dois pênaltis inexistentes pra Bélgica e anularam dois gols por impedimento de soviéticos que não estavam impedidos. Era pra ter sido 6 a 2 pra União Soviética. foi 4 a 3 pra Bélgica. Por quê? Ah, imagina se iam deixar os comunistas ganhar a Copa do Mundo!


JOÃO DE BARROS - Você está traçando o perfil de que o futebol é o ópio do povo?
Eu não traço esse perfil porque acho que o futebol é muito mais integrador do que desmobilizador. Muito mais conscientizador do que alienante. E sempre gosto de contar causos a respeito, lembrar que a primeira faixa pela anistia aos exilados e presos políticos foi aberta na arquibancada do Morumbi, num Corinthians e Santos, único lugar nessa cidade onde se podia fazer aquilo sem que a polícia chegasse a tempo de prender quem abrisse a faixa - quando a polícia chegou lá em cima, os caras e a faixa já tinham desaparecido. Gosto sempre de lembrar que no primeiro jogo que houve no Estádio Nacional de Santiago do Chile, depois que o estádio deixou de ser presídio, depois do morticínio do Pinochet, acabou a luz e, dois minutos depois que a luz acabou, o estádio inteiro acendia isqueiros e começou-se a ouvir um cantochão:
“Libertad, libertad, libertad”. Foi a primeira manifestação de massa no Chile contra a ditadura de Pinochet. O povo sabe distinguir quem foi o Médici e quem foi o Tostão da Copa de 70. O Médici não entrou pra história do Brasil como o presidente do tri. entrou como o presidente da tortura. É claro que a manipulação é possível. É claro que todo governo, ditatorial ou não, usa as vitórias esportivas. O esportista é o gladiador moderno, sem dúvida. Mas prefiro ver o que ele tem de conscientizador mesmo. Gosto sempre de repetir uma frase que ouvi do Gabriel Cohn, que foi meu professor na USP: “Eu não acredito em sociólogo no Brasil que não tenha os fundilhos das calças puídos por arquibancada. Esse cara não entende o Brasil”.


JOÃO DE BARROS - O que você pensa das torcidas organizadas?
Essa é uma das áreas em que eu mais mudei de opinião na minha vida. Quando houve aquelas mortes em 1995. naquele jogo dos juvenis. Palmeiras e São Paulo, eu era um intransigente defensor das medidas mais radicais para a extinção das torcidas: pára o futebol aumenta o preço dos ingressos, faz como se fez na Inglaterra, tem que elitizar mesmo, pra acabar com a violência. E hoje estou convencido de que isso funcionou numa sociedade obviamente com outras características que não as nossas, certamente no Brasil não é elitizando o futebol que você vai resolver o problema. Ao contrário, é das poucas coisas que o excluído brasileiro ainda tem pra poder participar. Trata-se, isso sim, de você montar estádios com condições de segurança e conforto, bem cobrado de modo que a Bélgica da “Belíndia” banque e com as mesmas condições de segurança e de conforto cobrado a um preço que a Índia possa pagar. Extinguir as torcidas organizadas é defender a paz do cemitério - como tem umas autoridades que propõem jogo de uma torcida só. Pô, então põe logo o jogo de portão fechado, corno a gente tem visto. Pronto, acabou a violência no estádio. Mas que bela merda! Proibir de vestir a camisa.. Isso é até inconstitucional você vai na Justiça e consegue um
habeas corpus. Pode impedir de andar com uma suástica - e ainda bem que pode, é a única exceção - e pode me impedir de entrar nu, por atentado ao pudor. Mas, de entrar com Gaviões? Não pode impedir, vou com a camisa que eu quero. Então, as soluções existem e a Inglaterra já ensinou isso há muito tempo.


ROBERTO MANERA - Juca, me diga uma coisa: de que lado do alambrado o futebol é mais esporte?
Ah, certamente do lado do torcedor. Tem uma frase do João Saldanha que é do cacete:
“Bom. vamos deixar claro uma coisa: esse negócio de falar que esporte é bom pra saúde é uma puta mentira. Esporte profissional nenhum é bom pra saúde. São todos muito ruins pra saúde”. O atleta de alto rendimento é um entrevado no final da sua carreira. Ah, o esporte afasta a droga. Mentira. O esporte de alto rendimento traz a droga. Está ai o doping pra não me deixar mentir. Traz pra obter resultado e traz pra segurar a cabeça. Os negrões da NBA, onde não há antidoping - e se houver não tem jogo -, é tudo xarope! Ou o que aconteceu com o Maradona é uma exceção?


MARCOS ZIBORDI - E os jogadores brasileiros, são alcoólatras?
Todos tomam, todos assumem.


MARCOS ZIBORDI - Mas alcoólatra é outra coisa.
Segundo os padrões da DEA, são alcoólatras todos aqueles que bebem todos os dias. E eu também, eu também. Qual foi o grande mérito da democracia corintiana? Que os caras iam tomar cerveja no Bar da Torre, em vez de ir pra casa encher o saco. E diz o Magrão, com toda razão, que era melhor pro clube, e o clube não percebia. Uma boa parte, na frente dos outros, se limita a tomar cerveja. Se vai pra casa. toma mais pesado, toma cachaça. Todos tomam. E mais uma coisa, por exemplo, que demorei a descobrir em relação ao Pelé, que dizia que não punha álcool na boca. Não é verdade. Punha, sim. Não digo que o Pelé enche a cara - ele sempre disse que era no máximo capaz de tomar um golinho de uísque. Não é verdade, toma, toma bem. Agora, é a tal história. nós estamos brincando que somos alcoólatras. Eu tenho uma única lembrança de ter ficado bêbado, mas não consigo passar o dia sem beber.


NATALIA VIANA - E outras drogas, rolam assim bastante entre os jogadores?
É o que eu digo, pra segurar a cabeça, rola. Rola maconha, rola cocaína.


MARCOS ZIBORDI - Voltando à maracutaia toda que você estava falando: chega a ponto de Influir na convocação dos jogadores para a seleção?
Outro dia eu estava até propondo a CPI do Gustavo Nery. Tem alguma coisa, não tem? Pode o Gustavo Nery ter sido convocado doente, machucado, jogado mal? O Julio César. o goleiro. Bom, está lá na Itália e tal, mas quem é o procurador dele? É o filho do Zagallo... Lembra que houve uma época em que o Bussunda propôs uma CPI do meio-campo? Que, vira e mexe, eram convocados uns caras estranhíssimos pro meio-campo. O Leão convocou um lá de Pernambuco. Agora mesmo, nesse jogo da despedida do Romário, convocaram um zagueiro do Palmeiras - pode ser Gláuber? - que em seguida foi jogar na Europa.


MARCOS ZIBORDI - E o Parreira? É o técnico mais indicado mesmo? Ou aí tem maracutaia também?
Eu acho que ele é um dos indicados. Não tenho dúvida.


HÉLIO ALCÂNTARA - Quem é melhor que o Parreira?
Hoje, o técnico ideal pra seleção brasileira seria o Felipão.
Mas ele é muito esperto. Fez tudo direito, mandou na seleção. porque os homens estavam na mão dele, era o cara que o Brasil queria, fez o que bem entendeu, ganhou e caiu fora na hora, porque sabia que deixaria de ter a seleção na mão. Ia ter que ir pra China com a seleção, ia ter que fazer as coisas e caiu fora.


HÉLIO ALCÂNTARA - E o Luxa?
O Luxa tem uma história, é um baita treinador de futebol. Mas tenho cada vez mais dificuldade - e sei que isso é uma deficiência minha, não é uma qualidade - de dividir as pessoas. Falar “ele é bom nisso, mas é um filho da puta naquilo”. Acho que ele é um técnico incapaz de trabalhar em equipe. Ou manda em tudo ou não dá certo. E na seleção brasileira não é assim. E está ai um pouco da explicação de ele ter quebrado a cara no Real Madri e ter quebrado a cara na seleção brasileira. Na seleção, o técnico tem poder e tal, mas é um membro de uma comissão técnica, não faz o que bem entende, a não ser em raríssimas ocasiões.


SÉRGIO DE SOUZA - O que você prevê nessa parceria MSI-Corinthians?
Essa parceria tem data marcada pra acabar. Quer dizer, me surpreenderá muito se chegar a 2007, e acho que o Corinthians quebra.


THIAGO DOMENICI - Quebra geral a ponto de falir?
Quebra como o Flamengo está quebrado, como o Grêmio está quebrado, por parcerias malfeitas.


THIAGO DOMENICI - Então parceria é um mau negócio?
Não, é ótimo negócio, se bem feito. Se modificar a maneira de trabalhar o futebol no Brasil. Uma parceria em que haja duplicidade de comando, como acontece no Corinthians, e em que uma ala do clube torce contra, contratam o Marcelinho contra a opinião do parceiro, enfia o Marcelinho goela abaixo, não vai dar certo. As parcerias que vieram antes, digamos, limpas, Hicks Muse, Bank of America, Otcagon, foram espancadas e foram embora. O que vem agora é dinheiro sujo, dinheiro sujo.


MARCOS ZIBORDI - Daqui a dez anos vamos ter o que, então? Só vamos ficar criando os caras aqui e não vão ter nem a passagem por um time do Brasil? Vai ser direto escolinha ou várzea Europa?
Sempre terá a passagem, mesmo pequena. Muitos irão direto, como acontece com o Élder. Aos 33 anos, jogou pela primeira vez no Maracanã semana passada. Não quero ser profeta do apocalipse nem sou adepto de teorias conspiratórias: agora, não preciso inventar nenhuma história. Veja o que aconteceu com a dupla Ba-Vi, fale o que aconteceu com a ala do Antônio Carlos Magalhães e do Daniel Dantas. A turma do ACM levou o Bahia à bancarrota. A torcida do Bahia é uma das coisas mais maravilhosas que tem neste país. E a turma do Opportunity, do Daniel Dantas, levou o Vitória à bancarrota.


SÉRGIO DE SOUZA - O que eles fizeram?
Usaram esses clubes, a turma do ACM, pra eleger gente, pra tornar gente popular. E a turma do Opportunity, sem nenhum conhecimento do que seja um clube de futebol, tocou uma porção de negócios malfeitos e o fato é que os dois estão hoje na terceira divisão do Campeonato Brasileiro.


SÉRGIO DE SOUZA - Os dirigentes mudaram também?
Não, os mesmos. Paulo Carneiro, Paulo Maracajá... essa gente. Todos enriqueceram. É uma fazenda, o futebol brasileiro é gerido por coronéis. Onde que o Eurico Miranda teria condições de ter casa em Búzios, barco, o diabo a quatro, se não fosse o Vasco da Gama? Não haveria mal nenhum em ser dirigente de futebol remunerado, em ser proofissionalizado. Agora, na hipocrisia nacional, os estatutos dos clubes impedem que os dirigentes sejam remunerados. Então, é aquela coisa que nos distingue da sociedade norte-americana: nos Estados Unidos, o jovem que ganha seu primeiro milhão de dólares vira capa do
Time. Aqui. ganhar dinheiro é coisa suja.


JOÃO DE BARROS - E não tem nenhum exemplo que saia dessa mesmice?
No momento não. E as distorções do futebol levaram à criação de outras distorções. O mundo do futebol foi se tornando uma coisa tão nojenta, tão asquerosa, que as pessoas que, de alguma maneira, queriam investir seriamente em outros esportes começaram a criar esse tipo de coisas: Ulbra, Pirelli, Bradesco, Leite Moça... Você se vê num ginásio, berrando: “Leite Moça, Leite Moça!!!”? “Pirelli, Pirelli”? Você vai torcer pra pneu? Não era muito mais fácil a Pirelli patrocinar a camisa do time de voleibol do Palmeiras? A Nestlé patrocinar o time de basquete feminino do Flamengo? A Ulbra estar na camisa do time de basquete do Corinthians, do time de vôlei do Vasco? E você aproveitar a marca do futebol, a tradição a origem pra empurrar? Por que que não é assim? Porque esses caras não vão lá fazer caixa dois e dar dinheiro na mão de dirigente sacana. E, como isso é condição
sine qua non pra entrar nesses clubes, neguinho começou a criar o próprio clube, o que é uma coisa artificial.


MARCO ZIBORDI - E no futebol?
No futebol não. Porque a Samsung não se confunde com o Corinthians. Não é Corinthians Samsung, é só o patrocinador dele. O Rexona foi a própria Rexona, a Gessy Lever que fez o time deles, e um centro de treinamento, aliás, de primeiríssimo mundo.


THIAGO DOMENICI - Você é jornalista multimídia, você está no rádio, televisão, impresso e agora tem o
blog. Trabalhar com todos esses meios ao mesmo tempo não confunde?
A minha formação é toda de escrita. E continuo dando muito mais valor à coisa escrita do que à coisa dita ou televisada. Mas tenho me surpreendido. E me arrependo de não ter começado a fazer rádio mais cedo. Esse programa que faço na CBN, eles que não me ouçam, mas se eles não me pagassem eu pagaria pra fazer. Porque seria mais barato que terapia e saio de lá na maior felicidade. Bom, aí comecei a fazer esse
blog, jamais imaginei que a essa altura da vida um troço fosse me pegar como esse me pegou. Estou precisando tomar cuidado, inclusive porque virei escravo dele. Percebo que não aceito certos convites que deveria aceitar pra não ficar longe do blog.


SÉRGIO DE SOUZA - Então como é o seu dia aí? Quanto tempo você dorme?
Vou dormir, em regra, às 3, 3 e meia da manhã. Você vai ficando velho, não consigo dormir mais do que seis horas, então 9 e meia estou de pé. Leio quatro jornais, invariavelmente já com o
laptop aberto, vendo quantos comentários tem no blog, quantas visitas teve de noite. Acabo de ler os jornais, tomo café e subo para o meu escritório, que é em casa, onde tenho meu micro, minha secretária - a Rita, que está comigo há 25 anos -, dou meus telefonemas e começo a montar as coisas para o blog e para o programa de rádio diário na CBN.


SÉRGIO DE SOUZA - Telefona para quem?
Para as minhas fontes. Pra cartola. pra atleta, para treinador, pra jornalista às vezes. Confiro algumas coisas. Às vezes rende nota imediatamente no
blog e às vezes não. Passo o dia no micro.


SÉRGIO DE SOUZA – Almoça...
Blogueando, sem dúvida. E me informando, conversando, telefonando, Depois vou para a rádio, antes normalmente, às 5 e meia, tomo banho. Saio do banho às 6 e meia, porque banho é uma coisa que eu tomo de verdade. Chego na rádio 15 pras 7, a essa altura já está produzido o programa, já está escolhido o entrevistado. Monto o programa, apresento, quando é segunda-feira vou pra ESPN, faço lá aquele
Linha de Passe. Depois da CBN. Às sextas-feiras, além de tocar o blog, vou para a UOL, onde faço um bate-papo das 3 às 4 com o internauta, e das 4 às 4 e 15 uma conversa com a Lillian Wittefibe na TV UOL, que chama Tabelinha; daí vou para a rádio, saio da rádio, escrevo a coluna da Folha do domingo e no domingo escrevo a coluna da Folha de segunda. E passo o sábado e o domingo vendo futebol.


ROBERTO MANERA – Qual é o remédio da dona Nadir?
A dona Nadir é uma ouvinte da rádio. No primeiro dia que fiz o programa, a dona Nadir tinha telefonado. Alguém me falou: “Olha, ligou uma ouvinte, chamada Nadir, e deixou o seguinte recado pra você: 'Avisa esse menino que rádio é prestação de serviço. Que ele tem que dizer as horas. Ele não diz as horas, eu esqueço de tomar o meu remédio'”. Falei: “Pô, a mulher tem toda a razão”. E me dei conta de que tinha falado uma hora no programa e não falei a hora. Nunca tinha feito programa de rádio ao vivo. Nessa segunda noite, portanto, quando bateu 8 e meia, que é a hora de chamar o Repórter CBN, falei: “Dona Nadir, 8 e meia, hora do seu remédio e do Repórter CBN. Até já”. Os dois produtores, o co-apresentador e o cara da mesa de som me olharam como se eu fosse um louco. Aí falei: “Ih, isso aí é engraçado”. E às 9 horas fiz a mesma coisa: “Dona Nadir, 9 horas, hora de a senhora tomar o seu remédio, não se esqueça” E fui embora. Chego no dia seguinte, tem outra ligação. “Dona Nadir ligou. Deixou o número e disse que você é muito gentil. Quer falar com você.” Liguei para a dona Nadir. Percebo que é uma voz idosa. “Dona Nadir, a senhora gosta tanto de futebol assim a ponto de ouvir o CBN Esporte Clube?” “Não, meu filho, na verdade não ligo a mínima.” “Dona Nadir, por que a senhora ouve?” “Meu filho, tenho duas diversões na vida. A minha netinha de 4 anos e ouvir a CBN das 6 horas da manhã, que é a hora que eu acordo, até as 10 e meia, a hora que eu durmo. Estou entrevada numa cama há quatro anos, meu filho. Por isso para mim são tão importantes os remédios.” “Ah, Dona Nadir.” Passei a tratar assim a dona Nadir. Agora, o contraponto dessa história. Tenho uma tia Nadir. Que está com 92 anos. Surdinha dos dois ouvidos. É a única viva numa família de seis irmãos do meu pai. Foi a primeira reitora de uma Pontifícia Universidade Católica - a de São Paulo - na história da Igreja. Dom Paulo teve que pedir autorização especial para o papa. Ela foi reitora eleita pelos alunos, funcionários e professores. É inteiramente independente, mora sozinha com uma empregada. Vou vê-la, chego lá e ela diz assim: “Juquinha, você é mesmo incorrigível!” “"Por que, tia?” “Você sabe que não ouço rádio por razões óbvias, né? Só que agora, todo dia que eu saio de manhã para caminhar, quando passo na frente do ponto de táxi, os motoristas brincam comigo: ´O, dona Nadir, não esqueça de tomar seu remédio, dona Nadir!´ E eu não entendia nada até que perguntei. ´Mas como a senhora não sabe? Seu sobrinho todo dia manda a senhora tomar remédio´. Juquinha, você sabe que tenho uma saúde ótima! Eu não tomo remédios!” Vou dizer pra ela que não é ela? Nunca! Fica uma dupla homenagem!


MARCOS ZIBORDI - O Marcelinho não está te processando por causa daquela história na Arábia Saudita?
Estou esperando ele me processar. Foi em um
shopping lá no mundo árabe que só podia ser freqüentado por mulheres, e ele foi de burca...


MARCOS ZIBORDI - Mas era uma situação em que ele estava querendo sair do país ou não teve nada a ver com a fuga dele?
Ele já estava querendo cair fora. E eu publiquei. Faz três anos que ele está pra me processar por causa disso. Mas sabe que não pode, porque imagina quem seja a fonte da notícia e que está disposta a ser testemunha, entendeu?


MARCOS ZUBORDI - Tipo a ex, assim?
Não, muito melhor. Muito melhor.


MARCOS ZIBORDI - Tipo o Ricardinho?
Não, muito melhor. Tipo embaixada brasileira. Você imagina se a minha fonte é o embaixador do Brasil lá. Ou alguém do alto corpo diplomático brasileiro no país em que se deu a coisa e que teve que intervir para que ele saísse. Complicado, né?


MARCOS ZIBORDI - A história que ele conta é que sofreu até uma tentativa de extorsão do vice-cônsul para conseguir sair a partir do momento em que não queria mais ficar lá. E que diante dessa dificuldade teve que sair de táxi para um outro país e então embarcar para o Brasil.
Bom, quem não tem caráter não tem jeito, né, está na lama. Entre os aprontos de Marcelinho Carioca na sua aventura árabe teve essa da burca e ele foi descoberto. Poderia ter sido condenado até à prisão perpétua, ou coisa que o valha. Foi aí, e ele sabe, que tiveram que intervir. Uma baita cagada diplomática e aliviaram.


JOÃO DE BARROS - Como estão as suas relações com o Pelé?
Estão distantes desde o dia do abraço dele no Ricardo Teixeira. Houve alguns momentos de reaproximação, até tocantes; tenho carinho por ele, mas a divergência é insanável. Ele não teve a humildade de reconhecer que não podia ter feito o que fez. O Pelé foi essencial para que houvesse a CPI. E os caras estavam de joelhos, sem oxigênio, e ele foi lá e deu a mão e o oxigênio convencido por razões de negócios daquele ex-sócio dele, que Deus o tenha.


NATALIA VIANA - O que o Pelé fez, um acordão?
Um acordão com o Ricardo Teixeira, com o João Havelange, com o ministro Meles no final do governo Fernando Henrique, um acordo quando ele era a figura mais importante da oposição a essa gente, e deixou de ser.


NATALIA VIANA - E era o sócio dele que estava Interessado.
É, negociar, ter acesso. Eles perdiam muitos negócios. A Pelé Esportes e Marketing era alijada do mercado por causa da briga do Pelé com a CBF, com o Havelange, com o Ricardo Teixeira.


HÉLIO ALCÂNTARA - Quem era esse cara, era o Hélio Viana?
Esse, que tenta vender para os outros que fomos muito amigos. É claro que tivemos proximidade no tempo em que o Pelé foi ministro, e sempre digo o seguinte: “Peguem a
Caros Amigos número 1 e leiam quando o Trajano me pergunta: 'E esse tal de Hélio Viana, que é um bicho esquisito?' Leia a resposta: "Tem o physique du rôle de uma pessoa de quem eu não compraria um carro usado, mas uma coisa é inegável: o Pelé confia muito nele”. Fico me perguntando até que ponto é ingenuidade do Pelé ter esse tipo de gente perto dele. Porque é uma sucessão...


SÉRGIO DE SOUZA - Eu não diria que é ingenuidade...
Pois é, também não acho que seja, aos 60 anos, né? Aos 22, tudo bem, aos 30, aos 60 não.


MAURÍCIO REIMBERG - Você estava falando dos maus cartolas. Existem bons cartolas?
Não me peça esse nome. Eu não conheço, não conheço. Você poderá dizer uma coisa que certas pessoas falam: “Pô, você é muito radical. Pô, você nega que o Ricardo Teixeira ganhou duas Copas e disputou a final de uma terceira?” Cinicamente, posso te dizer o seguinte: “Nego! Ele não ganhou nenhuma Copa, quem ganhou foi o Cafu, o Rivaldo, o Ronaldo, ele não joga!”. “Não, mas você entendeu o que eu quero dizer. Na gestão dele, algum mérito ele há de ter.” Eu digo que, sem dúvida alguma, ele dá as melhores condições possíveis para a seleção brasileira. Tudo o que a seleção precisa: monta boas comissões técnicas, tudo gente competente, e sabe fazer o jogo político. E sabe tentar proteger o Brasil. Tudo isso eu reconheço. Mas te digo: não é e nem deve ser o objetivo de uma entidade que dirija o futebol em um país ser campeão do mundo. É ter o futebol do seu país no próprio país. E pra isso a CBF não faz nada, ao contrário, a CBF descobriu que tem a grande grife do futebol mundial, que é a seleção brasileira, e só pensa nisso. Então, você vai em uma loja em Madri, em Paris, Londres, Nova York. Buenos Aires, encontra lá a camisa da seleção brasileira. É a que mais vende. Você não encontra a camisa do Flamengo, a do Santos, a do Corinthians. Você encontra a camisa do Boca Juniors e do River Plate em Londres, Madri, Barcelona, Nova York, não encontra de nenhum time brasileiro. Só seleção brasileira. Aí, aquilo que deveria ser obrigação deles, fazer um futebol aqui que permitisse que os nossos ídolos permanecessem, não fazem, fazem o inverso. Você viu, quando estava no vai-não-vai do Robinho, as declarações. até do Parreira: “Vai ser bom para o Robinho, vai ser bom para o Brasil”. Então, esse é o negócio da CBF, baita negócio.


JOÃO DE BARROS - Vender o artista e comprar o espetáculo?
É isso. Então reconheço esse mérito, mas acho um demérito, porque essa é uma política, em última análise, deletéria para aquilo que interessa. Qualquer pesquisa que você faça dá que o cara torce antes para o time dele e depois para a seleção. Até porque é a maneira de tirar sarro dos outros, o Brasil ganha, vai tirar sarro de holandês.



(Caros Amigos, http://carosamigos.terra.com.br, ano 10, n. 111, junho/2006, pp. 30-37)