Sempre no ataque
O
jornalista Juca Kfouri conta tudo o que sabe sobre a proteção
que o governo brasileiro proporcionou ao megaempresário Boris
Berezovski, procurado pelas polícias da Rússia e da
Suíça; revela como foi enganado pelo presidente Luís
Inácio Lula da Silva e pelo ex-ministro José Dirceu;
narra o que considera deslumbramento pelo poder por parte do
presidente da Câmara, deputado Aldo Rebelo. Relata ainda como
funciona a manipulação de resultados e diz que o
Brasil, favorecido pela arbitragem em Copas anteriores, será
prejudicado agora na Alemanha. Explica que o êxodo de jogadores
brasileiros para fora do país teria ocorrido mesmo sem o fim
do passe e sem a Lei Pelé e justifica a ida de jovens amadores
para o exterior como uma melhoria das condições de vida
deles e de suas famílias. Expõe como dirigentes, entre
eles Eurico Miranda, se tornam ricos em meio à miséria
dos clubes brasileiros. E fala ao mesmo tempo de seu carinho e sua
decepção em relação a Pelé. Em
suma, Juca é uma metralhadora giratória que atira
contra tudo e contra todos.
ENTREVISTADORES: Natalia
Viana, Marcos Zibordi, Hélio Alcântara, João de
Barros, Maurício Reimberg, Roberto Manera, Renato Pompeu,
Thiago Domenici, Sérgio de Souza. Fotos: Johnny.
NATALIA
VIANA - O que você achou dessa visita do Berezovski ao Brasil?
Acho um escândalo. Não pairam dúvidas sobre
quem seja o Berezovski. Há até quem. para defendê-lo,
diga: “Não, Berezovski é um cara perseguido por
um déspota chamado Vladimir Putin”. Admitamos a hipótese
de que ele estivesse sendo perseguido pelo Putin por ser da turma do
Yeltsin, e que a privatização na União Soviética
tenha transcorrido da maneira mais límpida. cristalina.
honesta, e que todo o dinheiro dele seja absolutamente justificado.
de origem santa. Esse cara vai para a Inglaterra, lá consegue
o status de exilado político porque chega com quase 4 bilhões
de dólares e com, um jornalista faz um livro inatacável
do ponto de vista jornalístico. O Poderoso Chefão do
Kremlin, sobre Berezovski. e é
morto com quatro tiros na porta da sucursal da revista Forbes,
revista que ele dirigia em
Moscou. Ah. bom. as autoridades russas suspeitam que tenha sido a
mando do Berezovski. Mas suspeita é suspeita, você não
comprova nada. Tá bom! Aí há uma ordem de prisão
contra ele. do governo russo? Esqueça. Mas tem também
ordem de prisão do governo suíço...
SÉRGIO
DE SOUZA - Por quê?
Por lavagem de dinheiro e
contratos não cumpridos, de negócios, petróleo e
de siderurgia com o governo Suíço. Tem um mandado
internacional de prisão contra esse cara na Interpol Eu tenho
o mandado de prisão dele. Esse cara entra no Brasil, ninguém
sabe. Na sexta-feira. alguém sabe e publica. Uma hora e meia
depois que sai publicado, ele abandona o hotel em que estava com sua
comitiva, deixa as malas, não faz checkout, e
zarpa no seu jato particular com a justificativa de que tinha uma
importante reunião com o tal do Badri Patarkatsishvili na
Geórgia. É a versão oficial Tem até um
certo sentido, porque o Patarkatsishvili tinha vendido 30 ou 40 por
cento das suas ações de mídia para o Murdoch.
Olha o tamanho das coisas! Aí, na terça-feira,
Berezovski volta ao Brasil Então. ele está abertamente
com a garantia do Itamaraty de que não vai acontecer nada
contra ele, porque o Brasil não tem tratado de extradição
com a Rússia.
RENATO POMPEU - Mas e com a Suíça?
Com a Suíça tem. Agora conto o que ouvi do
deputado Vicente Cândido. O deputado aparece na sexta-feira no
hotel para dar garantias de que ele, Berezovski, não seria
preso porque era um compromisso do governo brasileiro. Que o ministro
da justiça, Márcio Thomaz Bastos, chancelou para o
Romeu Tuma Júnior por telefone: "Ele está aqui com
autorização. Não há nada contra
ele".
SÉRGIO DE SOUZA - O Tuma Júnior
queria prender o homem...
Sim. E quis saber do Márcio
Thomaz Bastos por que o homem estava aqui à vontade. Ai ligo
para o Vicente Cândido: “O que você estava fazendo
no hotel?” Tenho uma velha relação com o Vicente
Cândido. Ele havia ido ao hotel garantir que o homem não
seria preso. Ele falou: “Muito simples. Tenho um trabalho com
médios e microempresários, uma área de interesse
desse investidor. Sei tudo o que se fala do Berezovski, mas não
há nada contra ele provado aqui, e, Juca. a origem do dinheiro
dele é uma coisa que deve preocupar o país de onde esse
dinheiro vier”. “Mas, ô, Vicente, esse aí é
o argumento do Alberto Dualib!” “Mas aí eu tô
de acordo. Entrou pelo Banco Central meu, tá
carimbado!”
NATALIA VIANA - E por que o governo
brasileiro teria dado essa garantia?
Aí vou fazer uma
especulação. O que se diz é que ele é um
eventual interessado na Varig e veio conversar com a Petrobras,
porque a Petrobras é uma das principais credoras da Varig. A
especulação: acho que esse cara está procurando
uma rota de fuga. A situação na Inglaterra está
mudando. O primeiro-ministro Tony Blair já não é
mais o rei da cocada preta. Então, talvez o cara esteja se
preparando para a eventualidade de que, diante de uma mudança
na Inglaterra em que se venha a discutir esse asilo dele, ele tenha
para onde ir. E isto aqui é o país ideal.
JOÃO
DE BARROS - A gente sabe que tem uma máfia russa, essa do
Berezovski, do Badri etc., e tem uma outra, a máfia
israelense. Elas se comunicam?
Ao que tudo indica, sim. Até
porque um deles estava aqui no Pacaembu no dia do Corinthians e River
Plate. Estou tentando lembrar o nome, ele quer comprar o Flamengo...
NATALIA VIANA - Pini Zahavi?
Pini Zahavi.
Estava aí. Como se diz, também que não existe
dissensão entre o Abramovich e o Berezovski. O que há é
um jogo de aparências, porque o Abramovich preserva ótimas
relações com o Putin, e não interessa que seja
pública sua boa relação com Berezovski. Há
quem jure isso. e quem garanta que não. que são
inimigos figadais. Não acredito. Até pela presença
desse Joorabchian que transita entre os dois na absoluta
paz.
THIAGO DOMENICI - O que você acha do Kia
Joorabchian? Você já teve contato com ele?
Tive
um contato muito ruim, como com um chefinho da Máfia. Assim
que publiquei a história das três identidades dele, e
que o Boris Berezovski estava por trás, fui com a minha nora,
sete meses de gravidez, meu filho e minha mulher ao restaurante Gero.
Estávamos em pé esperando por uma mesa quando entra uma
turma de uns nove caras, entre os quais Kia Joorabchian. Daí a
pouco ele vem, tira um bloco do bolso, uma caneta e diz: “Eu
queria um autógrafo, o senhor me quer tão bem, tem
falado tão bem de mim”. Olhei pra ele e falei assim:
“Não vou lhe dar esse autógrafo, senhor Kia, o
senhor que me dê um autógrafo, que o mágico é
o senhor”. Aí ele bate os calcanhares, vira e segue.
Agora, veja bem. Ele estava no Brasil fazia três meses, se
tanto, Pelo sim, pelo não, abordava um jornalista
razoavelmente conhecido na cidade na frente de todo mundo, como se
dissesse: “Não tenho nenhum temor e já te
conheço”.
SÉRGIO DE SOUZA - Ele
estaria no esquema da lavagem de dinheiro também?
Ele
é um funcionário do esquema.
SÉRGIO
DE SOUZA - Mas o que já teriam ganho de dinheiro até
agora com o que estão fazendo? Acho que ainda não
ganharam. Mas, por exemplo, no caso do Tevez tem 6 milhões de
dólares que ninguém explica. O Boca Juniors diz que
vendeu o Tevez por 22 milhões de dólares, o Corinthians
diz que comprou por 16. E o que se sabe é que nenhuma das
transações grandes feitas pelo Corinthians passou pelo
Banco Central. O que vai redundar em multas - daqui a cinco. seis
anos, quando esses processos terminarem - de 100 por cento do valor
da transação. e o Corinthians vai quebrar. O
Corinthians, não a MSI, porque não tem uma assinatura
do Kia Joorabchian em contrato. As assinaturas são do
presidente do clube, Alberto Dualib, ele e o vice-presidente. Qual a
justificativa de não ter passado pelo Banco Central? Que a
MSI, empresa que tem sede em Londres, comprou um jogador em Buenos
Aires e fez a operação via banco inglês com o
Banco Central argentino. E assim o Roger com Portugal, e assim o
Mascherano com o River Plate, e assim o Carlos Alberto... Veja que
coisa fantástica, o Corinthians quase não compra
jogador aqui. Comprou Marcelo Mattos e Sílvio Luís,
ambos de quem? Do São Caetano, clube que tem duas grandes
subvenções. Na origem, da prefeitura de São
Caetano. e o respaldo das Casas Bahia. Que não se dá
por intermédio da publicidade das Casas Bahia, mas sim da
Consul, que é parceira. Parceria essa Casas Bahia-São
Caetano, da qual muito pouco se fala na imprensa. entre outras coisas
porque estamos tratando do maior anunciante hoje do país, que
é Casas Bahia.
SÉRGIO DE SOUZA - Mas onde
entra a máfia aí?
Eu não sei até
que ponto. Até agora, ninguém foi capaz de me explicar
qual é o interesse das Casas Bahia em respaldar o São
Caetano, se o time nem sequer propagandeia a marca da empresa no
uniforme. Pode ser benemerência. Ou uma paixão pela
cidade de São Caetano... Mas que há uma coisa estranha
nessa relação, há.
SÉRGIO
DE SOUZA - Então. as Casas Bahia lavariam dinheiro, seria por
aí?
Eu não sei, eu vi o presidente Lula dizer
que as Casas Bahia é um exemplo para o país, e o
Estadão dar em manchete. Que foi uma das coisas que eu mais
estranhei nos últimos tempos na imprensa: “Casas Bahia
são um exemplo para o país. diz presidente Lula”.
NATALIA VIANA - Mas o que eles querem com o
Corinthlans? Fizeram isso para lavar só 6 milhões?
Isso
aí é tão simples como o seguinte: houve um
determinado momento na história do Rio de Janeiro em que os
bicheiros eram os donos da cidade. Tiravam foto na porta do palácio
com O governador Moreira Franco. Eram grandes beneméritos.
Compravam máquinas de cobalto para o Hospital do Câncer,
financiavam as escolas de samba, mas nada disso dava a eles o
reconhecimento social que eles buscavam e que eles começaram a
entender ser possível por intermédio do futebol. Então,
um foi para o Botafogo, outro foi para o Bangu, as coisas continuaram
e assim eles tomaram conta do futebol do Rio. O Castor de Andrade não
precisava de mais nenhum tostão. Ele queria ser reconhecido e
ser chamado de doutor Castor. E entrar para o Country Club, coisa que
não conseguiu, mas que esses caras estão buscando é
poder sair na rua e viver reconhecidos como gente bem-sucedida, e o
esporte é um caminho muito bom para chegar a isso.
SÉRGIO
DE SOUZA - O que mudou no futebol, de sua primeira entrevista à
Caros Amigos.
em 1997, para cá?
Mudaram muitas coisas. E não mudou nada. O que mudou?
Tivemos duas CPIs sobre futebol na Câmara e no Senado. O grande
mérito das CPIs foi que aquilo que era atribuído a
alguns jornalistas mal-humorados ou que eventualmente tinham
problemas pessoais com os cartolas - um argumento ridículo,
como vou ter problema pessoal com quem mal conheço? - veio à
tona e a sociedade brasileira pôde saber a exata dimensão
de tudo o que se fazia nos bastidores do nosso futebol Só o
Ricardo Teixeira tem dezessete pedidos de indiciamento. bem
documentados. Aí, o que acontece em seguida? Vamos para a
esfera do judiciário. O que acontece no judiciário? Por
questões técnicas, barra um indiciamento aqui, barra
outro ali, faz prescrever outro acolá. Quem faz? Uma justiça
no Rio de janeiro cujos desembargadores, boa parte, freqüenta os
chamados vôos da alegria da CBF em épocas de Copa do
Mundo, como foi fartamente demonstrado em 94 nos Estados Unidos e em
98 na França.
SÉRGIO DE SOUZA - Veremos
agora também?
Certamente. Estamos todos de olho. Conto
uma rapidíssima história: durante a Copa de 98 fui
notificado de que tinha sido condenado num processo que o Ricardo
Teixeira movia contra mim...
THIAGO DOMENICI - Quantos
processos ele moveu contra você?
Precisaria contar, mas
são mais de sessenta, entre civis e criminais. Nesse aí
fui condenado a seis meses de cadeia ou uma pena pecuniária,
uma multa de não sei quantos reais. Fiquei estarrecido. Era o
Arthur Lavigne o meu advogado lá no Rio. E ele viu que a
sentença da juíza dizia que as minhas testemunhas de
defesa tinham se pronunciado contra mim. E, onde elas diziam “não,
o jornalista Juca Kfouri não é um bandido, como diz
Ricardo Teixeira”, ela tinha invertido para dizer “sim, o
jornalista Juca Kfouri é um bandido, como diz Ricardo
Teixeira”. A sentença foi anulada em quinze dias. Volto
da Copa e vou saber quem era essa juíza. Filha de um dos
desembargadores que estavam na Copa de 98. As coisas estão
todas muito mais ligadas do que a gente imagina. Se eles são
capazes de fazer uma violência dessas com um cara como eu, que,
pelo menos, tenho espaço pra contar essas coisas, imagina como
é com o cidadão comum. Então, continuando o que
eu vinha falando, a CPI tem esse efeito benéfico, pelo menos a
sociedade brasileira foi informada. Disso sai a necessidade da
reforma dos textos legais do esporte brasileiro. Ainda no governo
Fernando Henrique são paridos e aprovados por unanimidade os
textos do Estatuto do Torcedor e da Lei da Moralização.
Aí, o Lula tem a grandeza de como primeiras duas leis que
assinou no seu governo serem essas duas. Pede que me liguem para
saber se eu ia à assinatura das leis. O secretário dele
falou assim: “O presidente gostaria muito que o senhor viesse”,
“Diga a ele que vou.” E fui. Chego lá, ele me
manda sentar na primeira fila. Abre o discurso dizendo o seguinte:
“Nunca mais vamos ouvir o jornalista Juca Kfouri dizer que o
torcedor brasileiro é tratado como gado, que os cartolas
brasileiros não têm uma legislação que os
puna, e estou falando isso porque quero homenagear na figura dele
todos os jornalistas que lutaram e que foram processados”, etc.
etc. Para tempos depois estar de braço dado com o Ricardo
Teixeira no jogo do Haiti... O poder de sedução do
futebol, o poder de visibilidade que o futebol dá é uma
coisa aparentemente tão sedutora que nem o Lula resistiu,
porque, diferentemente do Fernando Henrique, que pergunta quem é
a bola, que acha que Biro Biro é uma jogada e não o
nome de um jogador, o Lula sabe tudo, Vamos lembrar o seguinte: o
Lula se elegeu. dois dias depois pediu para um grupo no qual estavam
José Trajano, Sócrates, a Paula, o Bebeto de Freitas, a
Ana Moser, eu, Portela, mais gente, eram umas doze pessoas, que
fizesse um projeto de política esportiva para o país,
que o PT não tinha, mas que entregasse antes da posse. Nos
reunimos feito loucos durante 25 dias, cinco. seis horas. Quatro dias
antes da posse estávamos no quartel-general do PT, ali perto
do Hospital do Servidor Público, em São Paulo...
JOÃO
DE BARROS - Vila Mariana.
Entregar pra ele o projeto, dando a
cara pra bater, fazendo uma coisa que na verdade não era nosso
papel. Mas é aquela coisa: jornalista sim, cidadão
antes. Então, por que não? O cara acaba de ser eleito
de maneira gloriosa. está querendo um troço, enfim
vamos ter uma política esportiva de inclusão social no
Brasil. Não tinha dúvida nenhuma disso. Pois não
aproveitaram uma única linha. Do ministério não
saiu nada. Do cara do PC do B, ministro do Esporte, Agnelo Queiroz,
que virou estafeta do Nuzman, que se hospedou no Queen Mary, no mesmo
navio-hotel em que estava o Bill Gates durante as Olimpíadas
de Atenas, E veja que não estou
fazendo o discurso da miséria. É óbvio que um
ministro de Esporte do Brasil tem que estar hospedado onde quer que
vá. Mas ele tem que ter também o mínimo de
respeito ao país no qual ele é dirigente para saber que
pega mal ele estar no mesmo lugar do Bill Gates. Lambuzou-se. Não
fez nada, nada. E conta uma história de carochinha que existe
1 milhão de crianças assistidas pelo Segundo Tempo, que
não é nada mais do que um plano que vinha do governo
anterior e ele rebatizou. E todas as vezes que você se
aprofunda no Segundo Tempo você encontra porcaria, denúncia
e desvio de dinheiro.
SÉRGIO DE SOUZA - O
que é isso?
É
um programa para atender crianças fora do período
escolar. O Tribunal de Contas da União já detectou uma
série de desvios de recursos de merenda, de
uniforme...
RENATO POMPEU - Essa corrupção
toda do futebol brasileiro chega à manipulação
de resultados?
Pois é,
faz algum tempo, ouvi essa figura impoluta do J. Hawilla dizendo que
“manipulação
de resultado de futebol é uma coisa que já faz parte do
folclore; havia antigamente, hoje em dia os controles são
tamanhos, a televisão, etc., que é impossível”
Muito bem. Olhemos a gestão Ricardo Teixeira. Tivemos três
escândalos de arbitragem: Iris Mendes. Armando Marques-Loeblin,
Edilson Pereira de Carvalho. Esqueça o Brasil. Estamos vendo o
presidente da Federação Italiana de Futebol renunciar,
porque o seu presidente de comissão de arbitragem tem fitas
gravadas de telefonemas com o diretor-geral da Juventus, que lhe
prometeu uma Maserati, e ele prestando contas a esse cara, que pôs
o árbitro X na partida Y da Juventus na Copa dos Campeões.
E o juiz italiano designado para a Copa do Mundo está sob
suspeita. Então a manipulação se dá e
pelos mais diversos motivos. Entre outros, hoje, pelo movimento de
apostas. As legais e as clandestinas. E é de hoje isso? Por
que o Paulo Rossi estava suspenso dois anos antes da Copa de 82? Você
se lembra? O tal do Totonero? Em 82. Isso aconteceu em 80. Estamos
falando de 26 anos. E isso está inalterado. Por quê?
Porque a estrutura é rigorosamente a mesma. O que mudou é
que você deixou de ter as figuras folclóricas do
Ripolli, do Mendonça Falcão, do Vicente Matheus e,
entre essas figuras, algumas até foram mecenas, que tiraram do
bolso pra pôr no clube, substituídas por gente que
enriqueceu à custa do futebol como o Eurico Miranda. Que
guarda um aspecto folclórico também, mas absolutamente
deletério, como o Caixa-d'Água.
SÉRGIO
DE SOUZA - Como é que o Eurico ganha dinheiro?
Com
compra e venda de jogador, com estabelecimento de patrocínio,
com caixa dois. O Brasil é um país tão
absolutamente fantástico, que conseguiu nas primeiras
parcerias espantar o dinheiro dos parceiros. Dizem que dinheiro não
aceita desaforo, tiveram que aceitar, e foram embora correndo. O
Eurico Miranda pôs o Bank of America pra fora, porque ninguém
quer brigar com o Vasco. Banco nenhum vai querer ficar mal cotado com
a torcida do Vasco, com a do Flamengo. A Petrobras continuou bancando
um tempo o Flamengo, com o Flamengo endividado com o governo, e está
lá na lei que não pode. Nos últimos tempos é
que estabeleceu algum tipo de dificuldade para o Flamengo receber o
dinheiro. Aí vem o presidente Lula e diz, como disse semana
passada: “Um
ano que o governo não cobre as dívidas dos clubes é
problema dos clubes; dois anos, é problema dos clubes; três
anos. passa a ser problema do governo, Não é mais dos
clubes. Vamos fazer a Timemania, e uma lei de incentivo pra salvar os
clubes”. Então eu
só conto o que vi. Daí o tamanho da minha decepção.
Dois dias antes da assinatura da Timemania, o ministro José
Dirceu telefona pra mim, diz que queria um encontro “com
você, o Sócrates e a Soninha pra discutir Timemania.
Parece que vocês são contra”.
“Somos, ué, já escrevemos: “Quero entender,
que não estou entendendo direito: E marcou um encontro com a
gente na Secam. na avenida Paulista, numa agência do Banco do
Brasil. Fomos lá os três. Mostramos pra ele que era
absurdo criar uma loteria pra dar dinheiro na mão dos caras
que tinham construído essas dívidas, sem exigir deles
nenhuma contrapartida de mudança de modelo de gestão,
de responsabilização pela gestão do dinheiro. E
que não se justificava fazer aquilo por medida provisória
porque aquilo não tinha relevância nem urgência.
Era uma segunda-feira. Na quarta-feira seria anunciada a medida
provisória. E iam entregar as galinhas para as raposas. Na
nossa frente, ele faz uma ligação em viva voz para o
Tofolli, chefe do serviço jurídico da Casa Civil.
“Tofolli, estou aqui com fulano, beltrano, sicrano,
eles estão me dizendo isso e isso, bate?”
A gente ouve a voz do Tofolli: “Ministro. não
há o que justifique medida provisória pra uma loteria
em cujo cerne está colocado que, se ela for aprovada amanhã,
só entra em vigor daqui a oito meses”.
A prova provada de que não havia urgência. Aí, o
Zé Dirceu bate na mesa e fala: “Vai pra
projeto de lei”. E o
Tofolli: “Tenho dito isso há seis meses”.
Aí, o Zé Dirceu desliga, olha para nós todos:
“Vocês têm dez minutos?” Sai
e volta: “Vocês têm vinte minutos pra
esperar, que o Lula quer conversar com vocês?” Claro.
esperamos o Lula. O Lula manda entrar. Ele vem: “Juquinha.
me explica isso aqui tudo, da Timemania”.
“Já explicamos pro Zé, papapá", Ele
olha e fala pro Zé: “É assim?”
O Zé: “É!”
“Nem por cima do meu cadáver assino isso como
medida provisória”,
E eu, babaca, leal: “Vai te criar um problema, porque
o Agnelo está convidando todo mundo pra assistir à
assinatura da medida provisória”.
E ele: “Problema do Agnelo, ele que se vire”.
Tchau, tchau, levantamos, fomos embora. Na saída falo: “Zé.
tem trinta jornalistas lá embaixo, o que a gente fala?”
“Fala a verdade.”
“Tá legal.” Saímos, demos entrevista os
três, e eles ouviram a nossa posição contra a MP
etc. Fui embora, ouvindo a Rádio CBN: “O
presidente Lula e José Dirceu anunciam que quarta-feira será
assinado o projeto de lei da Timemania”.
Vou
pra CBN, gravo o meu programa, conto essa história como estou
contando aqui; vou pra TV Cultura. participo do jornal do Heródoto
Barbeiro, conto, mais reduzido, evidentemente, escrevo e passo para o
jornal esportivo Lance!. Quinze
pra meia-noite estou em casa já, vendo o Jornal da
Globo. Ana Paula Padrão
anuncia: “Quarta-feira o presidente Lula assina a
medida provisória da Timemania”.
Toca o telefone. O editor do Lance!:
“Ô, Juca, você viu?”
“Vi” “E aí? Estamos dando que é
projeto de lei não é medida provisória.”
“Se você quiser, você muda. Se você acha que
é a Ana Paula Padrão que tem a notícia certa,
quando passei uma hora com o ministro e com o presidente da
República, não foi uma fonte privilegiada que me
contou, eu assisti, você faz o que quiser.” “Não,
vou manter.” Quarta-feira
o Lula assina a medida provisória...
SÉRGIO
DE SOUZA - Por cima do cadáver dele mesmo?
É...
THIAGO
DOMENICI- Não se falou mais no assunto depois?
Escrevi
na quinta-feira seguinte uma coluna irada, dizendo que o presidente
Lula estava governando o país, para ser educado, em cima das
pernas. A vontade que eu tinha era de escrever “nas coxas”.
Mas contei essa história toda.
SÉRGIO
DE SOUZA - E depois o que você soube?
Depois
o Zé Dirceu me disse: “Fomos
traídos”. O Agnelo
disse para o Lula que seria a desmoralização dele, e o
Lula teria dito que não poderia permitir que um ministro dele
fosse desmoralizado.
THIAGO
DOMENICI - E o Agnelo com os cartolas?
É
essa relação promíscua, de carregar mala do
Nuzman. Fez tudo para os esportes de alto rendimento, fez tudo para
os esportes de competição, levou a medalha do Luisão
na Copa América. O Luisão se machucou, foi para o
hospital e ele ficou com a medalha do Luisão. É o
ministro “medalhão”, os jogadores da seleção
de futebol o chamam assim, não sou eu. E ele saiu do governo
pra ser candidato a governador do Distrito Federal. Urna decepção.
Negou no programa Roda-Viva
que tivesse assinado dois vetos
a dois capítulos moralizantes do Estatuto do Torcedor, e eu
mostrei pra ele no ar a assinatura dele para os dois vetos. Ele
empalideceu, lá fora me abordou, olhou de novo o papel: “Isso
aqui é falso. Essa assinatura não é minha, vou
processá-lo”.
THIAGO
DOMENICI- Processou?
Eu sou
bobo? Nasci ontem? Acha que eu não tinha verificado a
autenticidade da assinatura? Claro que não processou. Nesse
episódio, a decepção não é ele,
porque dele eu não esperava mais nada. A decepção
é com o assessor de imprensa dele, de quem felizmente agora
esqueci o nome, figura de quem eu gostava muito, que escreveu, aliás,
um belíssimo livro sobre a CPI do Futebol e que falou: “Juca,
você se ferrou, essa assinatura não é
dele”.
SÉRGIO
DE SOUZA - E o Aldo Rebelo, o que aconteceu entre você e ele?
O
Aldo pra mim é mais complicado. Deixo claro uma coisa: conheço
o Lula desde 79. Eu era diretor do Sindicato dos Jornalistas e fui um
dos designados pra acompanhar as greves do ABC. Então, de lá
vem uma camaradagem com ele, com o Jacob Bittar, o Djalma Bom, enfim,
uma gente de quem eu gostava muito. Com o Aldo é mais recente,
foi muito em função da CPI do Futebol, raras vezes vi
alguém ser tão firme na condução de um
processo delicado, difícil, porque a Bancada da Bola estava
organizada pra sabotar, até conseguiu sabotar, não se
aprovou o relatório. Durante todo o período inicial do
governo, o Aldo, até onde eu assisti, se comportou muitíssimo
bem, mas chegou um momento em que bateu a coisa da...
RENARO
POMPEU - Da mosca azul.
Não
da mosca azul só, da encruzilhada mesmo. Ou dá ou
desce, pra que lado eu vou. Por mais que o partido não tenha o
Agnelo em boa conta, é o ministro do partido. É o PC do
B que está em jogo. E aí é o seguinte, o Aldo
falou pra mim lá em casa. É o discurso que a gente
conhece, que até faz sentido, o discurso da correlação
de forças, é difícil, se não fizer assim,
pô, vamos ter em conta que o simples fato de este país
ter eleito um operário pra presidente já é um
baita ganho histórico, já andamos pra frente pra burro,
mesmo que o governo dê com os burros n' água... Tudo
isso eu admito, eu entendo, acho isso mesmo. Mas acho que você
não transige sobre princípios. Tem que ter cintura, a
vida política é muito mais complicada do que a gente
imagina, a gente às vezes fala bobagens do tipo “basta
ter vontade política pra fazer isso”, e não é
assim Tudo isso eu acredito, mas não tenho dúvida em
dizer que esse processo todo foi absolutamente antropofágico,
liquidou com reputações e, o que é mais grave,
ele não liquidou apenas com a imagem de algumas pessoas. Essa
é a coisa que eu menos desculpo no Zé Dirceu. Eles
destruíram a imagem de uma geração, a tal
geração de 68. O Aldo é de uma geração
posterior, já pegou o processo de distensão lenta e
gradual já não corria risco de ir pra cadeia, ir para o
DOI-Codi, ser torturado. É mais compreensível até
que tenha adotado esse discurso pragmático, realista, de que
as coisas são assim.
SÉRGIO DE
SOUZA - Mas o que o Aldo fez? Apoiou a Timemania?
Apoiou
a Timemania com todas as forças. Foi homenageado pelo Eurico
Miranda dentro de São Januário. O Eurico Miranda, que
na CPI ele mandou calar a boca. Tenho a fita. “O
duro de dirigir isso aqui é ter que conviver com canalhas como
vossa excelência”.
Eu nunca tinha visto essa cena no parlamento. Razão da minha
admiração, não é gratuita. Posso errar na
avaliação das pessoas, mas por algum motivo concreto. E
aí mudou, em nome desse pragmatismo.
THIAGO
DOMENICI - O Eurico era um dos participantes daquela Bancada da Bola.
A bancada ainda existe?
Cada
vez mais forte.
THIAGO DOMENICI - Quem são?
Quer
saber um de pasmar? Delcídio Amaral. Levou 100.000 reais da
CBF na campanha dele. Você entra naquele site da Transparência
Brasil, pega os financiamentos de campanha e clique lá: “CBF”.
Tem quinze deputados dos mais variados partidos. embora no estatuto
da CBF esteja escrito que é uma entidade
apartidária.
NATALIA VIANA - Você
vai votar em quem agora?
Neste
momento, na Heloísa Helena.
MARCOS
ZIBORDI - Falando dessas altas esferas do futebol. queria te
perguntar: esses agenciadores, buscando craques novos etc., ganham
dinheiro?
Muito
dinheiro.
MARCOS ZIBORDI -Quem são essas
pessoas, nomes?
Você
tem um hoje, esse que é do Robinho, o Wagner Ribeiro... Veja
bem, essa é outra discussão que foi muito falseada no
Brasil. O que se acusa: crime cometido pela Lei Pelé, acabou o
passe, os jogadores deixaram de ser escravos dos clubes - nunca vi
escravo ganhando 200.000 reais por mês, queria ser escravo
assim - e passaram a ser escravos dos empresários. Eu sempre
argumento de duas maneiras: uma, com o concreto, como as coisas são;
outra, no campo dos princípios, talvez como eles devessem ser
ou como eu gostaria que fossem. Vamos primeiro para o concreto: se
não houvesse a Lei Pelé, o êxodo de jogadores
brasileiros para a Europa continuaria exatamente igual ao que se vê
neste momento.
Por uma razão singela: a Fifa não
reconhece mais o passe desde 1995. Não depende de nós,
o passe poderia estar vigorando ainda, se não houvesse a Lei
Pelé, no mercado interno, no mercado externo não.
Então, é mentira que a Lei Pelé colaborou para o
êxodo dos jogadores brasileiros para a Europa.
Ponto dois,
dado de realidade, eu pergunto: você começou a ouvir
falar da ida de brasileiros pra Europa só depois da Lei Pelé?
Isso é do começo dos anos 80. E de empresários
do futebol? Só começou a ouvir agora? Ou você já
ouviu falar do Juan Figger?
MARCOS ZIBORDI - É
dos primeiros nomes que a gente começa a guardar...
Então
é o seguinte: com a perda do passe por parte do clube, o
cartola que vendia jogador em nome do clube e tornava comissão
está sendo prejudicado, porque não é o clube
mais que está negociando; acaba o contrato do cara, e o cara
negocia e o cartola fica a ver navios. Também pergunto: a
situação falimentar dos clubes brasileiros é
pós-Lei Pelé ou anterior à Lei Pelé? Esse
é o campo dos fatos, da realidade. Vamos aos princípios.
Caso me perguntassem “Juca,
se o preço de acabar o passe fosse acabar o futebol você
acha que seria justo pagar esse preço?”,
eu diria: sim, porque não é possível que no
século 21 alguém seja dono de alguém. O
Corinthians não pode ser dono do Tevez, o Tevez tem que ter o
direito de, cumprido seu contrato, ir trabalhar pra quem ele quiser.
Outra questão de principio: se eu era objeto, patrimônio,
mercadoria de um clube de futebol, me libertei e escolhi você
pra cuidar das minhas coisas, é absolutamente diferente de
que, para poder trabalhar, eu tenha que ser mercadoria do clube. Por
livre-arbítrio escolhi você e disse pra você:
quero que cuide dos meus negócios, quero ganhar 200 paus por
mês, se você conseguir 220, 20 são teus. Vou fazer
um anúncio pro banco não sei das quantas, banco da
praça, quero 1 milhão, o que você conseguir acima
é teu. Isso foi se deformando, é verdade, de tal forma,
que o cara passa a ganhar até na compra da casa do jogador.
Cada negócio que realiza ele toma uma parte, mas você
escolheu. E você é que dá um pé na bunda
desse cara na hora que terminar o contrato que fez com ele, se é
que fez contrato. Esse cara não te prende.
HÉLIO
ALCÂNTARA - Só que tem uma coisa que a Fifa fez, ela
regulamentou...
Sim, existe
a figura do agente Fifa. Mas você percebe que estamos falando
de coisas de qualidades diferentes. E pra culminar ouvi de um jogador
de futebol a seguinte frase, depois de perguntar pra ele por que
tinha procurador, agente, por que não cuidava ele mesmo. Ele
respondeu: “Você
sabe por que, Juca? Porque pra falar com bandido preciso de
um”.
MARCOS
ZIBORDI - A gente fica vendo os astros jogadores brasileiros indo pra
Europa, mas existe uma quantidade avassaladora de garotos indo
também. Qual é a situação dessa
molecada?
Outro dia falei
disso no blog e levei porrada pra cacete, é divertido ver como
as pessoas não fazem certas ponderações e,
depois que você chama as pessoas pra ponderar. elas falam: “Pô,
realmente, eu não tinha pensado nisso, desculpa”. Esse
Wagner Ribeiro estava querendo levar um menino do Santos, o Neimar.
pro Real Madrid...
HÉLIO ALCÂNTARA
- De 14 anos.
Isso, parece
que o menino é um novo Robinho e tal. Como é que esse
menino pode ir pro Real Madrid? Com 14 anos, não pode assinar
contrato, só a família é autorizada. Que que a
Fifa exige? Pra que ele vá, os pais têm que ir junto e o
clube tem que arrumar emprego pra eles. Aí estavam arrumando
um emprego pro pai desse menino, de mecânico na Audi, que é
patrocinadora do Real - ia ser o mecânico mais bem pago do
mundo. Contei essa história no blog,
vieram seiscentas porradas. Aí
eu, como faço às vezes, pus lá um comentário:
“Ponha-se na posição do pai desse
menino, você ficaria em Santos, desempregado. com o menino
podendo vir a ser um Robinho, podendo não vir a ser um
Robinho, ou se mandava com ele pra Espanha, onde ele vai estudar, vai
ter assistência médica, você vai trabalhar, vai
ganhar um bom dinheiro? Que que você faria pela sua família?”
E aí desmontou... A CBF quis que se legislasse proibindo a ida
de menores de 18 anos, e eu digo: chega o cara do PSV, como chegou na
favela da Rocinha, foi lá buscar um garoto, pegou o pai e a
mãe, levou os três pra Eindhoven, instalou-os numa casa
direita, intérprete.. Que direito você tem de falar pra
esses pais que é melhor continuar vivendo na Rocinha? Agora,
se você me disser que há muitos casos em que o moleque
não dá certo e fica por lá vagando e vira
prostituição infantil, é verdade; então
tem que cuidar, cada um que sair tem que sair com essas garantias,
ele vai treinar, ele vai pra escola, entende?, porque, se é
trabalho infantil em relação ao padrão
europeu...
É aqui também, porque vai lá na
escolinha do Corinthians, do Santos, do Palmeiras: é a
garotada que está lá correndo atrás de um prato
de comida. Agora. é muito melhor do que ficar fazendo chuteira
e tênis lá na Indonésia.
THIAGO
DOMENICI - Mudando de assunto, estou achando a imprensa esportiva,
principalmente de televisão, muito parcial e muito chata. O
que você acha?
Acho o
seguinte: na chamada programação esportiva da televisão
aberta você tem dois problemas; um é TV Globo. e outro,
os outros, que não fazem jornalismo, fazem camelódromo.
O shop tour aos
domingos à noite. entremeado com gols aqui e ali e três
ou quatro folclóricos fazendo merchandising e dando opiniões
estapafúrdias pra ver se esquentam o Ibope. Está certo,
quer dizer, não estamos falando de jornalistas. Na TV Globo
você tem o quê? Gente de qualidade fazendo o Globo
Esporte e não sei o que
etc., mas você tem uma invencível tendência a
fazer um jornalismo esportivo chapa branca. Curiosamente, se você
observar, o Jornal Nacional
conseguiu se desvencilhar muito mais da imagem negativa que tinha em
relação à promiscuidade com o poder do que o
jornalismo esportivo que se faz na Globo, e não é por
falta de bons profissionais. Mas a Globo escolheu que isso que
estamos discutindo aqui não é assunto, assunto é
o gol, quem vai ser convocado, quem vai ser contratado, é o
drama do goleiro que comeu um frango... belíssimas matérias!
Mas discutir o poder no futebol não, porque “nós
temos uma relação com esse poder que precisamos
preservar”. Que é
comprar o futebol! Aí, o futebol padece por dois motivos:
porque a rede amplamente majoritária, hegemônica. não
informa - exceção. vamos citar, um Globo
Repórter demolidor
mostrando quem era Ricardo Teixeira, no período da CPI. O
segundo crime contra o futebol é confundir a grade de
programação da Globo com tabela de campeonato. E aí
você vê futebol às 10 horas da noite. Até
admito que uma vez por semana, na quarta-feira do futebol da Rede
Globo, houvesse um jogo destacado pras 10 da noite. O problema é
que tem um pra São Paulo, um pro Rio, um pra Belo Horizonte,
um pra Porto Alegre, tem quatro, cinco. As pessoas têm que
trabalhar no dia seguinte. E você se despreocupa e o
responsável pelo Globo Esporte,
o Marcelo Campos Pinto, diz isso com todas as letras: “Não
é problema da TV Globo se tem gente no estádio, o
problema da TV Globo é ter audiência no futebol”.
Mas não há nada pior pro futebol do que ver um jogo sem
torcida no estádio. Então acho que, a médio
prazo. eles “desvendem”, deixam de vender, o futebol como
produto deles mesmos. Sou crítico da política esportiva
da Rede Globo e acho que defendo melhor os interesses que deveriam
ser os interesses dela do que os próprios que estão lá
trabalhando, porque acho que estão matando a galinha dos ovos
de ouro, não estão entendendo o quanto são
coresponsáveis pela fragilidade dos nossos clubes. Como se pra
eles isso fosse interessante, porque não vou discutir com um
cara que fala: “Ah, o Corinthians você não
vai levar por esse preço. Não, porque eu vendo pra
outro”. Então, ter
o controle disso acaba redundando em mau jornalismo. Porque existe
uma confusão entre ser sócio e cobrir. E essa é
uma solução que a televisão norte-americana
descobriu há muito tempo. Uma coisa é a divisão
de entretenimento, outra coisa é o jornalismo. Na hora em que
estou entretendo, encho a bola do espetáculo, o Galvão
faz o que quiser, mas o repórter que vai fazer a matéria
do dia seguinte vai mostrar o que teve de errado. É óbvio,
são certas coisas em que estamos na pré-história
ainda. Isso me angustia, às vezes perco a paciência...
Sou muito chamado pra fazer palestra em faculdades de jornalismo e é
impressionante como até hoje tem menino que pergunta: “E
esse negócio - por que jornalista não pode fazer
propaganda?” Eu digo: “Meu
deus do céu! Nos Estados
Unidos, na Itália, na França, na Alemanha, o jornalista
que fizer propaganda num dia, no dia seguinte, está expulso do
sindicato. Isso não é uma discussão, não
cabe discutir se há conflito de interesse entre o cara que faz
propaganda e diz que é jornalista, não é uma
discussão isso, é uma obviedade. Não posso ser
garoto-propaganda do Bradesco e colunista de economia. Mas tem que
explicar isso ainda no Brasil. E, o que é pior, pra boa parte
isso está virando a coisa, não há como fazer
diferente... E aí sabe o que eu ouço? “Ah!
Mas você pode recusar, porque é o Juca Kfouri”
Sou o Juca Kfouri hoje, 36 anos depois de começar, e nunca
fiz! Nunca fiz nada que ferisse um princípio meu. O que não
significa que não tenha feito coisas das quais discordasse,
que meu chefe me mandou fazer uma capa, eu queria fazer a capa com o
menino que estava surgindo no Palmeiras e ele quis que eu fizesse a
capa com o ídolo do Corinthians, eu disse: “Pô,
mas já fiz trinta vezes essa capa!” “Faça
a trigésima primeira que vai vender mais.”
E eu fiz a melhor trigésima primeira capa que pude. Ou quando
quis fazer a Malu Mader na Playboy, e
o dono da Abril queria que fizesse a Loira do Tchan porque vende
mais... e fiz a melhor Loira do Tchan que pude e vendeu mais. Agora,
não me peça pra fazer uma capa laudatória em
torno do Ricardo Teixeira porque eu vou embora... ou pra fazer
merchandising porque vou embora.
MARCOS
ZIBORDI - E o jogador de futebol fazer propaganda de bebida
alcoólica? Cabe discussão nisso?
Acho
errado! O Ronaldo faz propagada de bebida alcoólica num
esporte que não é esporte, a tourada... E ainda abre a
garrafa no chifre do touro, que coisa de mau gosto. Agora, acho do
cacete o Maradona cantando o hino do Brasil e tem algumas coisas do
Ronaldinho aí também no ar que são muito boas.
Acho que tudo bem artistas fazerem, como o Jô Soares, mas
jornalista não pode. E vejam a prova provada de que essa
discussão é maluca, conversem com o Antônio
Fagundes e ele contará a depressão que teve por causa
do Boi Gordo, lembram do Boi Gordo? Ele era garoto-propaganda do Boi
Gordo, no auge daquela novela... O Rei
do Gado. Levou famílias e
famílias à ruína, porque as pessoas não
compravam o Boi Gordo sabendo que havia um empresário atrás
daquele anúncio, compravam porque o Fagundes estava mandando
comprar, e ele era o rei do gado... Pega essa menina que é um
encanto. a Lorena Calabria, um amorzinho de pessoa, né? Vinte
e cinco dias antes de o Banco Santos quebrar, ela virou
garota-propaganda do Banco Santos... Eu só imagino
esta cena, só esta: aquela viúva de 80 anos, que tinha
aquela cadernetinha de poupança que o saudoso deixou, da
pensão dela lá na Caixa Econômica Estadual, aí
lá viu a Lorena (imita): “Adoro essa menina... adoro,
acho uma gracinha, vejo na TV Cultura, vou pôr esse meu
dinheirinho no Banco Santos pra ajudar essa menina, que ela falou que
lá...” Vinte e cinco dias depois, essa velhinha não
tinha mais sua poupança, foi uma jornalista que a levou a
isso. Eu vou discutir isso?
NATALIA
VIANA - Ó, Juca, o Brasil vai ganhar a Copa?
Acho que não. Se o Brasil ganhar pela sexta vez a Copa do
Mundo, será pela segunda vez campeão na Europa, coisa
que nunca aconteceu. Nunca um não-europeu ganhou na Europa, a
não ser o próprio Brasil, em 1958, porque aí
surpreendeu todo mundo, ninguém esperava. A Copa depois desta,
que seria a do hepta, será na África do Sul. Todas as
vezes que jogou a Copa do Mundo num país sem tradição
em futebol o Brasil ganhou. Foi assim em 58 na Suécia, em 62
no Chile, em 70 no México. em 94 nos Estados Unidos, em 2002
no Japão. Então, a possibilidade de ser heptacampeão
seria enorme na África do Sul. A outra Copa, ao que tudo
indica, será aqui. O Brasil não vai perder duas aqui,
já perdeu uma. Seria octa. E ia ficar monótono.
Neguinho vai falar: “Pô,
entrega logo a Copa pra eles”.
HÉLIO
ALCÂNTARA - Só interessa ir até a final,
né?
Isso. Então
acho que, ao contrário do que aconteceu nas outras duas Copas,
e que, em dúvida, a arbitragem apitava pró-Brasil,
dessa vez apitará contra. E isso é o suficiente pra te
tirar da Copa do Mundo. Lembremos o gol do Wilmotz pela Bélgica
na Copa de 2002 e alguém aqui me explique por que aquele gol
foi anulado. Um dia perguntei isso pro Felipão na ESPN Brasil.
ele falou: “Tchê,
eu também não sei, ninguém sabe, mas gostei
porque anularam pra nós.”
THIAGO
DOMENICI - Você está falando que a Copa é
direcionada sempre?
O
Renatão me perguntou aqui da manipulação. Você
tem alguma dúvida? Tem alguma dúvida? O Brasil, pra ser
hexacampeão, terá de ganhar de adversários
fortes e da arbitragem. Pode acontecer. Por exemplo, pega a Copa de
94. Sabe como é que faz isso? Isso não se faz de
maneira descarada.
NATÁLIA VIANA - Como é
que decide?
Vou explicar. Na
Copa de 94, que o Brasil ganhou, o jogo que era visto como a final
antecipada foi jogado nas quartas-de-final: Brasil e Holanda, em
Dallas. Duas baitas seleções. O Brasil não tinha
tomado um gol até então, melhor defesa da Copa. Sabe de
onde era o árbitro que apitou aquele jogo? Da Costa Rica. Aí,
o Brasil estava ganhando de 2 a 0, sem nenhuma interferência
dele. Aí, a Holanda empata, 2 a 2. porque acontecem coisas
fora do script. Aí, o Branco faz uma falta no jogador da
Holanda e o juiz marca falta pro Brasil. O Branco vai e faz o gol,
eliminou a Holanda. Dá pra levar esse raciocínio até
o fim. Aquela era uma Copa que estava escrito: se o Brasil seguisse a
trilha que se imaginava que poderia seguir, corno seguiu, só
encontraria os grandes papões lá na frente, lá
na final. E acabou encontrando a Itália. Então era Copa
pro Brasil ganhar. O jogo acabou 0 a 0. E foi pros pênaltis. E
na hora dos pênaltis não tem juiz que roube. Tem juiz
que interfira: o goleiro andou, volta.
THIAGO DOMENICI - O Zico tem razão nas declarações de que o Japão foi prejudicado no sorteio?
É
claro que tem razão. Aí que a gente precisa aprender a
ler certos sinais. Existem certas figuras de quem você vai
vendo a trajetória e aprende a respeitar. E, quando fala, você
pode até discordar, mas por que ele está falando isso?
O Zico é uma delas. Telê Santana era outra. Muito do AVC
(acidente vascular cerebral) que o Telê Santana teve foi de
indignação. Porque ele estava envenenado, no final da
vida, com futebol. Telê chegou a dizer: futebol não é
coisa pra gente séria. Ele ficava indignado com o fato de a
bola escolhida não ser a melhor, mas ser a bola do
patrocinador da federação. Ficava indignado que o time
do São Paulo ia jogar a final do Mundial no Japão, os
cartolas iam de primeira classe e os jogadores iam de econômico.
Tinha lugar pra ele na primeira classe, mas ele não ia. Ia com
os jogadores. Chegava estressado: “Os caras que vão
jogar estão encolhidos 24 horas num avião e a
cartolagem está na primeira classe dormindo, tomando uísque!”
Então, a manipulação que ele percebia o adoeceu.
E o Zico vai pro mesmo caminho, e vão roubar o Zico. Se tem
manipulação? É famosa a história. A União
Soviética sempre foi esbulhada em Copa do Mundo. Na de 86, no
México, teve o jogo Bélgica e União Soviética,
que é um dos casos mais clamorosos da história do
futebol Mas nego esquece porque foi a União Soviética.
Marcaram dois pênaltis inexistentes pra Bélgica e
anularam dois gols por impedimento de soviéticos que não
estavam impedidos. Era pra ter sido 6 a 2 pra União Soviética.
foi 4 a 3 pra Bélgica. Por quê? Ah, imagina se iam
deixar os comunistas ganhar a Copa do Mundo!
JOÃO
DE BARROS - Você está traçando o perfil de que o
futebol é o ópio do povo?
Eu não traço esse perfil porque acho que o futebol
é muito mais integrador do que desmobilizador. Muito mais
conscientizador do que alienante. E sempre gosto de contar causos a
respeito, lembrar que a primeira faixa pela anistia aos exilados e
presos políticos foi aberta na arquibancada do Morumbi, num
Corinthians e Santos, único lugar nessa cidade onde se podia
fazer aquilo sem que a polícia chegasse a tempo de prender
quem abrisse a faixa - quando a polícia chegou lá em
cima, os caras e a faixa já tinham desaparecido. Gosto sempre
de lembrar que no primeiro jogo que houve no Estádio Nacional
de Santiago do Chile, depois que o estádio deixou de ser
presídio, depois do morticínio do Pinochet, acabou a
luz e, dois minutos depois que a luz acabou, o estádio inteiro
acendia isqueiros e começou-se a ouvir um cantochão:
“Libertad,
libertad, libertad”. Foi a
primeira manifestação de massa no Chile contra a
ditadura de Pinochet. O povo sabe distinguir quem foi o Médici
e quem foi o Tostão da Copa de 70. O Médici não
entrou pra história do Brasil como o presidente do tri. entrou
como o presidente da tortura. É claro que a manipulação
é possível. É claro que todo governo, ditatorial
ou não, usa as vitórias esportivas. O esportista é
o gladiador moderno, sem dúvida. Mas prefiro ver o que ele tem
de conscientizador mesmo. Gosto sempre de repetir uma frase que ouvi
do Gabriel Cohn, que foi meu professor na USP: “Eu não
acredito em sociólogo no Brasil que não tenha os
fundilhos das calças puídos por arquibancada. Esse cara
não entende o Brasil”.
JOÃO
DE BARROS - O que você pensa das torcidas organizadas?
Essa
é uma das áreas em que eu mais mudei de opinião
na minha vida. Quando houve aquelas mortes em 1995. naquele jogo dos
juvenis. Palmeiras e São Paulo, eu era um intransigente
defensor das medidas mais radicais para a extinção das
torcidas: pára o futebol aumenta o preço dos ingressos,
faz como se fez na Inglaterra, tem que elitizar mesmo, pra acabar com
a violência. E hoje estou convencido de que isso funcionou numa
sociedade obviamente com outras características que não
as nossas, certamente no Brasil não é elitizando o
futebol que você vai resolver o problema. Ao contrário,
é das poucas coisas que o excluído brasileiro ainda tem
pra poder participar. Trata-se, isso sim, de você montar
estádios com condições de segurança e
conforto, bem cobrado de modo que a Bélgica da “Belíndia”
banque e com as mesmas condições de segurança e
de conforto cobrado a um preço que a Índia possa pagar.
Extinguir as torcidas organizadas é defender a paz do
cemitério - como tem umas autoridades que propõem jogo
de uma torcida só. Pô, então põe logo o
jogo de portão fechado, corno a gente tem visto. Pronto,
acabou a violência no estádio. Mas que bela merda!
Proibir de vestir a camisa.. Isso é até
inconstitucional você vai na Justiça e consegue um
habeas corpus.
Pode impedir de andar com uma
suástica - e ainda bem que pode, é a única
exceção - e pode me impedir de entrar nu, por atentado
ao pudor. Mas, de entrar com Gaviões? Não pode impedir,
vou com a camisa que eu quero. Então, as soluções
existem e a Inglaterra já ensinou isso há muito
tempo.
ROBERTO
MANERA - Juca, me diga uma coisa: de que lado do alambrado o futebol
é mais esporte?
Ah,
certamente do lado do torcedor. Tem uma frase do João Saldanha
que é do cacete: “Bom.
vamos deixar claro uma coisa: esse negócio de falar que
esporte é bom pra saúde é uma puta mentira.
Esporte profissional nenhum é bom pra saúde. São
todos muito ruins pra saúde”.
O atleta de alto rendimento é um entrevado no final da sua
carreira. Ah, o esporte afasta a droga. Mentira. O esporte de alto
rendimento traz a droga. Está ai o doping pra
não me deixar mentir. Traz pra obter resultado e traz pra
segurar a cabeça. Os negrões da NBA, onde não há
antidoping - e se houver não tem jogo -, é tudo xarope!
Ou o que aconteceu com o Maradona é uma exceção?
MARCOS
ZIBORDI - E os jogadores brasileiros, são alcoólatras?
Todos tomam, todos assumem.
MARCOS ZIBORDI
- Mas alcoólatra é outra coisa.
Segundo
os padrões da DEA, são alcoólatras todos aqueles
que bebem todos os dias. E eu também, eu também. Qual
foi o grande mérito da democracia corintiana? Que os caras iam
tomar cerveja no Bar da Torre, em vez de ir pra casa encher o saco. E
diz o Magrão, com toda razão, que era melhor pro clube,
e o clube não percebia. Uma boa parte, na frente dos outros,
se limita a tomar cerveja. Se vai pra casa. toma mais pesado, toma
cachaça. Todos tomam. E mais uma coisa, por exemplo, que
demorei a descobrir em relação ao Pelé, que
dizia que não punha álcool na boca. Não é
verdade. Punha, sim. Não digo que o Pelé enche a cara -
ele sempre disse que era no máximo capaz de tomar um golinho
de uísque. Não é verdade, toma, toma bem. Agora,
é a tal história. nós estamos brincando que
somos alcoólatras. Eu tenho uma única lembrança
de ter ficado bêbado, mas não consigo passar o dia sem
beber.
NATALIA VIANA - E outras drogas, rolam
assim bastante entre os jogadores?
É
o que eu digo, pra segurar a cabeça, rola. Rola maconha, rola
cocaína.
MARCOS ZIBORDI - Voltando à
maracutaia toda que você estava falando: chega a ponto de
Influir na convocação dos jogadores para a
seleção?
Outro
dia eu estava até propondo a CPI do Gustavo Nery. Tem alguma
coisa, não tem? Pode o Gustavo Nery ter sido convocado doente,
machucado, jogado mal? O Julio César. o goleiro. Bom, está
lá na Itália e tal, mas quem é o procurador
dele? É o filho do Zagallo... Lembra que houve uma época
em que o Bussunda propôs uma CPI do meio-campo? Que, vira e
mexe, eram convocados uns caras estranhíssimos pro meio-campo.
O Leão convocou um lá de Pernambuco. Agora mesmo, nesse
jogo da despedida do Romário, convocaram um zagueiro do
Palmeiras - pode ser Gláuber? - que em seguida foi jogar na
Europa.
MARCOS ZIBORDI - E o Parreira? É
o técnico mais indicado mesmo? Ou aí tem maracutaia
também?
Eu acho que
ele é um dos indicados. Não tenho dúvida.
HÉLIO
ALCÂNTARA - Quem é melhor que o Parreira?
Hoje,
o técnico ideal pra seleção brasileira seria o
Felipão.
Mas ele é muito esperto. Fez tudo direito,
mandou na seleção. porque os homens estavam na mão
dele, era o cara que o Brasil queria, fez o que bem entendeu, ganhou
e caiu fora na hora, porque sabia que deixaria de ter a seleção
na mão. Ia ter que ir pra China com a seleção,
ia ter que fazer as coisas e caiu fora.
HÉLIO
ALCÂNTARA - E o Luxa?
O
Luxa tem uma história, é um baita treinador de futebol.
Mas tenho cada vez mais dificuldade - e sei que isso é uma
deficiência minha, não é uma qualidade - de
dividir as pessoas. Falar “ele é bom nisso, mas é
um filho da puta naquilo”. Acho que ele é um técnico
incapaz de trabalhar em equipe. Ou manda em tudo ou não dá
certo. E na seleção brasileira não é
assim. E está ai um pouco da explicação de ele
ter quebrado a cara no Real Madri e ter quebrado a cara na seleção
brasileira. Na seleção, o técnico tem poder e
tal, mas é um membro de uma comissão técnica,
não faz o que bem entende, a não ser em raríssimas
ocasiões.
SÉRGIO DE SOUZA - O que
você prevê nessa parceria MSI-Corinthians?
Essa
parceria tem data marcada pra acabar. Quer dizer, me surpreenderá
muito se chegar a 2007, e acho que o Corinthians quebra.
THIAGO
DOMENICI - Quebra geral a ponto de falir?
Quebra
como o Flamengo está quebrado, como o Grêmio está
quebrado, por parcerias malfeitas.
THIAGO
DOMENICI - Então parceria é um mau negócio?
Não, é ótimo negócio, se bem feito.
Se modificar a maneira de trabalhar o futebol no Brasil. Uma parceria
em que haja duplicidade de comando, como acontece no Corinthians, e
em que uma ala do clube torce contra, contratam o Marcelinho contra a
opinião do parceiro, enfia o Marcelinho goela abaixo, não
vai dar certo. As parcerias que vieram antes, digamos, limpas, Hicks
Muse, Bank of America, Otcagon, foram espancadas e foram embora. O
que vem agora é dinheiro sujo, dinheiro sujo.
MARCOS
ZIBORDI - Daqui a dez anos vamos ter o que, então? Só
vamos ficar criando os caras aqui e não vão ter nem a
passagem por um time do Brasil? Vai ser direto escolinha ou várzea
Europa?
Sempre terá a
passagem, mesmo pequena. Muitos irão direto, como acontece com
o Élder. Aos 33 anos, jogou pela primeira vez no Maracanã
semana passada. Não quero ser profeta do apocalipse nem sou
adepto de teorias conspiratórias: agora, não preciso
inventar nenhuma história. Veja o que aconteceu com a dupla
Ba-Vi, fale o que aconteceu com a ala do Antônio Carlos
Magalhães e do Daniel Dantas. A turma do ACM levou o Bahia à
bancarrota. A torcida do Bahia é uma das coisas mais
maravilhosas que tem neste país. E a turma do Opportunity, do
Daniel Dantas, levou o Vitória à bancarrota.
SÉRGIO
DE SOUZA - O que eles fizeram?
Usaram esses clubes, a turma do ACM, pra eleger gente, pra tornar
gente popular. E a turma do Opportunity, sem nenhum conhecimento do
que seja um clube de futebol, tocou uma porção de
negócios malfeitos e o fato é que os dois estão
hoje na terceira divisão do Campeonato Brasileiro.
SÉRGIO
DE SOUZA - Os dirigentes mudaram também?
Não,
os mesmos. Paulo Carneiro, Paulo Maracajá... essa gente. Todos
enriqueceram. É uma fazenda, o futebol brasileiro é
gerido por coronéis. Onde que o Eurico Miranda teria condições
de ter casa em Búzios, barco, o diabo a quatro, se não
fosse o Vasco da Gama? Não haveria mal nenhum em ser dirigente
de futebol remunerado, em ser proofissionalizado. Agora, na
hipocrisia nacional, os estatutos dos clubes impedem que os
dirigentes sejam remunerados. Então, é aquela coisa que
nos distingue da sociedade norte-americana: nos Estados Unidos, o
jovem que ganha seu primeiro milhão de dólares vira
capa do Time.
Aqui. ganhar dinheiro é
coisa suja.
JOÃO
DE BARROS - E não tem nenhum exemplo que saia dessa
mesmice?
No momento não.
E as distorções do futebol levaram à criação
de outras distorções. O mundo do futebol foi se
tornando uma coisa tão nojenta, tão asquerosa, que as
pessoas que, de alguma maneira, queriam investir seriamente em outros
esportes começaram a criar esse tipo de coisas: Ulbra,
Pirelli, Bradesco, Leite Moça... Você se vê num
ginásio, berrando: “Leite Moça, Leite Moça!!!”?
“Pirelli, Pirelli”? Você vai torcer pra pneu? Não
era muito mais fácil a Pirelli patrocinar a camisa do time de
voleibol do Palmeiras? A Nestlé patrocinar o time de basquete
feminino do Flamengo? A Ulbra estar na camisa do time de basquete do
Corinthians, do time de vôlei do Vasco? E você aproveitar
a marca do futebol, a tradição a origem pra empurrar?
Por que que não é assim? Porque esses caras não
vão lá fazer caixa dois e dar dinheiro na mão de
dirigente sacana. E, como isso é condição sine
qua non pra entrar nesses
clubes, neguinho começou a criar o próprio clube, o que
é uma coisa artificial.
MARCO
ZIBORDI - E no futebol?
No
futebol não. Porque a Samsung não se confunde com o
Corinthians. Não é Corinthians Samsung, é só
o patrocinador dele. O Rexona foi a própria Rexona, a Gessy
Lever que fez o time deles, e um centro de treinamento, aliás,
de primeiríssimo mundo.
THIAGO DOMENICI -
Você é jornalista multimídia, você está
no rádio, televisão, impresso e agora tem o blog.
Trabalhar com todos esses meios
ao mesmo tempo não confunde?
A
minha formação é toda de escrita. E continuo
dando muito mais valor à coisa escrita do que à coisa
dita ou televisada. Mas tenho me surpreendido. E me arrependo de não
ter começado a fazer rádio mais cedo. Esse programa que
faço na CBN, eles que não me ouçam, mas se eles
não me pagassem eu pagaria pra fazer. Porque seria mais barato
que terapia e saio de lá na maior felicidade. Bom, aí
comecei a fazer esse blog,
jamais imaginei que a essa
altura da vida um troço fosse me pegar como esse me pegou.
Estou precisando tomar cuidado, inclusive porque virei escravo dele.
Percebo que não aceito certos convites que deveria aceitar pra
não ficar longe do blog.
SÉRGIO
DE SOUZA - Então como é o seu dia aí? Quanto
tempo você dorme?
Vou
dormir, em regra, às 3, 3 e meia da manhã. Você
vai ficando velho, não consigo dormir mais do que seis horas,
então 9 e meia estou de pé. Leio quatro jornais,
invariavelmente já com o laptop
aberto, vendo quantos
comentários tem no blog,
quantas visitas teve de noite.
Acabo de ler os jornais, tomo café e subo para o meu
escritório, que é em casa, onde tenho meu micro, minha
secretária - a Rita, que está comigo há 25 anos
-, dou meus telefonemas e começo a montar as coisas para o
blog e para o programa
de rádio diário na CBN.
SÉRGIO
DE SOUZA - Telefona para quem?
Para as minhas fontes. Pra cartola. pra atleta, para treinador,
pra jornalista às vezes. Confiro algumas coisas. Às
vezes rende nota imediatamente no blog
e às vezes não.
Passo o dia no micro.
SÉRGIO
DE SOUZA – Almoça...
Blogueando,
sem dúvida. E me informando, conversando, telefonando, Depois
vou para a rádio, antes normalmente, às 5 e meia, tomo
banho. Saio do banho às 6 e meia, porque banho é uma
coisa que eu tomo de verdade. Chego na rádio 15 pras 7, a essa
altura já está produzido o programa, já está
escolhido o entrevistado. Monto o programa, apresento, quando é
segunda-feira vou pra ESPN, faço lá aquele Linha
de Passe. Depois da CBN. Às
sextas-feiras, além de tocar o blog, vou
para a UOL, onde faço um bate-papo das 3 às 4 com o
internauta, e das 4 às 4 e 15 uma conversa com a Lillian
Wittefibe na TV UOL, que chama Tabelinha; daí vou para a
rádio, saio da rádio, escrevo a coluna da Folha
do domingo e no domingo escrevo a coluna da Folha
de segunda. E passo o sábado e o domingo vendo
futebol.
ROBERTO
MANERA – Qual é o remédio da dona Nadir?
A
dona Nadir é uma ouvinte da rádio. No primeiro dia que
fiz o programa, a dona Nadir tinha telefonado. Alguém me
falou: “Olha, ligou uma ouvinte, chamada Nadir, e deixou o
seguinte recado pra você: 'Avisa esse menino que rádio é
prestação de serviço. Que ele tem que dizer as
horas. Ele não diz as horas, eu esqueço de tomar o meu
remédio'”. Falei: “Pô, a mulher tem toda a
razão”. E me dei conta de que tinha falado uma hora no
programa e não falei a hora. Nunca tinha feito programa de
rádio ao vivo. Nessa segunda noite, portanto, quando bateu 8 e
meia, que é a hora de chamar o Repórter CBN, falei:
“Dona Nadir, 8 e meia, hora do seu remédio e do Repórter
CBN. Até já”. Os dois produtores, o
co-apresentador e o cara da mesa de som me olharam como se eu fosse
um louco. Aí falei: “Ih, isso aí é
engraçado”. E às 9 horas fiz a mesma coisa: “Dona
Nadir, 9 horas, hora de a senhora tomar o seu remédio, não
se esqueça” E fui embora. Chego no dia seguinte, tem
outra ligação. “Dona Nadir ligou. Deixou o número
e disse que você é muito gentil. Quer falar com você.”
Liguei para a dona Nadir. Percebo que é uma voz idosa. “Dona
Nadir, a senhora gosta tanto de futebol assim a ponto de ouvir o CBN
Esporte Clube?” “Não, meu filho, na verdade não
ligo a mínima.” “Dona Nadir, por que a senhora
ouve?” “Meu filho, tenho duas diversões na vida. A
minha netinha de 4 anos e ouvir a CBN das 6 horas da manhã,
que é a hora que eu acordo, até as 10 e meia, a hora
que eu durmo. Estou entrevada numa cama há quatro anos, meu
filho. Por isso para mim são tão importantes os
remédios.” “Ah, Dona Nadir.” Passei a tratar
assim a dona Nadir. Agora, o contraponto dessa história. Tenho
uma tia Nadir. Que está com 92 anos. Surdinha dos dois
ouvidos. É a única viva numa família de seis
irmãos do meu pai. Foi a primeira reitora de uma Pontifícia
Universidade Católica - a de São Paulo - na história
da Igreja. Dom Paulo teve que pedir autorização
especial para o papa. Ela foi reitora eleita pelos alunos,
funcionários e professores. É inteiramente
independente, mora sozinha com uma empregada. Vou vê-la, chego
lá e ela diz assim: “Juquinha, você é mesmo
incorrigível!” “"Por que, tia?” “Você
sabe que não ouço rádio por razões
óbvias, né? Só que agora, todo dia que eu saio
de manhã para caminhar, quando passo na frente do ponto de
táxi, os motoristas brincam comigo: ´O, dona Nadir, não
esqueça de tomar seu remédio, dona Nadir!´ E eu
não entendia nada até que perguntei. ´Mas como a
senhora não sabe? Seu sobrinho todo dia manda a senhora tomar
remédio´. Juquinha, você sabe que tenho uma saúde
ótima! Eu não tomo remédios!” Vou dizer
pra ela que não é ela? Nunca! Fica uma dupla
homenagem!
MARCOS ZIBORDI - O Marcelinho não
está te processando por causa daquela história na
Arábia Saudita?
Estou
esperando ele me processar. Foi em um shopping
lá no mundo árabe
que só podia ser freqüentado por mulheres, e ele foi de
burca...
MARCOS
ZIBORDI - Mas era uma situação em que ele estava
querendo sair do país ou não teve nada a ver com a fuga
dele?
Ele já estava
querendo cair fora. E eu publiquei. Faz três anos que ele está
pra me processar por causa disso. Mas sabe que não pode,
porque imagina quem seja a fonte da notícia e que está
disposta a ser testemunha, entendeu?
MARCOS
ZUBORDI - Tipo a ex, assim?
Não, muito melhor. Muito melhor.
MARCOS
ZIBORDI - Tipo o Ricardinho?
Não, muito melhor. Tipo embaixada brasileira. Você
imagina se a minha fonte é o embaixador do Brasil lá.
Ou alguém do alto corpo diplomático brasileiro no país
em que se deu a coisa e que teve que intervir para que ele saísse.
Complicado, né?
MARCOS ZIBORDI - A história
que ele conta é que sofreu até uma tentativa de
extorsão do vice-cônsul para conseguir sair a partir do
momento em que não queria mais ficar lá. E que diante
dessa dificuldade teve que sair de táxi para um outro país
e então embarcar para o Brasil.
Bom, quem não
tem caráter não tem jeito, né, está na
lama. Entre os aprontos de Marcelinho Carioca na sua aventura árabe
teve essa da burca e ele foi descoberto. Poderia ter sido condenado
até à prisão perpétua, ou coisa que o
valha. Foi aí, e ele sabe, que tiveram que intervir. Uma baita
cagada diplomática e aliviaram.
JOÃO
DE BARROS - Como estão as suas relações com o
Pelé?
Estão
distantes desde o dia do abraço dele no Ricardo Teixeira.
Houve alguns momentos de reaproximação, até
tocantes; tenho carinho por ele, mas a divergência é
insanável. Ele não teve a humildade de reconhecer que
não podia ter feito o que fez. O Pelé foi essencial
para que houvesse a CPI. E os caras estavam de joelhos, sem oxigênio,
e ele foi lá e deu a mão e o oxigênio convencido
por razões de negócios daquele ex-sócio dele,
que Deus o tenha.
NATALIA VIANA - O que o Pelé
fez, um acordão?
Um
acordão com o Ricardo Teixeira, com o João Havelange,
com o ministro Meles no final do governo Fernando Henrique, um acordo
quando ele era a figura mais importante da oposição a
essa gente, e deixou de ser.
NATALIA VIANA - E era o
sócio dele que estava Interessado.
É, negociar,
ter acesso. Eles perdiam muitos negócios. A Pelé
Esportes e Marketing era alijada do mercado por causa da briga do
Pelé com a CBF, com o Havelange, com o Ricardo Teixeira.
HÉLIO ALCÂNTARA - Quem era esse cara, era
o Hélio Viana?
Esse, que tenta vender para os outros
que fomos muito amigos. É claro que tivemos proximidade no
tempo em que o Pelé foi ministro, e sempre digo o seguinte:
“Peguem a Caros
Amigos número 1 e leiam
quando o Trajano me pergunta: 'E esse tal de Hélio Viana, que
é um bicho esquisito?' Leia a resposta: "Tem o physique
du rôle de uma pessoa de
quem eu não compraria um carro usado, mas uma coisa é
inegável: o Pelé confia muito nele”. Fico me
perguntando até que ponto é ingenuidade do Pelé
ter esse tipo de gente perto dele. Porque é uma
sucessão...
SÉRGIO DE SOUZA - Eu não
diria que é ingenuidade...
Pois é, também
não acho que seja, aos 60 anos, né? Aos 22, tudo bem,
aos 30, aos 60 não.
MAURÍCIO REIMBERG -
Você estava falando dos maus cartolas. Existem bons
cartolas?
Não me peça esse nome. Eu não
conheço, não conheço. Você poderá
dizer uma coisa que certas pessoas falam: “Pô, você
é muito radical. Pô, você nega que o Ricardo
Teixeira ganhou duas Copas e disputou a final de uma terceira?”
Cinicamente, posso te dizer o seguinte: “Nego! Ele não
ganhou nenhuma Copa, quem ganhou foi o Cafu, o Rivaldo, o Ronaldo,
ele não joga!”. “Não, mas você
entendeu o que eu quero dizer. Na gestão dele, algum mérito
ele há de ter.” Eu digo que, sem dúvida alguma,
ele dá as melhores condições possíveis
para a seleção brasileira. Tudo o que a seleção
precisa: monta boas comissões técnicas, tudo gente
competente, e sabe fazer o jogo político. E sabe tentar
proteger o Brasil. Tudo isso eu reconheço. Mas te digo: não
é e nem deve ser o objetivo de uma entidade que dirija o
futebol em um país ser campeão do mundo. É ter o
futebol do seu país no próprio país. E pra isso
a CBF não faz nada, ao contrário, a CBF descobriu que
tem a grande grife do futebol mundial, que é a seleção
brasileira, e só pensa nisso. Então, você vai em
uma loja em Madri, em Paris, Londres, Nova York. Buenos Aires,
encontra lá a camisa da seleção brasileira. É
a que mais vende. Você não encontra a camisa do
Flamengo, a do Santos, a do Corinthians. Você encontra a camisa
do Boca Juniors e do River Plate em Londres, Madri, Barcelona, Nova
York, não encontra de nenhum time brasileiro. Só
seleção brasileira. Aí, aquilo que deveria ser
obrigação deles, fazer um futebol aqui que permitisse
que os nossos ídolos permanecessem, não fazem, fazem o
inverso. Você viu, quando estava no vai-não-vai do
Robinho, as declarações. até do Parreira: “Vai
ser bom para o Robinho, vai ser bom para o Brasil”. Então,
esse é o negócio da CBF, baita negócio.
JOÃO
DE BARROS - Vender o artista e comprar o espetáculo?
É
isso. Então reconheço esse mérito, mas acho um
demérito, porque essa é uma política, em última
análise, deletéria para aquilo que interessa. Qualquer
pesquisa que você faça dá que o cara torce antes
para o time dele e depois para a seleção. Até
porque é a maneira de tirar sarro dos outros, o Brasil ganha,
vai tirar sarro de holandês.
(Caros Amigos, http://carosamigos.terra.com.br, ano 10, n. 111, junho/2006, pp. 30-37)