PERFIL
MÃO ABERTA
Infância pobre, ligações
políticas, negociatas polêmicas... Conheça a vida
de Roman Abramovich, que investiu US$800 milhões e tornou o
Chelsea uma potência européia
Ele é o dono de clube com o
qual todo torcedor sonha. Roman Abramovich,
o homem mais rico da Inglaterra, com uma fortuna avaliada em US$14,5
bilhões, já gastou US$800 milhões desde que
comprou o Chelsea em julho de 2003.0 russo de 38 a nos é
venerado pelos torcedores do clube inglês
conhecido como "Blues". Tudo
parece mesmo mais do que azul para o time que manda no Campeonato
Inglês e foi o primeiro a se classificar para as
oitavas-de-final da Liga das Campeões, em que vai pegar o
Barcelona.
Russo agora é chique na badalada King's Road,
em Londres. Ali perto, no estádio de Stamford Bridge, os
alto-falantes saudaram esta revolução
tocando "kalinka" enquanto a
galera exibia chapéus russos típicos, conhecidos como
"shlyapas".
- Eles pararam com a música porque
seria como tocar "Viva Espanha" se o bilionário
viesse de Madri-diz
Trizia Fioreilino, que faz parte de associações
de torcedores e escreve sobre o Chelsea para sites
e o jornal "Irish Examiner".
Trizia, inglesa de origem
italiana, conta para A+ que divide um sentimento com os outros
torcedores do Chelsea:
-É terrível ter que admitir
mas eu não ligo, pouco me importa de onde o dinheiro dele veio
e a maioria das pessoas também não têm idéia
de como ele acumulou a fortuna. Mas ele está limpando nossas
dívidas, construindo um centro de treinamento, enfim,
melhorando as coisas.
DO
NADA AO TUDO
Abramovich começou sofrendo cedo na
vida. Nascido a 24 de outubro de 1966, em Saratov, à beirado
rio Volga, no sul da Rússia, o menino de origem judia perdeu a
mãe aos 2 anos e meio e o pai pouco depois, num acidente de
obra em maio de 1969. O pequeno Roman ficou aos cuidados de tios.
Primeiro com Leib em Ukhta, 1.350 quilômetros a nordeste de
Moscou, a-prendeu noções básicas de economia.
Com Abraão em Moscou, desfrutou de uma educação
exemplar. Como gratidão, depois que ficou rico, equipou a
escola onde estudou com as melhores e mais modernas instalações.
Com
18 anos, ele abandonou os estudos no Instituto Industrial de Ukhta
para servir no exército-por dois anos, como todo russo.
Dominic Midgley e Chris Hutchins sustentam,
na biografia não -autorizada "Abramovich -the
billionaire from nowhere" ("Abramovich - o bilionário
de lugar nenhum"), que os rigores do regime militar ajudaram a
moldar uma "personalidade mais refinada socialmente, mais
independente e auto-confiante".
Aos 20 anos, Abramovich casou
em dezembro de 1987 com Olga, uma loura estudante de geologia três
anos mais velha do que ele. Nesta mesma época, quando o então
líder soviético Mikhail
Gorbachev flertava
com a chamada perestroika e acabou a
proibição sobre a iniciativa privada, Abramovich foi um
dos primeiros a montar um negócio próprio, abrindo uma
fábrica de bonecas. A receita informal com a revenda em Ukhta
de artigos de luxo comprados em Moscou complementava a renda que na
época chegava a4 mil rublos, 20 vezes mais do que o salário
de um trabalhador estatal.
Em 1995, Abramovich fez a parceria
mais bem-sucedida do capitalismo russo, com um aliado de Boris
Yeltsin.
O ano de 1991 foi
fundamental na vida da União Soviética e também
para Abramovich. O império acabou. E além de casar pela
segunda vez, com Irina, uma aeromoça da companhia estatal
Aeroflot com quem tem cinco filhos, ele entrou na "família"
que passou a circular na esfera de poder do presidente Boris Yelstin.
Biógrafos contam que Abramovich também ficou muito
amigo, talvez íntimo demais, da filha de Yeltsin,Tatyana.
Num
encontro num iate em 1995, nascia a parceria mais bem-sucedida na
curta e cruel história do capitalismo russo. Abramovich foi
apresentado a Boris Berezovsky. O aliado de Yeltsin, 20 anos mais
velho e experiente, ficou impressionado com o talento de comunicador
do jovem russo, que confirmava mais uma vez a fama de estar sempre
com as pessoas certas, no lugar certo e na hora certa. Esta
habilidade de identificar novas oportunidades fez de Abramovich um
dos primeiros a conseguir licença para explorar petróleo
num tempo que isso era como uma licença para imprimir
dinheiro.
Em 1995, o governo precisava fazer caixa e inventou o
programa ações-por-empréstimo. Empresas estatais
passavam ao controle acionário de empresários que em
troca davam um dinheiro ao governo. Como não iam receber de
volta, os chamados oligarcas ficaram com as em presas todas para
eles.
Foi seguindo este filão que a dupla
Abramovich-Berezovsky assumiu o controle da gigante de petróleo
Sibneft, pagando US$225 milhões no esquema “ações
por empréstimos” quando o valor de mercado era US$2,8
bilhões. Em 12003, a empresa estava avaliada em US$15 bilhões.
Abramovich também investiu em alumínio e comunicações
antes de se desfazer da maioria dos seus negócios na Rússia
e se mudar para a Inglaterra.
QUESTÃO
DE ESTILO
As privatizações na Rússia
foram um xadrez de oportunidades e não há dúvida
de que Abramovich foi sempre um mestre em adivinhar o próximo
movimento. Como diz a biografia: "Ninguém fica bilionário
em menos de dez anos sem cortar uns atalhos".
Uma das
revelações do livro é de que Abramovich
entrevistou todos os candidatos ao gabinete do então
primeiro-ministro Vladimir Putin, em 1999. Também liderou a
criação do partido da Unidade
e foi o principal arrecadador de fundos para a eleição
de Putin à presidência em 2000.
Nem todos os
oligarcas tiveram o mesmo destino de Abramovich ou Berezovsky,
auto-exilado na Inglaterra após ser forçado a vender
sua parte na Sibneft por preço abaixo do mercado para o
ex-parceiro, com quem acabou brigando. Outro barão do
petróleo, Mikail Khodorkovsky, ex-homem mais rico da Rússia,
está preso e sendo processado por fraude no império
falido da outra gigante russa do petróleo, a Yukos.
Abramovich
tem um apartamento em Londres e uma casa de campo, FyningsHall, numa
área de 1,8 km2
em Sussex, comprada por US$23 milhões do magnata australiano
Kerry Packer. Possui ainda o Chateau de
Croe, um castelo de US$54 milhões em Cap d'Antibes, no sul da
França. A propriedade já pertenceu ao milionário
grego Aristóteles Onassis,
ao rei Henrique VIII lê sua mulher americana divorciada Wally
Simpson e recebeu visitantes ilustres como
Winston Churchill. Na dacha
que tem em Moscou, as estantes trazem
livros falsos que não passam de volumes decorativos, com
títulos na capa mas vazios por dentro.
Ele tem aviões,
helicópteros mas é no mar que Abramovich reina
absoluto. Um dos seus três iates, o Pelorus, custou US$100
milhões. Vem com equipamento antimíssil,
vidros à prova de bala, acomodação para 20
hóspedes, cinema, sauna e piscina.
Empregados e seguranças
viajam em embarcações adicionais mais modestas. Com os
iates equipados com toda tecnologia, um empresário pode
comandar seu império de águas internacionais, como se
estivesse em Londres ou Nova York.
Durante a Eurocopa
de 2004, a presença do iate de Abramovich era uma das atrações
das docas de Lisboa. Curiosos e a mídia chegavam perto, mas o
máximo que conseguiam ver era o vai-e-vem de entregas. Até
a BBC, que tinha cedido o sinal de sua transmissão para o
barco do bilionário russo, não conseguiu uma cena
sequer lá de dentro.
Abramovich não fala inglês
nem dá entrevista. Quem já conseguiu chegar perto dele
nota que prefere discutir negócios relaxado num sofá do
que na formalidade das mesas de gabinete. Adota o estilo
descontraído, de jeans,
camisa sem gravata e paletó solto. Nos estádios, está
sempre cercado de guarda-costas mas aceita dar autógrafos
sorridente. Tem uma suíte executiva
mas são tantos os amigos russos que já ofereceu pagar
quase US$6 milhões por um dos camarotes ao lado.
EM
BUSCA DA FAMA
Os biógrafos de Abramovich acham
que ele resolveu comprar o Chelsea para se divertir. Acontece que,
depois dele, o futebol nunca mais será o mesmo. Em julho de
2003, com o clube à beira da falência, Abramovich surgiu
das estepes, pagou a dívida do clube de US$154 milhões
e comprou o resto das ações por US$115milhões.
Tudo
o que o novo patrão tinha a dizer veio neste comunicado:
-
Estamos contentes com o acordo para comprar o que já é
um dos grandes clubes da Europa. Temos os recursos e a ambição
para conseguir ainda mais por causa do grande potencial deste
clube.
Ken Bates, que fechou o negócio com o russo e
faturou US$32 milhões com a venda de suas ações,
foi mais descontraído:
-Qualquer pessoa que enche um barril
de petróleo por US$1,70 e vende a US$20 merece meu
respeito.
Apenas no primeiro ano, o Chelsea gastou US$200 milhões
só em novos jogadores.
-Sem o dinheiro dele, o panorama do
mercado há um ano e meio seria bem diferente. Ele foi
responsável por 60% das transações-esclarece
para A+ Dan Jones, diretor da consultoria especializada em futebol
Deloitte&Touche.-Ele
botou o Chelsea no topo não só na Inglaterra como na
Europa, particularmente com a chegada do técnico José
Mourinho. As quantias que ele investiu são
altas, mas, se você comparar com a fortuna que tem, não
chega a ser tanto assim.
Dan adverte que a fórmula de achar
um bilionário não é saída nem modelo para
ser seguido por clube algum:
- É uma idéia
completamente insustentável planejar um clube para alguém
como um Abramovich assumir. Você não pode administrar na
suposição de que um cara como ele vai surgir
e injetar dinheiro. Se alguém for sortudo
o suficiente de achar alguém como ele, a opção
mais segura é garantir que este benfeitor fique ligado ao
clube por muito tempo.
Abramovich certamente ficou tentado pela
fama que o futebol traz, pela atração de aparecer na
TV, de virar celebridade mesmo que
silenciosa, pelo orgulho de estar em um time ganhador. O executivo da
Deloitte & Touche justifica:
-Se ele quisesse uma vida
tranqüila, não tinha comprado
um clube de futebol. Comprar o Chelsea também permitiu
diversificar o domicílio de parte de seus bens. Muitas das em
presas do Chelsea Village que ele
incorporou ao assumir o clube estão espalhadas em países
que vão de Chipre às l lhas Samoa
e Maurício, além de paraísos fiscais como Ilhas
Cook, Virgens e Guernsey.
Como
bilionário bem-sucedido, Abramovich está fazendo tudo
certinho para transformar o Chelsea numa
nova força do futebol mundial. A contratação de
Peter Kenyon para
diretor executivo garante a experiência do empresário
responsável pelo sucesso comercial do Manchester United e
pelas parcerias com a Nike e a Vodafone.
Na temporada que vem, Kenyon traz para o Chelsea o patrocínio
da Nike e da empresa de telefonia francesa Orange.
Para
a temporada 2004/05, foram gastos mais US$180 milhões em
jogadores. Porém, se o Chelsea ganhar o sonhado Campeonato
Inglês, esta conquista teria um sabor mais artificial do que
especial?
Mathew Holt, pesquisador do Centro de Governança
do Futebol em Birbeck Collegue, na Universidade de Londres, alerta
que um possível título do Chelsea nunca poderá
ser comparado a clubes que têm uma longa história no
futebol mundial, como por exemplo Manchester United e Real
Madrid.
Fundado há cem anos, o Chelsea conquistou
apenas um Campeonato Inglês, em 1955
-Se o Chelsea
alcançar o sucesso, será sem este elemento de romance,
porque este sucesso foi bancado pela riqueza de um indivíduo
-raciocina o pesquisador.
Conseguir o que seria apenas o segundo
título da história do clube no ano do centenário
é o objetivo atual de Abramovich. O Chelsea até hoje só
venceu o Campeonato Inglês de 1955, exatamente há meio
século.
Como governador da região de Chukokta, o
bilionário russo construiu escolas, hospitais, shoppings.
No melhor estilo populista, pagou férias para as crianças
no Mar Negro. Agora, espera ser coroado rei
no país que inventou o futebol antes de entregar a coroa
do clube para o filho, Arkady, daqui a dez anos.
CRONOLOGIA
1966
Roman
Abramovich nasce em Saratov, à beira
do rio Volga, no sul da Rússia
1969
Fica
órfão depois de perder a mãe e em seguida o pai
num acidente de trabalho
1984
Larga os estudos no Instituto
Industrial de Ukhta para servir no Exército durante dois
anos
1987
Casa-se com Olga, 23,
uma estudante de geologia três anos mais velha do que
ele
1991
Casa-se pela segunda vez, com Irina, então
aeromoça da companhia estatal russa Aeroflot
1995
Conhece
Boris Berezovsky
e juntos assumem a Sibneft, faturando com
privatizações na
Rússia
1999
Eleito membro da Duma, o Parlamento
Russo, representando a região de Chokokta
2001
É
eleito governador da província de Chokokta,
onde exerce um mandato populista e
polêmico
2003
Decide comprar o Chelsea
e comanda todos os seus negócios a partir da Inglaterra
HISTÓRIAS
REAIS
Bilionário anda com 30 guarda-costas
SEGURANÇA. A palavra que
mete tanto medo nos brasileiros é também o maior
tormento de Roman Abramovich. Ao todo, ele tem 30 guarda-costas. Na
Inglaterra, são na maioria ex-soldados da SAS (o grupo de
elite Special Air Service).
Na Rússia, ex-agentes da KGB. Antes de cada deslocamento,
agentes vasculham todo o roteiro, checando os postos de polícia
e hospitais próximos.
-Ele leva segurança muito a
sério. Ao ficarem ricos, fizeram muitos inimigos e o medo de
assassinato ou seqüestro é
real-diz uma fonte próxima ao bilionário russo.
DITO
E FEITO
"Eu não fiquei
contente porque tudo foi feito sob pressão. Abramovich disse
que, se eu não vendesse, (Vladimir)
Putin ia destruir a companhia".
EX
PARCEIRO BORIS BEREZOVSKY, SOBRE A VENDA DE AÇÕES NA
SIBNEFT
"Nós somos amigos próximos, mas
Berezovsky não me ajudou. Ele ajudou a si mesmo"
ABRAMOVICH
SOBRE BEREZOVSKY
"As pessoas falam sobre Abramovich como
se ele fosse uma espécie de mafioso, mas ele está
apenas mostrando a mesma habilidade que os homens de negócio
proclamam na City"
PORTA-VOZ DA
SIBNEFT, JOHNMANN II, SOBRE O PATRÃO
"Riquezas
naturais devem ser controladas pelo Estado, por todos os russos, não
por um Roman Abramovich. É errado colocar o interesse de uma
indústria acima do
Estado"
VLADIMIRYUDIN,VICE-PRESIDENTEDADUMA, O PARLAMENTO
RUSSO
"Eu não quero ser demitido, todo mundo sabe
que Abramovich não bebe ou apronta, portanto ele não
ficaria contente e acabaria sabendo porque tem um tremendo serviço
de inteligência por trás"
JOGADOR NÃO
IDENTIFICADO SOBRE A MUDANÇA DE COMPORTAMENTO DO TIME
"Ele
não fala muito, só cumprimenta as pessoas e procura não
interferir nas conversas sobre o time. Ele só quer mostrar
interesse e torcer pelo nosso sucesso"
GUDJOHNSEN, ATACANTE
DO CHELSEA E DA SELEÇÃO DA ISLÂNDIA, SOBREO
HÁBITO DE ABRAMOVICH DE VISITAR O VESTIÁRIO AO FIM DE
CADA JOGO
"Ele quer vencer e tento explicar para ele
minha filosofia de montar um time vencedor. Ele é sempre
bem-vindo, os jogadores em geral gostam de encontrar com ele. Está
sempre presente e é muito empenhado"
JOSÉ
MOURINHO, TÉCNICO
SOBE
PERFIL
IDEAL - Abramovich é descrito pelo autor Dominic Midgley como
"sorridente e informal, sempre pronto
para perceber uma oportunidade de negócio; astuto e
paciente".
MAIS GRAÇA – A chegada de um
dirigente que não precisa se preocupar com custos e a montagem
de um time para competir de igual para igual com o Arsenal e o
Manchester United,
acabando com a hegemonia dos dois clubes vermelhos, tornaram o
Campeonato Inglês mais empolgante e imprevisível.
LOUCO
POR ESPORTE - O russo, além de torrar dinheiro no Chelsea,
gasta US$10 milhões por ano com o seu time de hóquei, o
Avangard Omsk, e ajuda o CSKA Moscou (que contratou Vagner
Love no ano passado) com um generoso
patrocínio anual da Sibneft, de US$18
milhões.
DESCE
ABANDONO-
Muitos russos criticam Abramovich porque ele enriqueceu e levou o
dinheiro dele embora do seu país natal. "Eu não
gosto dele. Fez sua fortuna e se mandou", diz a russa Olga,
residente em Londres.
VANTAGEM - Ninguém sabe até
hoje por que o consórcio FNK, encabeçado por Abramovich
e Berezovsky, venceu o leilão para ficar com a Sibneft com um
lance de US$225 milhões, enquanto o rival Uneximbankera
recusado, apesar de oferecer US$ 443
milhões, quase o dobro.
ALERTA- Um inquérito acusa
Abramovich de deixar o governo de Chukokta falido depois das
melhorias que fez na região. A dívida de US$328 milhões
é mais do que o dobro da receita e a Sibneft teria recebido
benefícios fiscais de US$500 milhões na região
mais remota do leste da Rússia.
*PEDRO
REDIG é jornalista, MBA em Futebol pela Universidade de
Liverpool e ex-editor da Rede Globo em
Londres
(Lance! A+, Lance!, ano 5,
número 228, 15 a 21 de janeiro de 2005, pp.
12-18)