FUTEBOL
NUVEM
DE SEGREDOS
Por
52 milhões de dólares o tradicional clube brasileiro
SC Corinthians Paulista comprou grandes jogadores da Europa e da
Argentina. De onde vem o dinheiro bendito, contudo, os investidores
não podem desprezar. A Promotoria Pública desconfia da
Máfia Russa - e por causa de lavagem de dinheiro, está
averigüando.
O jovem iraniano,
com a camisa de seda aberta, age estranhamente na tribuna de honra do
Estádio do Pacaembu, o local de jogo do SC Corinthians em São
Paulo. Futebol não é seu mundo, no intervalo Kia
Joorabchian, 33 anos, prefere se juntar mais às modelos e aos
ricaços emergentes na metrópole de dez milhões
de pessoas.
Mesmo assim o público o exaltava alegremente.
"Kia, Kia, Estádio, Estádio!", gritam os fãs
quando ele se deixa ver durante um jogo - em inglês, porque
Joorabchian só fala umas poucas palavras em português.
Eles exigem um estádio novo, que lhes foi prometido.
Desde
o final do ano passado, o esperto "yuppie" domina o
segundo mais popular clube de futebol do Brasil. Joorabchian comprou
uma série de jogadores de elite, e, com sua ajuda, o Timão
se tornou um super time, pois o iraniano é considerado um
"gnomo corintiano" pelos torcedores, que querem ser
campeões brasileiros: os Argentinos Carlos Tevez (Boca Júnior)
e Sebastián Domínguez (Newell's Old Boys), como também
os brasileiros, Carlos Alberto (FC Porto), Roger (Benfica Lisboa) e
Gustavo Nery (Werder Bremen).
Mais recentemente, Joorabchian
contratou o ex-treinador Daniel Passarella da seleção
nacional Argentina.
Os US$52 milhões de investimento no
novo pessoal, - sozinho o galáctico Tevez teria custado US$
22,5 milhões -, inverteram a tendência na queda da
qualidade do campeonato nacional brasileiro, que sofre com o mal
crônico dos clubes durante a última década: as
equipes mal chegam ao final de cada temporada e seus melhores
talentos deixavam o país, atraídos pelos ricos clubes
europeus.
Agora, a indústria do futebol registra com
surpresa que o SC Corinthians busca os profissionais da Europa ou
importa estrelas da Argentina.
O dinheiro parece não ser
nenhum problema, porque Joorabchian opera com o capital da empresa
Media Sport Investments (MSI), que entrou como sócia
empresarial no Corinthians.
Estranhamente, Kia Joorabchian não
quer dizer de onde vêm os milhões da MSI: "Os
investidores não gostariam de ver seus nomes na imprensa".
Este repentino "dinheiro bendito" – pois até o
final do ano Joorabchian deseja por mais US$40 milhões na
"globalização do Corinthians" - , está
despertando o interesse da Promotoria Pública.
Investigadores
de uma tropa especial para combater o crime organizado rastrearam o
dinheiro em New York, no Caribe, no Reino Unido e no Cáucaso.
Eles têm a suspeita de que os milhões vêm da Máfia
Russa.
"A transferência de estrelas de futebol é
ideal para a lavagem de dinheiro", diz o Promotor Público
José Reinaldo Guimarães Carneiro. "Com o monopólio
de jogadores, a origem dos milhões pode ser facilmente
apagada". Estaria o Corinthians, clube de tradição
Brasileira, favorito do Presidente Lula da Silva e de milhões
de brasileiros, arruinando-se como uma agência de troca de
dólares sujos da antiga União Soviética? Os
sinais indicam isto. O Brasil e Argentina se oferecem para transações
obscuras: a maioria dos clubes está em dificuldades
financeiras, os funcionários das associações
suscetíveis a negócios obscuros. A justiça
funciona lentamente e com dificuldades, as leis para a proteção
anti-lavagem de dinheiro não são suficientes.
"Para
Russos ricos que querem limpar seus milhões e que estão
interessados em futebol, o passo para a América do Sul é
pura lógica", diz o respeitável jornalista
desportivo Juca Kfouri. "Como "gangsters", os novos
investidores caem em cima do Corinthians", reclama o
vice-presidente Antonio Roque Citadini, o líder da oposição
interna.
Os promotores públicos estão interessados,
acima de tudo, em uma das viagens dos dirigentes do Corinthians, em
agosto de ano passado. Joorabchian organizou a comitiva. O velho
patriarca do clube, Alberto Dualib, 80 anos, teve os participantes
escolhidos a mão. Em Londres, eles comeram magnificamente com
o bilionário russo Boris Berezowski, que a princípio
rejeitou uma participação financeira, de acordo com
Joorabchian: "Ele está interessado, talvez participe mais
tarde." Afinal de contas, Berezowski prometeu construir um
estádio novo para os corinthianos.
Além disso, o
oligarca apresentou a delegação co-brasileira ao
georgiano e sócio de negócios - contra quem existe um
mandado de prisão em Moscou -, Badri Patarkatsischwili, um
bilionário entusiasta de futebol, a quem pertence a metade da
Geórgia e também entre os negócios o recordista
Dynamo Tiflis. Com o jato particular de Berezowski a comitiva voou de
Londres para o Cáucaso.
Várias vezes, os dirigentes
do Corinthians se encontraram com Patarkatsischwili nessa residência
luxuosa, denominado Palácio de Casamento. Inicialmente, eles
fecharam um acordo com Dynamo Tiflis a respeito da troca de
jogadores, pois Patarkatsischwili também está
interessado em um "investimento futuro" no clube de
tradição sul-americana, enfatiza Joorabchian.
Alberto Dualib, o presidente do Corinthians, está
entusiasmado com os novos amigos. "Eles nadam no dinheiro",
exaltou ele depois de seu retorno. Joorabchian prometeu para ele uma
injeção milionária de recursos para cobrir a
enorme dívida do clube, se ele aceitasse a MSI como sócia.
Ele transformará o clube em uma variante sul-americana dos
“Galácticos” do Real Madrid, prometeu o iraniano.
Contra resistência na direção do clube, Dualib
lutou pelo contrato. Desde então, o clube está dividido
em duas partes irreconciliáveis.
Conselheiro do
Corinthians, Romeu Tuma, ex-parlamentar e ex-chefe da Interpol de São
Paulo, colocou o serviço secreto contra a misteriosa
companhia.
Ele enviou à Promotoria um dossiê com
3000 documentos sobre os supostos investidores. "Todos têm
contatos com a Máfia", pensa ele.
Enquanto isso, os
Promotores Públicos traçaram um quadro singular sobre o
objeto empresarial da MSI. Eles crêem que as empresas com
dinheiro quente vêm da Europa Oriental, Rússia ou do
Cáucaso, comprando os profissionais de futebol para o
Corinthians, os quais só jogam alguns meses lá para
serem vendidos novamente. Até mesmo se a MSI alcançasse
um valor menor na revenda, seria um excelente negócio: Na
transferência, o dinheiro sujo seria trocado por dinheiro
limpo, dólar ou Euro. O destino atual dos jogadores do
Corinthians é a Europa, de acordo com o Promotor Público
Guimarães Carneiro.
O fim poderia ser o FC Chelsea que
pertence a outro conclave russo: Roman Abramowitsch, um ex-sócio
empresarial de Boris Berezowski.
O super jogador "Carlitos"
Tevez, como informa o jornal "O Estado de S. Paulo", deverá
ser trocado até o próximo ano com o Chelsea.
Joorabchian teria acertado o retorno do jogador brasileiro Vágner
Love do CSKA.
109 BRASILEIROS JOGAM NA LIGA PRINCIPAL
EUROPÉIA
ESPANHA – Primeira Divisão
– 28
ALEMANHA – Liga Principal – 26
FRANÇA
– Primeira Liga – 25
ITÁLIA – Séria
A – 24
INGLATERRA – Primeira Liga – 6
DE
MOSCOU PARA SÃO PAULO. Abramowitsch, que no final de 2004 com
seu iate "Le Grand Bleu" ancorou por dias na baía de
Rio de Janeiro e se deixou escoltar em um passeio pelo país
por ex-agentes da KGB, como grande benfeitor do antigo Clube
Desportivo do Exército CSKA.
A Promotoria Pública
suspeita então que o Corinthians serve como estação
de transferência dentro do império de Abramowitsch.
Joorabchian afirma, pelo contrário, não ter "nenhuma
ligação com Abramowitsch".
O presidente do
Corinthians, Dualib, desmentiu ao ser interrogado pelo Promotor
Público que oligarcas da antiga União Soviética
estivessem por trás da suspeita MSI.
O "ENGANO"
- Após a viagem para Tiflis ele havia chamado Berezowski e
Patarkatsischwili de sócios - sendo conduzido a um engano de
interpretação. Contudo, as indicações de
que pudesse ser diferente são consideráveis.
O
iraniano Joorabchian já agiu uma vez como um testa de ferro
para um grande investidor russo: há seis anos ele comprou o
jornal russo "Kommersant" por ordem de Boris Berezowski.
Desde então, Berezowski tem confiança nele como um
grande talento empresarial.
Filho de uma família de
exilados que depois da queda do Xá (Reza Palevi) tinha fugido
para a Inglaterra, possuindo um passaporte britânico; em
Londres ele está registrado como sócio de nove
empresas. O certo é que ele estudou Química e Economia
e lidava com limusines Mercedes na empresa de seu pai.
No contato
com o Corinthians, produziu, como uma cintilante figura do meio
futebolístico brasileiro, Renato Duprat. O arrojado
empresário, um ex-sócio empresarial do herói
nacional Pelé, que supostamente tem enganado mil investidores
numa seguradora de saúde (Unicor) somente para obter o
dinheiro deles, e então refugiou-se em Londres onde conheceu
Joorabchian. Antes o iraniano tinha tentado entrar no negócio
com outros clubes, porém sem sucesso.
Hoje, Joorabchian
reside no décimo andar de um edifício da mais nobre
região de São Paulo. A empresa MSI comprou quase o
andar inteiro. O executivo parece constantemente tenso, ele colocou
quatro celulares na mesa de conferência. Ele se sente
perseguido pelos opositores da parceria com o Corinthians.
"Isso
é um pequeno grupo, que conduz uma campanha política
contra mim". A propósito, as investigações
da Promotoria Pública contra ele seriam "completamente
ilegais".
No fundo, ele crê que na competência
da Polícia Federal: "Mas não existe nada contra
mim". A MSI do Brasil foi estabelecida especificamente para a
transação com o Corinthians, o capital inicial, por
engano, foi somente de R$1000,00 (mil reais), aproximadamente 300
Euro. Os donos são três off-shores sediadas nas Ilhas
Virgens Britânicas e em Londres.
Como gerente foi designado
um brasileiro, que confessou diante do Promotor Público que
não tem nenhuma idéia de onde vem o dinheiro para os
negócios da MSI. "Ninguém entende a contabilidade
desta companhia", diz o Promotor Guimarães Carneiro.
A
transação mais importante do MSI foi a compra do
cortejado argentino Tevez, atleta cujos direitos também
pertencem ao Bayern München, envolveu-se numa "nuvem de
segredos", de acordo com o Promotor Público. Segundo
Joorabchian, a empresa adquiriu o jogador por US$22,5 milhões,
porém no contrato a soma legítima é de somente
US$16 milhões.
O dinheiro veio de várias empresas
de off-shore e foi depositado em uma conta do Boca Juniors na agência
de um banco canadense na cidade de New York.
Um empresário
iraniano amigo de Kia liberou o dinheiro por e-mail - assim a origem
dos milhões pôde ser apagada facilmente. Entretanto, a
transferência mais cara da história do futebol
brasileiro provavelmente infringe leis contra lavagem de dinheiro,
pois toda remessa deveria ser registrada no Banco Central
brasileiro.
Na direção do clube surge agora a
crescente desconfiança contra a MSI e o iraniano, pois os
supostamente ricos investidores informam aos empregados do clube que
teriam pago prontamente só pela compra de jogadores. Até
agora o clube espera ansiosamente pelos pagamentos prometidos para as
despesas correntes.
Joorabchian, por seu lado, desmente que a
empresa tenha gasto aproximadamente US$7 milhões em salários
e despesas. Assim como surpreendentemente é o fato de, no
começo do ano, o jogador brasileiro Gustavo Nery só ter
sido adquirido em empréstimo do Werder Bremen para São
Paulo. Os Hanseaten requereram aproximadamente US$1,5 milhão
de dólares uma soma que os corinthianos não queriam
pagar. Agora, no verão, deverá ser negociado
novamente.
Aparentemente Joorabchian confia que a gigantesca
torcida corinthiana tire seus olhares dos negócios obscuros
voltando-se para as novas contratações de jogadores
para o clube se fizerem muitos gols e conquistarem a Copa do
Brasil.
Aparentemente despreocupado das acusações, o
iraniano planeja agora um novo golpe: esteve semana passada em
conversações no Rio de Janeiro com a diretoria do Clube
de Regatas Flamengo, o mais popular no futebol do Brasil.
Se a MSI
também adquirir o Rubro-Negro, que está em difícil
crise de jogadores e de finanças, Joorabchian e seus sócios
desconhecidos teriam posse dos dois clubes mais importantes do Brasil
- e o negócio com as transferências de jogadores poderia
ser dobrado.
Jens Glüsing
(DER SPIEGEL, “Wolke von Geheimnissen”, www.spiegel.de, 18/04/2005)
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DER SPIEGEL, 18/04/2005: “Wolke von Geheimnissen”.