NOTÍCIAS – 17/12/2005
FUTEBOL
Futebol em Pasárgada
JOSÉ
GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA
O futebol é
um instrumento de opressão ou de libertação?
Depende do uso que dele fazem seus praticantes, seus dirigentes, seus
aficionados, e também os grupos políticos, a mídia
etc.
O futebol, como esporte de massas, é um acervo
simbólico de valores e afetos que pode ser apropriado para os
mais diferentes fins, mas quase nunca de forma unívoca. Cada
um extrai do jogo o que quer.
O papo está muito abstrato?
Pois bem, vou dar um exemplo. Lembram-se de quando um dirigente do
Corinthians escarneceu de seus colegas do Internacional de Porto
Alegre, dizendo que "umas pessoas circulam de Mercedes, enquanto
outras vão andar de ônibus a vida inteira"?
Ao
dizer isso, o cartola corintiano, em primeiro lugar, desrespeitou a
imensa maioria dos torcedores de seu clube, que são de origem
popular, "maloqueiros e sofredores, graças a Deus",
como diz um de seus hinos.
Mais que isso, o dirigente alvinegro
endossou uma ideologia muito em voga, aquela que valoriza um
indivíduo pelo que ele possui, não pelo que ele faz.
Andar de Mercedes seria atributo de alguém superior a quem
anda de ônibus.
Uma atitude análoga à do
cartola corintiano foi a do jogador (ou ex-jogador?) Djalminha,
craque e filho de craque, que durante uma partida provocou um
adversário de time pequeno dizendo: "Meu salário é
20 vezes maior que o seu", ou coisa parecida.
Mas essas
atitudes estúpidas, a meu ver, colidem de frente com o que o
futebol tem de mais belo, que é seu potencial de libertação,
de emancipação, ao menos no plano simbólico
-que, como sabemos, é uma dimensão nada desprezível
da realidade social.
Entre todos os esportes, o futebol é o
que mais propicia a inversão das estruturas de dominação
vigentes no mundo. É um dos poucos terrenos em que o baixinho
pode derrotar o grandalhão, o pobre quase sempre supera o rico
e o iletrado eventualmente ludibria o doutor.
Isso acontece entre
indivíduos, entre classes, entre nações. No
campo de futebol, um país pobre como o Brasil vence potências
econômicas como os EUA, a Alemanha, o Japão.
Num time
de empresa, freqüentemente o craque do time é um
trabalhador subalterno, que dentro de campo dá ordens e
broncas em seus superiores executivos.
Dentro das quatro linhas,
as hierarquias se invertem, como no mítico "país
da Cocanha" ou na Pasárgada cantada pelo poeta. São
mundos imaginados, utópicos, mas isso não tira deles
seu poder de nos fazer pensar e sonhar.
Claro que o fenômeno
é ambivalente. Assim como acontece com o Carnaval (outra
subversão temporária dos códigos e estruturas
vigentes), há quem queira reduzir o futebol a uma apaziguadora
válvula de escape, para que, findo o jogo, opressores e
oprimidos voltem a cumprir seus papéis e a reproduzir o
sistema.
Talvez um dia mereçamos que a festa continue após
o apito final.
TRICOLOR
EM TÓQUIO
Amanhã o São Paulo
entra em campo para tentar o feito inédito de ser o primeiro
clube brasileiro tricampeão do mundo. Não vai ser nada
fácil. O Liverpool está tinindo, sem tomar gol desde
outubro, enquanto o São Paulo parece despertar lentamente de
uma longa letargia. Se estiver bem acordado amanhã, com os
nervos no lugar, e se o Liverpool deixar a autoconfiança
descambar para o salto alto, são grandes as chances
tricolores. Se os dois clubes jogarem como jogaram suas últimas
partidas, os Reds devem levar seu primeiro título para casa.
Dica de palpiteiro de botequim: não pode deixar os ingleses
cruzarem bola alta na área para o grandalhão Crouch. E
nem deixar mais de um palmo de espaço para o extraordinário
Gerrard aprontar das suas.
(Folha de S. Paulo, Folha Esporte, 17/12/2005)