NOTÍCIAS – 05/12/1005


O iraniano prometeu. E cumpriu


Há um ano, Kia falava que o Corinthians seria o "number one". Foi mesmo. E mostrou que a história do Timão tem um antes e depois dele

COSME RÍMOLI


Um iraniano de 33 anos incendiou o Corinthians em 2005. Kia Joorabchian viu no futebol brasileiro administrado por amadores a possibilidade de multiplicar os milhões de dólares do fundo de investimento MSI. E desde que conseguiu a aprovação da parceria fez uma promessa que cumpriu. Misturando português e inglês jurou: "Corinthians vai ser 'the number one' (o número um)."

Kia teve o trabalho facilitado no Corinthians porque a administração Alberto Dualib devia mais de R$ 70 milhões no final do ano passado. Acertar com o dirigente foi fácil. Difícil foi enfrentar a oposição, que não queria o acordo, e as inúmeras acusações e investigações.

"Esse cidadão veio ao Brasil lavar dinheiro da máfia russa. Ele é testa-de-ferro do mafioso Boris Berezovski", cansou de acusar nos microfones o deputado estadual Romeu Tuma Júnior.

Tuminha conseguiu um relatório da Interpol e o levou ao Ministério Público com dados pessoais sobre Kia. A Receita Federal também passou o ano investigando as contratações da MSI, que passaram de R$ 160 milhões.

"Investigaram, investigaram, investigaram e não acharam nada. Me fizeram sentir como um criminoso à toa, sem motivo. Mas não fiquei assustado, não. Percebi que pessoas que estavam acostumadas a usar o Corinthians estavam por trás dessas acusações. Não fugi e muito menos abandonei o meu projeto", responde Kia.

As investigações ainda continuam, mas a revolução que o iraniano fez no futebol corintiano é inegável.

"Que clube brasileiro poderia sonhar em contratar Tevez, Mascherano, Carlos Alberto, Roger, Gustavo Nery ? Todos atletas de altíssimo nível que estavam no Exterior. Só a nossa parceria com a MSI", resume o vice-presidente e braço direito de Kia, Andrez Sanches.

Durante o ano, a relação entre Kia e o presidente Dualib se desgastou. O pivô foi a neta do presidente Carla Dualib. Ela começou os contatos com a Samsung para patrocinar a camisa corintiana. "A negociação já tinha sido encerrada com a Samsung do Brasil. Eu fui para a Inglaterra e fechei uma nova transação com a sede da Samsung."

Kia não quis pagar os 10% que a agência de Carla estava acostumada a cobrar do Corinthians. A partir daí, Dualib fez tudo para tentar tirar Kia do comando da MSI no Brasil. Chegou até a ir para a Europa. Visitou investidores do fundo de investimento. Mas não conseguiu abalar o prestígio do iraniano.

"Agora a nossa relação é meramente profissional", diz o iraniano. Assim que chegou ao Parque São Jorge, Kia e Dualib trocavam abraços e beijinhos. Atualmente, mal apertam as mãos.

A parceria entre a MSI e Corinthians tem duração de dez anos. A empresa tem 51% do poder de decisão no futebol. Ou seja: decidirá o que fazer até 2015. Kia pretende ficar 'só' alguns anos em São Paulo e deverá passar o seu cargo para um sucessor que também virá do Exterior.

"Antes, eu quero ganhar muitos títulos com o Corinthians", diz Kia.

(Jornal da Tarde, Esportes, 05/12/2005, p 20)