NOTÍCIAS – 05/12/2005
Por Leonor Macedo
Foi
justamente um Campeonato Brasileiro que me tornou a corinthiana que
sou. Se todo corinthiano nasce corinthiano, é na infância
que se define se ele será um corinthiano de arquibancada, que
ri, chora, sofre e não desiste de torcer mesmo com tantos
obstáculos que enfrentará ao longo de uma vida
alvinegra.
Eu tinha oito anos em 1990, quanto o Corinthians
ganhou o primeiro título nacional, depois de 80 anos de
existência. Importante frisar que não são títulos
que determinam o grau de corinthianismo, mas a maneira como ele é
conquistado. Vide os 22 anos de fila que terminaram na conquista do
Campeonato Paulista de 1977, período em que a Nação
Corinthiana só aumentou.
Assim se fez em 1990. Time
limitado, camisa 10 e goleiro corinthianos, raça, base do
terrão, improviso, campeonato bagunçado, juventude.
Torcida quente, suada, vibrante, pulsando na arquibancada. Bandeiras
de bambu. Bateria. Fogos. Hino do Corinthians. Coração
de criança, amor maduro de adulto, de quem sabia que é
para sempre. E é.
De lá para cá, muita
coisa mudou. O Corinthians conquistou mais títulos
brasileiros, o título de Campeão do Mundo, inúmeros
campeonatos paulistas. Não me lembro de ter ficado mais de
dois anos sem ver meu time campeão em algum torneio. Ontem, 4
de dezembro de 2005, o Corinthians ganhou seu quarto título
nacional. É tetracampeão brasileiro.
Depois que
cresci, foi 2005 o ano mais difícil para se torcer no Brasil,
mesmo com o Estatuto do Torcedor completando seu 2º aniversário.
Troca de comando no 2º Batalhão de Choque da Polícia
Militar de São Paulo, parceria obscura atuando junto com a
direção do Corinthians, escândalo do apito,
descumprimento do Estatuto, anulação de jogos,
repressão policial.
Coincide com o ano em que mais
vivi futebol, deixei de lado a minha ingenuidade de criança e
fui muito além das arquibancadas. Procurei os bastidores desse
mundo, mas sob a ótica mais bonita e mais sofrida que se pode
ter: a do torcedor. Olhar do povo.
Quinze anos após o
primeiro campeonato nacional alvinegro veio o quarto. Time
“galáctico”, contratações
milionárias, adversários limitados, camisa 10 argentino
(raçudo, diga-se de passagem, mas raça que vem de
berço, da infância sofrida na periferia da Argentina),
fruto de uma parceria firmada entre a diretoria do Corinthians e uma
“empresa” russa-inglesa-fantasma.
Firmada no fim
de 2004 e início de 2005, a parceria entre Corinthians e MSI
está sob investigação do Ministério
Público Federal já que o dinheiro é proveniente
de financiadores procurados por polícias mundiais e indiciados
por golpes estatais, homicídios, formação de
quadrilha, tráfico de armas, envolvimento com a máfia
russa, entre outros crimes que extrapolam qualquer geografia.
Que
o dinheiro é sujo e que o Corinthians serve para lavá-lo
ninguém mais duvida, nem discute. Foi provado pelo Grupo de
Atuação Especial de Repressão ao Crime
Organizado (GAECO), órgão do Ministério Público
Estadual de São Paulo, depois da investigação
feita pelos competentes promotores públicos Roberto Porto e
José Reinaldo Carneiro (ao contrário de outro que quer
aparecer sob os holofotes do futebol), os mesmos que desvendaram o
esquema do apito, onde árbitros vendiam resultados de
partidas.
O que se discute agora é se vale qualquer
coisa para ser campeão. E como o futebol é uma metáfora
para o resto do mundo, a discussão está além
dele. Quanto vale chegar na frente? Estar em primeiro? Conquistar um
título?
Trata-se sim de uma questão ético-moral
e sou muito menos moralista do que uma porção de gente
que defende essa parceria, por mais contraditório que possa
parecer. Não estamos falando em pular a catraca do ônibus
ou roubar um chocolate no supermercado do Abílio Diniz, mas de
algo com grandes proporções. Mesmo se essa parceria se
restringisse ao esporte, já seria em um clube com 25 milhões
de torcedores. Mas extrapola e isso só consegue enxergar quem
já perdeu a ingenuidade.
Aquele que defende que vale
tudo para conseguir títulos brasileiro, intercontinental,
mundial, deve engolir a cartolagem no futebol, as falcatruas da CBF,
os desmandos de Eurico Miranda, a ditadura de Dualib, o que
representa Edílson Pereira de Carvalho, o paternalismo e o
amadorismo das administrações de futebol, o preconceito
da polícia, a violência de torcedores, do vizinho, do
tio, do primo, a sua própria.
Quem acha que vale tudo,
deve engolir as corrupções do governo, do ex-governo,
do próximo governo, a queda das torres gêmeas, a
intervenção branca na África, Bush e Blair. Tudo
isso e muito mais. Mas é tudo muito indigesto.
Mesmo
com a demonstração de amor e fidelidade da Nação
Corinthiana, minha família, dos quatro títulos
nacionais, essa foi a primeira vez que não chorei ao soar o
apito do árbitro. Ao contrário de Kia Joorabchian,
laranja da MSI no Brasil, que se debulhou em lágrimas com a
derrota-vitória corinthiana e estampa hoje os principais
jornais. Quem é mais corinthiano? Quem sabe amar e quem sabe
atuar?
É indiscutível que todo corinthiano
esteja feliz em ser o melhor do Brasil nesta segunda-feira. Até
o próximo dezembro. Mas, afinal, que Brasil é esse?
Hoje, passeando pelas ruas alvinegras de São Paulo com
a minha camiseta branca do Corinthians, ainda sem nenhuma estrela, de
1989, penso em como esse ano foi ambíguo. Vivi o melhor do
passado corinthiano e o pior do presente. Dialeticamente, não
estou feliz com o que será do futuro do futebol, do Brasil, do
mundo, se uma mudança não começar nas mãos
de nossa torcida, formada por verdadeiros corinthianos. Unida de
outros torcedores que também amam o futebol.
No ano
que vem estarei pelos estádios, chorando, vibrando, cantando e
torcendo pelo meu Corinthians na disputa pela Libertadores de novo.
Talvez seja a primeira vez que realmente teremos a chance de
conquistar o nosso primeiro título sul americano. Mesmo
sabendo que a torcida estará lá SEMPRE, pulsando na
arquibancada, eu preferia ganhar este título de maneira
diferente. Com um time limitado, camisa 10 e goleiros corinthianos,
raça, base do terrão, improviso, juventude. Para
despertar no meu filho esse amor que tenho pelo Corinthians.
Leonor
Macedo, corinthiana acima de tudo, é da "Gaviões
da Fiel".
(Blog do Juca,
http://blogdojuca.blog.uol.com.br,
05/12/2005)