NOTÍCIAS – 21/10/2005
POR QUE OS RUSSOS ESTÃO LUBRIFICANDO AS RODAS DO FUTEBOL?
Por
Simon Kuper
21/10/2005 20h22
Derk Sauer
é um pequeno holandês que se transformou em magnata da
mídia na Rússia. Sua corporação publica
mais de trinta títulos, incluindo a versão russa do
periódico feminino Cosmopolitan, a edição local
de Playboy e, até recentemente, uma obscura revista sobre
futebol.
"Uma revista muito agradável, mas que
não vendia", contou-me durante um café-da-manhã
em Amsterdã, no mês passado. Então, um dia alguém
telefonou se oferecendo para adquirir o periódico, Sauer quis
saber porque alguém queria tal coisa. Ele perguntou quem era o
comprador. Era, naturalmente, o oligarca Roman Abramovich.
"Esta
era sua revista favorita, sua bíblia", empolgou-se
Sauer.
"Um de nossos repórteres foi ao Chelsea para
entrevistá-lo, Abramovich abriu um armário e lá
estavam todas as edições da revista. Típico de
Abramovich: ele apenas queria tê-la."
Caprichos
pessoais como este criaram uma nova ordem no futebol. Homens do
petróleo - e não apenas os russos - estão
dominando o esporte. Este fenômeno vai além de
Abramovich no Chelsea. Nos anos 90, as pessoas pensaram que a
internet e a TV paga revolucionariam o futebol. Mais tarde, supôs-se
que os recursos viriam do extremo oriente. Em vez disso, o capital
jorrou tal qual o petróleo.
Duas coisas aconteceram.
Primeiro a riqueza natural da Rússia foi vergastada num tipo
de liquidação de saldos natalinos; em seguida, o barril
de petróleo bruto elevou-se acima de US$60. Juntos, estes dois
processos produziram a casta mais rica de cidadãos do planeta
em toda a história. Livres para fazer quase tudo que eles
quisessem com seu dinheiro, investiram em jogadores de futebol. Aqui
estão alguns exemplos:
-A família de Gadaffi
(Líbia), que possui uma participação no
Juventus, está pagando 240 milhões de euros para
anunciar por 10 anos a companhia de petróleo
da Líbia, Tamoil, nas camisas do Juventus. É o maior
contrato de camisa no futebol.
-Alexei Fedorychev, magnata do
fertilizante, jogou por um breve período como reserva para o
Dynamo de Moscou. No ano passado ele comprou o Dynamo, adquirindo
também o passe de diversos jogadores ocidentais pela maior
quantia da história do futebol da Rússia; obteve os
direitos de televisão do futebol russo, e em agosto comprou um
outro clube, FK Rostov. Sua companhia, Fedcom, também
patrocina o AS Monaco, finalista na liga dos campeões em
2004.
-Kia Joorabchian, 34 anos, britânico-iraniano,
comprou no ano passado o clube brasileiro Corinthians.
Posteriormente, ele adquiriu o passe do atacante argentino Carlos
Tevez por US$16 milhões, a maior transferência na
história da América do Sul. Acredita-se que Joorabchian
seja financiado por seu ex-contato de negócios, o oligarca
russo Boris Berezovsky.
-Leonid Fedun, vice-presidente da
empresa russa Lukoil, juntamente com outros investidores, adquiriu o
Spartak de Moscou. O clube moscovita comprou seu próprio
atacante argentino, Fernando Cavenaghi, por 11 milhões de
euros.
-No próximo ano o Arsenal receberá seu
novo estádio de 60.000 lugares, batizado de Emirates Stadium.
A companhia aérea dos Emirados Árabes, país rico
em petróleo, paga 100 milhões de libras para exibir
durante 15 anos sua marca na publicidade do estádio e nas
camisas do Arsenal. Esta é a única esperança
deste clube para seguir os passos do Chelsea, igualmente beneficiado
pelo petróleo.
-Arkady Gaidamak, um bilionário
russo-franco-israelita-angolano, comprou o clube Beitar Jerusalem em
agosto. Ele tem ainda que acertar a contratação das
estrelas do time.
-O mini-oligarca lituano Vladmir Romanov
comprou o Hearts da Escócia. Romanov contratou alguns atletas
novos e a equipe está liderando atualmente a liga escocesa.
Nenhum outro clube escocês à exceção de
Rangers e do Celtic ganhou o título em 20 anos.
-Até
em Angola, companhias de petróleo patrocinam grandes
clubes.
-Enquanto a Liga Norte-Americana de Hóquei
estava em greve, alguns dos melhores atletas do esporte no mundo
mudaram-se para as cidades provincianas de Omsk e Kazan, na Rússia.
Os clubes locais, financiados por oligarcas, podem provavelmente
combinar em pequena escala os capitais de franquias de times da NHL
(National Hockey League)
aos seus dólares.
-Massimo Moratti, empresário
italiano de refinarias de petróleo, continua a fazer
movimentações financeiras para levar a Inter de Milão
às conquistas.
A pergunta é por que estes
magnatas estão derramando seu dinheiros em sacos sem fundo?
Eles certamente não estão fazendo isso por diversão.
O escritor George Orwell observou certa vez sobre um personagem de
Charles Dickens: Sr. Jarndyce – que ninguém que tivesse
despendido tanto esforço fazendo sua fortuna a daria assim tão
facilmente. É natural especular que os oligarcas têm
alguma intenção obscura.
Uma revista holandesa
causou agitação por alegar que os clubes do país
organizaram uma rede mundial de lavagem de dinheiro. Entretanto, isso
parece improvável: os bilionários usariam uma indústria
excessivamente exposta para lavagem apenas de alguns milhões.
É
possível que alguns deles estejam comprando a amizade de um
país ao adquirir um clube. Gaidamak, para quem a França
emitiu um mandado de prisão, parece acreditar que pode
proteger seu futuro ao se tornar um proeminente cidadão
israelense. Abramovich pode ter motivos semelhantes no Reino Unido,
seu velho companheiro Vladmir Putin algum dia se cansaria dele. E os
Gadaffis poderiam usar a amizade italiana em caso de nova crise com
os Estados Unidos.
Entretanto, Sauer acredita que a motivação
é mais simples. Ele vive em um subúrbio de classe alta
de Moscou, onde seu filho joga futebol com o filho de Abramovich, e
depois de 16 anos de Rússia, ele é uma antropólogo
da tribo dos oligarcas. Sauer explica: “estas pessoas têm
dinheiro mas não têm o status, assim o que você
faz? Você tenta adquirir o status. Nos Estados Unidos, na
década de 1920, havia magnatas que fizeram exatamente o mesmo.
Compraram jornais, entraram para o ramo das artes, esse tipo de
coisa.”
“Agora todos os russos estão
tentando sair do negócio. Esta é a grande tendência.
Abramovich apenas vendeu sua companhia, Sibneft, para a Gazprom. Para
muitos dos oligarcas, é o fim. Eles perderão suas
companhias de um jeito ou de outro. Assim estão tentando tirar
tanto dinheiro quanto possível e, então, colocá-lo
no futebol.” Esta é uma continuação
natural de suas carreiras: além do seu primeiro milhão,
todo o negócio é uma questão de status. Os
oligarcas italianos têm competido há bastante tempo por
status através do futebol. Agora os russos os estão
imitando.
Em maio de 2006, o Chelsea poderá se tornar o
primeiro campeão europeu financiado pelo petróleo.
Outros clubes o seguirão, mas provavelmente não os
russos. O futebol russo talvez nunca atinja qualquer coisa, pois
poucas crianças russas praticam futebol.
Sauer é
presidente da liga da mocidade de futebol russo. Seu problema está
em encontrar algum lugar para jogar. Atualmente a liga aluga um par
de “velhos canteiros de repolho” do Dynamo de Moscou por
cerca de US$ 30.000 anuais. Sauer disse: “eu escrevi para
Abramovich, perguntando se, entre os milhões que ele gasta no
Chelsea, ele poderia financiar um pequeno campo de esportes para as
crianças moscovitas.”
Naturalmente não
houve nenhuma resposta.
(Financial Times, http://news.ft.com/cms/s/2cf3066e-4257-11da-94c2-00000e2511c8.html, 21/10/2005)