NOTÍCIAS –
27/06/2005
Citadini
& Juvenal, bocas nervosas
Antônio Roque
Citadini, 54 anos, e Juvenal Juvêncio, 68, são
advogados. Mas a paixão pelo futebol os transformou em
dirigentes de seus clubes de coração. E não são
dirigentes comuns, desses que adotam um discurso politicamente
correto para não arrumar encrenca com os "co-irmãos".
"Co-irmão coisa nenhuma, somos competidores. E diretor de
futebol tem que ser torcedor, tem que causar polêmica",
afirma Citadini, com a aprovação irrestrita de Juvenal:
"O futebol precisa disso. Se não for assim, não
tem a mesma graça." Sexta-feira, em almoço na sede
do Jornal da Tarde, eles trocaram idéias e provocações
em alto nível por mais de duas horas, numa conversa saborosa
que você pode acompanhar nestas duas páginas. O
palmeirense Salvador Hugo Palaia, outro representante da linhagem dos
"dirigentes torcedores", também foi convidado para
participar do bate-papo. Mas pediu desculpa por não poder
comparecer, alegando que sua agenda anda lotada de compromissos. "Que
pena que o Palaia não pôde vir", disse Juvenal
Juvêncio, talvez imaginando que o palmeirense tornaria a
conversa ainda mais divertida.
Por
Luís Augusto Monaco, Luís Augusto Símon e Robson
Morelli
Um cumprimento caloroso e um fraternal
abraço tiram todas as dúvidas. O corintianíssimo
Antonio Roque Citadini e o histórico são-paulino
Juvenal Juvêncio, apesar de sempre trocarem muitas farpas, são
do mesmo time.
O time dos dirigentes passionais e torcedores.
Impossível imaginar Juvenal montando o time do Corinthians ou
Citadini fazendo contratações para o São Paulo.
Assumem o amor por seu time, mas rejeitam o rótulo imposto
por muitos. "Nós não somos ultrapassados. Somos
mais do que modernos, somos pós-modernos", diz Juvenal
Juvêncio.
"Uma vez disse que devemos tratar
desigualmente os desiguais e me chamaram de folclórico. Só
que essa frase é do Rui Barbosa", conta Citadini.
Eles
não aceitam a relação que se faz entre
competência e diretor remunerado. "Me cite um dirigente
remunerado que seja bem-sucedido. Não tem", fala
Citadini, prontamente apoiado por Juvenal. "Dirigente de futebol
não se faz na faculdade. Tem de conhecer jogadores, contratar
certo, entender de futebol. Esse é um dos motivos pelos quais
o pessoal que veio do vôlei não deu certo no futebol. E
eu entendo de futebol."
O relacionamento com treinadores é
apontado pelos dois como um dos grandes problemas a ser enfrentado
pelos diretores. "O técnico nunca chega quando o time
está bem. Aproveita-se disso e quer trazer uma comissão
técnica enorme. Pede prêmios por conquistas de títulos
e impõe multa rescisória em caso de demissão.
Quando é demitido, argumenta que a rescisão impediu que
ganhasse o prêmio previsto em caso de título. E ganha na
Justiça. Esse é um poder que não pode
continuar", fala Juvenal.
Citadini concorda. "Nos
últimos anos tivemos grandes técnicos no Corinthians,
como o Luxemburgo, o Parreira, o Geninho e o Tite. Nenhum tinha multa
a receber. Agora que saí, fizeram com o Passarella um contrato
que previa multa. Não conseguiram demitir o homem. Está
enrolado até agora", fala Citadini, criticando a gestão
de Kia.
"Ele não tem e-mail, ninguém acha
o Kia. Não tem caixa postal. Nunca tirei uma foto com essa
gente porque isso poderia comprometer minha biografia."
Juvenal
ri. Sempre é bom ver o rival sofrer. Volta a falar sobre
treinadores. Conta que não os ouve para a contratação
de jogadores. "Desde que assumi, em 2003, contratei mais de 20
jogadores. E nenhum foi indicação do técnico. O
Oswaldo de Oliveira queria o Fernando Diniz. Imagina que eu ia fazer
isso."
Para Citadini, além de conhecer bem um
jogador, é preciso saber o histórico do clube, perceber
quem pode dar certo e quem não tem a mínima chance.
Mesmo assim, há enganos.
"O Tite me pediu o Fábio
Baiano. Quase tive um troço. Falei que não daria certo
de jeito nenhum. Ele argumentou bastante, disse que com ele o Fábio
Baiano jogava bem. Percebi que era sincero e trouxemos. E ele jogou
bem aqueles seis meses. Me arrependo de não ter trazido
antes."
Juvenal não gosta do que chama de "jogador
rodado", que já esteve em vários outros clubes.
Conta como desistiu de Rivaldo, que estava contratado. Dirigentes de
marketing haviam dito a empresários do jogador que fariam um
plano junto a empresas para conseguir pagar o salário de
Rivaldo.
"Entrei na sala, aquele povo todo engravatado e
me perguntam do plano. Falei que não tinha plano nenhum, que
não havia condição de pagar o que ele ganhava.
Aí, falaram que ele queria ganhar pouco, que tinha saudade dos
filhos...."
"É sempre assim", interrompe
Citadini. "Quando falam que precisam voltar para acompanhar o
crescimento dos filhos, pode se preparar que vem uma facada no
fígado. Teve um jogador que me disse que precisava voltar para
ficar perto da mulher. Quase acreditei, até outro jogador me
dizer que o cara estava separado."
"O diretor de
futebol tem o ônus público. Ele tem de dar explicações
para a torcida. Por isso tem de ser comprometido com o clube",
fala Juvenal Juvêncio.
"Concordo plenamente. O
Ricardinho deixou o São Paulo e tinha uma multa dizendo que se
ele fosse para outro clube brasileiro teria de pagar R$ 2 milhões.
O pai dele veio negociar comigo e perguntei quem ia pagar essa multa.
Falou que seria o Corinthians. Eu disse que não e eles falaram
que o Ricardinho havia dado muitos títulos para nós. E
foi muito bem recompensado por cada um, respondi. Aí, ele
disse que ia para Santos porque o Marcelo Teixeira pagaria. Tudo bem,
foi. Diretor é para essas horas. Não é para
tirar foto na hora do título. Para isso, tem muita gente."
O Santos é outro fator de união entre Citadini e
Juvenal. Ambos são contra o estilo de direção de
Marcelo Teixeira. "Ele vota sempre a favor da CBF. E ficou dando
comenda para o Leoz, achando que seria ajudado pela Conmebol na
Libertadores. O Leoz não ajudou nada", fala Juvenal. "O
Leoz sempre fala que torce para o time de quem está
conversando com ele." Aí, Citadini dá uma
alfinetada. "Mas o Pimenta (ex-presidente do São Paulo)
era compadre dele, Juvenal." O são-paulino sorri e
desconversa: "São tempos passados."
Ele
continuam a falar do Santos. "Uma das coisas que me irritaram no
Kia foi que na primeira reunião que tivemos ele só
elogiava o Santos, só falava bem deles. Era o Robinho, era o
Luxemburgo...Ora, fica com eles, então", diz Citadini.
Não existe, para o corintiano, rivalidade com o
Santos. "Corintiano só discute com santista na praia de
Santos. E nossa torcida é maior que a deles até na
Baixada. Olha, rivalidade mesmo temos com Palmeiras e São
Paulo."
"O Santos é menor mesmo. Tem 8% de
torcida, como vai querer ser igual?", afirma Juvenal Juvêncio.
Citadini jura que Teixeira gosta de disputar jogador com o
Corinthians. "Sempre tenta contratar quem nós estamos
atrás." Juvenal ri, ironicamente. "Eles brigaram
conosco e ganharam o Tcheco."
Mas, cartolas ou dirigentes
pós-modernos, eles não concordam com tudo. Quem é
realmente o campeão mundial? "Respeito os títulos
que o São Paulo ganhou em Tóquio, mas eles vão
ser campeões mundiais se ganharem esse campeonato do final do
ano no Japão. E vão ganhar a nossa taça, será
entregue por nós."
"O título ganho pelo
Corinthians carece de substância. Eles não subiram os
degraus necessários para chegar lá em cima. Eles
entraram pela chaminé", provoca Juvenal.
"Quem
entrou como convidado foi o Vasco, não o Corinthians. Para ver
a força do nosso título, basta analisar a força
dos adversários. Real Madrid e Manchester, por exemplo. E não
é esse Manchester de agora, tinha o Beckham. E os jogos foram
transmitidos até pela BBC, uma audiência enorme."
"Quando ouço isso é que percebo como Citadini
faz falta ao futebol. Ele é entusiasmado, fala em audiência
de televisão. O Citadini é muito verboso, precisa
voltar."
Citadini diz que não gostaria de ver um time
brasileiro no Mundial de Clubes em dezembro. "Está
difícil. O Boca bambeou as pernas e eles estavam avançando."
Mesmo se o Corinthians estivesse na Libertadores, ele não
torceria para outros times paulistas chegarem à competição,
apesar da certeza de rendas enormes. "Nessas horas, a gente
esquece o dinheiro." Juvenal concorda. "Mesmo porque o
jogador quer bicho maior para ganhar clássico, aí o
clube acaba gastando mais."
Quando o São Caetano
chegou à final da Libertadores contra o Olimpia em 2002, a TV
Globo gravou mensagens de apoios de vários esportistas ao
clube do ABC. Ligou para Citadini. "Nem venha, respondi. Nem
venha. Não vou torcer para o São Caetano de jeito
nenhum."
E muito menos para o São Paulo, é
lógico. "Só fiquei sabendo o resultado do jogo com
o River no dia seguinte. Nem assisti para não dar audiência.
Liguei no SBT e me diverti muito com o Moacyr Franco e o Ronald
Golias. Aquele programa Meu Cunhado é muito bom."
(Jornal da Tarde, Esportes, 27/06/2005, p. 16-17)
OS
CUTUCÕES DO ROQUE
“Ele
não tem e-mail, ninguém acha o Kia. Não tem
caixa postal. Nunca tirei uma foto com essa gente para não
comprometer minha biografia.”
“Corintiano só
discute com santista na praia de Santos. E nossa torcida é
maior que a deles até na Baixada. Rivalidade é com
Palmeiras e São Paulo.”
“Nem vi São
Paulo e River para não dar audiência. Liguei no SBT e me
diverti com o Moacyr Franco e o Ronald Golias no programa Meu
Cunhado.”
E
OS CUTUCÕES DO JUVENAL
“Contratei mais de
20 jogadores. E nenhum foi indicação do técnico.
O Oswaldo queria o Fernando Diniz. Imagina que eu ia fazer
isso.”
“Marcelo Teixeira vota sempre a favor da
CBF. E ficou dando comenda para o Leoz, achando que seria ajudado na
Libertadores. O Leoz não ajudou nada.”
“O
título mundial do Corinthians carece de substância. Eles
não subiram os degraus necessários para chegar lá
em cima. Eles entraram pela chaminé.”
(Jornal da Tarde, Esportes, 27/06/2005, p. 16-17)