CRÔNICA
O BRASIL ENTROU NA LISTA NEGRA
RIO DE JANEIRO
Há
exatos 40 anos, em 1965, o coronel Meira Matos, nomeado por Castelo
Branco interventor de Goiás, invadiu Goiânia, cercou o
palácio das Esmeraldas, derrubou o governador Mauro Borges,
prendeu e cassou o governo inteiro e pôs o marechal Emílio
Ribas no comando do estado.
Leonardo Motta, editor político
da TV Tupi, ligou à noite para o palácio:
-O
governador está?
-Aqui fala o capitão. Qual dos dois
governadores? O coronel ou o marechal?
-Qualquer um dos dois
serve.
-Nenhum dos dois está. Nem o coronel nem o marechal.
Um major serve?
-Não, capitão, obrigado. Nem sempre
qualquer um serve.
KAJURU
Esta
é uma história exemplar da imprensa brasileira. A TV
Anhanguera, afiliada da TV Globo em Goiás, comprou da
Federação Goiana de Futebol os direitos de cobertura
exclusiva do campeonato de futebol de 2001. E ganhou das demais redes
de TV, em licitação, por ter apresentado os melhores
preços.
Então, tudo bem. Nada disso, tudo mal.
Acontece que a TV Anhanguera só apresentou os melhores preços
porque o governo do estado patrocinou o campeonato, através da
troca de nota fiscal por ingresso. Com o dinheiro público, a
Anhanguera ficou numa posição desleal para derrubar as
outras.
E pior. O lançamento da campanha foi no próprio
palácio do governo estadual. O bravo radialista Jorge Kajuru,
dono da Rádio K, denunciou a fraude:
"Se o
governo patrocinou, com dinheiro público, a transmissão
não pode ser exclusiva. Por que o governo deu de presente para
ela? Fizeram uma tabelinha, o governo e a Organização
Jayme Câmara (dona da TV Anhanguera). É a famosa
história do oportunismo. Puro oportunismo. Ela, a Organização
Jayme Câmara, usou de má-fé. Usou a história
do "se colar, colou". É o oportunismo. Em Goiás,
para a OJC e a Globo, não há lei".
JAYME
CÂMARA
Por essa crítica, por causa
exatamente dessas palavras, a Organização Jayme Câmara
e a TV Anhanguera entraram com dois processos contra o radialista
Kajuru. E o juiz da 12ª Vara Criminal de Goiânia condenou
Kajuru a 9 meses de prisão em um processo, 9 no outro e a
pagar R$200 mil de multa.
Se a Justiça brasileira fosse
condenar os jornalistas que dizem coisas semelhantes de qualquer
autoridade pública, as direções e redações
de jornais já tinham sido transferidas, todas, presas, para
albergues. O próprio Jayme Câmara Junior e as redações
da TV Anhanguera, do jornal "O Popular" e do "Jornal
de Brasília" estariam há muito na cadeia, desde os
tempos do saudoso fundador Jayme Câmara, valente deputado de
Goiás, cassado no golpe de 64.
Às vezes, filho de
peixe não é peixinho. Vem o filho e suja a água.
Imaginem se a Justiça fosse condenar todos os jornalistas que
dizem de Lula, dos governadores Marconi Perilo, de Goiás, e
Joaquim Roriz, de Brasilia, de Severino Cavalcanti, dos ministros e
tantos dirigentes públicos e políticos muito mais do
que Kajuru disse do contubérnio da Anhanguera com a FGF.
E,
agora, o fim da patusca novela. O "advogado" de Kajuru,
Marcelo Nascente Gomes, das mesmas bandas da TV Anhanguera, "perdeu
o prazo" (!), não recorreu ao tribunal e Kajuru ficou sem
a justiça que o juiz não fez.
Como há 40
anos, em Goiás nem sempre qualquer um serve.
ANJ,
ABI, Fenaj
Kajuru escreve na "Folha",
apresenta programas de esporte no SBT e na ESPN. Desde o fim da
ditadura, há 20 anos, foi o único jornalista brasileiro
condenado e preso por opinião (e, repita-se, muito leve, amena
e verdadeira).
Inacreditável é a cara de pau a
inutilidade das "entidades de classe" (sem nenhuma classe)
do jornalismo brasileiro. Todo mês estão fazendo
seminários sobre "liberdade de imprensa", "ética",
no mundo, América Latina, no Brasil. Aprovam longos e
hipócritas manifestos. E sempre condenando a "falta de
liberdade de imprensa" em Cuba, Venezuela, Colômbia,
China.
A ANJ (Associação Nacional dos Donos de
Jornais) ainda há poucos dias reuniu-se no Sul e deitou
falação sobre "liberdade de imprensa". Não
só não reclamou da violência de um de seus
associados contra Kajuru, como acobertou, para que nenhuma denúncia
explícita fosse publicada. Nem a ABI e a Fenaj, que existem
para defender os jornalistas, também nada disseram.
Nesta
semana, 3 de maio, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, a
organização "Repórteres sem Fronteiras",
com sede na França, divulgou seu relatório anual,
dizendo que "a liberdade de imprensa é geralmente
respeitada na América Latina, mas simplesmente não
existe em Cuba, é freqüentemente violada na Colômbia
e enfrenta leis restritivas da Venezuela".
E denunciou: "No
continente, os países mais perigosos para jornalista são
Colômbia, México, Brasil e Peru. Em todo o mundo, foram
53 mortos e 107 presos. Cuba é o único do continente
com jornalistas presos: tinha 29, soltou 7, tem 22".
Era.
Agora, o Brasil entrou na lista negra. Também tem um preso.
SEBASTIÃO NERY
(DCI, Política, 07,08 e 09/05/2005, p. A-10)
LEIA
MAIS:
-Repórteres
Sem Fronteiras:
www.rsf.org;
-Observatório
da Imprensa, 03/05/05: Dono de jornal manda prender
jornalista;
-Observatório
da Imprensa, 03/05/05: Liberdade de opinião em
risco;
-Folha
de S. Paulo, 29/04/05: Kajuru é
condenado a prisão em regime aberto por 18 meses.
-
Rebelión.