NOTÍCIAS – 18/03/2005

PAI” DAS PRIVATIZAÇÕES RUSSAS ESCAPA A ATENTADO EM MOSCOVO


O chefe do monopólio russo de electricidade, Anatoli Chubais, escapou ontem ileso a um atentado numa estrada secundária nos arredores de Moscovo. O economista é considerado o "pai" do maior e mais rápido processo de privatizações no mundo (1991-1994), apoiado pelo então presidente Boris Ieltsin, que levou à ascensão de uma nova classe na Rússia, os oligarcas. Chubais foi ontem o primeiro a reconhecer que sabe quem esteve por detrás da tentativa de assassínio, recusando contudo revelar nomes.

"A principal coisa que posso dizer é que tudo o que fiz, em relação à reforma do sector energético do país e à unificação das forças democráticas, vou continuar a fazer com uma energia redobrada", disse após o ataque. Eram cerca das 09.30 (06.30 em Lisboa) quando um engenho explosivo rebentou entre o carro blindado de Chubais e o veículo dos guarda-costas. Dois indivíduos, que conseguiram escapar, aguardavam camuflados na berma da estrada e dispararam vários tiros de armas automáticas, aos quais os seguranças responderam. A polícia russa já desencadeou uma enorme operação de caça ao homem.

Antigo vice-primeiro-ministro de Ieltsin, que ajudou a reeleger em 1996, Chubais é um liberal membro da direcção do partido União das Forças de Direita (SPS, no original), que nas últimas legislativas perdeu todos os lugares no Parlamento. Para outro dos responsáveis desta formação, Boris Nemtsov, o atentado de ontem teve motivos políticos e não está ligado à restruturação do monopólio de electricidade que Chubais quer abrir à concorrência.

Apesar de manter a confiança do Presidente Vladimir Putin, Chubais não apoiou a sua nomeação em 2000 e foi o único homem de negócios a defender o patrão da empresa petrolífera Iukos quando este foi detido por fraude, em 2003. Mikhail Khodorkovski é o homem mais rico da Rússia e estava a ganhar cada vez mais influência política no país, sendo um dos críticos de Putin. Khodorkovski era também considerado o líder dos oligarcas, aos quais o Presidente declarou guerra após a eleição. Numa entrevista ao New York Times, pouco tempo antes da detenção do patrão da Iukos, Putin disse que estes tinham sido "nomeados" multimilionários de um dia para o outro, pelo Estado, e criticou-os pelas suas ilusões de grandeza.

'LOANS-FOR-SHARES'. Os oligarcas, muitos de ascendência judaica, surgem no panorama russo fruto da polémica campanha de privatizações "loans-for-shares" (empréstimos por acções) desencadeada por Chubais na era pós-URSS. O actual presidente do gigante de electricidade (SEU) conseguiu angariar fundos para reeleger Ieltsin e "destruir as fundações financeiras do regime comunista", mas também a inimizade dos russos que viram 80% da riqueza do país cair nas mãos de uma dúzia de pessoas.

Para além de Khodorkovski, já houve outros oligarcas que se viram obrigados a abandonar parte do poder que detinham na Rússia. Um desses casos é Boris Beresovski que apoiou Putin contra o extremismo de esquerda e direita, mas foi obrigado a abandonar o país depois das eleições. O Presidente não viu com bons olhos as suas críticas à política russa na Chechénia, nem a sua crescente influência graças. Temendo ser preso, Beresovski foi para Londres, onde pediu asilo político, conseguindo evitar a extradição ao ser acusado de fraude e corrupção política.

Mas o oligarca mais conhecido dos portugueses é o actual patrão do Chelsea, Roman Abramovitch, que era o "tesoureiro" do círculo restrito de Ieltsin, conhecido como "A Família". O empresário do petróleo, que é também governador numa província siberiana, vive actualmente em Londres.


(Diário de Notícias, http://dn.sapo.pt, 18/03/2005)