NOTÍCIAS –
16/03/2005
ARTIGO
OS OLIGARCAS
por
Uri Avnery [*]
Há uma série de TV sobre a Rússia.
Mas também poderia ser sobre Israel. Ou sobre os Estados
Unidos. Intitula-se "Os oligarcas" e está agora a
ser exibida na televisão israelense.
Alguns dos seus
episódios são simplesmente inacreditáveis —
ou teriam sido, se não viessem directamente das pessoas
envolvidas no assunto: os heróis da estória, que
alegremente jactam-se acerca dos seus desprezíveis feitos. A
série foi produzida por imigrantes israelenses procedentes da
Rússia.
Os "oligarcas" são um
minúsculo grupo de empresários que explorou a
desintegração do sistema soviética para saquear
os tesouros do Estado e acumular pilhagens que montam a centenas de
milhares de milhões de dólares. A fim de preservar a
perpetuação do seu negócio, eles assumiram o
controle do Estado. Seis dos sete eram judeus.
Na linguagem
popular eles são chamados "oligarcas" — da
palavra grega que significa "governo de poucos".
Nos
primeiros anos do capitalismo russo pós-soviético eles
foram os sujeitos arrojados e ágeis que sabiam como explorar a
anarquia económica a fim de adquirir enormes haveres por um
centésimo ou um milésimo do seu valor: petróleo,
gás natural, níquel e outros minerais. Eles usaram
todos os truques possíveis, incluindo a trapaça, o
suborno e o assassínio. Cada um deles tinha um pequeno
exército privado. No decorrer da série eles
manifestam-se orgulhosos por contar com grande pormenor como fizeram
isso.
Mas a parte mais intrigante da série relata o
modo como assumiram o controle do aparelho político. Após
um período de combate uns contra os outros, decidiram que
seria mais lucrativo para si próprios cooperarem a fim de
tomar o comando do Estado.
Naquela altura o presidente Boris
Yeltsin estava num declínio agudo. Nas vésperas das
novas eleições para a presidência a sua
classificação nos inquéritos de opinião
pública mantinha-se nos 4%. Ele era um alcoólatra com
uma grave doença do coração que trabalhava cerca
de duas horas por dia. O Estado era, na prática, governado
pelos seus guarda-costas e pela sua filha, a corrupção
estava na ordem do dia.
O oligarcas decidiram tomar o poder
através dele. Tinham fundos quase ilimitados, controle de
todos os canais de TV e da maior parte dos outros media. Puseram tudo
isto à disposição da campanha para a reeleição
de Yeltsin, negando aos seus opositores mesmo um minuto de tempo de
TV e despejando enormes somas de dinheiro neste esforço. (A
série omite um pormenor interessante: eles trouxeram
secretamente os mais notáveis peritos americanos em eleições,
bem como copywriters, que aplicaram métodos anteriormente
desconhecidos na Rússia).
A campanha deu frutos:
Yeltsin foi realmente reeleito. Nesse mesmo dia teve outro ataque de
coração e passou o resto do seu mandato no hospital. Na
prática, o oligarcas governaram a Rússia. Um deles,
Boris Berezovsky, indicou-se a si próprio como
primeiro-ministro. Houve um escândalo menor quando se soube que
ele (como a maior parte dos oligarcas) havia adquirido a cidadania
israelense, mas ele entregou o seu passaporte de Israel e tudo ficou
em ordem outra vez.
A propósito, Berezovsky jacta-se
de ter provocado a guerra na Chechenia, na qual dezenas de milhares
de pessoas foram mortas e todo um país foi devastado. Ele
estava interessado nos recursos minerais e num pipeline em
perspectiva ali. A fim de obter isto pôs um fim ao acordo de
paz que dava ao país alguma espécie de independência.
Os oligarcas despediram e destruíram Alexander Lebed, o
general popular que concebeu o acordo, e a guerra prosseguiu desde
então.
Por fim houve uma reacção:
Vladimir Putin, o taciturno e duro operacional da ex-KGB, assumiu o
poder, tomou o controle dos media, pôs um dos oligarcas
(Mikhail Khodorkovsky) na prisão, levou a que os outros
fugissem (Berezovsky está na Inglaterra, Vladimir Gusinsky
está em Israel, um outro, Mikhail Chernoy, supõe-se que
esteja escondido aqui).
Uma vez que todas as façanhas
dos oligarcas foram públicas, há um perigo de que o
caso possa provocar um aumento do anti-semitismo na Rússia. Na
verdade, os anti-semitas argumentam que estes feitos confirmam os
"Protocolos dos Sábios do Sião", um documento
fabricado pela polícia secreta russa um século atrás,
pretendo revelar uma conspiração judaica para controlar
o mundo.
Movendo da Rússia para os Estados Unidos —
o mesmo aconteceu, naturalmente, nos EUA, mas há mais de uma
centena de anos atrás. Naquele tempo, os grandes "barões
ladrões", Morgan, Rockefeller et allii, todos eles bons
cristãos, utilizaram métodos muitos semelhantes para
adquirir capital e poder numa escala maciça. Hoje isto
funciona em modos muito mais refinados.
Na presente campanha
eleitoral, os candidatos colectam centenas de milhões de
dólares. Tanto George W. Bush como John Kerry alardeiam o seu
talento para levantar enormes somas de dinheiro. De quem? De
pensionistas? Da mítica "velha senhora com ténis"?
É claro que não, mas das cabalas de multimilionários,
as corporações gigantes e os lobbies poderosos
(negociantes de armas, organizações judias, médicos,
advogados e assemelhados). Muitos deles dão dinheiro para
ambos os candidatos — só para ficarem do lado seguro.
Toda esta gente espera, naturalmente, receber um bónus
generoso quando o seu candidato for eleito. "Não existe
almoço gratuito", como escrever o economista de
extrema-direita Milton Friedman. Tal como na Rússia, todo
dólar (ou rublo) investido sabiamente numa eleição
renderá um retorno de dez ou cem vezes.
A raiz do
problema é que os candidatos presidenciais (e todos os outros
candidatos a cargos políticos) precisam quantias cada vez
maiores de dinheiro. As eleições são combatidas
principalmente na TV e custam somas enormes. Não é uma
coincidência que todos os actuais candidatos nos EUA sejam
multimilionários. A família Bush acumulou uma fortuna a
partir do negócio do petróleo (ajudada pelas suas
conexões políticas, naturalmente). Kerry é
casado com uma das mulheres mais ricas dos Estados Unidos, que
outrora esposa do rei do ketchup, Henry John Heinz. Dick Cheney foi o
chefe de uma corporação enorme que acumulou contratos
no valor de milhares de milhões no Iraque. John Edwards,
candidato a vice-presidente, fez uma fortuna como advogado.
De
tempos em tempo há conversas nos Estados Unidos sobre a
reforma das finanças eleitorais, mas não vem daí
nada que valha a pena. Nenhum dos oligarcas tem qualquer interesse em
mudar um sistema que lhes permite comprar o governo dos Estados
Unidos.
Também em Israel a conversa sobre "Dinheiro
e poder" agora está em voga. Ariel Sharon e um dos seus
dois filhos tornou-se suspeito de aceitar subornos de um magnata
imobiliário. Foi bloqueada uma acusação pelo
novo procurador-geral, que acontece ter sido nomeado pelo governo
Sharon na altura do caso. Uma outra investigação quanto
a Sharon e os seus filhos ainda está pendente. Ela refere-se a
milhões de dólares que chegaram aos seus cofres
eleitores por caminhos sinuosos, cruzando três continentes.
As conexões de Shimon Peres com multimilionários
são bem conhecidas, tal como o são as enormes somas
despejadas por judeus americanos multimilionários para as
causas da extrema-direita em Israel. Um dos oligarcas russos é
o proprietário parcial do segundo maior jornal israelense.
Um escândalo político referente ao ministro
israelense da Infraestrutura espalhou-se num caso que envolve
corporações multinacionais a competirem por contratos
para o fornecimento de gás natural à companhia de
electricidade israelense, um caso de milhares de milhões no
qual figuras do submundo, políticos e investigadores privados
desempenham os seus papeis. A revelação tornou claro
para os israelenses que aqui, também, políticos do mais
alto nível têm estado desde há muito a actuar
como mercenários para interesses financeiros poderosos.
Estes factos devem alarmar todo o mundo que se preocupa com a
democracia — em Israel, na Rússia, nos Estados Unidos e
por toda a parte. Oligarquia e democracia são incompatíveis.
Como disse um comentador russo na série de TV sobre a nova
democracia russa: "Eles transformaram um virgem numa
prostituta".
03/Ago/2004
[*]
Escritor israelense e activista da paz com Gush Shalom. É um
dos escritores apresentados em The Other Israel: Voices of Dissent
and Refusal e contribuiu para o livro The Politics of
Anti-Semitism . O seu email é avnery@counterpunch.org
.
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/avnery08032004.html.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info
.