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– 15/03/2005
IRANIANO ADMITE REVELAR INVESTIDORES
Presidente
da MSI, parceira do Corinthians, vai discutir assunto em Londres
O
iraniano Kia Joorabchian diz ser apenas amigo de Boris Berezovski,
magnata russo tido como um dos prováveis investidores da MSI,
empresa que assumiu o controle do futebol do Corinthians pelos
próximos 10 anos. Na entrevista ao GLOBO, Kia disse que não
é obrigado a revelar a identidade de seus investidores, mas
informou que vai consultá-los sobre essa
possibilidade.
Você hoje é uma
das pessoas mais investigadas no Brasil, pela Polícia Federal,
Ministério Público de São Paulo, Ministério
da Justiça, Ministério da Fazenda. Sente-se
acuado?
KIA JOORABCHIAN:
Virei alvo. Mas isso só aconteceu porque alguns conselheiros
do Corinthians fizeram barulho e forçaram algumas instituições
a me investigar. O lado positivo disso tudo é que, se tudo
correr bem, serei a pessoa mais limpa do Brasil. Afinal, não
há nada de errado.
Isso atrapalha os planos
da MSI no Brasil?
KIA:
Não. Mas somos forçados a fazer o nosso trabalho em
ritmo mais lento. Estamos uns 40% atrás em nossas metas,
porque constantemente temos que nos preocupar com assuntos que não
dizem respeito à parceria com o Corinthians.
Por
que você não diz de onde vem o dinheiro da MSI?
KIA:
O Brasil, como todos os países, tem leis que protegem segredos
bancários. Você não pode obrigar alguém a
dar informações protegidas por essas leis a não
ser que em casos especiais. Veja o caso da Hicks Muse (fundo de
investimento americano parceira do Corinthians de 1998 a 2001). Quem
são os investidores da Hicks Muse? De onde vem o dinheiro?
Posso dizer que veio das Ilhas Cayman, que usaram empresa de fachada.
E nunca foram questionados.
A que você
atribui, então, essa atenção especial e negativa
que a MSI atraiu?
KIA:
Tem a ver mais com política, com a presidência do
Corinthians. Teremos eleição em 2006 e a oposição
quer destruir o que estamos construindo. Se tiverem sucesso em
destruir a parceria, seria muito ruim para o Brasil, porque o mundo
está de olho na MSI. Todo mundo sabe, pelo menos no mundo
financeiro, que fundo de investimentos não é obrigado a
revelar os investidores.
Por que não é
bom revelar a identidade dos investidores?
KIA:
Eles não querem atrair atenção porque têm
outros negócios e não querem que sejam afetados pelo
desempenho dos projetos dos fundos de investimento.
O
que fará se for obrigado a revelar a identidade dos
investidores da empresa?
KIA:
Não sei. De qualquer forma, pedi uma reunião da “board”
dos investidores da MSI para discutirmos a possibilidade de
revelarmos suas identidades. Irei a Londres em breve. Todos precisam
concordar. Se um não quiser, o assunto está
encerrado.
O futebol brasileiro pode ser
rentável?
KIA: A
situação atual o torna muito interessante para
investimentos. Temos grande oportunidade de pegar o Corinthians,
torná-lo campeão, obter bom retorno financeiro,
aumentar o faturamento, aumentar as vendas de merchandising,
repatriar jogadores, tentar exportar o futebol e não apenas
jogadores.
Por que você procurou o Brasil e o
Corinthians para fazer este investimento (US$56 milhões só
em jogadores)?
KIA: O
futebol na Europa atingiu o seu pico. Estudamos a possibilidade de
comprar o Arsenal. Foi o nosso primeiro alvo. Eles pediram de US$800
milhões. Se comprássemos, o que faríamos? Para
comprar um jogador para esse time, o preço mínimo gira
em torno de US$40 milhões. Qual o valor dos salários
dos jogadores? Qual é a receita? A TV chegou a um pico em
relação ao pagamento de direitos de transmissão.
Os patrocinadores estão no limite. E, apesar disso, a receita
de um clube como o Arsenal mal cobre os custos. No Brasil, o futebol
está desvalorizado, porque o mercado aqui está
reprimido. Os campeonatos são bons, mas não tão
fortes como na Europa. Se elevarmos o nível do futebol
brasileiro, você pode ter muitos ganhos.
Qual
a sua relação, profissional ou pessoal com Badri
Patarkatsisvili, Roman Abramovich e Boris Berezovski?
KIA:
Em primeiro lugar, não tenho relação com o
Abramovich. Conheci-o há sete anos, encontrei-o duas vezes e
nunca mais o vi. Boris é um grande amigo. Badri também.
Fiz negócios com Badri sete anos atrás, vendi um jornal
para ele. Nunca mais trabalhei com ele. Eu o vi pela primeira vez em
cinco anos quando levei diretores do Corinthians para Londres, pois
Boris me disse que Badri tinha um clube na Geórgia, o Dínamo
de Tbilisi. Fomos a Geórgia, conhecemos o clube. O Corinthians
assinou acordo com o Dínamo para a troca de jogadores.
Como
reage aos rumores de que Boris e Badri são os verdadeiros
investidores da MSI?
KIA:
Com naturalidade, são especulações. Não
me importo. A não ser quando tentam vincular a algum tipo de
crime. Digamos que Boris fosse investidor da MSI, o que não é
o caso, qual o problema? Ele é um empresário com
negócios na Inglaterra, nos Estados Unidos e em Israel. É
homem de mídia, tem parcerias com Rupert Murdoch, da News
Corporation. Ele é perseguido na Rússia porque o atual
governo, de Vladimir Putin, está cada vez mais
anti-democrático e contra a liberdade de imprensa. Engraçado
é que muitos aqui no Brasil apontam Boris como um criminoso
porque Putin assim o diz. Ora, porque confiar no que diz Putin e não
no que diz Tony Blair (primeiro-ministro inglês)? Quando chegou
à Inglaterra, Boris foi investigado e nada foi encontrado
contra ele.
Por que a MSI busca os jogadores e,
agora, um técnico quase sempre na Argentina?
KIA:
Não é verdade que procuramos jogadores e técnicos
só na Argentina. Precisávamos de um bom atacante e
havia dois disponíveis na América Latina: Tevez e
Robinho. Tentamos contratar Robinho mas não conseguimos. Com
relação ao técnico, a primeira opção
era o Scolari, mas ele só estará disponível após
a Copa da Alemanha. Tentamos Parreira, Vanderlei, Bianchi... Então
chegamos a Passarella, um dos cinco melhores técnicos da
região.
(O
Globo, Esportes, 15/03/2005, p. 36)