NOTÍCIAS – 06/03/2005


ABIN INVESTIGA MSI, PARCEIRA DO CORINTHIANS


A suspeita de que haja lavagem de dinheiro ilegal nas operações da MSI, parceira do Corinthians, levou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a entrar na investigação sobre o iraniano Kia Joorabchian e seus negócios. (páginas 50 e 54)


(O Globo, Esportes, 06/03/2005, p. 1)




CONEXÃO RUSSA: SETE INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS TENTAM DESVENDAR O SEGREDO DO IRANIANO KIA JOORABCHIAN


Abin quer saber a origem dos milhões da MSI

Suspeita de que dinheiro do tráfico de armas e drogas entre no país leva agência a investigar parceira do Corinthians

SÃO PAULO. Acusações e suspeitas de que os milhões de dólares investidos pela MSI no Corinthians tenham origem ilegal — como tráfico de armas e drogas — levaram a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a se juntar ao Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo para investigar a origem do dinheiro que a empresa vem colocando no clube.
Também estão no circuito para desvendar o segredo guardado a sete chaves por Kia Joorabchian o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional (DRCI), da Secretaria Nacional de Justiça, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras do Ministério da Fazenda, o Banco Central, a Polícia Federal e a Receita Federal. Kia Joorabchian talvez seja o homem mais investigado do Brasil no momento.
Cada passo de Kia no Brasil estaria sendo monitorado, e o cerco promete apertar ainda mais. Na última sexta-feira, os promotores do Gaeco, José Reinaldo Guimarães Carneiro e Roberto Porto, foram a Brasília para uma reunião na sede da Abin, na qual discutiram estratégias de investigação e trocar as informações já colhidas até agora. O Gaeco colheu durante a semana depoimentos de Alberto Dualibi, presidente do Corinthians, e de Paulo Angioni, diretor de futebol da MSI.
Informações são avaliadas pela embaixada russa
Os promotores do Gaeco também estiveram com representantes da embaixada russa e do DRCI para avaliar o material levantado até agora.
-Estamos cruzando informações com instituições nacionais e internacionais. Eles (Kia e MSI) estão muito bem assessorados e estruturados — diz José Reynaldo, promotor do Gaeco à frente do caso.
-Tudo parece ser feito para acobertar a identidade dos investidores — afirma Roberto Porto, colega de José Reynaldo nas investigações. — Pelo que vimos até agora, temos uma operação típica de lavagem de dinheiro, com uma empresa off-shore controlando outra empresa off-shore. Isso dificulta muito a identificação da origem do dinheiro.
O Ministério Público de São Paulo entrou na história após receber do deputado estadual e delegado de polícia Romeu Tuma Jr. documentos sigilosos da Abin em que o nome de Kia seria ligado aos milionários Boris Berezovski e Badri Patarkatsisvili. Os dois são acusados de diversos crimes na Rússia e vivem exilados — Berezovski em Londres e Patarkatsisvili em Tbilisi, capital da Geórgia, seu país de origem.
A Abin acompanha os passos de Kia no Brasil desde meados de 2004, quando as notícias do interesse do iraniano em investir no futebol brasileiro começaram a chegar à imprensa. Depois, mais para o fim do ano, a agência recebeu um pedido oficial de Tuma Jr. para entrar no caso. Agentes da agência brasileira já fizeram, inclusive, contato com o serviço secreto russo, que apontou possíveis ligações de Kia com a máfia russa.
Oficialmente, a Abin não confirma nem desmente qualquer investigação sobre o caso. O delegado Mauro Marcelo Lins e Silva, diretor da Abin, diz que a função dela não é investigar pessoas mas fatos:
-Todo fato que gera repercussão nacional implica na atenção da Abin. Nossa função é antecipar a crise de Estado.
O serviço secreto brasileiro acompanha de perto as movimentações da MSI pelo Brasil por temer que esta seja uma das primeiras investidas da poderosa máfia russa no país.
-Estamos sob a real ameaça de vermos o futebol brasileiro transformado em um paraíso de lavagem de dinheiro — afirma o promotor José Reynaldo, que espera ouvir Kia em depoimento nos próximos dias. — Se ele não falar nada conosco, assume a condição de investigado.
Para Kia, dias piores virão. Procurado pelo GLOBO, ele não quis dar entrevista.



(O Globo, Esportes, 06/03/2005, p. 50)