NOTÍCIAS – 06/03/2005

O CORINTHIANS DA FÓRMULA 1


Fortuna de Shnaider, dono da Jordan, também tem origem russa

INVESTIMENTO

Livio Oricchio
Enviado especial MELBOURNE

No campo esportivo, Fórmula 1 e futebol parecem não ter lá muito em comum. Mas quando entram em cena donos de equipes e de clubes de futebol, a coisa muda.
Em alguns casos, as semelhanças assustam. Nesse sentido, não há exagero nenhum em se afirmar: a equipe Jordan de F-1 é o Corinthians do futebol. O iraniano Kia Joorabchian, da MSI, está para o Corinthians como o russo Alex Shnaider, do grupo Midland, está para a Jordan. Em resumo: ambos gerenciam grandes somas em dinheiro provenientes da nada ortodoxa economia russa. Mas enquanto Shnaider reconhece que a origem é mesmo russa, acrescentando que seus negócios na área do aço, indústria naval, empreendimentos imobiliários e agricultura envolvem outras 33 nações, Joorabchian desmente - seu orçamento provém de fundos de investimentos tomados nas Ilhas Virgens Britânicas. 'Decidimos adquirir a Jordan porque a F-1 é uma excelente maneira de mostrar ao mundo o grupo Midland, incrementar nossas parcerias comerciais', disse ontem o ainda jovem Shnaider, de 37 anos, no circuito Albert Park, em Melbourne. Por sua vez, o também jovem Joorabchian, perto de completar 34 anos, começou a sentir-se realizado ao ver seu novo contratado, o técnico Daniel Passarella, do Corinthians, estampado na mídia de dezenas de países - nunca escondeu que um dos seus planos é tornar o Corinthians uma equipe internacionalmente conhecida.

Joorabchian foi à Argentina em busca de pesos pesados; Shnaider preferiu a Itália

A Midland investe pesado na competição, a exemplo da MSI, embora de maneira um tanto distinta. Joorabchian saiu contratando pesos pesados do futebol argentino, como Tevez, Sebá, Mascherano e Passarella. Na F-1, as soluções são menos imediatistas.
Shnaider optou pela Itália. Contratou o conceituado estúdio Dallara para conceber e construir o carro que a equipe utilizará em 2006, quando já terá assumido o nome Midland. 'Esta é uma temporada de transição, nossa verdadeira força começará a aparecer no ano que vem', diz o russo. 'O Corinthians será bem mais forte na segunda metade do ano, quando todos os jogadores novos estiverem já adaptados e o time estruturado', vem afirmando o iraniano, até para justificar um pouco também a falta de resultados no Campeonato Paulista. Vale dizer que Shnaider também não conseguirá muito na temporada de estréia no Mundial.
Em 23 de janeiro Shnaider assinou o documento que tornou o grupo Midland o novo proprietário da Jordan. Exatamente dois meses antes, em 23 de novembro, a MSI passou a administrar o futebol do Corinthians, ainda que muitos digam que, a exemplo da Midland em relação à Jordan, a MSI tornou-se a dona do clube. Shnaider tem seus hobbies e gosta de ostentálos. 'Tenho uma coleção de carros: Maybach, McLaren F1, dois modelos Ferrari...' Joorabchian, por sua vez, ama os cavalos - tem uma importante criação na Inglaterra.
Para completar as semelhanças, os dois personagens nasceram em um país, emigraram para outro - Shnaider foi da Rússia para o Irã e Joorabchian, do Irã para a Inglaterra -, e depois rumaram para uma terceira nação, onde ganharam nacionalidade comum: canadense. Se, eventualmente, se encontrarem em Interlagos no dia 24 de setembro, no GP Brasil, poderão até descobrir que já se conheciam. E, se não for o caso, vão rir bastante da semelhança entre uma e outra trajetória de sucesso. Por enquanto, restrita ao campo pessoal.

(O Estado de S. Paulo, Esportes, 06/03/2005, p. E-7)