NOTÍCIAS – 04/03/2005

'SEREMOS HUMILDES E FORTES'


Contratado para dirigir o time mais caro da história do futebol brasileiro, Daniel Passarella quer que todos vistam as 'sandálias da humildade'

COSME RÍMOLI

Unir o talento do futebol brasileiro com o argentino e formar um time para dominar a América do Sul e, lógico, ganhar a Libertadores. Além do US$ 1,5 milhão que receberá até o dia 31 de dezembro, ter os principais craques disponíveis dos dois países seduziu Daniel Passarella a assinar contrato ontem com o Corinthians - e a prioridade pela renovação até dezembro de 2006. O técnico saiu das três horas de reunião no luxuoso hotel George V, em São Paulo, entusiasmado com o poder da MSI. E deixou claro: não tolerará estrelismos.

Percebeu a fixação da empresa e do clube pela Libertadores. E não perdeu tempo. O JT apurou que ele terá direito a um bônus de US$ 250 mil se a equipe se classificar para a Libertadores. Passarella não quis assumir o time no sábado, em Mogi Mirim, contra o União São João. Quer analisar a equipe e fazer sua estréia na quarta-feira, pela Copa do Brasil, contra o Cianorte, em Maringá. Hoje, Passarella dirige o primeiro treino do Corinthians (leia mais na pag. 6B). Ele terá um tradutor 24 horas por dia ao seu lado.

JT - Por que aceitou treinar o Corinthians?

Passarella - Pelo projeto. O Corinthians é um dos clubes mais fortes da América do Sul. A força da sua torcida é conhecida. Sei que a pressão será enorme, mas isso só me estimula. Bom é trabalhar em equipes grandes, não pequenas. A pressão fará o time reagir.

JT- O que acha do grupo corintiano?

Não conheço profundamente, mas acredito no potencial. Os jogadores são jovens, mas com futuro. Eu fui convidado em janeiro pela MSI para ser assessor do clube. Em fevereiro também conversei sobre essa função. Não observei o time como treinador. Com a saída do Tite surgiu o convite para ser técnico. Vejo um grande potencial. Estou pronto para trabalhar muito.

JT- Você não tem grande currículo como treinador de clubes...

Eu dirigi a Seleção Argentina e a Uruguaia. Em equipes fiquei cinco anos e consegui quatro títulos, três com o River Plate e um com o Monterrey no México. Não acho fraco o meu trabalho em clubes.

JT- E os boatos de que não desejava mais trabalhar como técnico?

No final de 2004 tive vários convites (a imprensa argentina jura que foram onze). Não pude aceitar porque o meu pai estava doente. Ele morreu em fevereiro. Agora sim eu posso me dedicar, ter tempo para trabalhar.

JT- Você tem a fama de ser disciplinador, que não tolera jogador de cabelos longos ou brincos...

(Irônico) É verdade. Quero todos carecas amanhã. Falando sério, isso não me interessa. Quero disciplina, ordem e humildade. Sem isso, nenhum time vai a lugar algum.

JT- E a história que você odiaria trabalhar com brasileiros?

É mentira. Nunca tive problemas algum com brasileiros. Sempre existiu a rivalidade no futebol entre brasileiros e argentinos. Mas ela se limita aos gramados. Eu não vejo nenhum problema em trabalhar com brasileiros.

JT- Você aceitaria que um dirigente invadisse o vestiário com o Kia fez com o Tite?

Eu vou montar um ringue no vestiário para brigar com os dirigentes. Falando sério, não sei o que aconteceu com o Tite. Mas o Kia sei que é jovem e a emoção é normal nos jovens. Sei que está fazendo tudo para que o Corinthians vença. Ele está muito envolvido emocionalmente neste processo. Mas tenho certeza que não invadirá o meu vestiário.

JT- Qual a prioridade ao assumir o Corinthians?

Utilizar a Copa Paulista, não, o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil para formar o time que disputará o Brasileiro. Vou conhecer os jogadores e formar a equipe.

JT- É verdade que ficará como técnico por pouco tempo e depois passará a ser assessor? (No Corinthians havia quem jurava que Carlos Bianchi assumiria em abril.)

Não. Assumi o Corinthians como treinador. Não quero assumir função administrativa. Tudo que foi acertado com Kia foi para trabalhar como técnico.

JT- Qual a sensação de ser técnico no futebol brasileiro?

Sei que serei cobrado demais. Mas estou preparado.




(Jornal da Tarde, Esportes, 04/03/2005)