NOTÍCIAS
– 01/03/2005
MÍDIA ESPORTIVA & MSI
À ESPERA DE UM FURO
Antonio
Carlos Teixeira (*)
Confesso que estou
ansioso por um furo de reportagem sobre o nebuloso parceiro do
Corinthians. Não vejo o momento de bater os olhos numa
manchete definitiva – daquelas que não deixam pedra
sobre pedra.
Muito se falou sobre os negócios da
empresa Media Sports Investiment Group (MSI). Mas, por enquanto, as
notícias divulgadas pela mídia pouco efeito causaram
aos envolvidos no caso. Uma centelha de indício sobre o
passado e o presente do sócio da MSI, o iraniano Kia
Joorabchian, tem merecido amplo destaque nos jornais, na rádios,
na TV e nos sítios de notícias em tempo real.
Quem
sou eu para dar lições de jornalismo a muitos
profissionais que estão nas redações dos maiores
veículos de comunicação do país! Mas é
fato que não será dessa forma que a mídia vai
desnudar a parceria MSI-Corinthians. Pautas mal apuradas têm
apenas reforçado o desejo do iraniano de permanecer no Brasil.
A continuar sendo fonte de matérias improdutivas, sem
conteúdo, Kia vai sobreviver por muito mais tempo. Sua estada
por aqui poderá ser abreviada com tiros certeiros. Nada mais
que isso.
A revista Caros Amigos publicou farto
material sobre a vida pregressa do sócio da MSI. Mas não
o bastante para atrapalhar os projetos do iraniano no Brasil. Até
agora não li (posso estar enganado) qualquer reportagem em que
a fonte seja, por exemplo, o Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (Coaf), poderoso órgão vinculado ao
Ministério da Fazenda, responsável pela investigação
de crimes sobre lavagem de dinheiro no Brasil. Nada escapará
das investigações de um trio que faz tremer qualquer
infrator: Receita Federal, Banco Central e Coaf.
Se houver
irregularidades que justifiquem, por exemplo, o cancelamento de todos
os atos praticados pela MSI no Brasil, essa trinca de órgãos
vai descobrir e, em conseqüência, punir os envolvidos.
Mas, ao que parece, a mídia quer pegar Kia por negócios
imorais. E não por atos ilegais. A ilegalidade dá
cadeia; a imoralidade, nem sempre.
DESEMBARQUE
PLANEJADO
A impressão que se tem é que Kia
Joorabchian vai se transformar em um novo Ricardo Teixeira, um Eurico
Miranda, ou Eduardo "Caixa D’Água" Vianna, o
polêmico presidente afastado da Federação do Rio
de Janeiro, ou ainda o próprio Alberto Duailib, presidente do
Corinthians. Esses dirigentes têm sido, ao longo dos anos,
inocentados diariamente pela mídia esportiva. Por quê?
Porque
o açodamento da maioria das reportagens envolvendo essas
"personalidades" levou o torcedor a tratar com descrença
tudo o que se publica sobre elas. De tanto se informar sobre supostas
irregularidades cometidas por esses dirigentes – e, de quebra,
não conhecer o resultado dessas investigações –
o torcedor brasileiro encarregou-se de inocentá-los.
As
denúncias contra Ricardo Teixeira e Eurico Miranda são
provas de que uma matéria mal apurada – publicada
somente para alimentar rixas pessoais – serve apenas de forte
munição para os acusados. Ambos os cartolas saíram
imunes de grande parte das acusações que lhe foram
imputadas (algumas ainda não julgadas) graças à
incompetência dos que se propuseram a denunciá-los. Pode
até ser que tudo o que saiu sobre esses cartolas tenha sido
coisa verdadeira. Não duvido. Mas os tribunais não
julgam em cima de situações subjetivas, de remoques
pessoais, e sim sobre fatos concretos, com provas documentais.
O
caso de Kia Joorabchian, infelizmente, parece seguir por esse mesmo
caminho. Há centenas de reportagens publicadas sobre o
assunto. A maioria delas expõe o iraniano como uma pessoa
marcada por falcatruas no exterior, dono de várias identidades
e nacionalidades etc. Ocorre que o negociador estrangeiro não
aportou em nosso solo brasileiro desarmado, como tentam fazer crer
algumas matérias. Kia conhecia o terreno onde se propôs
pisar.
REPÓRTERES, PSIU!
Antes de escolher o
Brasil para fazer seus "investimentos", Kia procurou
inteirar-se não somente sobre a legislação que
regula a transferência de jogadores brasileiros para a Europa,
como também a que trata da permanência de estrangeiros
com negócios no país. Kia não nos acha bobos. O
Ministério do Trabalho, por exemplo, atirou no escuro ao
concluir que o iraniano não tinha condições
legais para continuar no Brasil. Deu sobrevida maior ao estrangeiro.
Tudo porque uma funcionária do alto escalão do governo
quis aparecer mais do que as autoridades que estão cuidando do
caso, como procuradores e delegados de polícia.
Para
piorar, todos os dias surgem "fatos novos" envolvendo o
iraniano. Mas ele se mantém inatingível graças
ao açodamento de parte da mídia esportiva. O silêncio
de alguns veículos, necessariamente, não significa que
o caso foi esquecido. Ao contrário. Pode mostrar ao leitor,
por exemplo, que o veículo de comunicação parou
apenas de atirar a esmo, reduzindo o número de pautas mal
apuradas. Que o pior (para os envolvidos na parceria corintiana,
claro) está por acontecer.
O silêncio pode, sim,
começar a preocupar Kia e seu grupo. Enquanto o estrondoso
furo jornalístico sobre a MSI não é publicado –
aquele que levará, de fato, a parceria para o fundo do buraco
–, Kia apenas se fortalece com as notícias aparvalhadas
do dia-a-dia. Portanto, repórteres, psiu! Muito barulho por
nada pode acordar (e armar) aquele que é visto como o inimigo
número 1 do futebol brasileiro. Só não vale
hibernar como os ursos.
(*) Jornalista em Brasília
(Observatório
da Imprensa, www.observatoriodaimprensa.com.br, Jornal de
Debates, 01/03/2005)