NOTÍCIAS – 01/03/2005


FUTEBOL

Empresas da família Joorabchian exibem números distantes dos da MSI


ESTRELA NO BRASIL, KIA SOMA HIPOTECAS NA INGLATERRA


FÁBIO SEIXAS
ENVIADO ESPECIAL A LONDRES

No Brasil, Kia Joorabchian vive dias de celebridade. Controla o futebol de um dos principais times do país, hospeda-se em hotéis de renome, assina contratos milionários, distribui autógrafos para a torcida e fala pela MSI e pelos demais investidores da empresa, que seguem no anonimato.
Na Inglaterra, o cenário é outro. Registros levantados na Companies House, junta comercial do país, mostram que empresas dele e de sua família registram lucros modestos em relação aos R$ 147,3 milhões investidos em contratações para o Corinthians. Mais: boa parte de seus bens foi dada como garantia de empréstimos.
Juntos, os dois principais negócios da família Joorabchian, a Medway Autos Limited e a Greens of Rainham Limited, acumulam oito gravames (contratos que cerceiam os direitos do proprietário de um bem). Desses, cinco ainda não foram saldados.
Os registros indicam quatro hipotecas sobre propriedades da Greens of Rainham, revendedora e oficina autorizada da Vauxhall, braço da General Motors no Reino Unido. A mais antiga foi concedida em 1988. Há duas hipotecas de 1991 e uma de 1997. Nos três primeiros casos, o credor é o Barclays, banco britânico. No último, o grupo British Petroleum.
Estão hipotecadas instalações da empresa, incluindo todos os seus móveis e máquinas.
A Medway, que vende carros Mercedes-Benz e Alfa Romeo, também tem uma pendência com o Barclays datada de 1991, três anos após ter entrado em operação. Na ocasião, o banco, em troca de empréstimo, tomou como garantia não só todas as propriedades da empresa mas também seus ativos fixos e circulantes -862 mil libras (R$ 4,3 milhões), segundo documentos de 2003.
Diretor da Greens of Rainham e da Medway, Kia declarou, por meio de sua assessoria, que as empresas na Inglaterra pertencem à sua família e que ele não é o responsável pelas hipotecas.
O nome Kiavash Joorabchian é encontrado em nove empresas registradas na Companies House, sendo que em três delas há também registro da participação de outros integrantes da família.
Por si só, a hipoteca não é sinal de que uma empresa esteja condenada a fechar as portas. De qualquer forma, a amplitude das exigências feitas pelo banco é sinal de que a Medway precisou à época de um empurrão para alavancar seus negócios.


COMPARAÇÃO
Relatório assinado por Mohammad Joorabchian, pai de Kia, em 26 de julho passado, dá idéia do tamanho da Medway. Em 2003, a empresa declarou faturamento de 11,650 milhões de libras (cerca de R$ 59 milhões) e despesas de 11,579 milhões de libras (cerca de R$ 58,6 milhões).
Resultado, lucro líquido de 71 mil libras (aproximadamente R$ 359 mil), dividido igualitariamente entre os quatro sócios: Kia, seus pais, Mohammad e Shahrzad, e sua irmã, Tannaz Rose.
A comparação entre os números da principal empresa dos Joorabchian e os gastos de Kia e seus sócios no Corinthians aponta que os US$ 22 milhões que a MSI pagou por Tevez correspondem a 644 vezes a fatia do iraniano no lucro da Medway em 2003.
História semelhante ocorre em outro negócio de Kia, a academia Karmaa Limited, esta sem envolvimento de seus familiares.
A empresa é dividida entre o iraniano e Rafael Nieto, espanhol, ex-técnico da seleção britânica de karatê e ex-representante da Inglaterra na Associação Mundial de Kickboxing.
Segundo relatório financeiro de 2003, registrado na Companies House no último dia 7 de janeiro, a Karmaa tomou 454 mil libras (R$ 2,3 milhões) em empréstimos naquele ano, que foi encerrado com resultado negativo de 401.357 libras (R$ 2 milhões).
Formalmente estabelecida no dia 31 de agosto em 2004, a MSI só deve registrar sua movimentação financeira no final deste ano. O contrato social estipula seu capital em mil libras, R$ 5.000 -valor 11,6 mil vezes menor do que o desembolsado pelo atacante Tevez.
Um número que dá a dimensão do fosso entre o Kia de Londres e o Kia do Brasil, entre a MSI londrina, que não tem nem sequer escritório na cidade, e a MSI brasileira, que promete revolucionar a vida do Corinthians.
No caso dos negócios da família, a origem do dinheiro é declarada. Da MSI londrina, sabe-se que 0,1% de suas ações pertencem a uma empresa chamada Temple Secretaries. Os outros 99,9% têm controle desconhecido -Kia tem alegado que os demais investidores da nova parceira corintiana preferem permanecer anônimos.


(Folha de S. Paulo, Folha Esporte, 01/03/2005)