NOTÍCIAS –
26/02/2005
QUEM TE VIU...
Cinco anos depois da
moratória, um país autoritário e capitalista
volta a ser levado a sério como grande potência.
Por
ANTONIO LUIZ M. C. COSTA
Depois de ter promovido o
“desaparecimento” de mais de 900 separatistas chechenos e
de comprar ou vetar os candidatos a Presidência da Chechênia
que não lhe agradavam o presidente russo Vladimir Putin
assegurou favorável ao candidato que havia indicado para a
eleição de 5 de outubro, Akhmad Kadyrov.
Em outros
tempos, a recaída autoritária teria atraído
enfáticas condenações internacionais. Mas
Washington não está em condições de jogar
pedras no telhado vizinho. O Iraque jamais lhe pertenceu, enquanto a
soberania da Rússia sobre a Chechênia é mais
antiga que a dos EUA sobre o Texas ou a Califórnia.
A
Europa tembém não interessa criar caso. Já há
quem nela defenda inverter as alianças da Guerra Fria e buscar
o apoio russo para contrabalançar os Estados Unidos. Só
Moscou, com seu poderio nuclear e antiaéreo e suas abundantes
reservas de gás e petróleo, seria capaz de impedir
Washington de chantagear a Europa com seu poder aeronaval e seu
controle das reservas do Golfo Pérsico.
Depois de escapar
da fragmentação e voltar a crescer de forma
aparentemente sustentada, a Rússia volta a ser cortejada pelas
demais potências como chave do equilibrio internacional e do
jogo estratégico em torno do coraçào da
Eurásia.
No mês passado, durante a visita de Putin a
assembléia geral da ONU e aos EUA, o bilionário russo
Boris Berezovski, asilado no Reino Unido publicou uma carta aberta
nos principais jornais dos EUA e Europa na qual acusou o presidente
russo de cometer genocídio, submeter o Parlamento, os
tribunais e a imprensa e até de Ter planejado os atentados
terroristas de 1999 que levaram Boris Yeltsin a nomeá-lo
primeiro-ministro e autorizar a invasão da
Chechênia.
Berezovski gastou verbo e verba ä
toa.
Desde que Putin ajudou Bush a esmagar o Taleban, a Casa
Branca fechou os olhos a questão chechena, reclassificando os
separatistas como “terroristas islâmicos”.
Mesmo
depois de unir-se a França e a Alemanha na crítica a
política dos EUA no Iraque, a Rússia foi tratada pela
equipe de Bush com mais carinho e respeito do que aqueles dois
tradicionais aliados de Washington. A instabilidade criada pelo
unilateralismo agressivo dos EUA deu a Rússia condições
ideais como fiel da balança do poder mundial.
Os europeus
supõem que os russos, por Ter 38% do seu comércio
exterior voltado para União Européia e outros 17% para
o resto da Europa, teriam todo o interesse em aproximar-se da Europa.
Mas pode não ser bem assim.
Putin é ambíguo
na questão ambiental, o que desaponta os europeus. Depois de
prometer assinar o Protocolo de kioto, voltou atrás e adiou a
decisão. Para ela, manter a emissão de gás
carbônico 20% abaixo do nível de 1990 ( ainda bem
superior ao atual ) nào é tão difícil mas
seu lobby petrolífero não quer limites ao consumo
global de combustíveis.
Mas a Rússia também
não quer uma exportação excessiva. Não
por acaso, hoje o maior aliado de Berezovski na Rússia é
Mikhail Khodorkovski, periodicamente ameaçado com a revisão
da privatização da YUCOSSIBNEFT- maior petrolífera
privada do mundo em reservas e a Quarta em produção.
Os
russos poderiam facilmente produzir mais que os sauditas, mas isso
derrubaria o preço do produto, supervalorizaria o rublo,
inibiria investimentos em outros setores e condenaria o país a
eterna dependência do mercado de commodities, como se dá
com a Venezuela. O governo continua proprietário dos dutos,
limita sua expansào para controlar a exportação
e alia-se na prática, a OPEP.
Além disso, como
grande produtor agrícola e siderúrgica, a Rússia
une-se aos grandes países periféricos do G21 contra as
barreiras alfandegárias dos EUA, da Europa e do Japão,
aos quais também se opõe na ambição de
reafirmar sua influência sobre as ex-repúblicas
soviéticas.
A Rússia mantém uma relação
estratégica com a China- sua maior parceira comercial fora da
Europa- como fornecedora de equipamentos nucleares e armamentos
avançados. A Índia, os árabes e o Irã
continuam grandes clientes nessa área, para desgosto dos
EUA.
Pode-se pensar que as armas russas- 5% de suas exportações-
já seria obsoletas demais para desafiar as norte-americanas,
mas não é bem assim. O sistema antiaéreo S-300 é
mais eficaz que o PATRIOT, apesar de depender de um minicomputador
operado com fita magnética. O torpedo Shkval é cinco
vezes mais veloz que os norte-americanos. A Rússia continua a
Ter excelentes engenheiros e, na guerra como na econômia,
informática não é tudo.
Um longo caminho foi
percorrido desde que a URSS caiu. Se o comunismo não existe,
tudo é permitido, pensaram entào os ex-comissários
do povo, aliados as máquinas formadas no submundo da
decadência soviética. Saquearam sem piedade as
indústrias ainda capazes de funcionar e dilapidaram
freneticamente os estoques de combustíveis e matérias-primas
do país, derrubando seus preços internacionais de forma
a enriquecer as indústrias dos países centrais a custa
dos países periféricos exportadores de commodities.
A
qualidade de vida na Rússia retrocedeu de uma forma que não
se via desde as privatizações da Segunda Guerra
Mundial. A taxa de mortalidade subiu 45%- 1,5 milhão de mortos
por ano a mais no conjunto da ex-URSS. O custo humano dos primeiros
sete anos de restauração do capitalismo por Boris
Yeltsin foi comparável ao da coletivização
forçada por Stalin. Enquanto isso, a nova plutocracia
encabeçada pelo magnata da mídia e das finanças
Boris Berezovski, enviou mais de US$ 120 bilhões para o
Ocidente.
Essa oligarquia armou, porém, uma bomba-relógio
financeira ao deixar de viabilizar susa empresas com uma
administração responsável e seu Estado com os
impostos indispensáveis a sua manutenção. A
dívida pública tornou-se uma pirâmide financeira
insustentável e a econômia foi reduzida ao escambo.
Em
março de 1998, Yeltsin afastou o primeiro-ministro Viktor
Chernomyrdin, seja para tentar evitar o desastre, seja para preservar
as possibilidades eleitorais daquele que via como seu sucessor. Pôs
em seu lugar o tecnocrata liberal Serguei Kiriyenko, só para
rifá-lo logo após a moratória de agosto, cujas
repercussões resultaram na crise cambial brasileira e na
aceleração da fuga de capitais de países
emergentes para os EUA, que inflou a bolha da “nova
econômia”.
Yeltsin voltou a nomear Chernomyrdin, mas
desta vez enfrentou inesperada oposição da DUMA, o
Parlamento russo.
Uma aliança de comunistas, nacionalistas
de direita, setores agrários e liberais menos corruptos ( ou
fora do governo ) vetou por ampla maioria a renomeação
do responsável pelo desastre.
Foi então nomeado
Yevgueny Primakov, mas esse veterano da KGB, respeitado pela
oposição, investigou remessas ilegais para Jersey e
Suiça, que envolviam parentes e amigos de Yeltsin. Em maio de
1999, quando o próprio Berezovski foi detido, o presidente
trocou Primakov por um assessor leal, Serguei Stepashin, ao qual deu
a tarefa de retirar as acusações contra Berezovski e
abafar o escândalo.
Três meses depois, contudo,
separatistas da Chechênia invadiram o vizinho Daguestão
para tentar criar outro Estado islâmico, ação
acompanhada por explosões que mataram 300 pessoas em várias
cidades russas, então atribuídas a terroristas
chechenos. Mas Stepashin temia voltar a esse pântano. Havia
coordenado a fracassada guerra contra a Chechênia entre 1994 e
1996, que, depois de fazer 100 mil mortos, terminou com uma
humilhante retirada russa.
O separatismo já ameaçava,
entretanto, também o Tatarstão, grande Estado muçulmano
no coração da Rússia, e até a Sibéria,
quq detém a maior parte das riquezas naturais do país.
O renascente nacionalismo russo não admitia transigir com essa
ameaça de desintegração total. Com o apoio de
Berezovski, Yeltsin trocou Stepashin pelo linha-dura Vladmir Putin,
ex-agente da KGB e então comandante de sua sucessora, a
FSB.
Muitos consideram Putin mais um membro da “Família”
do Kremlin e apostaram que nada mudaria. Manteve-se leal a pessoa de
Yeltsin, é verdade, mas aproximou-se de Primakov e consolidou
a formação de um bloco hegem6onico autoritário,
mas competente, aparentemente respaldado por uma facção
menos predatória e mais nacionalista da nova burguesia
russa.
Em dezembro, o adoentado Yeltsin cedeu a Presidência
a Putin em troca de uma generosa pensão e imunidade a
processos por corrupção. Juntamente com a reconquista
da capital da Chechênia, a recuperação econômica,
ajudada pela recuperação do petróleo ( devido a
rearticulação da OPEP após a posse de Hugo
Chavez na Venezuela ) impulsionou a popularidade de Putin, que venceu
as eleições presidenciais de março de 2000 com
53% dos votos.
No fim de 2000, o novo presidente reabriu as
investigações sobre Berezovski e seu rival na mídia,
Vladimir Gusinski. Ambos julgaram prudente exilar-se em Londres.
Berezovski passou a agir como um Trotski as avessas e a denunciar o
regime que havia ajudado a instaurar.
No ano seguinte, a Duma
aprovou por maioria esmagadora a proibição a
“estrangeiros e cidadãos com dupla cidadania” de
controlar redes de tevê de alcance nacional. Ambos os
bilionários eram detentores de passaportes israelenses e
tiveram de vender a maior parte de suas emissoras, cuja retomada pelo
Estado se completou em junho de 2003.
O setor privado ficou
restrito a meios de alcance local. Embora haja mais liberdade de
expressão na Rússia de hoje do que na maior parte de
seu passado, vários jornalistas morreram em cirscunstâncias
suspeitas e dezenas sofreram agressões físicas depois
de criticarem o governo ou as máfias locais.
A despeito
disso, os empresários que apoiam o governo têm poucas
queixas.
O governo de Putin continua muito camarada: cobra só
24% sobre a pessoa jurídica e 13% lineares sobre a pessoa
física, por mais alta que seja a renda.
Os analistas
estrangeiros também se maravilham: cinco anos depois do calote
de US$ 40 bilhões, a agência Moody’s, em 8 de
Outubro, reclassificou o risco da Rússia como “bom para
investimento”- cinco degraus acima do Brasil e, pasmem, um
degrau acima do Chile.
A desvalorização de 6 para 24
rublos por dólar, as altas tarifas de importação
e os baixos preços internos do gás e do petróleo
( mantidos pelo Estado a 15% e 30% do preço internacional,
respectivamente ), deram competitividade a indústria
russa.
Aliado a alta do gás e do petróleo no mercado
internacional e a percepção de que voltava a existir um
projeto nacional, isso permitiu ao PIB crescer em média 6,4%
ao ano de 1998 a 2002. O superávit comercial da Rússia
é o segundo maior do mundo ( depois do Japão ) e
permitiu acumular US$ 64,3 bilhões em divisas ( 51,5% da
dívida externa ), apesar das fortes restrições a
investimentos externos.
No primeiro semestre de 2003, o
crescimento econômico chegou a 7,2% e Putin prometeu duplicar o
PIB até 2010.
Em dólares, é factível:
uma moderada valorização real do rublo, combinada com
um crescimento anual de pelo menos 4,5% esperado pela maioria dos
analistas, levaria o PIB dos US$ 430 bilhões de 2003 para US$
910 bilhões, melhorando a capacidade russa de importar bens de
capital modernos e de segurar mão de obra qualificada.
Por
outro lado, as exportações continuam dominadas por
minérios e energia ( 56% do total ). A indústria ainda
é atrasada e sua localização geográfica,
ditada pela estratégia política e militar soviética,
é irracional do ponto de vista capitalista.
O investimento,
embora se tenha recuperado, ainda é a metade do necessário
para um rápido crescimento sustentado. A infra-estrutura
social necessita ainda mais de recursos: a saúde e a educação
continuam muito aquém dos padrões da era Brejnev. Que
demonstrou há muito que o autoritarismo é muito bom
para esconder os problemas por algum tempo, mas não para os
resolver.
Matéria da Revista Carta Capital de 15 de
Outubro de 2003
(Câmara de Comércio
e Indústria Brasil-Rússia, www.brasil-russia.com.br
)