NOTÍCIAS – 12/02/2005

COMENTÁRIOS: NINA KULIKOVA, observadora econômica da RIA "Novosti"


Vladimir Simonov, observador político da RIA "Novosti"

O “Quarto Canal” da TV britânica transmitiu na quinta-feira uma extensa entrevista com o cabecilha dos separatistas chechenos, Chamil Bassaev, tendo assim manifestado aberta e conscientemente o seu apoio informativo ao terrorismo internacional. Importa aqui referir um detalhe surpreendente da produção deste programa: a iniciativa da sua exibição pertenceu não a Bassaev mas aos jornalistas do canal britânico. Foram eles que fizeram tudo para dar a possibilidade de intervir em público ao homem que matou 320 pessoas na escola de Beslan no Outono de 2004, que reivindicou a responsabilidade pela tomada de reféns durante o espectáculo “Nord-Ost” no teatro Dubrovka em Moscovo em 2002, que matou a sangue frio dezenas de doentes no hospital na localidade de Budionovski em 1995 e cometeu muitas outras atrocidades.
O terrorista Chamil Bassaev só pode ser comparado com o saudita Osama bin Laden. As autoridades da Rússia prometeram 10 milhões de dólares por informação sobre Chamil Bassaev. Entretanto, a cadeia televisiva britânica queria tanto falar com este homem que até elaborou antecipadamente a lista de perguntas, entregando-a a um indivíduo de confiança de Bassaev numa das capitais europeias. Passados quatro meses, os esforços dos intermediários britânicos foram compensados: numa pequena loja do Médio Oriente encontraram um CD com o monólogo de Chamil Bassaev, onde o terrorista informa cinicamente estar a preparar mais atentados semelhantes ao de Beslan. Tudo isso, no essencial, significa que os crimes são organizados de mãos dadas com a TV britânica.
Ao surgir perante o público mundial com a ajuda da TV, o terrorista deu a entender a todos que continua vivo e que está pronto a aceitar novos donativos dos seus patrocinadores. Pode-se, então, esperar que, graças à televisão britânica, Chamil Bassaev possa receber abundantes contribuições em armas e dinheiro.
A diplomacia russa insistiu para que a televisão britânica abandone o seu papel de porta-voz do terrorismo internacional, representado, ainda por cima, por um dos seus cabecilhas mais odiosos. Todavia, Londres oficial respondeu que não poder pressionar uma cadeia independente da TV e, mais ainda, não quer restringir a liberdade de expressão na Inglaterra. Entretanto, na Grã-Bretanha toda a comunidade jornalística sabe bem que tanto os dirigentes do “Quarto Canal” como o Conselho de Tutela da TV pública da BBC mantêm boas relações com a Whitehall (sede do Governo britânico), estando sempre atentos às recomendações deste organismo.
O Foreign Office pode agora emitir comunicados e declarações oficiais sobre a condenação por parte do Governo britânico da actividade terrorista de Chamil Bassaev e evocar o seu consentimento em incluir a seu nome na lista negra do Comité Contraterrorista do Conselho de Segurança da ONU. Infelizmente, o que não pode o Foreign Office fazer é desmentir um facto irrefutável: Londres oficial continua como antes a catalogar os terroristas em “bons” (os que ameaçam a Rússia) e “maus” (os que ameaçam ao mundo ocidental).
Parece conveniente observar a este propósito que as autoridades de ocupação do Iraque – e a Grã-Bretanha é o segundo país mais importante na coligação –encerraram logo a representação da cadeia televisiva árabe Al-Jazeera em Bagdad pelo facto de este fazer alegadamente publicidade a Osama bin Laden. Segundo a lógica de Londres, a mesma coisa em relação a Chamil Bassaev é absolutamente aceitável. Será talvez porque as armas deste terrorista não estão apontadas contra o Ocidente, mas sim contra a Rússia?
Ora, a transmissão pública da entrevista de Chamil Bassaev pela Tv inglesa insere-se na já conhecida política de Londres de “critérios duplos”, mais um exemplo da qual foi a concessão de asilo político a um outro extremista checheno, Ahmed Zakaev, a emissão de vistos e documentos de identificação ao magnata russo Boris Berezovski, a contas com a justiça russa, entre outras iniciativas hostis em relação à Federação Russa.
A 10 de Abril de 1992, os terroristas do IRA fizeram explodir o edifício Baltic Exchange na City londrina. Só por mera associação seria interessante saber: qual seria a reacção das autoridades britânicas, se, suponhamos, o canal oficial da TV russa emitisse uma entrevista com o líder da célula terrorista do IRA que reivindicou a responsabilidade pelo acto referido? Se entrevistado, envergando uma camisola preta com o slogan “Anticolonialismo” referisse pausadamente que se planeiam mais uma dezena de acções semelhantes?.
Essa sim é que seria a verdadeira liberdade de expressão, na interpretação britânica!


(Consulado Geral da Rússia no Rio de Janeiro, www.consrio.com.ru, 12/02/2005)