FUTEBOL
Chefe
da parceira corintiana não pediu visto ao governo e, segundo
coordenadora de imigração, pode ser deportado
MINISTÉRIO
DO TRABALHO VÊ KIA IRREGULAR
EDUARDO ARRUDA
KLEBER TOMAZ
DA
REPORTAGEM LOCAL
RICARDO PERRONE
DO PAINEL FC
Kia
Joorabchian não tem autorização para trabalhar
no Brasil. Por ser estrangeiro, o homem forte da MSI precisaria de um
visto, mas até agora não pediu a licença ao
Ministério do Trabalho.
Mesmo assim, ele despacha na sede
da empresa e no Parque São Jorge, de acordo com sua própria
assessoria de imprensa.
O iraniano negocia com jogadores, assinou
no país o contrato entre a MSI e o clube e toma decisões
sobre patrocinadores.
Essas atividades são irregulares,
segundo a coordenadora-geral de imigração do Ministério
do Trabalho, Hebe Teixeira Romano. Por isso, diz ela, a Polícia
Federal pode obrigá-lo a sair do país.
"Só
o fato de ele falar pela empresa, dizer que investiu tantos milhões,
já constitui um ato de gestão. Ele não tem
autorização para fazer isso", afirmou
ela.
"Empregar ou gerir uma empresa são atos de
gestão", explicou Nelson Mannrich, professor de direito
do trabalho da USP.
O Ministério da Justiça pediu
informações sobre Kia à Polícia Federal.
Ouviu que o nome do iraniano não consta em nenhum de seus
registros de visto.
O parceiro corintiano já teve de se
explicar aos policiais federais. Em novembro do ano passado, antes
mesmo de fechar o acordo, foi chamado para dar esclarecimentos sobre
sua situação no país. Na ocasião, nenhuma
irregularidade foi apontada.
De lá para cá, Kia
assinou contrato de dez anos com o Corinthians, apareceu publicamente
falando pela parceria e explicando seus trabalhos como
dirigente.
Entre suas ações, negociou pessoalmente
com o atacante Luizão, que acabou não sendo contratado.
Foi ele também o dirigente responsável por negociar um
aumento de 100% nas verbas de patrocínio pagas por Pepsi e
Siemens. As duas empresas deixaram a camisa do clube.
Ao mesmo
tempo em que se expôs como executivo no Brasil, Kia tomou o
cuidado de não assinar documentos que seriam uma prova de suas
atividades no país.
Seu nome não aparece na relação
de sócios da MSI Licenciamentos e Administração
Ltda., fundada em outubro.
"Ele está desde o final do
ano passado atuando aqui, não entendo qual o motivo para ainda
não ter pedido o visto", disse Romano. Ela classifica
como rápido o processo para obtenção do
visto.
Uma exigência é que o estrangeiro não
tenha histórico criminal. Enquanto tratava da assinatura da
parceria, Kia foi acusado por conselheiros do clube de crimes como
lavagem de dinheiro.
O deputado estadual e conselheiro Romeu Tuma
Jr. entregou um dossiê sobre o iraniano ao Ministério
Público Estadual de SP.
Kia chegou ao Brasil de maneira
nada discreta e chamou a atenção das autoridades do
país. O que mais aguçou a curiosidade de funcionários
de órgãos governamentais foi o fato de o dirigente
falar em investimentos milionários (ao menos US$ 35
milhões).
O barulho detonou investigações.
Além do Ministério do Trabalho e do Gaeco, grupo de
repressão ao crime organizado, acionado pelo Ministério
Público, o Banco Central também está no rastro
de Kia e de sua empresa.
O órgão investiga a
operação financeira que colocou o argentino Tevez no
Corinthians. O dinheiro, cerca de R$ 60 milhões, não
passou pelo Brasil. Foi direto para a conta do Boca Juniors, na
Argentina. Esse procedimento pode valer ao clube uma multa no mesmo
valor da compra.
(Folha de S. Paulo,
Folha Esporte, 2/2/2005)