NOTÍCIAS – 30/1/2005



MSI BRASIL VALE R$1.000 E NÃO LISTA KIA COMO SÓCIO



EDUARDO ARRUDA
EDUARDO OHATA
DA REPORTAGEM LOCAL


RICARDO PERRONE
DO PAINEL FC

O iraniano Kia Joorabchian não está entre os sócios da MSI Licenciamentos e Administração Ltda. O braço brasileiro da parceira corintiana tem dois advogados como seus responsáveis e ostenta um capital de apenas R$ 1.000.
De acordo com o registro da empresa na Junta Comercial de São Paulo, os sócios são Carlos Fernando Sampaio Marques, que tem participação de R$ 1, e Maurício Fleury Pereira Leitão, que possui os outros R$ 999.
A MSI justifica o valor proporcionalmente pequeno, se comparado aos negócios da empresa, que envolvem somas milionárias, com o argumento de que na ocasião (outubro de 2004) ainda estava em processo de abertura.
Ambos trabalham no escritório de advocacia Veirano Associados, que presta serviços para a MSI.
A parceira corintiana funciona e está registrada com o mesmo endereço da Veirano. Como não é legalmente um dos sócios da firma, Kia (que tem participação na MSI britânica) está isento de responsabilidade legal sobre ela.
Marques e Leitão têm de responder por suas ações. Apesar disso, quem toma as decisões é o executivo iraniano.
O fato de Kia não assinar como sócio da MSI brasileira já chamou a atenção do Ministério Público, que investiga a parceria com o clube do Parque São Jorge.
Segundo a MSI, o nome de Kia não consta no documento porque ele não tinha à época visto de permanência no país. E diz que no futuro o iraniano se tornará sócio.
Também chamou a atenção do Ministério Público uma mudança feita entre os sócios da MSI, em poucos meses de funcionamento. Leitão substituiu Alexandre Verri, sócio da Veirano e um dos donos na constituição original.
O Ministério Público quer saber os motivos que o levaram a sair da empresa -ele continua no escritório de advocacia. A Folha telefonou na sexta-feira para Verri em seu escritório e foi informada de que o advogado estava viajando. Ele e os dois sócios atuais serão chamados pelo Ministério Público para prestar depoimento.
A empresa também já mudou sua denominação. Nasceu como MSI Brasil Participações Ltda. Ela foi constituída em 19 de outubro de 2004, cerca de dois meses antes de o Conselho Deliberativo do Corinthians aprovar a parceria.
Isso demonstra a confiança que Kia e Alberto Dualib, presidente do clube, tinham na aprovação do acordo, apesar de terem sido necessárias três reuniões do órgão, duas delas tumultuadas.
Com um pequeno capital (de acordo com sua situação na Junta até a última quinta), a MSI Brasil terá de recrutar a maior parte de seu dinheiro no exterior.
Precisa de US$ 20 milhões para pagar as dívidas do clube.
O Banco Central já tem uma cópia do registro da empresa. Vai acompanhar se os dólares que ela precisa para honrar seus compromissos entrarão legalmente no país. Até agora só vieram US$ 2 milhões, em forma de empréstimo feito por uma outra empresa.
O órgão já investiga a compra de Tevez (ex-Boca Juniors), que custou cerca de R$ 60 millhões, que não passaram pelo país. O dinheiro foi direto para a Argentina.
Os dois donos não desfrutam na prática do status que gozam no papel. Leitão, por exemplo, divide uma sala com o assessor de imprensa da MSI, Fernando Mello.


(Folha de S. Paulo, Folha Esporte, 30/1/2005, p. D-2)




EMPRESA FOI CRIADA SÓ PARA FIRMAR O ACORDO

DA REPORTAGEM LOCAL

E DO PAINEL FC

O Corinthians já teve recentemente outros parceiros, como HMTF e Excel, mas experimenta agora um exclusivo. A MSI (Media Sports Investments) só existe por causa do Corinthians, segundo admitiu o executivo Kia Joorabchian.
"Nunca enganei o presidente [Alberto] Dualib nem o conselho do Corinthians. Desde o início, disse que a MSI foi formada só para essa negociação. Temos um grupo muito grande, que atua em diferentes áreas, como petrolífera, mídia e entretenimento. Não tínhamos empresa ligada ao futebol", afirmou Kia, no final de 2004.
"Então, criamos a MSI, uma offshore [empresa que normalmente visa colocar dinheiro e corporações a salvo do controle dos Estados nacionais], nas Ilhas Virgens Britânicas."
Opositores pressionaram Dualib ao saber que a MSI tinha sede em paraíso fiscal. Londres figurou então como o endereço da empresa. Mas lá mal há estrutura para um escritório (no local, funciona uma academia de ginástica).
A MSI espantou duas firmas especializadas em auditoria (Ernest & Young e Deloitte Touche Tohmatsu), que não quiseram vincular sua imagem à empresa.(EA, EO E RP)



(Folha de S. Paulo, Folha Esporte, 30/1/2005, p. D-2)


SAIBA MAIS



ADVOGADOS DE KIA TÊM ESCRITÓRIOS EM SETE CIDADES

DA REPORTAGEM LOCAL


O escritório Veirano Advogados, que assessorou Kia Joorabchian na formação da parceria com o Corinthians, é um dos mais conceituados do país. A empresa representa os interesses do investidor no Brasil.
Fundado em 1972, o Veirano emprega 550 profissionais (cerca de 170 advogados) distribuídos por sete cidades: Rio, São Paulo, Brasília, Recife, Porto Alegre, Fortaleza e Macaé.
Também está representado em Portugal, pela Rebelo de Sousa & Associados, que possui escritórios em Lisboa, no Porto e na ilha da Madeira.
O Veirano possui uma vasta área de atuação. Ele trata de questões imobiliárias, comércio exterior, consultoria trabalhista, direito tributário e ambiental, fusões de companhias, tecnologia da informação e regulamentação antitruste.
No esporte, foi responsável pela criação da Sport S.A., cuja finalidade é administrar empresarialmente o futebol do time da Ilha do Retiro, que em 2005 faz cem anos. O Sport seguirá o exemplo do Vitória, que em 98 entregou seu futebol profissional ao Vitória S.A.
Em 2004, o Veirano foi nomeado, pela "Exame", uma das 150 melhores empresas para trabalhar no país.(EA, EO e RP)


(Folha de S. Paulo, Folha Esporte, 30/1/2005, p. D-2)


FUTEBOL

NOVELAS DO FUTEBOL


ROBERTO AVALLONE
ESPECIAL PARA A FOLHA

Fascinante por suas histórias e personagens, movido a paixão pela grande maioria -formada por torcedores fanáticos e também por românticos-, o futebol vive agora a era dos grandes negócios, colocando em destaque figuras emergentes: empresários, procuradores, assessores, "donos de direitos federativos" (o antigo passe) e quetais.

São interessantes, curiosas, digamos, essas figuras emergentes, personagens do futebol da nova era. Que tal um passeio aos bastidores do futebol, à prática, para que tudo não pareça ficção ou blablablá? Façamos, pois, pequenas novelas, cenas reais:

1)Moscou Contra 007: este foi um filme da série da qual não estou entre os fãs de carteirinha, embora torcesse por James Bond, agente invencível e emérito galanteador. Aqui, neste caso, quem seria o Bond corintiano contra a misteriosa parceria da MSI? São alguns os candidatos, os resistentes, seria injusto destacar um só. E Moscou, no caso, seriam os supostos investidores da parceria personificada pelo iraniano Kia Joorabchian, mas todos (segundo o vice Antonio Roque Citadini, que disse publicamente) "são soviéticos e têm dificuldades com a lei!".
Palavras de Citadini. Que fique claro: faço figa, cruzo os dedos e lanço um "Saravá, meu Pai", depois de ler, nesta Folha, de quem supostamente se trata o homem que estaria por trás do dinheiro, o homem que teve seu nome citado no programa do Milton Neves, na Record: Badri Parkatsishvili, controvertido magnata da Geórgia.
E quem o citou, todos sabem, foi o próprio presidente do Corinthians, Alberto Dualib. Meu Deus! Se Badri for tudo isso, que os deuses do Olimpo me protejam e que James Bond me socorra! (Em tempo, que sou filho de Deus: se fosse você, não perderia hoje, no Bola na Rede, da Rede TV!, o debate entre Citadini e Lico Martins sobre a parceria e Tite).

2)Os Irmãos Karamazov (ou um filme mexicano que virou uma daquelas novelas chorosas, quando o tema central era o ciúme de dois amigos. Ou ex-amigos): ainda me valendo desta Folha, leio a reportagem sobre ciúmes e desencontros entre Dualib, octogenário presidente corintiano, e o jovem Kia, da MSI. Por considerar muito simpático e sorridente o senhor Dualib (recordista de títulos entre os presidentes corintianos), ah, confesso que temi por ele: ora, se for verdadeira a história de que ele irá receber salário como executivo da MSI, não estaria incorrendo em grave infração trabalhista? Cuidado: o senhor Dualib, quem sabe, pode até ser demitido. E ainda por justa causa? Ah, não, deve ser intriga. Intriga da oposição, pois não?
E não acredito que Dualib tenha falado tudo aquilo (relembrando o nome de Badri, o terrível magnata da Geórgia, e que Kia tem 30% da MSI) para mexer com o iraniano. Não acredito -deve ter sido um ato falho. Ou melhor: não acredito até a página 9. E o livro, feito novela, é bem grande.


Roberto Avallone é apresentador do programa "Bola na Rede", na Rede TV!


(Folha de S. Paulo, Folha Esporte, 30/1/2005)