NOTÍCIAS – 29/1/2005

DESPORTO


COMPARADO COM JORGE MENDES, VEIGA É UM MENINO DE CORO



Afastado dos grandes negócios do futebol há já algum tempo, o agente FIFA não deixa de ter uma visão cáustica desse universo. Com Jorge Mendes na mó de cima e José Veiga no Benfica, Barbosa estabelece comparações e analisa a investida russa no futebol português.



CORREIO DA MANHÃ – Conhecendo os clubes de Moscovo, deixou-se passar por Jorge Mendes, na corrida aos jogadores portugueses?
Paulo Barbosa – Que eu saiba, Jorge Mendes limita-se a acompanhar o presidente de um clube quando este quer comprar jogadores.

CORREIO DA MANHÃ – O que dá os seus lucros...
Paulo Barbosa – Não pretendo ser o maior. Nesta área, há espaço para todos.

CORREIO DA MANHÃ – Também foi Jorge Mendes quem negociou com Abramovich...
Paulo Barbosa – Não, os negócios foram feitos pelo FC Porto. Jorge Mendes apenas representou os jogadores. Que, de resto, nem eram dele, exceptuando Ricardo Carvalho. O Paulo Ferreira era do Baidek e o Tiago, do Veiga. O que é curioso.

CORREIO DA MANHÃ – Mas ele é ou não o maior empresário português?
Paulo Barbosa – Há aqueles a quem a carteira não chega a caber no bolso e os que têm o bolso roto. Não quero ser um caso nem outro. O importante é manter contactos fiáveis e para isso é preciso ser credível.

CORREIO DA MANHÃ – Quer dizer o quê?
Paulo Barbosa – Será que um presidente de um clube como o Dínamo vai ser campeão só porque comprou aqueles jogadores? Se não for, Jorge Mendes vai conhecer a outra face dos russos.

CORREIO DA MANHÃ – Como explica a ascensão de Mendes?
Paulo Barbosa – Da mesma forma que explico o aparecimento de Veiga, há uns anos atrás. As pessoas não são mais do que a expressão pública de uma estrutura. Veiga, primeiro e, Mendes, agora, são a face pública dessa estrutura.

CORREIO DA MANHÃ – O FC Porto?
Paulo Barbosa – Não estou a falar de clubes mas de estruturas. Jorge Mendes é a face pública de uma estrutura sempre interventiva no mercado português.

CORREIO DA MANHÃ – Quem é a face escondida?
Paulo Barbosa – A seu tempo, se for necessário, voltarei a falar sobre o assunto.

CORREIO DA MANHÃ – O certo é que ele vendeu os jogadores do FC Porto que queriam sair...
Paulo Barbosa – Não há nenhum jogador do FC Porto que seja transferido sem que essa seja a vontade da SAD.

CORREIO DA MANHÃ – Mas só saíram os atletas representados por Mendes. Maniche não saiu.
Paulo Barbosa – Por causa dos valores pedidos pela SAD – 20 milhões de euros.

CORREIO DA MANHÃ – Agora que o atleta é representado por Mendes, o FC Porto vai negociar?
Paulo Barbosa – Se os valores forem os mesmos não vai ser fácil. Reconheço que não tive qualidade para realizar essa transferência. Se outros o fizerem, fico feliz. Continuo a pensar que não será por 20 milhões.

CORREIO DA MANHÃ – O FC Porto vai baixar a fasquia?
Paulo Barbosa – Não acredito. Espero, contudo, que o jogador vá para o Chelsea, Arsenal ou Barcelona e não para qualquer Dínamo de Moscovo.

CORREIO DA MANHÃ – Comparou Jorge Mendes a Veiga...
Paulo Barbosa – Ao pé de Mendes, Veiga foi e é um menino de coro.

CORREIO DA MANHÃ – Porquê?
Paulo Barbosa – A forma como é feita a abordagem aos atletas nada tem a ver com o que determinam os regulamentos da FIFA.

CORREIO DA MANHÃ – Por exemplo...
Paulo Barbosa – O caso do Jorge Ribeiro. Alguém poderá achar correcto que um jogador ligado a um clube desapareça durante um mês e vá treinar para um clube em Moscovo, sem dar qualquer satisfação ao clube a que está ligado? É uma forma de contornar a lei, que pode fazer escola: quando um jogador quiser sair de um clube basta seguir o mesmo expediente.

CORREIO DA MANHÃ – Isso foi mesmo assim?
Paulo Barbosa – Exactamente assim.

CORREIO DA MANHÃ – É legítimo que os atletas procurem quem lhes resolva a vida...
Paulo Barbosa – Comigo, os jogadores são livres de escolher quem os representa. Pela minha parte, resolvi alguns pequenos problemas, como quando o Maniche não jogava no Alverca e, mais tarde, no Benfica.

CORREIO DA MANHÃ – Também perdeu Carlos Alberto?
Paulo Barbosa – Carlos Alberto tem o seu representante e uma advogada. Houve sempre acordo entre mim e a advogada, o que permitiu a transferência para o Corinthians.

CORREIO DA MANHÃ – O jogador vai para o Chelsea?
Paulo Barbosa – Ficaria admirado se não fosse.

CORREIO DA MANHÃ – Quando?
Paulo Barbosa – Quando a empresa que o adquiriu e que está por trás do Corinthians quiser.

CORREIO DA MANHÃ – Trabalhou na campanha de Jaime Antunes?
Paulo Barbosa – Sou benfiquista e teria votado nele se, na altura, estivesse em Portugal.

CORREIO DA MANHÃ – A entrada de Veiga no Benfica era inevitável?
Paulo Barbosa – Há muitos anos que Veiga está no Benfica, através dos jogadores que sugeriu ao clube, e por isso está ligado a uma gestão anterior cuja expressão máxima foi a chamada “equipa maravilha”. É óbvio que é um processo falhado.

CORREIO DA MANHÃ – Não é cedo para tirar conclusões?
Paulo Barbosa – Veiga foi apresentado com pompa e em regime de exclusividade por ser o maior e o melhor empresário do Mundo. Fica provado que é preciso ter cuidado com os maiores e os melhores, Veigas ou Mendes.

CORREIO DA MANHÃ – E Luís Filipe Vieira?
Paulo Barbosa – Tentou, de uma forma séria, fazer o melhor pela gestão do Benfica. Hoje, o clube tem uma melhor imagem pública. Teve o mérito de sanear e representou um ciclo. Agora é preciso dar início ao ciclo das vitórias.

CORREIO DA MANHÃ – Vieira pode ser o presidente desse novo ciclo?
Paulo Barbosa – Não me parece.

CORREIO DA MANHÃ – Vê-se a fazer as pazes com ele?
Paulo Barbosa – Não imagino. Isso não quer dizer que as coisas não venham a ser esclarecidas, um dia.

CORREIO DA MANHÃ – É um benfiquista muito amigo de Pinto da Costa.
Paulo Barbosa – Tenho boas relações com Pinto da Costa, mas isso não me impede de ter paixões ou convicções diferentes. E ser amigo não significa ser criado ou subserviente.

CORREIO DA MANHÃ - O mundo das transferências precisa de uma Operação tipo ‘Apito Dourado’?
Paulo Barbosa - Num Estado de Direito só os órgãos competentes estão em condições de responder a essa pergunta. ' SOU E SEMPRE FUI DE ESQUERDA'

CORREIO DA MANHÃ – Dizem que é comunista. É?
Paulo Barbosa – Sou e sempre fui de esquerda. Mas quando falamos de esquerda e direita, falamos de conceitos que não passam de rótulos convencionais. Por exemplo: embora Mourinho diga que é de direita, como treinador é de esquerda porque revolucionar e transformar não são atributos da direita, para quem a prioridade é conservar.

CORREIO DA MANHÃ – E dizem, também, que é um homem dos bastidores, sobretudo muito manipulador...
Paulo Barbosa – Ainda não desapareceu a mentalidade que a Guerra Fria criou. A imagem dicotómica do Mundo. O facto de ter feito um curso superior no Leste levantou dúvidas e muitos boatos. Se em vez de ter sido bolseiro em Moscovo o tivesse sido em Telavive ou Oxford estava tudo bem. Quanto à manipulação: não sou um manipulador e tenho medo de quem se deixa manipular.

CORREIO DA MANHÃ – Porquê o futebol, depois de um doutoramento em Ciências Sociais?
Paulo Barbosa – A determinada altura fui convidado para ensinar português a dois jovens de Leste, jogadores do Benfica. Mas a minha vida não se resume ao futebol. Até há pouco tempo dei aulas em Portugal e no estrangeiro. Gosto de futebol, intervenho nele à minha maneira e com as minhas características. E grande parte do tempo estou no estrangeiro, como é o caso. 'JÁ QUASE NÃO SE TRABALHA EM PORTUGAL

CORREIO DA MANHÃ – Como está o mercado?
Paulo Barbosa – Em termos internacionais, numa fase de grande recessão. Há alguns clubes com capacidade financeira, mas são a árvore e não a floresta. É preciso enveredar por outras formas de gestão, quer em clubes de países periféricos quer em clubes de países poderosos. A queda brutal das receitas de transmissões televisivas mostra a urgência da mudança. Quanto ao fenómeno de Leste, é isso mesmo: um fenómeno.

CORREIO DA MANHÃ – E em Portugal?
Paulo Barbosa – Em Portugal já quase não se trabalha. Quando muito tem-se jogadores que jogam em Portugal.

CORREIO DA MANHÃ – Como é que se inverte este ciclo?
Paulo Barbosa – Com o regresso às origens, à formação e à contenção. A grande parte dos clubes deve formar e vender.



PERFIL:
PAULO AUGUSTO MARTINS BARBOSA, 43 anos, nasceu em Viana do Castelo. Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Moscovo, desde sempre se interessou pelo futebol, como adepto e sócio do Benfica. mas só entra no meio de uma forma profissional quando é convidado pelo clube para ensinar português aos jogadores Iuran, Kulkov e Mostovoi. A partir daí, torna-se agente FIFA, representando jogadores como Marco Caneira e até há pouco tempo, o médio do Fc Porto, Maniche. No entanto, nunca deixou de dar aulas, quer em Portugal, quer no estrangeiro.

ALEXANDRA TAVARES-TELES

(Correio da Manhã, www.correiomanha.pt, Desporto, 29/1/2005)