NOTÍCIAS – 28/1/2005
BANCO
CENTRAL APURA COMPRA DO JOGADOR TEVEZ
O Banco Central iniciou
investigação sobre a movimentação
financeira da parceria Corinthians/MSI na contratação
do atacante argentino Carlos Tevez, relatam Eduardo Arruda e Ricardo
Perrone.
O dinheiro não passou pelo Brasil, o que pode
sujeitar o Corinthians a multa de mais de US$22 milhões
(R$58,6 milhões), caso ele tenha assinado o contrato de compra
e venda. Tanto o clube como a MSI negam que haja irregularidade no
negócio Pág. D-1.
(Folha de S. Paulo,
1a página, 28/1/2005)
CORINTHIANS NA
MIRA DO BANCO CENTRAL
Instituição
vai conferir negociações da MSI na contratação
de jogadores do exterior
Eduardo Maluf
O
Corinthians poderá pagar caro pelas transações
internacionais feitas pela MSI, parceira do clube, para a contratação
de jogadores. O Banco Central investiga como estão sendo
feitas as negociações e, caso constate irregularidade,
irá impor pesada multa contra a agremiação. O
problema estaria no fato de o dinheiro não ter passado pelo
BC, obrigatório para qualquer empresa brasileira em caso de um
negócio fora do País.
Pessoas ligadas à
MSI garantem não haver nenhum ato ilícito por se tratar
de um grupo estrangeiro - nesse caso, realmente, não haveria a
necessidade de contatar o BC. Mas, segundo técnicos da
instituição financeira, é uma entidade
brasileira que está se beneficiando do dinheiro investido pela
MSI. E os jogadores são registrados em nome do clube e não
da empresa. Por isso, dirigentes ligados ao BC disseram ao Estado que
acompanharão de perto os procedimentos da MSI e do Corinthians
para tomar alguma providência, caso necessário Até
agora, o grupo de Kia Joorabchian comprou os direitos de três
jogadores que estavam no exterior: o atacante argentino Carlos Tevez,
ex-Boca Juniors, o zagueiro argentino Sebastian Domingues,
ex-Newell’s Old Boys, e o meia Carlos Alberto, ex-Porto. Kia
mandou o dinheiro diretamente de uma conta na Europa para a conta dos
clubes que detinham os direitos dos atletas. Ou seja, o dinheiro foi
para a Argentina e para Portugal sem passar pelo Brasil.
Em
2000, à época presidido por Paulo Amaral, o São
Paulo fez algo semelhante na contratação do volante
chileno Maldonado. Tinha uma conta no exterior - mais precisamente em
Miam - e mandou o dinheiro dessa conta direto para o Chile, país
em que o atleta atuava, sem avisar o Banco Central. O BC, sabendo do
procedimento do clube, impôs multa de 17,5% do valor total da
transação. A confirmação foi feita ao
Estado pelo atual presidente são-paulino, Marcelo Portugal
Gouvêa . O Flamengo também recebeu punição
do BC pelo mesmo problema. "Estou preocupado . As pessoas no
Corinthians sabem do risco que o clube está correndo, mas
preferem que a MSI contrate craques para animar a torcida e
justificar a parceria", declarou um conselheiro do Corinthians,
que preferiu não se identificar. "Lá na frente a
multa vai ser pesada."
O atacante argentino Tevez custou
US$ 22 milhões. Se o percentual for o mesmo aplicado no caso
da contratação de Maldonado, o Corinthians terá
de desembolsar cerca de US$ 4 milhões.
(O Estado de S.
Paulo, Esportes, 28/1/2005)
Denúncia
de lavagem de dinheiro faz órgão atropelar trâmite
padrão e ir atrás do contrato de transferência do
atleta sob a ameaça de o Corinthians ser multado em US$ 22,6
milhões
BC INVESTIGA A COMPRA
DE TEVEZ
EDUARDO ARRUDA
DA REPORTAGEM
LOCAL
RICARDO PERRONE
DO PAINEL FC
O Banco Central acelerou o seu
procedimento padrão e abriu investigação da
movimentação financeira da parceria Corinthians/MSI na
contratação do atacante argentino Carlos Tevez.
O
órgão sabe que o dinheiro não passou pelo
Brasil. Agora, a principal meta é pôr as mãos no
contrato de compra e venda com o Boca Juniors. Se foi assinado pelo
Corinthians, o clube do Parque São Jorge está sujeito a
multa pouco superior a US$ 22,6 milhões (cerca de R$ 60
milhões), valor igual ao pago pelo atleta.
Normalmente, o
BC espera os relatórios semestrais enviados pela CBF sobre as
negociações dos clubes brasileiros com o exterior.
Depois de examinar os documentos, o órgão inicia a
investigação dos casos suspeitos.
As denúncias
de conselheiros corintianos de que a MSI só entrou no país
para lavar dinheiro, porém, fizeram com que o Banco Central
apressasse o processo.
Em caso de irregularidade na
transferência de Tevez, o Corinthians pode ser enquadrado no
decreto 23.258, que possui status de lei federal, sobre operação
ilegítima de câmbio.
Constituem operações
ilegais de câmbio a troca de moeda estrangeira por real no
Brasil sem passar pelas autoridades ou ainda o pagamento em real no
Brasil por moeda estrangeira no exterior.
A missão do
BC é descobrir quem assina o contrato de compra e venda de
Tevez.
Segundo técnicos do órgão ouvidos
pela Folha, só não existe a necessidade de o dinheiro
passar pelo país se a compra foi feita oficialmente pela MSI,
com a cessão do jogador ao Corinthians sendo feita
posteriormente. Como a empresa de Kia Joorabchian tem sede fora do
país, ela pode enviar dinheiro direto para a
Argentina.
Segundo determinação da Fifa, só
pode haver transferência de atletas entre clubes filiados a
associações ligadas à entidade.
A
diretoria do Boca declarou que oficialmente a negociação
foi feita com o Corinthians.
O BC não tem poder para
obrigar Corinthians, MSI e Boca a mostrarem o contrato que
sacramentou a negociação mais cara do futebol
brasileiro. Um dos meios de obtê-lo é a investigação
feita pelo Ministério Público de São Paulo sobre
a parceria.
O órgão já obteve cópias
do contrato entre MSI e Corinthians, que gerou dúvidas em seus
técnicos, e do documento referente à única
remessa de dinheiro feita pela parceria até agora.
São
US$ 2 milhões enviados por uma terceira empresa como
empréstimo ao Corinthians. Nenhuma irregularidade foi
encontrada.
Além de fazer um pente-fino na operação
que trouxe o atleta ao país, o BC seguirá de perto os
passos da parceria por causa da suspeita de lavagem de dinheiro por
parte da MSI, dirigida por Kia.
As cifras milionárias do
acordo -que prevê movimentar ao menos US$ 35 milhões em
dez anos- também contribuíram para a aceleração
do processo.
Por enquanto, só a operação
envolvendo Tevez está sendo rastreada. A compra de Carlos
Alberto, que custou 7 milhões (cerca de R$ 22 milhões),
deverá ser checada no fim de junho.
O futuro de Tevez, que
assinou por cinco anos, no Parque São Jorge também será
acompanhado de perto. Uma transferência do jogador para o
exterior num curto período de tempo seria um indício de
que o Corinthians serviu como uma lavanderia de dólares.
(Folha de S. Paulo,
Folha Esporte, 28/1/2005, p. D-1)
SAIBA MAIS
ORIGEM
ILEGAL DE DINHEIRO PODE PREJUDICAR CLUBE
DA REPORTAGEM LOCAL
E DO PAINEL FC
Um dos principais temores
dos conselheiros corintianos na parceria com a MSI diz respeito à
origem do dinheiro do fundo de investimento.
Segundo advogados
ouvidos pela Folha, a cúpula corintiana pode ser punida se
forem comprovadas irregularidades com as verbas da parceria.
Mesmo
que o crime não ocorra no Brasil, as autoridades do país
de origem do dinheiro ilegal podem pedir à Justiça
brasileira punição a todos os envolvidos no caso.
Por
isso a tese apregoada pela situação corintiana, a de
que o clube não corre riscos após o dinheiro passar
pelo Banco Central, cai por terra.
A pena para crime de
lavagem de dinheiro varia de três a dez anos de prisão,
além do pagamento de multa.
A MSI, criada nas Ilhas Virgens
Britânicas para se tornar parceira do Corinthians, já
espantou ao menos duas empresas especializadas em auditorias e um
escritório de advocacia em São Paulo.
Executivos
da empresa procuraram alguns dos principais peritos-contadores do
país para checar a situação financeira do clube
antes de assinar o contrato. Bateram com a cara na porta em pelo
menos duas oportunidades. (EAR E RP)
(Folha de S.
Paulo, Folha Esporte, 28/1/2005, p. D-1)
MSI DIZ SEGUIR LEI E ESTAR ABERTA A AVERIGUAÇÕES
DA REPORTAGEM LOCAL
E DO PAINEL FC
A MSI (Media Sports
Investments), por meio de sua assessoria, disse que, no caso da
transferência de Tevez, seguiu o que determina a lei
brasileira, além das regras de transferência
internacionais, e que está aberta a investigações.
Já
o Corinthians afirmou ser o dono dos direitos do argentino. E que o
dinheiro para a compra de Tevez não precisava ter passado pelo
Brasil.
"O Banco Central permite que uma empresa compre o
atleta e repasse os direitos ao clube sem o dinheiro passar por
aqui", disse o vice de futebol corintiano Andres Sanchez.
Os
US$ 22,6 milhões (cerca de R$ 60 milhões) saíram
de uma empresa no exterior e foram pagos ao Boca Juniores na
Argentina. A parceria Corinthians/MSI não divulgou de qual
país saiu o dinheiro.
Nesta semana, o presidente
corintiano, Alberto Dualib, disse que o magnata georgiano Badri
Patarkatsishvili, é um dos integrantes do fundo de
investimento que controla o futebol do clube e tem sede nas Ilhas
Virgens Britânicas.
Badri é amigo e sócio do
empresário russo Boris Berezovski. Eles são acusados de
fraude de US$ 13 milhões em uma empresa automobilística
na Rússia, além de ligações com a máfia
Tchetchena.
(EAR E RP)
(Folha de S. Paulo,
Folha Esporte, 28/1/2005, p. D-1)
ESTRELA FORA DA GALÁXIA
Melhor
do time até agora, atacante, que perderá a 10 para
Tevez, diz que esse será seu ano
SOMBRA ARGENTINA
ACORDA FUTEBOL DE GIL
DA REPORTAGEM LOCAL
E DO
ENVIADO A PORTO FELIZ
Ele vai perder a camisa 10, já
demonstrou insatisfação com isso, mas tem levado o time
nas costas. O atacante Gil, 25, atleta mais badalado do Corinthians
até a vinda de Carlos Tevez, iniciou guerra velada com a
estrela.
"Ele não é o salvador da pátria",
afirma Gil, sobre a contratação mais cara do futebol
brasileiro. "O Tevez é diferenciado, mas não vai
decidir nada sozinho nem carregar as pressões sozinho",
diz o atacante sobre o colega argentino de US$ 22,6 milhões
(cerca de R$ 60 milhões) e que receberá US$ 2 milhões
anuais (R$ 500 mil mensais).
O discurso seco do jogador, que tem
contrato com o Corinthians até o final deste ano e recebe R$
120 mil mensais, revela que a badalação sobre os novos
reforços do time o incomodam.
Curiosamente, porém,
seu futebol neste começo de temporada mostra a mesma
agressividade das palavras com que detona a irritação
com a perda do número 10 para Tevez.
No ano passado, o
futebol de Gil acompanhou a derrocada do time, que esteve ameaçado
de rebaixamento no Paulista e no Brasileiro. Foi um dos principais
alvos de críticas e ficou 224 dias sem marcar.
Em 2005,
ainda não balançou as redes. Mas, nos três
confrontos iniciais do Corinthians, ele foi o principal jogador da
equipe. Mesmo após as duas primeiras derrotas, para Mogi Mirim
e Marília, deixou o gramado festejado pela torcida.
"Neste
ano vou arrebentar. Em 2004, tive uma contusão séria
[no púbis], mas neste ano comecei muito bem", acredita
Gil, atleta que se apresentou com melhor condicionamento físico
na equipe para a pré-temporada em Porto Feliz (SP).
Anteontem,
após o primeiro triunfo do ano e mais uma atuação
convincente, fez questão de elogiar os companheiros que correm
o risco de perder a posição com a chegada das estrelas
milionárias da MSI.
"Tem toda essa badalação,
mas isso é um grupo. Tenho certeza de que todos terão
de disputar posição", acredita o atacante.
Se o
time se comportar dessa maneira, unido, acredita ele, poderá
voltar a conquistar títulos e sonhar de novo com a seleção.
"É
o meu grande sonho. Esse pode ser o meu ano", acredita o
jogador, que, amanhã, contra o América, deve vestir a
camisa 11 corintiana.
(EAR E LB)
(Folha de S. Paulo,
Folha Esporte, 28/1/2005, p. D-1)