NOTÍCIAS – 20/1/2005
FUTEBOL
HONESTO É
MAIS GOSTOSO
SONINHA
COLUNISTA DA FOLHA
Uma empresa tradicionalmente ligada ao mercado do futebol
quer estampar sua marca na camisa do Corinthians, o time mais exibido
na Globo e na mídia em geral. Oferece uma bolada pelo espaço
valioso, como tem de ser. A agência que nem sequer intermediou
o negócio (e que não venceu concorrência para ter
o direito de representar o clube) leva 10% de comissão (mais
de R$ 2 milhões) e ainda recebe uns trocados mensais (R$ 38
mil). Carla Dualib pode ser uma excelente profissional do marketing
(sem o tom pejorativo com que às vezes se usa a palavra
"marketing"), mas conquistar e manter a conta desse cliente
(clube da segunda maior torcida no país, presidido pelo avô)
foi fácil demais e não serve como parâmetro.
Durante
as negociações com a MSI, o então vice de
futebol, Antonio Roque Citadini, levantou dúvidas quanto à
lisura do negócio, as verdadeiras intenções do
fundo de investimento e todas aquelas questões que conhecemos.
Mesmo se opondo à parceria, ele admitia que poderia haver um
"choque de modernidade"; que os profissionais da MSI
impediriam velhas práticas, como os apadrinhamentos e as
escolhas baseadas em laços afetivos, familiares etc. Parece
que ele acertou.
No início, as desavenças entre Kia
Joorabchian e Carla foram tratadas como um caso de ciúme, mas
agora fica evidente que são os interesses financeiros da
parceria que estão em jogo. Embora dê a impressão
de não se importar em torrar dinheiro, de vez em quando ele
pára e conta quantos dólares entram e quantos saem.
A
MSI está certa ao exigir valores mais altos dos patrocinadores
-neste ano, a atenção ao time será ainda maior
do que era. A camisa sem logomarcas é um presente inesperado
para os torcedores que sonhavam com isso. Mas a Nike bobeou: se fosse
uma modelo mais tradicional, com o distintivo no lado esquerdo do
peito, muitos fariam uma loucura para comprá-la (a oficial é
cara demais para 90% da população).
O Corinthians
será um grande time? Pode ser. Descontados alguns valores
absurdos (Dualib se gaba dos "200 milhões" pagos por
meia dúzia de atletas, valor suficiente para construir dez
CEUs), as contratações têm sido boas.
Só
vamos conhecer as possibilidades e os limites desse elenco daqui a
algumas semanas, após o time enfrentar as inevitáveis
derrotas e os questionamentos, depois de sofrer as primeiras baixas
por suspensão ou contusão. O Santos já era uma
grande equipe, consagrada com o título brasileiro, e mesmo
assim passou por momentos difíceis, com Diego e Robinho tendo
sua qualidade questionada (de fato, o time não estava
funcionando e os dois não jogavam bem). E eram a prata da
casa. Imagine o quanto a torcida pode ser impaciente com os
"forasteiros", justa ou injustamente.
Mas atenção:
nenhum elogio à MSI deve ser atenuante ou justificativa para
ações ilícitas que eventualmente sejam
comprovadas. Não devemos adotar para valer a provocação
do torcedor que diz "roubado é mais
gostoso".
ENTUSIASMO DIFÍCIL
Sim, eles
deveriam vestir a camisa amarela com orgulho, lembrando o quanto esse
era um sonho de infância, o quanto ainda é um sonho para
milhares de garotos. Deveriam lembrar o que significa a palavra
"Brasil" mundo afora por causa das conquistas e dos
espetáculos dados por nossa seleção ao longo de
quase cinco décadas. Mas eu também tenho os empregos
que quis, que são o sonho de muita gente, e muitas vezes
resmungo por dizer tchau para a família que vai para a praia e
trabalhar no feriado. Por isso, não espero máximo
entusiasmo dos jogadores que vão participar de Hong Kong x
Brasil na Quarta-Feira de Cinzas, cumprindo um compromisso da
confederação com o patrocinador...
(Folha de S.
Paulo, Folha Esporte, 20/1/2005)