ENTREVISTA
– KIA JOORABCHIAN
"Vamos
inventar o lucro no futebol"
Presidente da MSI, parceira
do Corinthians, promete mudar a tática de fazer negócios
no
esporte. Diz que a idéia não é vender
jogadores,
mas valorizar a imagem dos
clubes brasileiros fora do País
Por
Maurício Capela
O novo homem-forte do futebol
brasileiro não nasceu no País e tampouco fala
português. Vez ou outra arrisca um “obrigado”, mas
a intimidade com o idioma não passa daí. E quem se
importa? Apesar da aparente dificuldade de comunicação,
Kia Joorabchian, iraniano de 33 anos, formado em “business”
(assim mesmo, só business) na Inglaterra, ex-funcionário
da Bolsa de Petróleo de Londres e atual presidente do fundo de
investimento Media Sport Investment (MSI), caiu na boca do povo.
Principalmente da torcida do Corinthians, clube que recentemente
assinou uma parceria milionária de 10 anos com a MSI. Você
viu quem o Kia contratou? Ouvi dizer que o Kia quer o David Beckham
no Timão... Educado
e trajando um terno bem cortado, “o” Kia recebeu a
DINHEIRO no escritório de advocacia Veirano, que o assessorou
na formação da parceria, em São Paulo (SP). O
próprio fundo de investimento, cujos investidores são
mantidos em sigilo, alugou um espaço no mesmo prédio do
escritório. É de lá que Joorabchian desenvolve o
seu plano. Ele já injetou quase US$ 60 milhões no clube
mais popular de São Paulo. “Vou transformar o
Corinthians nos Galácticos da América Latina”,
garante. Em outras palavras, promete um time de estrelas. Diz ainda
que a indústria do futebol no Brasil tem grande potencial, que
pretende criar a TV Corinthians e um canal brasileiro voltado
exclusivamente ao futebol. Confira os principais trechos da
entrevista:
DINHEIRO
–
Por que a MSI escolheu o Brasil para dar o pontapé inicial nos
investimentos em futebol?
KIA
JOORABCHIAN
– Simples. O País é o segundo time das pessoas no
mundo e os jogadores brasileiros são os melhores do planeta. E
isso é um grande diferencial.
DINHEIRO
–
Mas a economia brasileira cresce em alguns anos, seguido de
períodos
de estagnação. Ainda assim é interessante
investir em um local economicamente instável?
JOORABCHIAN
– Eu vou discordar dessa análise, porque há
grandes oportunidades em países em desenvolvimento. Sob esse
aspecto, o Brasil tem uma extraordinária chance de
crescimento. Além disso, reúne condições
de assumir uma posição de dominância na América
Latina. Basta olhar os números. O País tem mais de 175
milhões de habitantes e uma das nações mais
industrializadas do continente. E o potencial se estende ao futebol,
times e jogadores. Tem mais: os valores dos clubes europeus são
altos. O inglês Arsenal é um exemplo. Na bolsa, ele vale
perto de 150 milhões de libras esterlinas (US$ 282 milhões).
Mas se você deseja comprá-lo, não o fará
por menos de 300 milhões de libras (US$ 563 milhões). É
impossível. Além disso é necessário ter
muito recurso em caixa, porque as contratações são
caras. Os custos são mais altos que no Brasil.
DINHEIRO
–
É possível medir o potencial do mercado brasileiro de
futebol?
JOORABCHIAN
– É necessário estabelecer uma comparação.
Vejo o caso do Manchester United. Há 10 ou 15 anos, esse time
valia 30 milhões de libras esterlinas (US$ 56 milhões)
na bolsa de valores. Hoje, vale cerca de 800 milhões de libras
esterlinas (US$ 1,5 bilhão). E isso foi fruto de um trabalho
de médio a longo prazo. Aqui no Brasil, onde o futebol é
o melhor do mundo, um clube como o Corinthians tem potencial para ser
um dos maiores do planeta. Mesmo porque possui um número
grande de torcedores. É claro que o poder de compra desses
torcedores não é o mesmo que encontramos na Europa. Mas
a quantidade é enorme. O Corinthians tem 25 milhões de
fãs. Tudo bem que na Europa há os principais jogadores,
que os clubes são ricos, mas isso acontece porque ganham muito
dinheiro da televisão. Aqui, não. Lá, os clubes
também ganham muito dinheiro dos patrocinadores, da venda de
ingressos, de camisas e de outras fontes. Por isso, a venda de
atletas é algo secundário. Tudo isso precisa ser
desenvolvido no Brasil. Não se pode ter a mídia como
única fonte de renda.
DINHEIRO
–
Como a MSI enfrentará os problemas de cotas de TV e a
desorganização do futebol brasileiro?
JOORABCHIAN
– O fato é que estamos colocando capital no Brasil. E
nós sabemos que o futebol brasileiro tem problemas. Aliás,
todos os negócios no mundo têm milhares de dificuldades.
Se eu estivesse na Inglaterra e comprasse um clube, eu também
teria uma porção de problemas. Todo país tem
diferentes tipos de dificuldades. No que se refere às cotas de
televisão posso dizer que a coisa mais importante que eu tenho
visto nos meus encontros com o pessoal da TV Globo ou com outros
presidentes de clubes é que todos têm um sonho comum.
Eles querem melhorar os estádios, o nível do futebol no
País, mantendo os atletas aqui e reduzindo a exportação
de jogadores. E se tantos têm o mesmo sonho, alguém
precisa dar o pontapé inicial.
DINHEIRO
–
Qual é o plano da MSI para o Corinthians?
JOORABCHIAN
– No momento, não tenho números projetados. A
idéia é promover o crescimento do Corinthians. Em
futebol, eu penso que a mecânica é diferente. Primeiro,
é necessário ter um time vencedor. Quando você
tem isso, você cria uma atração que trará
os torcedores de volta ao estádio. E que pode despertar o
interesse global. Queremos que o mundo veja o Corinthians. Depois
disso, deveremos começar a ver os benefícios da
atração. A compra de Carlos Tevez faz parte desse
movimento global. Houve muita repercussão do Corinthians no
exterior. Os jornais da Itália, Inglaterra e até do
Oriente Médio noticiaram a contratação. A rede
de notícias CNN também divulgou o acordo, além
da ESPN, Eurosports e outras. Nós nunca esperávamos
tanto impacto e tão rápido. E isso tem reflexos para os
patrocinadores, que vão entender que o Corinthians está
virando internacional.
DINHEIRO
–
Então, o motivo da contratação de Carlos Tevez
foi promover a exposição internacional do
Corinthians?
JOORABCHIAN
– Não! Não foi essa a intenção. A
nossa meta é fazer do Corinthians o que chamo de os
“Galácticos da América Latina”. A idéia
é transformá-lo em um forte clube latino-americano,
aquele que todas as outras equipes gostariam de vencer. E eu quero
cumprir isso. Fazê-lo vai demandar diversas ações,
como participar de torneios na América Latina e na Europa.
Essas competições trarão receita.
DINHEIRO
–
Qual é a principal fonte de renda do time?
JOORABCHIAN
– No momento, é a televisão. E a parcela é
bem significativa.
Não me lembro ao certo, mas
possivelmente é superior a 60%. Depois, são os
patrocinadores. A venda de ingressos é muito pequena. As duas
principais fontes de renda são a televisão e os
patrocinadores. Só depois é que aparecem os ingressos,
a venda de camisas... Mas isso não é só no
Brasil. Isso é em todo o mundo.
DINHEIRO
–
Pretende equilibrar a composição da renda?
JOORABCHIAN
– Não. Nós estamos certos que a televisão
sempre terá a maior fatia no orçamento. É assim
no mundo. Isso é um fato. A segunda fonte de receita virá
dos patrocinadores. O ponto de interrogação é
como incrementar o orçamento. E Carlos Tevez e jogadores desse
porte ajudam nisso. Por exemplo, o Real Madrid contratou David
Beckham do Manchester e pagou pelo menos 25 milhões de libras
esterlinas (US$ 47 milhões) por isso. Mas eles já
receberam o dinheiro de volta. Eu tenho certeza que as vendas com
Beckham foram maiores, tanto em produtos do clube quanto na própria
venda de ingressos.
DINHEIRO
–
Como o sr. avalia o problema com a pirataria de camisas e outros
produtos no Brasil?
JOORABCHIAN
– Isso não é um problema só do País.
Isso acontece no mundo.
DINHEIRO
–
Mas aqui o índice é bem alto?
JOORABCHIAN
– Sim, é verdade. Certamente, esse número é
bem menor na Europa. Mas aqui você tem 25 milhões de
torcedores. E mesmo que você tenha um índice de 30% de
falsificação, ainda assim o número de venda
legal é alto. Em outros lugares, você pode ter um índice
de falsificação de 15%, mas o universo é,
digamos, de 5 milhões de torcedores. Vamos enxergar como
patrocinadores. Qual é o tamanho da exposição do
patrocinador no produto falso ou verdadeiro? É enorme. Eles
não querem saber se é real ou falso. Eles estão
preocupados com a visualização da marca e estão
interessados na exposição de seu nome na televisão.
Sob esse aspecto, o patrocinador tem que pagar ao clube muito mais
dinheiro. Eu sei que isso é um problema do País e um
problema econômico mundial. É preciso saber como
combater a pirataria.
DINHEIRO
–
Terminou o contrato com a Pepsi e com os demais patrocinadores.
O
sr. negocia com outras empresas?
JOORABCHIAN
– No momento, estamos discutindo com diferentes companhias
mundiais. Deveremos ter patrocinadores em dois ou três meses,
porque queremos fazê-los entender que buscamos ser
internacionais. E para fazer um bom contrato e trazer grande retorno
aos nossos patrocinadores, é necessário que eles vejam
o time completo. Nós deveremos contratar vários
jogadores. O valor da compra de atletas não é tão
importante para mim. O ideal é que os patrocinadores alcancem
um alto valor de exposição. Mas a nossa intenção
é ter só um patrocinador na camisa, porque é
mais bonito e dá mais exposição a quem colocar
sua marca no uniforme. (Estima-se que a Pepsi pagava R$ 9 milhões
ao ano e a Siemens, R$ 3 milhões. A Nike gasta R$ 15 milhões
num contrato até 2006.)
DINHEIRO
–
Qual é o potencial da marca Corinthians? E por que a MSI
escolheu
esse time?
JOORABCHIAN
– Tenho os números, mas não falo sobre isso. O
fato é que São Paulo é a capital econômica
do Brasil. Cerca de 50% da geração de riquezas acontece
aqui. E Corinthians é o principal time de São Paulo e
um dos principais do País. Está junto com o Flamengo.
DINHEIRO
–
Como o sr. chegou aos US$ 35 milhões?
JOORABCHIAN
– Os US$ 35 milhões são só o valor de
contrato. Mas é necessário considerar os US$ 22 milhões
na contratação de Carlos Tevez. Além disso, tem
os US$ 20 milhões que serão usados em obrigações
futuras e US$ 15 milhões para comprar outros jogadores. Então,
até agora, investimos US$ 57 milhões. Por conta desse
investimento, não atingiremos o ponto de equilíbrio
entre receita e despesa nos próximos anos. Lucro, só no
fim de 2008. Se conseguirmos antes, será
fantástico.
DINHEIRO
–
Como a MSI pretende recuperar o investimento feito em Carlos
Tevez?
JOORABCHIAN
– Nós não pensamos no mercado brasileiro. Numa
escala global, os US$ 22 milhões são muito baixos.
Basta compará-lo com números do mercado inglês.
Lá, um dos principais jogadores foi vendido por cerca de US$
60 milhões. Então, Carlos Tevez, que é um dos
principais jogadores da América Latina, foi negociado por um
terço do preço. E o contrato de Tevez é de cinco
anos e sua multa rescisória aproxima-se de US$ 98
milhões.
DINHEIRO
–
O lucro será alcançado por meio da venda de atletas
para o exterior?
JOORABCHIAN
– Não, a nossa intenção agora não é
vender jogadores para fora do País. A idéia é
outra. É exportar o conceito do futebol brasileiro e para isso
primeiro vamos montar um Corinthians forte com grande exposição
mundial. Essa proposta trará benefícios aos demais
clubes do País. Também temos a intenção
de montar um canal de tevê que fale sobre o Corinthians, um
“Corinthians TV”. Talvez possamos ajudar na formação
de um canal brasileiro de futebol. E isso deverá ser possível
em três anos. Acredito que é a melhor forma de exportar
a imagem do futebol brasileiro. Mostraremos os jogos, como
Corinthians x Palmeiras ou São Paulo x Fluminense. Queremos
que o mundo acompanhe o futebol brasileiro.
DINHEIRO
– Quais
são as companhias ou pessoas que compõem o fundo de
investimento MSI?
JOORABCHIAN
– Não podemos divulgá-los, porque eles preferem o
anonimato. Se não querem aparecer é para poder fazer os
investimentos. Aliás, alguém sabe quem são os
investidores da Hicks Muse Tate & Furst? Não. E do
Carlyle, o maior fundo de investimento dos Estados Unidos? Não.
É o sistema internacional. Funciona assim.
(IstoÉ Dinheiro, http://www.terra.com.br/istoedinheiro/384/entrevista/, ed. 384, 19/01/2005)