CAROS AMIGOS, abril/2005


A TEIA EM QUE SE METEU O CORINTHIANS

As investigações do Ministério Público apontam: é lavagem mesmo. E a trama está recheada de russos, argentinos, iranianos, israelenses e georgianos fugidos da justiça ou da Interpol. (por João de Barros)


1.OPERAÇÕES EM CASCATA, PARAÍSOS FISCAIS E INVESTIDORES OCULTOS

Lavagem internacional de dinheiro. Essa será a principal conclusão do relatório final que deverá ser entregue ainda este mês ao Ministério Público Federal. pelos promotores Roberto Teixeira Pinto Porto e José Reinaldo Guimarães Carneiro. do Grupo de Atuação Especial para Prevenção e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco-SP).
Desde o dia 18 de dezembro de 2004. eles investigam a parceria MSI-Corinthians. a partir de uma representação apresentada pelo deputado estadual Romeu Tuma Júnior (PPS). Até o final do mês passado. tinham produzido 3.000 páginas de documentos. distribuídos em sete volumes. contendo informações obtidas em organismos financeiros e policiais do Brasil e do exterior - de Brasília a Moscou.
Os promotores não têm dúvida de que o crime organizado está por trás da MSI-Corinthians. Baseiam-se nos seguintes indícios: os recursos são originários de paraísos fiscais; as operações são feitas em cascata. por intermédio de off-shores (empresas constituídas em paraísos fiscais), de modo a ocultar a identidade dos investidores; e. quando surgem nomes. eles são sempre os de Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili, condenados pela Justiça russa por evasão de divisas e sonegação fiscal e refugiados na Inglaterra e na Geórgia, respectivamente.
Por isso. o líder da MSI Brasil. o iraniano Kiavash Joorabchian. e Paulo Angioni, procurador das empresas Devetia Limited e Just Sports Inc.. ambas com sede no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas e sócias no negócio Corinthians. serão apontados como responsáveis pelo suposto crime porque ambos assinaram documentos que propiciaram as movimentações financeiras suspeitas das empresas envolvidas. Não está descartada. contudo, a hipótese de os diretores do Corinthians na parceria da MSI. Nesi Curi e Andrés Sanchez, e o presidente do clube, Roberto Dualib. também ser responsabilizados pelo crime.
Caso o relatório dos promotores estaduais de São Paulo seja acatado pela Justiça Federal (que também tem o poder de arquivá-lo ou solicitar mais investigações). os envolvidos poderão ser denunciados por prática de lavagem de dinheiro, cuja pena varia de três a dez anos de reclusão.


2.OS PERSONAGENS, UM POR UM

Dois argentinos e um israelense - Fernando Hidalgo, Gustavo Arribas e Pinhas (ou Pini) Zahavi, respectivamente - são donos da empresa HAZ Football Worldwide Ltd., com sede em Gibraltar. A subsidiária argentina da HAZ, a HAZ Sport Agency, foi que pagou as comissões aos intermediários da venda do atacante Tevez ao Corinthians e os 15 por cento a que o jogador tinha direito na transação. O trio. portanto. associou-se a Kia Joorabchian no negócio Corinthians.
Outro israelense. David Hasan, é representante da Global Soccer Agency Ltd. (GSA), dona de 50 por cento do passe do meia Carlos Alberto, comprado pelo Corinthians no início do ano do F.C. do Porto, de Portugal (os outros 50 por cento são da MSI). A Global é outra empresa de Pinhas Zahavi. também de Gibraltar (registro número 89518). cuja subsidiária é a Worldwide Soccer Agency Ltd., de Dublin, Irlanda. David Hasan, estranhamente. representa as duas a partir do escritório Bar-Nathan. Shochatovitch and Co.. localizado no 18° andar do Azrieli Center the Round Tower, em Tel Aviv, Israel Como se vê, assim como Zahavi. David Hasan é sócio de Kia Joorabchian no negócio Corinthians.
Dois georgianos misteriosos e outro muito conhecido - Zaza Toidze, Zaza Giorgi Imedaishvili e Badri Patarkatsishvili - são os responsáveis pelo empréstimo de 2 milhões de dólares ao Corinthians, enviados em nome da Devetia Limited (parceira da MSI brasileira), a partir da agência do Georgian Bank de Tbilisi. O suposto trio (se é que esse trio existe mesmo - veja o capítulo 5), portanto, é sócio de Kia Joorabchian no negócio Corinthians.
O multimilionário russo Boris Berezovski. exilado em Londres. é um capítulo à parte. O vice-presidente de futebol do Corinthians, Carlos Roberto Mello, confirmou. em depoimento aos promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado. a informação publicada há dois meses por Caros Amigos de que Yelena Berezovski. mulher de Boris. visitou o Brasil em julho do ano passado. A revista, por telefone, o magnata disse que "ela foi ver com os próprios olhos o que o Kia está fazendo aí para me dar um feedback". Berezovski diz que vai construir um estádio para o clube. Ele é, portanto. sócio de Kia Joorabchian no negócio Corinthians.
Um executivo iraniano - Reza Irani-Khermani. Este foi apontado pelo próprio Kia como o "cabeça financeiro" do grupo MSI. quando ele. Reza, esteve no Brasil. no fim do ano passado. e foi apresentado à banca de advogados Veirano, contratada pela MSI brasileira para assessorá-la juridicamente. O Gaeco confirmou a informação: "Qualquer movimentação financeira da MSI do Brasil ocorre com a anuência de Reza. que atua como o dono do dinheiro". Ele é, portanto, sócio de Kia Joorabchian no negócio Corinthians.
Fernando Hidalgo, Gustavo Arribas, Pinhas (ou Pini) Zahavi, David Hasan, Boris Berezovski, Zaza Toidze. Zaza Giorgi Imedaishvili, Badri Patarkatsishvili, Reza Irani-Khermani. sócios de Kia Joorabchian no negócio Corinthians, têm algo em comum: todos eles estão envolvidos em negócios obscuros pelo mundo afora, do tráfico de armas e drogas à lavagem internacional de dinheiro e ao terrorismo, de acordo com os processos a que respondem nos países de origem ou, dependendo do caso, a inquéritos da Interpol.


3. MISTÉRIO: QUANTO, AFINAL, CUSTOU CARLITOS TEVEZ?

O israelense Pinhas Zahavi é um predileto de Roman Abramovich. outro magnata da era pós-soviética, dono do clube inglês Chelsea e do russo CSKA e de uma fortuna de 13 bilhões de dólares. acusado de tráfico de diamantes em Angola. Foi Zahavi, em julho de 2003, quem apresentou Abramovich a Ken Bates, então presidente do Chelsea. ocasião em que o milionário russo assumiu o clube inglês com dívidas de 90 milhões de libras - mais de 450 milhões de reais -, transformando-o rapidamente num dos times mais ricos e fortes da Europa. Toda vez que Abramovich quer comprar um astro do futebol mundial. recorre a Zahavi. Foi assim com os argentinos Verón e Crespo, por exemplo.
A sociedade que Zahavi mantém com os argentinos Hidalgo e Arribas na HAZ gerou o negócio Tevez, quando os dois foram indicados a Kia Joorabchian. um novato no mundo do futebol. como "homens de confiança capazes de, digamos, "sensibilizar" o presidente do Boca Juniors, Mauricio Macri, quanto às vantagens de negociar o craque. E que vantagens!
Para começar. as partes anunciaram a venda do atleta como "a maior transação do futebol sul-americano -22,6 milhões de dólares!" No entanto. no início de março. o jornal Clarín, de Buenos Aires, publicou uma cópia do contrato celebrado entre os clubes, no dia 29 de novembro de 2004. Nele, lê-se no parágrafo terceiro: Mel precio total y definitivo de la cesión enunciada en la cláusula primera" - que atesta ser o Boca o dono dos direitos do jogador - "se conviene em la suma de US$16.000.000”.
Entretanto, no Contrato de Cessão e Transferência de Direitos Financeiros de Jogador de Futebol. firmado entre MSI e Corinthians no dia 30 de novembro de 2004, no qual o Corinthians cede e transfere à MSI a totalidade dos direitos financeiros de Tevez, lê-se na cláusula 2.1. que "a MSI pagará 17 milhões de dólares ao Boca em conformidade com o contrato feito entre os clubes" - 1 milhão de dólares a mais do que o acordo feito entre os times brasileiro e argentino no dia anterior! Detalhe: o contrato foi entregue como documento oficial ao Gaeco pelo presidente do Corinthians. Alberto Dualib.
Afinal. quanto custou Carlitos Tevez. 22.6 milhões de dólares. 17 milhões de dólares ou 16 milhões de dólares? Kia Joorabchian. investigado no Brasil pelo Ministério Público paulista por suposto crime de lavagem de dinheiro. expôs aos promotores do Gaeco a seguinte versão: "O valor de 22.6 milhões refere-se ao custo total do negócio". Discriminado por Kia da seguinte forma: 16 milhões de . dólares pelo passe. 2 milhões de dólares por conta de um suposto intercâmbio de jogadores juvenis que existiria entre os clubes. 1.8 milhão de dólares referentes a comissões para os agentes que intermediaram as negociações. 2.4 milhões de dólares para o jogador e 400.000 dólares de impostos e custos.
Na Argentina. o presidente do Boca. Mauricio Macri. investigado pela Unidad de Información Financiera por supostos crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. apresentou versão semelhante. O Boca recebeu 19.5 milhões de dólares assim distribuídos: 16 milhões de dólares pelo passe do atleta. 2 milhões de dólares por conta do tal intercâmbio de jogadores juvenis e os restantes 1,5 milhão de dólares foram "doados" por Tevez para o clube investir nas categorias de base.
Porém. duas escorregadas de Kia, que anda jantando muito fora, esclareceram pormenores importantes da transação. Um: o tal contrato de intercâmbio de jogadores. segundo o qual o Corinthians reconhece o Boca como um celeiro formador de talentos. podendo mandar para lá jovens brasileiros para melhorar a técnica futebolística - algo quase impensável tempos atrás -. foi. na verdade. uma manobra jurídica do presidente do clube. Mauricio Macri. para burlar o fisco argentino e pagar menos impostos. Dois: a "doação" de Tevez foi uma imposição de Macri para liberar o atleta. "Ou repassa o dinheiro ou não tem negócio". disse ao jogador. A esse respeito. aliás. há um contrato entre Tevez e o Boca. Nele. o jogador diz que a doação é um "reconhecimento" ao clube que o projetou; o Boca agradece e deseja ao craque muitas felicidades.
Da transação de Tevez para o Corinthians. o que se sabe com segurança é que o dinheiro não passou pelo Banco Central do Brasil. Foi depositado no Royal Bank of Canada. numa conta do Club Atlético Boca Juniors. Sabe-se. também. que os direitos econômicos da cessão do jogador foram repassados pelo Corinthians à MSI Group Limited. das ilhas Virgens Britânicas. e à Just Sports Inc.. do mesmo paraíso fiscal. na proporção de 35 e 65 por cento. respectivamente. As autoridades financeiras brasileiras discutem se a negociação foi legal ou não. Se for considerada ilegal. a dúvida será o valor da multa -16.17 ou 22.6 milhões de dólares? Não há dúvida de quem pagará a conta - é o Corinthians.


4.NEGOCIO PRIVADO, EMPRESA PRIVADA, QUAL É O PROBLEMA?

Pinhas Zahavi é tido na Europa como a "cabeça visível" dos investimentos de Abramovich no futebol mundial. O “Judeu", como os íntimos o chamam. é considerado um sessentão educado, discreto e reservado. Mas a empresa dele, a Global de Gibraltar, age com grande desenvoltura na Europa. Na Holanda, quer fazer parceria com o Feyenoord. de Roterdã. Na Espanha, está em tratativas para investir no time galego Deportivo la Coruña. Na Polônia, insiste em comprar o semifalido Warsaw EC.. de Varsóvia, e construir um estádio com 20.000 lugares para o clube. Em todos esses lugares. porém, há resistência às investidas da Global por causa da obscura origem do dinheiro - que seria da máfia russa.
Representado pelo patrício David Hasan. Zahavi botou o pé no futebol brasileiro em janeiro deste ano. quando o meia Carlos Alberto foi vendido ao Corinthians pelo F.C. do Porto. de Portugal por 6.766 milhões de euros e imediatamente repassado. meio a meio, à MSI, de Kia, e à Global de Zahavi. Segundo o documento de cessão do atleta às empresas. assinado por Alberto Dualib. a Global tem o direito de "obrigar o Corinthians a vender o jogador" quando bem entender; bastando uma comunicação formal. Se o clube paulista desrespeitar a cláusula, terá de pagar uma "indenização pré-acordada de 4,5 milhões de euros". Em caso de disputa judicial. um "tribunal inglês" decidirá a pendenga.
Alcançado em Tel Aviv por Caros Amigos. Zahavi não quis falar a razão de ter-se associado à MSI de Kia Joorabchian. "Não discuto meu trabalho nem meu papel na transação". disse. com polidez britânica. "Trata-se de um negócio privado. realizado por uma empresa privada investindo em futebol Qual é o problema?". finalizou, indicando o escritório do procurador David Hasan como possível fonte de informação. A fonte, porém, era seca: Shochatovitch, advogado sócio da Bar-Nathan, Shochatovitch and Co., disse que o procurador Hasan quase nunca aparece por lá.


5.UM ZAZA, DOIS ZAZAS, ZAZA EXISTE?

Tbilisi é capital da Geórgia, uma ex-república soviética do Cáucaso. Nessa cidade, uma seleta delegação corintiana - composta pelo presidente Dualib, a neta Carla, Nesi Curi e Andrés Sanchez, dois atuais diretores do Corinthians na gestão da MSI - foi recebida com pompa, em agosto do ano passado, pelo magnata Badri Patarkatsishvili, que vive ali desde 2001. depois de fugir da Rússia sob acusação de fraudes milionárias e corrupção. Badri recebeu a trupe corintiana a pedido de Boris Berezovski. que assim atendia a um "pedido pessoal do amigo Kia".
À repórter Natalia Viana, Berezovski relembrou o episódio: "Kia queria parceiros para investir no Brasil. Convidou-me. Disse a ele que eu investiria num estádio de futebol em razão das boas chances de o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014. Por outro lado. eu tenho um sócio. Badri, na Geórgia, e ele um time de futebol (o Dínamo local). O Kia também o conhece bem. Então, eu apresentei o projeto ao Badri, o Kia e o Dualib viajaram a Tbilisi, e meu amigo Badri aceitou participar do negócio do Corinthians".
E é de Tbilisi que surge uma misteriosa operação triangular de empréstimo de 2 milhões de dólares ao Corinthians. No dia 21 de dezembro passado, um sujeito se apresentou ao Georgian Bank local como Zaza Toidze. portador do passaporte número 0103458, e transferiu, em nome da Devetia Limited, a soma para a conta número 140.133.611 da agência do Bank of America de Nova York. Dos Estados Unidos, o dinheiro chegou ao Brasil. via Banco Central.
No início do mês, com o número do passaporte de Toidze em mãos. o repórter georgiano George Sepashvili, buscando pistas que o levassem ao paradeiro do depositante, foi checar o documento com as autoridades de Tbilisi e levou um susto. O número do registro do passaporte apresentado ao Georgian Bank pertence a Zaza Giorgi Imediashvili, nascido no dia 23 de junho de 1975, residente em 3 Ponichala Street, Tbilisi. Zaza Giorgi Imediashvili não mora mais lá.
Quem será esse georgiano que empresta 2 milhões de dólares a um clube de futebol do outro lado do mundo e se esconde à sombra de Zazas? Até Kia diz que "não sabe quem é", embora o conheça de nome - "Zaza Toidze"! -, conforme declarou à Justiça, a quem detalhou parte da operação: Essa pessoa emprestou 2 milhões de dólares à Devetia, que, por sua vez, repassou a quantia ao Corinthians". Kia disse mais: Zaza irá receber o investimento de volta, e com juros!" E arrematou: O nome dele surgiu para dar mais transparência ao empréstimo realizado". E Zaza Giorgi Imediashvili? Não, esse nome Kia nunca ouviu falar.
Quando Zaza emprestou o dinheiro ao Corinthians, Badri Patarkatsishvili ainda fazia o que queria na Geórgia. Porém, se fosse hoje, talvez Berezovski mandasse o jato particular que levou Dualib e comitiva a Tbilisi, aterrissar em outra freguesia. Badri está indo para a Ucrânia. Seu grande protetor político na Geórgia, o primeiro-ministro neoliberal Zurab Zhvania, e Raul Usupov, governador da província de Kvemo Kartli, foram encontrados mortos. em 3 de fevereiro último, na casa de Usupov, vítimas de intoxicação por monóxido de carbono. As mortes foram consideradas acidentais. Agora, o presidente do país, Mikheil Saakashvili, ameaça investigar os negócios de Badri.
Curiosamente, Badri anunciou a mudança da Geórgia para a Ucrânia uma semana depois de Berezovski visitar Kiev, capital ucraniana, sob a identidade de Platon Yelenin, nome que consta no seu passaporte inglês. E, também. pouco depois de ambos aparecerem numa lista de duzentos suspeitos de operações financeiras ilegais (lavagem internacional de dinheiro), cujo montante chega a 372 milhões de dólares, realizadas por intermédio do Banco Hapoalim de Tel Aviv, Israel.


8.O PRESIDENTE DO CORINTHIANS: "ISSO NÃO DÁ EM NADA"

No final do ano passado, a MSI arrendou o departamento de futebol do Corinthians por 35 milhões de dólares - dos quais, 20 milhões seriam para o pagamento de dívidas do clube. Segundo o Banco Central do Brasil, até o dia 31 de março de 2005, a Just, sócia majoritária na parceria (73,9 por cento) e da qual Kia Joorabchian é um dos investidores, não enviara nenhum tostão ao Brasil. A MSI inglesa, com participação minoritária (1,02 por cento), também não mandara nada. Somente a Devetia, sabe-se agora controlada por uma tal GGAW Limited, também das Ilhas Virgens Britânicas (dona de 24,9 por cento da parceria), remetera, via Banco Central, 2,7 milhões de dólares ao clube a título de empréstimo e outros 2 milhões como integralização de capital.
Nada que impedisse, no entanto, Kia e seus sócios de engordar o elenco corintiano em 120 milhões de reais, com as contratações dos argentinos Tevez, Sebá, Mascherano (apresenta-se até julho ao clube) e do técnico Passarella, além dos atletas brasileiros Marcelo Mattos, Roger, Gustavo Nery e Carlos Alberto.
Nos bastidores do clube, o presidente Dualib dá como certo o destino das investigações sobre a parceria - o esquecimento. "Não vai dar em nada", responde a quem o indaga sobre as investigações. Nos bastidores da MSI a orientação para Kia é a de que ele se afaste de nomes que possam lhe trazer dores de cabeça desnecessárias. Isso explica, por exemplo, o fato de ele alijar do negócio o "empresário" Renato Duprat, responsável pela apresentação da MSI ao Corinthians (Duprat responde, entre outros, a processos na Justiça pela falência do plano de saúde Unicór).
Agora o grande lance de Kia é comprar a Sports Marketing Agency (SMA), responsável pelos contratos de publicidade do clube e cuja dona é Carla Dualib, neta de Dualib. Existe uma minuta de contrato para a compra da SMA pela MSI. Valor? Quatro prestações de 464 mil reais.


JOÃO DE BARROS é jornalista




NO MUNDO DA MÁFIA RUSSA


O poder é dos oligarcas, um grupo de empresários que se valeu do caos econômico e social surgido com o fim da União Soviética para se apoderar das grandes empresas estatais que exploravam as riquezas naturais da região. As armas dos oligarcas: chantagem, suborno, assassinatos. Agora eles se espalham pelo mundo, comprando riqueza e poder com dinheiro sujo, devidamente lavado. (por Natalia Viana)


Esqueça Don Corleone. A máfia russa é bem diferente da tradicional organização do poderoso chefão: nada de hierarquia rígida, famílias a controlar o crime verticalmente. Ou seria melhor dizer máfias russas? Há milhares de organizações criminosas que disputam o título, atuando como traficantes de armas, explorando a prostituição e a criminalidade em geral. Mas o estudioso italiano Pino Arlacchi, que foi diretor do escritório sobre drogas e prevenção ao crime da ONU, chama atenção para outro lado do crime russo: os oligarcas, um pequeno grupo de empresários que conseguiu o controle dos recursos naturais dos países da atual Federação Russa – principalmente, alumínio e petróleo - através das privatizações. "Os oligarcas têm todas as características de chefões da máfia. Só que eles são mais frágeis do que a máfia italiana, porque a organização não é tão rígida, eles brigam muito entre si, há muita traição."
Outra diferença entre russos e italianos é que, enquanto os italianos formam uma organização completa, incluindo pistoleiros, os russos fazem alianças pontuais com grupos criminosos de rua e são responsáveis, em boa parte, por sua proliferação. Em 1994, o então ministro do interior russo Mikhail Yegorov estimou que o número de grupos criminosos tenha saltado de 790 para mais de 5.500 durante o governo Gorbachov. Antes da abertura, esses grupos garantiam pequenos luxos a quem pudesse pagar: chiclete. jeans. vodca de primeira, cigarros. Quando o muro caiu, eles ganharam enorme força - graças à esperteza dos oligarcas.




PETRÓLEO, GÁS NATURAL, NÍQUEL


Também diferentemente dos chefões italianos, que agem nas sombras, os russos adoram se exibir: No começo de abril estavam no Canal 10 da televisão israelense, jactando-se dos seus feitos. Era o documentário em série Os Oligarcas. uma coletânea de longas entrevistas com essas figuras. Escandalizado com os depoimentos que viu na televisão, o escritor israelense Uri Avnery, fundador do grupo pacifista Gush Shalom, correu ao computador para escrever um artigo que rodou mundo. Descrevia: "Nos primeiros anos do capitalismo russo pós-soviético, eram vistos como homens arrojados e ágeis que sabiam explorar a anarquia econômica para adquirir enormes haveres por um centésimo ou um milésimo do seu valor: petróleo, gás natural, níquel e outros minerais". Depois revelaram outra face: "Eles usaram todos os truques possíveis, incluindo a trapaça, o suborno e o assassinato. Cada um deles tinha um pequeno exército privado. No decorrer da série de televisão, eles se mostram orgulhosos em contar com pormenores como fizeram isso".
Os países que constituíam a União Soviética sofreram um baque econômico e moral sem precedentes com a abertura do regime. Roubos, assassinatos, corrupção, extorsão passaram a ser regra numa sociedade que ainda se adaptava à possibilidade de possuir tudo o que se pode agarrar: Ex-agentes da KGB e veteranos do exército que serviam no exterior foram contratados como capangas por ricos empresários em franca ascensão. O clima foi bem descrito pelo jornalista russo Ahkadim Mazin: como no velho oeste. "Era assim o estilo russo de fazer negócios: Estilo que foi detalhado por Dzahol Khaidarov. ex-parceiro do oligarca Mikhail Chemoyem fábricas de minério de ferro e vanádio, nos Urais, região central da Rússia. Depois de um desentendimento com o grupo Chemoy, ele foi parar na cadeia - as autoridades policiais e judiciais estavam corrompidas por Chemoy. Khaidarov conseguiu fugir e hoje vive escondido. Mas abriu a boca, em entrevista ao jornal Le Monde em 2002: "Você pergunta como a Russian Aluminium (do grupo Chernoy) adquiriu uma ou outra fábrica. Eles sempre dizem que compraram as ações. Mas, se você olhar bem, vai ver que o antigo dono foi para a cadeia, tornou-se 'viciado em drogas' ou desapareceu. Quando eu trabalhava com Mikhail Chemoy, o grupo dava propinas de 35 a 40 milhões de dólares por ano. Sempre era possível comprar um juiz, um governador ou a lei. No começo dos anos 1990, eles assassinaram. Depois preferiram abrir processo ou colocar gente na cadeia. Eles podem tudo. A disputa pelo mercado era tão violenta que ficou conhecida como "guerra do alumínio", quando começaram a aparecer os primeiros corpos: dezenas de mafiosos, banqueiros e funcionários de fábricas foram assassinados.
Assim, a famosa "família" de Boris Yeltsin - os políticos, empresários e bandidos ligados ao então presidente da Federação Russa - se apossava das riquezas do país com uma ganância sem freios. Às vésperas da eleição presidencial de 1996, o governo Yeltsin tinha 4 por cento de aprovação. Fizeram um acordo: os oligarcas, donos da maioria dos meios de comunicação, dariam ao presidente todo o espaço para a campanha. E o presidente daria todo o espaço no governo. No dia em que foi reeleito. Yeltsin teve um ataque do coração e passou o resto do mandato no hospital. Os oligarcas começaram a governar, de fato, a Rússia.
Uri Avnery observou como um deles, em especial, se gabava durante longa entrevista no documentário: Boris Berezovski. No segundo mandato de Yeltsin. Berezovski se tornou presidente do Conselho de Segurança, de onde articulou o fim do acordo de paz com a Tchetchênia, dando início à sangrenta guerra que se arrasta até hoje. Tudo porque tinha interesse nos recursos minerais e no projeto de um gasoduto a ser construído ali.



DINHEIRO NO BANCO


Ricos, poderosos e sem limites, os oligarcas enfrentavam um só problema: onde colocar tanto dinheiro. "Uma vez que conseguiram o dinheiro ilegalmente, sabiam que a fortuna deles não estava segura, porque o governo, se não pertencer mais a amigos deles, pode voltar atrás, pode confiscar as suas propriedades, então eles tinham de tirar esse dinheiro do país, para lavá-lo, explica o estudioso Pino Arlacchi. Cerca de 120 bilhões de dólares saíram da Rússia para países estrangeiros, causando enorme crise financeira.
Parte desse montante chegou à cidade de Nova York entre 1997 e 1999, no que ficou conhecido como o escândalo do Bank of New York. Foram descobertas inúmeras contas em nome de empresas da "família" de Yeltsin, muitas delas ligadas a Semyon Mogilevich, acusado de tráfico de materiais nucleares. Dinheiro que passava pelo Bank of New York e seguia para outros bancos mundo afora. Foi a primeira vez que veio a público o que as autoridades policiais já sabiam: se o dinheiro saiu da Rússia, certamente vai passar pelos grandes centros econômicos - Estados Unidos, Europa - em operações de lavagem e reciclagem de dinheiro. Nos primeiros anos, os oligarcas investiram pesadamente em imóveis no exterior; principalmente no sul da França e na Inglaterra, mas também em Israel. Depois aprenderam uma lição valiosa: não é preciso investir em nada para lavar dinheiro e ainda obter lucro. "Diria que não mais de 20 por cento está investido em serviços - desde supermercados até canais de televisão. O dinheiro da máfia está basicamente em bancos. É raro investir em coisas reais."
Berezovski é mestre nisso. Apesar de podre de rico, hoje em dia não mantém praticamente nenhuma empresa ou conta bancária em seu nome. Investigado pelas polícias dos Estados Unidos, Canadá, França, Rússia e Israel, o bilionário teve alguns de seus esquemas desvendados. Soube-se, por exemplo, que sempre usa testas-de-ferro e costuma utilizar o Deutsche Bank como base para suas operações. Também faz transações através de uma rede de pequenos bancos e empresas registradas em paraísos fiscais, como Gibraltar; Ilhas Virgens Britânicas, Chipre. A maioria gerenciada por fundos de investimento – afinal, não é preciso dizer quem são os donos das ações dos fundos de investimento.
À Caros Amigos, Berezovski se disse um perseguido político. "Muita gente tenta lutar contra mim, em particular o presidente da Rússia, e eu tive de pedir asilo político na Inglaterra. Consegui porque o tribunal britânico aceitou que isso era motivado politicamente, e nada conectado a nenhum crime."
É bem verdade que o motivo do fim do mandato dos oligarcas é político, tem partido e nome: Vladimir Putin. Quando assumiu o poder em 2000, apoiado pelos oligarcas e pessoalmente por Berezovski, o ex-agente da KGB encontrou um Estado totalmente tomado, dilapidado e corrompido. Para restabelecer a autoridade, começou uma tentativa de impor limites ao poder dos oligarcas que perdura até hoje. Fez acordos com alguns deles, como o jovem Roman Abramovitch, que tinha acumulado fortuna como protegido de Berezovski e, sem oposição do Kremlin, se tornou governador da região de Chukotka, uma província no nordeste da Rússia. "Eu não acho que Abramovitch fosse interessado em política, mas o que fez foi um tipo de garantia, porque, como governador, ele tinha maior possibilidade de defender seus negócios. E. até onde eu sei, foi parte do acordo entre o Putin e a ‘família’ Yeltsin que ele saísse de Moscou e fosse para Londres", diz o jornalista russo Raf Shakirov. Com outros, não houve acordo: Mikhail Khodorkovsky, dono da gigante do petróleo Yukos, foi parar na cadeia; Berezovski teve de buscar asilo na Inglaterra; Mikhail Chernoy foi para Israel e Semyon Mogilevich. para a Hungria.


JORNAIS, TELEVISÕES E FUTEBOL


Os oligarcas que hoje operam no exterior são, na maioria, judeus; O Estado de Israel lhes concedeu cidadania, assim como a todos os judeus russos que fizeram uso do "direito de retorno" (leia na página 36). Foram mais de 1 milhão de imigrantes russos desde o final da década de 1980. Assim, Israel se transformou no "porto seguro" a partir de onde muitos oligarcas dirigem seus negócios no mundo inteiro sem necessariamente morar em Israel. Boris Berezovski e o georgiano Badri Patarkatsishvili, acusado de envolvimento com terroristas tchetchenos, estão entre eles. "Eles sabem que Israel não vai extraditá-los, então usam o país como um centro de lavagem de dinheiro". diz o escritor Uri Avnery.
Faz só dois anos que Israel tem uma lei contra lavagem de dinheiro, e é claro que a prática não foi exterminada durante esse curto período. Mês passado, os jornais israelenses deram com destaque uma suspeita de lavagem de dinheiro no banco Hapoalim. Os nomes que apareceram são: Boris Berezovski, Badri Patarkatsishvili, Vladimir Gucinsky. Este último, dono de 25 por cento das ações do importante jornal Maariv e também o canal de televisão RTVi, dedicado à comunidade russa. Por aí já temos uma idéia de como ele exerce influência, mesmo longe das esferas oficiais. O oligarca Michael Chemoy também é político sem atuar na política: mantém uma fundação "para auxílio a imigrantes russos", a Minhael Chernoy Foundation, em que o nome Chernoy foi mudado recentemente. Através da fundação, ele financia iniciativas ultradireitistas.
Badri Patarkatsishvili, acusado de ligações com grupos terroristas tchetchenos. virou o homem mais rico da Geórgia, proprietário da maior rede de televisão e dos principais jornais do país. Dono do Dínamo de Tbilisi, principal time de futebol do país, ele patrocinou a equipe olímpica georgiana em Atenas com 2,25 milhões de dólares.
Roman Abramovitch também entrou no esporte. Comprou o Chelsea, tradicional clube de futebol da Inglaterra, no qual já injetou mais de 200 milhões de dólares no time (pouco, se contar a sua fortuna pessoal estimada em 13,1 bilhões de dólares), contratou grandes craques e virou ídolo da torcida. Já o oligarca Berezovski procura limpar a barra propondo negócios a empresários reconhecidos. Já tentou uma sociedade com Edward St. George, um ricaço muito próximo à família real britânica, e ao ex-primeiro ministro sul-africano F.W DeClerk. Ambos declinaram.
Onde estejam. os oligarcas hoje investem em filantropia, contratam os melhores relações-públicas e os melhores escritórios de advocacia. Com o tempo, vão melhorando sua imagem no exterior: Aprenderam com grandes capitalistas que imagem é 100 por cento do negócio, essencial para obter mais e mais lucro. Claro, com eles. Afinal, como diz o brasileiro Walter Maierovitch, juiz de direito aposentado e estudioso do crime organizado, a máfia é, acima de tudo, empresa - empresa capitalista."



NATALIA VIANA é jornalista.
Colaborou JULIA CONTIER.



UM RETRATO DE CHEFÃO


Entusiasta da abertura da União Soviética, o bilionário investidor americano George Soros conheceu Boris Berezovski em meados da década de 1990, quando este era o mais rico dos russos e oligarca de maior poder sobre o então presidente da Federação Russa, Boris Yeltsin. Em um artigo para o jornal Moscow News escrito no ano 2000, Soros diz que tomou para si a missão de "transformar Berezovski de um capitalista-ladrão em um capitalista legítimo". Só desistiu quando, em 1996, adquiriu a empresa de telefonia estatal Svyazinvest em um leilão. A compra causou um racha entre os oligarcas, em razão de a venda ter sido feita, justamente, por um preço justo. Havia um acordo entre eles, pelo qual as privatizações seriam feitas a preço de banana, e os lucros compartidos. Alguns deles apoiaram a venda da Svyazinvest e foram taxados de traidores por Berezovski. Soros foi ter com ele: "Eu disse que ele era um homem rico, que tinha bilhões em ações. Tudo o que precisava fazer era consolidar sua posição. Se não pudesse fazer sozinho, poderia contratar um gestor de investimentos. Ele respondeu que eu não entendia. Não era questão de ganhar dinheiro, mas de se impor aos outros oligarcas. Tinham feito um acordo e teriam de cumpri-lo". Não que Berezovski se apegasse a algum código de honra: o que ele queria era manter os oligarcas ao seu lado, presos ao acordo mafioso, porque não saberia operar na legitimidade.



COMO LAVAR


Tanto faz se o dinheiro sujo vem de tráfico. extorsão. corrupção ou evasão fiscal. Há muitas maneiras de lavá-lo. esconder a origem dele. torná-lo "legal".
O juiz aposentado Walter Maierovitch conhece muito sobre lavagem de dinheiro. Ele explica que, em outros tempos, o criminoso ia a um cassino, comprava uma porção de fichas, depois viajava para outro país e descontava essas fichas em novo cassino. Podia alegar que ganhou no jogo legalizado. Ainda hoje reina o velho método de comprar mercadorias e informar ao fisco que elas valem menos - seja um barco, um imóvel ou um jogador de futebol -, para depois recuperar o real valor na hora de vender. Ou, se o lavador é quem vende, dizer que elas valem mais: daí ele pode incluir alguns milhões de dólares sujos no montante que diz vir daquela transação. "Depende da criatividade do lavador", diz Maierovitch.
A globalização do mercado financeiro e a velocidade da Internet tornaram muito fácil abrir contas correntes e movimentar dinheiro. Um estudo do Fundo Monetário Internacional, o FMI, concluiu que no sistema financeiro circula 1 bilhão de dólares por dia sem origem clara e razão aparente. A porta de entrada mais conveniente são os 88 paraísos fiscais, países que cobram pouco imposto e onde ninguém pergunta sobre a origem do dinheiro. Ali, bancos de nomes desconhecidos aceitam depósitos e fazem transferência sem nenhuma crise de consciência.
Faz parte do processo a utilização de empresas off-shore - pessoas jurídicas fantasmas registradas nos paraísos fiscais cujos titulares são mantidos em total anonimato e podem constituir fundos de investimento capazes de movimentar um volume enorme de dinheiro. sem que seja necessário identificar os investidores.
Abertas por renomados escritórios de advocacia em alguns minutos, as empresas off-shore são geralmente registradas com o mesmo endereço daqueles escritórios. São os advogados que autorizam transações e assinam documentos em nome da empresa, funcionando como escudo para os verdadeiros donos.
Uma vez no sistema bancário, o dinheiro pode em poucos segundos dar a volta ao mundo duas vezes. Torna-se praticamente impossível saber de onde veio.
Mas o bom lavador não pára na lavagem inicial. Vai procurar reciclar o dinheiro, investindo em negócios. Para o país que recebe os investimentos, tanto melhor. Pouco se fiscaliza.
Segundo informações colhidas na Administración Federal de Ingresos Públicos (AFIP), órgão argentino que fiscaliza os investimentos estrangeiros que chegam ao país, explicou que toda transação de vulto é avaliada. Mas a AFIP não vê problema se o dinheiro passou por vários bancos, desde que isso seja declarado. Nunca se pergunta quem foi que mandou. E só se considera uma transação "suspeita" se ela vem diretamente de um paraíso fiscal. "O Brasil é praça atraente para lavagem de dinheiro". diz Walter Maierovitch. "Aqui não há fiscalização e o Brasil paga os maiores juros do mundo".
A verdade é que lavar dinheiro é um bom negócio - só o narcotráfico gira 400 bilhões de dólares por ano - e ninguém quer abrir mão dele. Nem os países que recebem o montante, nem os bancos que o operam. "A maioria do dinheiro fica em grandes bancos em países ricos: primeiro na Inglaterra, depois na Suíça e em terceiro lugar nos Estados Unidos". diz Pino Arlacchio “Há um departamento nos bancos, o chamado private banking, cujo papel é procurar gente rica do mundo todo, abrir uma conta para essas pessoas sem dar os nomes e investir o dinheiro. A regra é ‘não pergunte, não escute’”, explica Arlacchi. O maior banco do mundo, Citibank, foi pego inúmeras vezes nessas operações. Mantinha contas de Sani Abacha, ex-ditador da Nigéria; Albert-Bernard Bongo, ex-presidente do Gabão; e de Raul Salinas, ex-presidente do México. Excelentes clientes.



ASSIM ELES AGEM EM ISRAEL


"Liberta meu povo". Em fins dos anos 1980, esse slogan foi utilizado para provocar uma pressão mundial contra a fechadíssima União Soviética, forçando-a a abrir as portas para que os judeus lá residentes pudessem emigrar para Israel. A origem da frase está no Gênesis - Moisés a utiliza como ultimato ao faraó, no Egito, exigindo a libertação dos escravos judeus. Ainda está vibrando nos meus ouvidos o belíssimo spiritual Let My People Go, na voz do baixo mais profundo do mundo, o admirável Paul Robeson.
Os portões se abriram suavemente e milhares de judeus, e outros que fingiam ser judeus, deixaram a União Soviética. Mas, para decepção dos funcionários da imigração de Israel, a maioria dos migrantes tomou o destino da Europa Ocidental, construindo assim uma ponte para o destino final - os Estados Unidos -, onde esperavam viver e prosperar.
Agentes da Federação Sionista de Israel foram enviados para campos de trânsito em Viena e, em coordenação com as autoridades americanas de imigração, tentaram forçar os migrantes a mudar seu rumo para Israel. A maioria, então, concordou com isso, mas fez de Israel uma espécie de parada intermediária, continuando seus esforços para, realizar enfim a viagem aos Estados Unidos. Um grande número atingiu o objetivo.
Entre os que sobraram, passando dificuldades para se adaptar ao novo país, Israel aproveitou diversos músicos muito bons, atores de teatro formidáveis, artistas plásticos, cientistas e literatos. Mas não veio apenas gente boa. Dois fatores - o direito de retorno, segundo o qual judeus de qualquer parte do mundo são obrigatoriamente aceitos em Israel, e a falta de controle seletivo do qual fazem uso outros países que recebem imigrantes - facilitaram a entrada de mafiosos russos no país.
Conforme aumentavam as ondas de imigração, mais se consolidava o poder da Máfia, que executava ações dignas da velha Chicago dos anos 1920. Nas suítes mais luxuosas dos hotéis de Tel Aviv foram descobertos corpos nus decapitados, e a polícia está procurando as cabeças até hoje, sem resultado. A importação de prostitutas de luxo dos países ex-soviéticos, contrabandeadas em caravana de camelos pelo deserto do Sinai (como no Êxodo), serviu de argumento para um filme maravilhoso de Amos Gitai, exibido na última Mostra Internacional de São Paulo, A Terra Prometida.
O comércio de drogas, acompanhado de lutas terríveis entre gangues rivais, é responsável pela explosão de bombas nas ruas centrais de Tel Aviv, e fica difícil saber se os atentados foram obra de homens-bomba palestinos ou da Máfia russa.
Outra profissão mafiosa muito rentável, que se tomou verdadeira epidemia, é o agenciamento de trabalhadores ilegais dos ex-países socialistas e do Extremo Oriente, filipinos e chineses, que substituíram os trabalhadores palestinos, proibidos de entrar em Israel depois da Segunda Intifada. A carência de trabalhadores estrangeiros estava ameaçando os enormes lucros dos fazendeiros nos assentamentos judaicos em terras palestinas, à base de mão-de-obra cada vez mais barata. A entrada de trabalhadores clandestinos resolve o problema dos fazendeiros, rende muito dinheiro para a Máfia e nem é muito incomodada pela polícia, mais preocupada em evitar ou reduzir atentados a bomba. A polícia, de fato. está completamente sem efetivos para combater os mafiosos.
Enquanto a população de Israel estava se acostumando a mais essa violência, explodiu o escândalo em torno do bilionário russo Vladimir Gusinsky, que já comprou uma boa parte das ações de um importante vespertino, o Maariv, e está agora envolvido na lavagem sem precedentes de milhões de dólares - o poderoso banco Hapoalim, que há anos deixou de pertencer à central sindical israelense Histradruth e passou para a bilionária empresa americana Ehrenson, é suspeito de ser o foco da lavagem de dinheiro do grupo de Gusinsky.
Segundo reportagem do jornal israelense Haaretz, os principais gerentes do banco estão respondendo a inquéritos policiais e, para surpresa geral, foi indiciado também o embaixador de Israel em Londres, Zvi Hefetz, um político fortemente pró-Sharon. O motivo foram as ligações estreitas entre Hefetz e Gusinsky. Na verdade, o establishment israelense está sendo de alguma forma envolvido na ilegalidade.
O deputado Iuri Stem - ironicamente. membro do partido Israel Coisa Nossa (lembrando Cosa Nostra, nome da máfia italiana) - acusa a polícia e os meios policiais israelenses de perseguição e preconceito contra homens de negócios russos. Stem declara: "Estão atingindo principalmente empresários que falam russo, o que é preconceito puro, sem base nenhuma".
O embaixador Hefetz não fica atrás: "Não tenho procuração para falar em nome de Gusinsky, mas tenho certeza de que ele não tem nenhuma culpa. Observo há anos as atitudes dele, que são caracterizadas por investimentos em Israel, nunca por levar dinheiro para fora de Israel".
O slogan “Liberta meu povo” perdeu todo o sentido.


GERSHON KNISPEL é artista plástico.


(CAROS AMIGOS, www.carosamigos.com.br, edição nº. 97, abril/2005, pp. 32-36)