CAROS AMIGOS,
abril/2005
A TEIA EM QUE SE
METEU O CORINTHIANS
As
investigações do Ministério Público
apontam: é lavagem mesmo. E a trama está recheada de
russos, argentinos, iranianos, israelenses e georgianos fugidos da
justiça ou da Interpol. (por João de
Barros)
1.OPERAÇÕES EM CASCATA, PARAÍSOS
FISCAIS E INVESTIDORES OCULTOS
Lavagem internacional de
dinheiro. Essa será a principal conclusão do relatório
final que deverá ser entregue ainda este mês ao
Ministério Público Federal. pelos promotores Roberto
Teixeira Pinto Porto e José Reinaldo Guimarães
Carneiro. do Grupo de Atuação Especial para Prevenção
e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco-SP).
Desde o dia 18
de dezembro de 2004. eles investigam a parceria MSI-Corinthians. a
partir de uma representação apresentada pelo deputado
estadual Romeu Tuma Júnior (PPS). Até o final do mês
passado. tinham produzido 3.000 páginas de documentos.
distribuídos em sete volumes. contendo informações
obtidas em organismos financeiros e policiais do Brasil e do exterior
- de Brasília a Moscou.
Os promotores não têm
dúvida de que o crime organizado está por trás
da MSI-Corinthians. Baseiam-se nos seguintes indícios: os
recursos são originários de paraísos fiscais; as
operações são feitas em cascata. por intermédio
de off-shores (empresas constituídas em paraísos
fiscais), de modo a ocultar a identidade dos investidores; e. quando
surgem nomes. eles são sempre os de Boris Berezovski e Badri
Patarkatsishvili, condenados pela Justiça russa por evasão
de divisas e sonegação fiscal e refugiados na
Inglaterra e na Geórgia, respectivamente.
Por isso. o líder
da MSI Brasil. o iraniano Kiavash Joorabchian. e Paulo Angioni,
procurador das empresas Devetia Limited e Just Sports Inc.. ambas com
sede no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas e
sócias no negócio Corinthians. serão apontados
como responsáveis pelo suposto crime porque ambos assinaram
documentos que propiciaram as movimentações financeiras
suspeitas das empresas envolvidas. Não está descartada.
contudo, a hipótese de os diretores do Corinthians na parceria
da MSI. Nesi Curi e Andrés Sanchez, e o presidente do clube,
Roberto Dualib. também ser responsabilizados pelo crime.
Caso
o relatório dos promotores estaduais de São Paulo seja
acatado pela Justiça Federal (que também tem o poder de
arquivá-lo ou solicitar mais investigações). os
envolvidos poderão ser denunciados por prática de
lavagem de dinheiro, cuja pena varia de três a dez anos de
reclusão.
2.OS PERSONAGENS, UM POR UM
Dois
argentinos e um israelense - Fernando Hidalgo, Gustavo Arribas e
Pinhas (ou Pini) Zahavi, respectivamente - são donos da
empresa HAZ Football Worldwide Ltd., com sede em Gibraltar. A
subsidiária argentina da HAZ, a HAZ Sport Agency, foi que
pagou as comissões aos intermediários da venda do
atacante Tevez ao Corinthians e os 15 por cento a que o jogador tinha
direito na transação. O trio. portanto. associou-se a
Kia Joorabchian no negócio Corinthians.
Outro israelense.
David Hasan, é representante da Global Soccer Agency Ltd.
(GSA), dona de 50 por cento do passe do meia Carlos Alberto, comprado
pelo Corinthians no início do ano do F.C. do Porto, de
Portugal (os outros 50 por cento são da MSI). A Global é
outra empresa de Pinhas Zahavi. também de Gibraltar (registro
número 89518). cuja subsidiária é a Worldwide
Soccer Agency Ltd., de Dublin, Irlanda. David Hasan, estranhamente.
representa as duas a partir do escritório Bar-Nathan.
Shochatovitch and Co.. localizado no 18° andar do Azrieli Center
the Round Tower, em Tel Aviv, Israel Como se vê, assim como
Zahavi. David Hasan é sócio de Kia Joorabchian no
negócio Corinthians.
Dois georgianos misteriosos e outro
muito conhecido - Zaza Toidze, Zaza Giorgi Imedaishvili e Badri
Patarkatsishvili - são os responsáveis pelo empréstimo
de 2 milhões de dólares ao Corinthians, enviados em
nome da Devetia Limited (parceira da MSI brasileira), a partir da
agência do Georgian Bank de Tbilisi. O suposto trio (se é
que esse trio existe mesmo - veja o capítulo 5), portanto, é
sócio de Kia Joorabchian no negócio Corinthians.
O
multimilionário russo Boris Berezovski. exilado em Londres. é
um capítulo à parte. O vice-presidente de futebol do
Corinthians, Carlos Roberto Mello, confirmou. em depoimento aos
promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão
ao Crime Organizado. a informação publicada há
dois meses por Caros Amigos de que Yelena Berezovski. mulher
de Boris. visitou o Brasil em julho do ano passado. A revista, por
telefone, o magnata disse que "ela foi ver com os próprios
olhos o que o Kia está fazendo aí para me dar um
feedback". Berezovski diz que vai construir um estádio
para o clube. Ele é, portanto. sócio de Kia Joorabchian
no negócio Corinthians.
Um executivo iraniano - Reza
Irani-Khermani. Este foi apontado pelo próprio Kia como o
"cabeça financeiro" do grupo MSI. quando ele. Reza,
esteve no Brasil. no fim do ano passado. e foi apresentado à
banca de advogados Veirano, contratada pela MSI brasileira para
assessorá-la juridicamente. O Gaeco confirmou a informação:
"Qualquer movimentação financeira da MSI do Brasil
ocorre com a anuência de Reza. que atua como o dono do
dinheiro". Ele é, portanto, sócio de Kia
Joorabchian no negócio Corinthians.
Fernando Hidalgo,
Gustavo Arribas, Pinhas (ou Pini) Zahavi, David Hasan, Boris
Berezovski, Zaza Toidze. Zaza Giorgi Imedaishvili, Badri
Patarkatsishvili, Reza Irani-Khermani. sócios de Kia
Joorabchian no negócio Corinthians, têm algo em comum:
todos eles estão envolvidos em negócios obscuros pelo
mundo afora, do tráfico de armas e drogas à lavagem
internacional de dinheiro e ao terrorismo, de acordo com os processos
a que respondem nos países de origem ou, dependendo do caso, a
inquéritos da Interpol.
3. MISTÉRIO:
QUANTO, AFINAL, CUSTOU CARLITOS TEVEZ?
O israelense Pinhas
Zahavi é um predileto de Roman Abramovich. outro magnata da
era pós-soviética, dono do clube inglês Chelsea e
do russo CSKA e de uma fortuna de 13 bilhões de dólares.
acusado de tráfico de diamantes em Angola. Foi Zahavi, em
julho de 2003, quem apresentou Abramovich a Ken Bates, então
presidente do Chelsea. ocasião em que o milionário
russo assumiu o clube inglês com dívidas de 90 milhões
de libras - mais de 450 milhões de reais -, transformando-o
rapidamente num dos times mais ricos e fortes da Europa. Toda vez que
Abramovich quer comprar um astro do futebol mundial. recorre a
Zahavi. Foi assim com os argentinos Verón e Crespo, por
exemplo.
A sociedade que Zahavi mantém com os argentinos
Hidalgo e Arribas na HAZ gerou o negócio Tevez, quando os dois
foram indicados a Kia Joorabchian. um novato no mundo do futebol.
como "homens de confiança capazes de, digamos,
"sensibilizar" o presidente do Boca Juniors, Mauricio
Macri, quanto às vantagens de negociar o craque. E que
vantagens!
Para começar. as partes anunciaram a venda do
atleta como "a maior transação do futebol
sul-americano -22,6 milhões de dólares!" No
entanto. no início de março. o jornal Clarín,
de Buenos Aires, publicou uma cópia do contrato celebrado
entre os clubes, no dia 29 de novembro de 2004. Nele, lê-se no
parágrafo terceiro: Mel precio total y definitivo de la
cesión enunciada en la cláusula primera" - que
atesta ser o Boca o dono dos direitos do jogador - "se
conviene em la suma de US$16.000.000”.
Entretanto, no
Contrato de Cessão e Transferência de Direitos
Financeiros de Jogador de Futebol. firmado entre MSI e Corinthians no
dia 30 de novembro de 2004, no qual o Corinthians cede e transfere à
MSI a totalidade dos direitos financeiros de Tevez, lê-se na
cláusula 2.1. que "a MSI pagará 17 milhões
de dólares ao Boca em conformidade com o contrato feito entre
os clubes" - 1 milhão de dólares a mais do que o
acordo feito entre os times brasileiro e argentino no dia anterior!
Detalhe: o contrato foi entregue como documento oficial ao Gaeco pelo
presidente do Corinthians. Alberto Dualib.
Afinal. quanto custou
Carlitos Tevez. 22.6 milhões de dólares. 17 milhões
de dólares ou 16 milhões de dólares? Kia
Joorabchian. investigado no Brasil pelo Ministério Público
paulista por suposto crime de lavagem de dinheiro. expôs aos
promotores do Gaeco a seguinte versão: "O valor de 22.6
milhões refere-se ao custo total do negócio".
Discriminado por Kia da seguinte forma: 16 milhões de .
dólares pelo passe. 2 milhões de dólares por
conta de um suposto intercâmbio de jogadores juvenis que
existiria entre os clubes. 1.8 milhão de dólares
referentes a comissões para os agentes que intermediaram as
negociações. 2.4 milhões de dólares para
o jogador e 400.000 dólares de impostos e custos.
Na
Argentina. o presidente do Boca. Mauricio Macri. investigado pela
Unidad de Información Financiera por supostos crimes de evasão
de divisas e lavagem de dinheiro. apresentou versão
semelhante. O Boca recebeu 19.5 milhões de dólares
assim distribuídos: 16 milhões de dólares pelo
passe do atleta. 2 milhões de dólares por conta do tal
intercâmbio de jogadores juvenis e os restantes 1,5 milhão
de dólares foram "doados" por Tevez para o clube
investir nas categorias de base.
Porém. duas escorregadas
de Kia, que anda jantando muito fora, esclareceram pormenores
importantes da transação. Um: o tal contrato de
intercâmbio de jogadores. segundo o qual o Corinthians
reconhece o Boca como um celeiro formador de talentos. podendo mandar
para lá jovens brasileiros para melhorar a técnica
futebolística - algo quase impensável tempos atrás
-. foi. na verdade. uma manobra jurídica do presidente do
clube. Mauricio Macri. para burlar o fisco argentino e pagar menos
impostos. Dois: a "doação" de Tevez foi uma
imposição de Macri para liberar o atleta. "Ou
repassa o dinheiro ou não tem negócio". disse ao
jogador. A esse respeito. aliás. há um contrato entre
Tevez e o Boca. Nele. o jogador diz que a doação é
um "reconhecimento" ao clube que o projetou; o Boca
agradece e deseja ao craque muitas felicidades.
Da transação
de Tevez para o Corinthians. o que se sabe com segurança é
que o dinheiro não passou pelo Banco Central do Brasil. Foi
depositado no Royal Bank of Canada. numa conta do Club Atlético
Boca Juniors. Sabe-se. também. que os direitos econômicos
da cessão do jogador foram repassados pelo Corinthians à
MSI Group Limited. das ilhas Virgens Britânicas. e à
Just Sports Inc.. do mesmo paraíso fiscal. na proporção
de 35 e 65 por cento. respectivamente. As autoridades financeiras
brasileiras discutem se a negociação foi legal ou não.
Se for considerada ilegal. a dúvida será o valor da
multa -16.17 ou 22.6 milhões de dólares? Não há
dúvida de quem pagará a conta - é o
Corinthians.
4.NEGOCIO PRIVADO, EMPRESA PRIVADA, QUAL É
O PROBLEMA?
Pinhas Zahavi é tido na Europa como a
"cabeça visível" dos investimentos de
Abramovich no futebol mundial. O “Judeu", como os íntimos
o chamam. é considerado um sessentão educado, discreto
e reservado. Mas a empresa dele, a Global de Gibraltar, age com
grande desenvoltura na Europa. Na Holanda, quer fazer parceria com o
Feyenoord. de Roterdã. Na Espanha, está em tratativas
para investir no time galego Deportivo la Coruña. Na Polônia,
insiste em comprar o semifalido Warsaw EC.. de Varsóvia, e
construir um estádio com 20.000 lugares para o clube. Em todos
esses lugares. porém, há resistência às
investidas da Global por causa da obscura origem do dinheiro - que
seria da máfia russa.
Representado pelo patrício
David Hasan. Zahavi botou o pé no futebol brasileiro em
janeiro deste ano. quando o meia Carlos Alberto foi vendido ao
Corinthians pelo F.C. do Porto. de Portugal por 6.766 milhões
de euros e imediatamente repassado. meio a meio, à MSI, de
Kia, e à Global de Zahavi. Segundo o documento de cessão
do atleta às empresas. assinado por Alberto Dualib. a Global
tem o direito de "obrigar o Corinthians a vender o jogador"
quando bem entender; bastando uma comunicação formal.
Se o clube paulista desrespeitar a cláusula, terá de
pagar uma "indenização pré-acordada de 4,5
milhões de euros". Em caso de disputa judicial. um
"tribunal inglês" decidirá a
pendenga.
Alcançado em Tel Aviv por Caros Amigos. Zahavi
não quis falar a razão de ter-se associado à MSI
de Kia Joorabchian. "Não discuto meu trabalho nem meu
papel na transação". disse. com polidez britânica.
"Trata-se de um negócio privado. realizado por uma
empresa privada investindo em futebol Qual é o problema?".
finalizou, indicando o escritório do procurador David Hasan
como possível fonte de informação. A fonte,
porém, era seca: Shochatovitch, advogado sócio da
Bar-Nathan, Shochatovitch and Co., disse que o procurador Hasan quase
nunca aparece por lá.
5.UM ZAZA, DOIS ZAZAS,
ZAZA EXISTE?
Tbilisi é capital da Geórgia,
uma ex-república soviética do Cáucaso. Nessa
cidade, uma seleta delegação corintiana - composta pelo
presidente Dualib, a neta Carla, Nesi Curi e Andrés Sanchez,
dois atuais diretores do Corinthians na gestão da MSI - foi
recebida com pompa, em agosto do ano passado, pelo magnata Badri
Patarkatsishvili, que vive ali desde 2001. depois de fugir da Rússia
sob acusação de fraudes milionárias e corrupção.
Badri recebeu a trupe corintiana a pedido de Boris Berezovski. que
assim atendia a um "pedido pessoal do amigo Kia".
À
repórter Natalia Viana, Berezovski relembrou o episódio:
"Kia queria parceiros para investir no Brasil. Convidou-me.
Disse a ele que eu investiria num estádio de futebol em razão
das boas chances de o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014. Por
outro lado. eu tenho um sócio. Badri, na Geórgia, e ele
um time de futebol (o Dínamo local). O Kia também
o conhece bem. Então, eu apresentei o projeto ao Badri, o Kia
e o Dualib viajaram a Tbilisi, e meu amigo Badri aceitou participar
do negócio do Corinthians".
E é de Tbilisi que
surge uma misteriosa operação triangular de empréstimo
de 2 milhões de dólares ao Corinthians. No dia 21 de
dezembro passado, um sujeito se apresentou ao Georgian Bank local
como Zaza Toidze. portador do passaporte número 0103458, e
transferiu, em nome da Devetia Limited, a soma para a conta número
140.133.611 da agência do Bank of America de Nova York. Dos
Estados Unidos, o dinheiro chegou ao Brasil. via Banco Central.
No
início do mês, com o número do passaporte de
Toidze em mãos. o repórter georgiano George Sepashvili,
buscando pistas que o levassem ao paradeiro do depositante, foi
checar o documento com as autoridades de Tbilisi e levou um susto. O
número do registro do passaporte apresentado ao Georgian Bank
pertence a Zaza Giorgi Imediashvili, nascido no dia 23 de junho de
1975, residente em 3 Ponichala Street, Tbilisi. Zaza Giorgi
Imediashvili não mora mais lá.
Quem será esse
georgiano que empresta 2 milhões de dólares a um clube
de futebol do outro lado do mundo e se esconde à sombra de
Zazas? Até Kia diz que "não sabe quem é",
embora o conheça de nome - "Zaza Toidze"! -,
conforme declarou à Justiça, a quem detalhou parte da
operação: Essa pessoa emprestou 2 milhões de
dólares à Devetia, que, por sua vez, repassou a quantia
ao Corinthians". Kia disse mais: Zaza irá receber o
investimento de volta, e com juros!" E arrematou: O nome dele
surgiu para dar mais transparência ao empréstimo
realizado". E Zaza Giorgi Imediashvili? Não, esse nome
Kia nunca ouviu falar.
Quando Zaza emprestou o dinheiro ao
Corinthians, Badri Patarkatsishvili ainda fazia o que queria na
Geórgia. Porém, se fosse hoje, talvez Berezovski
mandasse o jato particular que levou Dualib e comitiva a Tbilisi,
aterrissar em outra freguesia. Badri está indo para a Ucrânia.
Seu grande protetor político na Geórgia, o
primeiro-ministro neoliberal Zurab Zhvania, e Raul Usupov, governador
da província de Kvemo Kartli, foram encontrados mortos. em 3
de fevereiro último, na casa de Usupov, vítimas de
intoxicação por monóxido de carbono. As mortes
foram consideradas acidentais. Agora, o presidente do país,
Mikheil Saakashvili, ameaça investigar os negócios de
Badri.
Curiosamente, Badri anunciou a mudança da Geórgia
para a Ucrânia uma semana depois de Berezovski visitar Kiev,
capital ucraniana, sob a identidade de Platon Yelenin, nome que
consta no seu passaporte inglês. E, também. pouco depois
de ambos aparecerem numa lista de duzentos suspeitos de operações
financeiras ilegais (lavagem internacional de dinheiro), cujo
montante chega a 372 milhões de dólares, realizadas por
intermédio do Banco Hapoalim de Tel Aviv, Israel.
8.O
PRESIDENTE DO CORINTHIANS: "ISSO NÃO DÁ EM
NADA"
No final do ano passado, a MSI arrendou o
departamento de futebol do Corinthians por 35 milhões de
dólares - dos quais, 20 milhões seriam para o pagamento
de dívidas do clube. Segundo o Banco Central do Brasil, até
o dia 31 de março de 2005, a Just, sócia majoritária
na parceria (73,9 por cento) e da qual Kia Joorabchian é um
dos investidores, não enviara nenhum tostão ao Brasil.
A MSI inglesa, com participação minoritária
(1,02 por cento), também não mandara nada. Somente a
Devetia, sabe-se agora controlada por uma tal GGAW Limited, também
das Ilhas Virgens Britânicas (dona de 24,9 por cento da
parceria), remetera, via Banco Central, 2,7 milhões de dólares
ao clube a título de empréstimo e outros 2 milhões
como integralização de capital.
Nada que impedisse,
no entanto, Kia e seus sócios de engordar o elenco corintiano
em 120 milhões de reais, com as contratações dos
argentinos Tevez, Sebá, Mascherano (apresenta-se até
julho ao clube) e do técnico Passarella, além dos
atletas brasileiros Marcelo Mattos, Roger, Gustavo Nery e Carlos
Alberto.
Nos bastidores do clube, o presidente Dualib dá
como certo o destino das investigações sobre a parceria
- o esquecimento. "Não vai dar em nada", responde a
quem o indaga sobre as investigações. Nos bastidores da
MSI a orientação para Kia é a de que ele se
afaste de nomes que possam lhe trazer dores de cabeça
desnecessárias. Isso explica, por exemplo, o fato de ele
alijar do negócio o "empresário" Renato
Duprat, responsável pela apresentação da MSI ao
Corinthians (Duprat responde, entre outros, a processos na Justiça
pela falência do plano de saúde Unicór).
Agora
o grande lance de Kia é comprar a Sports Marketing Agency
(SMA), responsável pelos contratos de publicidade do clube e
cuja dona é Carla Dualib, neta de Dualib. Existe uma minuta de
contrato para a compra da SMA pela MSI. Valor? Quatro prestações
de 464 mil reais.
JOÃO DE BARROS é
jornalista
NO MUNDO DA MÁFIA
RUSSA
O poder é
dos oligarcas, um grupo de empresários que se valeu do caos
econômico e social surgido com o fim da União Soviética
para se apoderar das grandes empresas estatais que exploravam as
riquezas naturais da região. As armas dos oligarcas:
chantagem, suborno, assassinatos. Agora eles se espalham pelo mundo,
comprando riqueza e poder com dinheiro sujo, devidamente lavado.
(por Natalia Viana)
Esqueça Don Corleone. A máfia
russa é bem diferente da tradicional organização
do poderoso chefão: nada de hierarquia rígida, famílias
a controlar o crime verticalmente. Ou seria melhor dizer máfias
russas? Há milhares de organizações criminosas
que disputam o título, atuando como traficantes de armas,
explorando a prostituição e a criminalidade em geral.
Mas o estudioso italiano Pino Arlacchi, que foi diretor do escritório
sobre drogas e prevenção ao crime da ONU, chama atenção
para outro lado do crime russo: os oligarcas, um pequeno grupo de
empresários que conseguiu o controle dos recursos naturais dos
países da atual Federação Russa –
principalmente, alumínio e petróleo - através
das privatizações. "Os oligarcas têm todas
as características de chefões da máfia. Só
que eles são mais frágeis do que a máfia
italiana, porque a organização não é tão
rígida, eles brigam muito entre si, há muita
traição."
Outra diferença entre russos e
italianos é que, enquanto os italianos formam uma organização
completa, incluindo pistoleiros, os russos fazem alianças
pontuais com grupos criminosos de rua e são responsáveis,
em boa parte, por sua proliferação. Em 1994, o então
ministro do interior russo Mikhail Yegorov estimou que o número
de grupos criminosos tenha saltado de 790 para mais de 5.500 durante
o governo Gorbachov. Antes da abertura, esses grupos garantiam
pequenos luxos a quem pudesse pagar: chiclete. jeans. vodca de
primeira, cigarros. Quando o muro caiu, eles ganharam enorme força
- graças à esperteza dos oligarcas.
PETRÓLEO, GÁS NATURAL, NÍQUEL
Também
diferentemente dos chefões italianos, que agem nas sombras, os
russos adoram se exibir: No começo de abril estavam no Canal
10 da televisão israelense, jactando-se dos seus feitos. Era o
documentário em série Os Oligarcas. uma
coletânea de longas entrevistas com essas figuras.
Escandalizado com os depoimentos que viu na televisão, o
escritor israelense Uri Avnery, fundador do grupo pacifista Gush
Shalom, correu ao computador para escrever um artigo que rodou mundo.
Descrevia: "Nos primeiros anos do capitalismo russo
pós-soviético, eram vistos como homens arrojados e
ágeis que sabiam explorar a anarquia econômica para
adquirir enormes haveres por um centésimo ou um milésimo
do seu valor: petróleo, gás natural, níquel e
outros minerais". Depois revelaram outra face: "Eles usaram
todos os truques possíveis, incluindo a trapaça, o
suborno e o assassinato. Cada um deles tinha um pequeno exército
privado. No decorrer da série de televisão, eles se
mostram orgulhosos em contar com pormenores como fizeram isso".
Os
países que constituíam a União Soviética
sofreram um baque econômico e moral sem precedentes com a
abertura do regime. Roubos, assassinatos, corrupção,
extorsão passaram a ser regra numa sociedade que ainda se
adaptava à possibilidade de possuir tudo o que se pode
agarrar: Ex-agentes da KGB e veteranos do exército que serviam
no exterior foram contratados como capangas por ricos empresários
em franca ascensão. O clima foi bem descrito pelo jornalista
russo Ahkadim Mazin: como no velho oeste. "Era assim o estilo
russo de fazer negócios: Estilo que foi detalhado por Dzahol
Khaidarov. ex-parceiro do oligarca Mikhail Chemoyem fábricas
de minério de ferro e vanádio, nos Urais, região
central da Rússia. Depois de um desentendimento com o grupo
Chemoy, ele foi parar na cadeia - as autoridades policiais e
judiciais estavam corrompidas por Chemoy. Khaidarov conseguiu fugir e
hoje vive escondido. Mas abriu a boca, em entrevista ao jornal Le
Monde em 2002: "Você pergunta como a Russian Aluminium
(do grupo Chernoy) adquiriu uma ou outra fábrica. Eles sempre
dizem que compraram as ações. Mas, se você olhar
bem, vai ver que o antigo dono foi para a cadeia, tornou-se 'viciado
em drogas' ou desapareceu. Quando eu trabalhava com Mikhail Chemoy, o
grupo dava propinas de 35 a 40 milhões de dólares por
ano. Sempre era possível comprar um juiz, um governador ou a
lei. No começo dos anos 1990, eles assassinaram. Depois
preferiram abrir processo ou colocar gente na cadeia. Eles podem
tudo. A disputa pelo mercado era tão violenta que ficou
conhecida como "guerra do alumínio", quando
começaram a aparecer os primeiros corpos: dezenas de mafiosos,
banqueiros e funcionários de fábricas foram
assassinados.
Assim, a famosa "família" de Boris
Yeltsin - os políticos, empresários e bandidos ligados
ao então presidente da Federação Russa - se
apossava das riquezas do país com uma ganância sem
freios. Às vésperas da eleição
presidencial de 1996, o governo Yeltsin tinha 4 por cento de
aprovação. Fizeram um acordo: os oligarcas, donos da
maioria dos meios de comunicação, dariam ao presidente
todo o espaço para a campanha. E o presidente daria todo o
espaço no governo. No dia em que foi reeleito. Yeltsin teve um
ataque do coração e passou o resto do mandato no
hospital. Os oligarcas começaram a governar, de fato, a
Rússia.
Uri Avnery observou como um deles, em especial, se
gabava durante longa entrevista no documentário: Boris
Berezovski. No segundo mandato de Yeltsin. Berezovski se tornou
presidente do Conselho de Segurança, de onde articulou o fim
do acordo de paz com a Tchetchênia, dando início à
sangrenta guerra que se arrasta até hoje. Tudo porque tinha
interesse nos recursos minerais e no projeto de um gasoduto a ser
construído ali.
DINHEIRO NO BANCO
Ricos,
poderosos e sem limites, os oligarcas enfrentavam um só
problema: onde colocar tanto dinheiro. "Uma vez que conseguiram
o dinheiro ilegalmente, sabiam que a fortuna deles não estava
segura, porque o governo, se não pertencer mais a amigos
deles, pode voltar atrás, pode confiscar as suas propriedades,
então eles tinham de tirar esse dinheiro do país, para
lavá-lo, explica o estudioso Pino Arlacchi. Cerca de 120
bilhões de dólares saíram da Rússia para
países estrangeiros, causando enorme crise financeira.
Parte
desse montante chegou à cidade de Nova York entre 1997 e 1999,
no que ficou conhecido como o escândalo do Bank of New York.
Foram descobertas inúmeras contas em nome de empresas da
"família" de Yeltsin, muitas delas ligadas a Semyon
Mogilevich, acusado de tráfico de materiais nucleares.
Dinheiro que passava pelo Bank of New York e seguia para outros
bancos mundo afora. Foi a primeira vez que veio a público o
que as autoridades policiais já sabiam: se o dinheiro saiu da
Rússia, certamente vai passar pelos grandes centros econômicos
- Estados Unidos, Europa - em operações de lavagem e
reciclagem de dinheiro. Nos primeiros anos, os oligarcas investiram
pesadamente em imóveis no exterior; principalmente no sul da
França e na Inglaterra, mas também em Israel. Depois
aprenderam uma lição valiosa: não é
preciso investir em nada para lavar dinheiro e ainda obter lucro.
"Diria que não mais de 20 por cento está investido
em serviços - desde supermercados até canais de
televisão. O dinheiro da máfia está basicamente
em bancos. É raro investir em coisas reais."
Berezovski
é mestre nisso. Apesar de podre de rico, hoje em dia não
mantém praticamente nenhuma empresa ou conta bancária
em seu nome. Investigado pelas polícias dos Estados Unidos,
Canadá, França, Rússia e Israel, o bilionário
teve alguns de seus esquemas desvendados. Soube-se, por exemplo, que
sempre usa testas-de-ferro e costuma utilizar o Deutsche Bank como
base para suas operações. Também faz transações
através de uma rede de pequenos bancos e empresas registradas
em paraísos fiscais, como Gibraltar; Ilhas Virgens Britânicas,
Chipre. A maioria gerenciada por fundos de investimento –
afinal, não é preciso dizer quem são os donos
das ações dos fundos de investimento.
À Caros
Amigos, Berezovski se disse um perseguido político. "Muita
gente tenta lutar contra mim, em particular o presidente da Rússia,
e eu tive de pedir asilo político na Inglaterra. Consegui
porque o tribunal britânico aceitou que isso era motivado
politicamente, e nada conectado a nenhum crime."
É
bem verdade que o motivo do fim do mandato dos oligarcas é
político, tem partido e nome: Vladimir Putin. Quando assumiu o
poder em 2000, apoiado pelos oligarcas e pessoalmente por Berezovski,
o ex-agente da KGB encontrou um Estado totalmente tomado, dilapidado
e corrompido. Para restabelecer a autoridade, começou uma
tentativa de impor limites ao poder dos oligarcas que perdura até
hoje. Fez acordos com alguns deles, como o jovem Roman Abramovitch,
que tinha acumulado fortuna como protegido de Berezovski e, sem
oposição do Kremlin, se tornou governador da região
de Chukotka, uma província no nordeste da Rússia. "Eu
não acho que Abramovitch fosse interessado em política,
mas o que fez foi um tipo de garantia, porque, como governador, ele
tinha maior possibilidade de defender seus negócios. E. até
onde eu sei, foi parte do acordo entre o Putin e a ‘família’
Yeltsin que ele saísse de Moscou e fosse para Londres",
diz o jornalista russo Raf Shakirov. Com outros, não houve
acordo: Mikhail Khodorkovsky, dono da gigante do petróleo
Yukos, foi parar na cadeia; Berezovski teve de buscar asilo na
Inglaterra; Mikhail Chernoy foi para Israel e Semyon Mogilevich. para
a Hungria.
JORNAIS, TELEVISÕES E FUTEBOL
Os oligarcas
que hoje operam no exterior são, na maioria, judeus; O Estado
de Israel lhes concedeu cidadania, assim como a todos os judeus
russos que fizeram uso do "direito de retorno" (leia na
página 36). Foram mais de 1 milhão de imigrantes russos
desde o final da década de 1980. Assim, Israel se transformou
no "porto seguro" a partir de onde muitos oligarcas dirigem
seus negócios no mundo inteiro sem necessariamente morar em
Israel. Boris Berezovski e o georgiano Badri Patarkatsishvili,
acusado de envolvimento com terroristas tchetchenos, estão
entre eles. "Eles sabem que Israel não vai extraditá-los,
então usam o país como um centro de lavagem de
dinheiro". diz o escritor Uri Avnery.
Faz só dois anos
que Israel tem uma lei contra lavagem de dinheiro, e é claro
que a prática não foi exterminada durante esse curto
período. Mês passado, os jornais israelenses deram com
destaque uma suspeita de lavagem de dinheiro no banco Hapoalim. Os
nomes que apareceram são: Boris Berezovski, Badri
Patarkatsishvili, Vladimir Gucinsky. Este último, dono de 25
por cento das ações do importante jornal Maariv e
também o canal de televisão RTVi, dedicado à
comunidade russa. Por aí já temos uma idéia de
como ele exerce influência, mesmo longe das esferas oficiais. O
oligarca Michael Chemoy também é político sem
atuar na política: mantém uma fundação
"para auxílio a imigrantes russos", a Minhael
Chernoy Foundation, em que o nome Chernoy foi mudado recentemente.
Através da fundação, ele financia iniciativas
ultradireitistas.
Badri Patarkatsishvili, acusado de ligações
com grupos terroristas tchetchenos. virou o homem mais rico da
Geórgia, proprietário da maior rede de televisão
e dos principais jornais do país. Dono do Dínamo de
Tbilisi, principal time de futebol do país, ele patrocinou a
equipe olímpica georgiana em Atenas com 2,25 milhões de
dólares.
Roman Abramovitch também entrou no esporte.
Comprou o Chelsea, tradicional clube de futebol da Inglaterra, no
qual já injetou mais de 200 milhões de dólares
no time (pouco, se contar a sua fortuna pessoal estimada em 13,1
bilhões de dólares), contratou grandes craques e virou
ídolo da torcida. Já o oligarca Berezovski procura
limpar a barra propondo negócios a empresários
reconhecidos. Já tentou uma sociedade com Edward St. George,
um ricaço muito próximo à família real
britânica, e ao ex-primeiro ministro sul-africano F.W DeClerk.
Ambos declinaram.
Onde estejam. os oligarcas hoje investem em
filantropia, contratam os melhores relações-públicas
e os melhores escritórios de advocacia. Com o tempo, vão
melhorando sua imagem no exterior: Aprenderam com grandes
capitalistas que imagem é 100 por cento do negócio,
essencial para obter mais e mais lucro. Claro, com eles. Afinal, como
diz o brasileiro Walter Maierovitch, juiz de direito aposentado e
estudioso do crime organizado, a máfia é, acima de
tudo, empresa - empresa capitalista."
NATALIA
VIANA é jornalista.
Colaborou JULIA CONTIER.
UM RETRATO DE CHEFÃO
Entusiasta da abertura da União
Soviética, o bilionário investidor americano George
Soros conheceu Boris Berezovski em meados da década de 1990,
quando este era o mais rico dos russos e oligarca de maior poder
sobre o então presidente da Federação Russa,
Boris Yeltsin. Em um artigo para o jornal Moscow News escrito no ano
2000, Soros diz que tomou para si a missão de "transformar
Berezovski de um capitalista-ladrão em um capitalista
legítimo". Só desistiu quando, em 1996, adquiriu a
empresa de telefonia estatal Svyazinvest em um leilão. A
compra causou um racha entre os oligarcas, em razão de a venda
ter sido feita, justamente, por um preço justo. Havia um
acordo entre eles, pelo qual as privatizações seriam
feitas a preço de banana, e os lucros compartidos. Alguns
deles apoiaram a venda da Svyazinvest e foram taxados de traidores
por Berezovski. Soros foi ter com ele: "Eu disse que ele era um
homem rico, que tinha bilhões em ações. Tudo o
que precisava fazer era consolidar sua posição. Se não
pudesse fazer sozinho, poderia contratar um gestor de investimentos.
Ele respondeu que eu não entendia. Não era questão
de ganhar dinheiro, mas de se impor aos outros oligarcas. Tinham
feito um acordo e teriam de cumpri-lo". Não que
Berezovski se apegasse a algum código de honra: o que ele
queria era manter os oligarcas ao seu lado, presos ao acordo mafioso,
porque não saberia operar na legitimidade.
COMO LAVAR
Tanto faz se o dinheiro sujo vem
de tráfico. extorsão. corrupção ou evasão
fiscal. Há muitas maneiras de lavá-lo. esconder a
origem dele. torná-lo "legal".
O juiz aposentado
Walter Maierovitch conhece muito sobre lavagem de dinheiro. Ele
explica que, em outros tempos, o criminoso ia a um cassino, comprava
uma porção de fichas, depois viajava para outro país
e descontava essas fichas em novo cassino. Podia alegar que ganhou no
jogo legalizado. Ainda hoje reina o velho método de comprar
mercadorias e informar ao fisco que elas valem menos - seja um barco,
um imóvel ou um jogador de futebol -, para depois recuperar o
real valor na hora de vender. Ou, se o lavador é quem vende,
dizer que elas valem mais: daí ele pode incluir alguns milhões
de dólares sujos no montante que diz vir daquela transação.
"Depende da criatividade do lavador", diz Maierovitch.
A
globalização do mercado financeiro e a velocidade da
Internet tornaram muito fácil abrir contas correntes e
movimentar dinheiro. Um estudo do Fundo Monetário
Internacional, o FMI, concluiu que no sistema financeiro circula 1
bilhão de dólares por dia sem origem clara e razão
aparente. A porta de entrada mais conveniente são os 88
paraísos fiscais, países que cobram pouco imposto e
onde ninguém pergunta sobre a origem do dinheiro. Ali, bancos
de nomes desconhecidos aceitam depósitos e fazem transferência
sem nenhuma crise de consciência.
Faz parte do processo a
utilização de empresas off-shore - pessoas jurídicas
fantasmas registradas nos paraísos fiscais cujos titulares são
mantidos em total anonimato e podem constituir fundos de investimento
capazes de movimentar um volume enorme de dinheiro. sem que seja
necessário identificar os investidores.
Abertas por
renomados escritórios de advocacia em alguns minutos, as
empresas off-shore são geralmente registradas com o mesmo
endereço daqueles escritórios. São os advogados
que autorizam transações e assinam documentos em nome
da empresa, funcionando como escudo para os verdadeiros donos.
Uma
vez no sistema bancário, o dinheiro pode em poucos segundos
dar a volta ao mundo duas vezes. Torna-se praticamente impossível
saber de onde veio.
Mas o bom lavador não pára na
lavagem inicial. Vai procurar reciclar o dinheiro, investindo em
negócios. Para o país que recebe os investimentos,
tanto melhor. Pouco se fiscaliza.
Segundo informações
colhidas na Administración Federal de Ingresos Públicos
(AFIP), órgão argentino que fiscaliza os investimentos
estrangeiros que chegam ao país, explicou que toda transação
de vulto é avaliada. Mas a AFIP não vê problema
se o dinheiro passou por vários bancos, desde que isso seja
declarado. Nunca se pergunta quem foi que mandou. E só se
considera uma transação "suspeita" se ela vem
diretamente de um paraíso fiscal. "O Brasil é
praça atraente para lavagem de dinheiro". diz Walter
Maierovitch. "Aqui não há fiscalização
e o Brasil paga os maiores juros do mundo".
A verdade é
que lavar dinheiro é um bom negócio - só o
narcotráfico gira 400 bilhões de dólares por ano
- e ninguém quer abrir mão dele. Nem os países
que recebem o montante, nem os bancos que o operam. "A maioria
do dinheiro fica em grandes bancos em países ricos: primeiro
na Inglaterra, depois na Suíça e em terceiro lugar nos
Estados Unidos". diz Pino Arlacchio “Há um
departamento nos bancos, o chamado private banking, cujo papel é
procurar gente rica do mundo todo, abrir uma conta para essas pessoas
sem dar os nomes e investir o dinheiro. A regra é ‘não
pergunte, não escute’”, explica Arlacchi. O maior
banco do mundo, Citibank, foi pego inúmeras vezes nessas
operações. Mantinha contas de Sani Abacha, ex-ditador
da Nigéria; Albert-Bernard Bongo, ex-presidente do Gabão;
e de Raul Salinas, ex-presidente do México. Excelentes
clientes.
ASSIM ELES AGEM EM ISRAEL
"Liberta
meu povo". Em fins dos anos 1980, esse slogan foi
utilizado para provocar uma pressão mundial contra a
fechadíssima União Soviética, forçando-a
a abrir as portas para que os judeus lá residentes pudessem
emigrar para Israel. A origem da frase está no Gênesis -
Moisés a utiliza como ultimato ao faraó, no Egito,
exigindo a libertação dos escravos judeus. Ainda está
vibrando nos meus ouvidos o belíssimo spiritual Let My
People Go, na voz do baixo mais profundo do mundo, o
admirável Paul Robeson.
Os portões se abriram
suavemente e milhares de judeus, e outros que fingiam ser judeus,
deixaram a União Soviética. Mas, para decepção
dos funcionários da imigração de Israel, a
maioria dos migrantes tomou o destino da Europa Ocidental,
construindo assim uma ponte para o destino final - os Estados Unidos
-, onde esperavam viver e prosperar.
Agentes da Federação
Sionista de Israel foram enviados para campos de trânsito em
Viena e, em coordenação com as autoridades americanas
de imigração, tentaram forçar os migrantes a
mudar seu rumo para Israel. A maioria, então, concordou com
isso, mas fez de Israel uma espécie de parada intermediária,
continuando seus esforços para, realizar enfim a viagem aos
Estados Unidos. Um grande número atingiu o objetivo.
Entre
os que sobraram, passando dificuldades para se adaptar ao novo país,
Israel aproveitou diversos músicos muito bons, atores de
teatro formidáveis, artistas plásticos, cientistas e
literatos. Mas não veio apenas gente boa. Dois fatores - o
direito de retorno, segundo o qual judeus de qualquer parte do mundo
são obrigatoriamente aceitos em Israel, e a falta de controle
seletivo do qual fazem uso outros países que recebem
imigrantes - facilitaram a entrada de mafiosos russos no
país.
Conforme aumentavam as ondas de imigração,
mais se consolidava o poder da Máfia, que executava ações
dignas da velha Chicago dos anos 1920. Nas suítes mais
luxuosas dos hotéis de Tel Aviv foram descobertos corpos nus
decapitados, e a polícia está procurando as cabeças
até hoje, sem resultado. A importação de
prostitutas de luxo dos países ex-soviéticos,
contrabandeadas em caravana de camelos pelo deserto do Sinai (como no
Êxodo), serviu de argumento para um filme maravilhoso de Amos
Gitai, exibido na última Mostra Internacional de São
Paulo, A Terra Prometida.
O comércio de drogas,
acompanhado de lutas terríveis entre gangues rivais, é
responsável pela explosão de bombas nas ruas centrais
de Tel Aviv, e fica difícil saber se os atentados foram obra
de homens-bomba palestinos ou da Máfia russa.
Outra
profissão mafiosa muito rentável, que se tomou
verdadeira epidemia, é o agenciamento de trabalhadores ilegais
dos ex-países socialistas e do Extremo Oriente, filipinos e
chineses, que substituíram os trabalhadores palestinos,
proibidos de entrar em Israel depois da Segunda Intifada. A carência
de trabalhadores estrangeiros estava ameaçando os enormes
lucros dos fazendeiros nos assentamentos judaicos em terras
palestinas, à base de mão-de-obra cada vez mais barata.
A entrada de trabalhadores clandestinos resolve o problema dos
fazendeiros, rende muito dinheiro para a Máfia e nem é
muito incomodada pela polícia, mais preocupada em evitar ou
reduzir atentados a bomba. A polícia, de fato. está
completamente sem efetivos para combater os mafiosos.
Enquanto a
população de Israel estava se acostumando a mais essa
violência, explodiu o escândalo em torno do bilionário
russo Vladimir Gusinsky, que já comprou uma boa parte das
ações de um importante vespertino, o Maariv, e
está agora envolvido na lavagem sem precedentes de milhões
de dólares - o poderoso banco Hapoalim, que há anos
deixou de pertencer à central sindical israelense Histradruth
e passou para a bilionária empresa americana Ehrenson, é
suspeito de ser o foco da lavagem de dinheiro do grupo de
Gusinsky.
Segundo reportagem do jornal israelense Haaretz,
os principais gerentes do banco estão respondendo a inquéritos
policiais e, para surpresa geral, foi indiciado também o
embaixador de Israel em Londres, Zvi Hefetz, um político
fortemente pró-Sharon. O motivo foram as ligações
estreitas entre Hefetz e Gusinsky. Na verdade, o establishment
israelense está sendo de alguma forma envolvido na
ilegalidade.
O deputado Iuri Stem - ironicamente. membro do
partido Israel Coisa Nossa (lembrando Cosa Nostra, nome da
máfia italiana) - acusa a polícia e os meios policiais
israelenses de perseguição e preconceito contra homens
de negócios russos. Stem declara: "Estão atingindo
principalmente empresários que falam russo, o que é
preconceito puro, sem base nenhuma".
O embaixador Hefetz não
fica atrás: "Não tenho procuração
para falar em nome de Gusinsky, mas tenho certeza de que ele não
tem nenhuma culpa. Observo há anos as atitudes dele, que são
caracterizadas por investimentos em Israel, nunca por levar dinheiro
para fora de Israel".
O slogan “Liberta meu
povo” perdeu todo o sentido.
GERSHON KNISPEL é
artista plástico.
(CAROS AMIGOS, www.carosamigos.com.br, edição nº. 97, abril/2005, pp. 32-36)