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Surgem
novos nomes explosivos na parceria MSI-Corinthians. E as
investigações sobre o caso avançam em vários
órgãos do governo brasileiro.
Por Natália
Viana e João de Barros
Kia no aniversário
de 28 anos em Saint-Tropez, sul da França, entre os irmãos
Lev e Mikhail Chernoy, acusados de envolvimento com o crime
organizado na Rússia. À direita, o ex-amigo Roy Azim.
Ao fundo, Dmitry Bosov, empresário russo que na época
trabalhava para os Chernoy.
14 de julho de 1998. Uma
estrondosa festa a bordo de um luxuoso iate, alugado especialmente
para a ocasião, agita a pequena e turística
Saint-Tropez, na Côte D'Azur, sul da França. Os cerca de
duzentos convidados se esbaldam com champanhe, uísque e vinho
francês. Uma banda anima o ambiente repleto de mulheres
elegantes, homens podres de ricos e alguns dos maiores e mal
reputados empresários russos. O aniversariante Kia Joorabchian
comemora seus 28 anos sem ligar para as câmaras fotográficas.
Uma delas captou sua imagem junto ao (ex) amigo Roy Azim, nascido no
Quirguistão - que acusa Kia de sumir com 21 milhões de
dólares dele, Roy, e parentes, conforme disse à Caros
Amigos na edição passada. E junto a outros
convidados, como os irmãos Lev Chernoy e Mikhail.
Quem
são os irmãos Chernoy? São o tipo de gente com
quem não fica bem ser fotografado. Lev Chernoy é
apontado pela Interpol e outras organizações policiais
e de inteligência internacionais como um dos chefes da máfia
russa. Tal informação consta de um documento do Banco
Mundial daquele mesmo ano de 1998. Mas não só isso: Lev
foi alvo de investigações da polícia suíça
sobre o crime organizado russo. Foi na Suíça, aliás,
que seu irmão Mikhail esteve preso, por pouco tempo, em 1996,
sob a mesma suspeita.
Autoridades russas acusam esses irmãos
nascidos no Usbequistão de fraudarem o Banco Central da Rússia
em mais de 100 milhões de dólares, no começo da
década de 90, através de dezenas de empresas fictícias.
Documentos da Interpol e do FBI acusam os dois de lavagem de milhões
de dólares nos EUA nessa mesma época.
No final
dos anos 90, Mikhail inaugurou a onda de comprar times de futebol,
quando adquiriu a empresa M&B Inc. da Bulgária, dona de um
time de Sófia fundado em 1914, o FC Levski, onde Mikhail
Chernoy passou a figurar como presidente. Pouco depois, em 2000, ele
entrou em sociedade com outros empresários russos para formar
a Russian Aluminium, criando um monopólio no setor de alumínio
e levando o jovem Roman Abramovich (sim, aquele, que hoje é
dono do Chelsea), definitivamente para a galeria dos milionários
da ex-URSS. Um antigo sócio de Mikhail Chernoy, Dzhalol
Khaidarov, contou ao jornal francês Le Monde que a
Russian Aluminium ganhou o mercado por meio de corrupção,
assassinatos e influência política, dando propinas de 35
a 40 milhões de dólares por ano.
Kia entrou para
a "turma" por tabela. Em 1999, o magnata russo Boris
Berezovski queria, mantendo-se incógnito, comprar a editora
Kommersant, que, além do jornal de mesmo nome,
publicava a revista política Blast, o jornal semanal
Dengi, a Avlopilot. revista sobre autos, e Domovoi
revista mensal de variedades. O Kommersant era um dos
únicos jornais da Rússia a se manter independente - não
pertencia nem ao Estado nem a alguma família de oligarcas.
Berezovski já havia comprado poucas semanas antes 15 por cento
das ações da editora. Além disso, controlava os
canais russos de televisão Ort TV e TV 6. E estava de olho nos
85 por cento restantes do Kommersant. Pediu, então, ao
amigo Chernoy que o ajudasse na empreitada. Chernoy lembrou-se de Roy
Azim, que por sua vez colocou Kia em cena, apresentando-o como "um
jovem muito esperto", E o iraniano mostrou serviço.
Fechou o acordo em Los Angeles, onde morava o dono da editora,
Vladimir Yakovlev. Ainda, segundo Roy, Kia foi apresentado lá
mesmo ao magnata Badri Patarkatsishvili - o bilionário
presidente do Dínamo de Tbilisi (que tanto encantaria o
presidente do Corinthians, Alberto Dualib, pela pompa com que o
recebeu em agosto de 2004 em seu castelo na Geórgia).
Sacramentada
a compra da editora em Los Angeles, Kia apareceu em Moscou com
um parceiro até então desconhecido: o jovem Reza
Irani-Kermani. de 31 anos. Kermani era o oposto do "sócio";
com pequenos óculos de aros rendondos, era tímido e
pouco falante, enquanto Kia agia como o grande chefe, segundo
Raf Shakirov, então editor do Kommersant. Mas, na hora
de verificar a papelada, quem botou a mão na massa foi Reza.
"Era ele quem queria saber a situação financeira,
detalhes sobre nossos produtos, e assim por diante. O Kia quase
nem olhou para o computador, estava absolutamente indiferente",
conta Raf.
Ainda hoje é assim, Kia age no Brasil
como agia alhures. Por exemplo, quando o amigo Reza veio ao Brasil
especialmente para conhecer a parceria MSI-Corinthians, Kia
apresentou-o aos advogados da Veirano, na ocasião sócios
da MSI brasileira, como "cabeça pensante" das
finanças da empresa. E disparou: "Quem entende mesmo de
finanças é ele".
De fato, aos 37 anos, Reza
age com a desenvoltura de um veterano no mundo financeiro. Formado,
em 1999, em engenharia de produção pela Universidade de
Birminghan, Reza foi diretor administrativo em Londres de uma
subsidiária da MKS Finanças de Genebra. trabalhou no Po
Sang Bank, de Hong Kong. e hoje figura entre os principais executivos
da inglesa Brokerbox, empresa especializada em investimentos para
bancos e corretoras na Internet, e é o diretor mais jovem da
Abela Corporation, multinacional presente em 44 países do
mundo, com mais de 40.000 empregados. No final do mês passado,
Reza foi alcançado em Bombaim, na Índia, por Caros
Amigos. De lá, admitiu a amizade que tem por Kia, mas
se negou a dar entrevista por telefone. "Mande um e-mail que
eu respondo'. Não respondeu. Em vez disso, se queixou a Kia,
em São Paulo, de o termos procurado.
Kia recorre
amiúde ao amigo Reza para falar de novos e futuros
investimentos por meio de um programa de conferência via
Internet pelo qual podem se comunicar permanentemente, a qualquer
hora. Assim, combinaram as negociações que culminaram
na aplicação de 113,95 milhões de reais gastos
até o final de fevereiro na contratação dos
jogadores Mascherano, do River Plate (39 milhões), Roger, do
Benfica (7,8 milhões), Gustavo Nery, do Werder Bremen (5,1
milhões), Tevez, do Boca Juniors (52,65 milhões),
Carlos Alberto, do Porto (2,7 milhões). e Sebá, do
Newells Old Boys (6,7 milhões).
A bolada de recursos,
gasta pela MSI em pouco mais de um mês, aguça ainda mais
a curiosidade do Grupo de Atuação Especial para
Prevenção e Repressão ao Crime Organizado
(Gaeco), órgão do Ministério Público do
Estado de São Paulo, que, em colaboração com
diversos organismos federais - do Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (COAF) do Ministério da Fazenda à Polícia
Federal, do Ministério do Trabalho à Agência
Brasileira de Informações (Abin) -, investiga a origem
do dinheiro da parceria.
OUSADIA INÉDITA
A
principal suspeição é a de que os milionários
investimentos da MSI no futebol brasileiro se prestem à
lavagem internacional de dinheiro oriundo dos magnatas russos amigos
de Kia, que fizeram fortuna com as privatizações na
ex-União Soviética e outros negócios nebulosos
mundo afora - Boris Berezovski, condenado à prisão na
Rússia por fraude financeira; Roman Abramovich, presidente do
time inglês Chelsea e acusado de contrabandear diamantes na
África; e Badri Patarkatsishvili, georgiano suspeito de
ligação com o tráfico de armas, contrabando de
heroína e dono do principal time do país, o Dínamo
de Tbilisi.
É justamente de Tbilisi que surge mais um
nome de um investidor misterioso, Zaza Toidze, que emprestou 2
milhões de dólares ao Corinthians. No dia 21 de
dezembro do ano passado. Toidze, por meio de conta corrente no United
Georgian Bank de Tbilisi, enviou o dinheiro para a agência de
um banco americano em Nova York. que o repassou ao Brasil em nome da
Devetia Limited. empresa de Tortola, Ilhas Virgens Britânicas.
A
imprensa brasileira apresentou Zaza Toidze como um político
que fizera parte, em 1999, da Comissão Eleitoral Central da
Geórgia (CEC), representando o Partido da Reunificação
Nacional, partido político de grande densidade eleitoral na
região autônoma de Adjara, localizada ao longo da costa
do mar Negro, mas inexpressivo nacionalmente, e extinto pelo
presidente Mikheil Saakashvili depois de uma insurgência local
contra o governo central.
Em Batumi, capital de Adjara, cidade
de 200.000 habitantes, nunca se ouviu falar em Zaza Toidze. As
repórteres Mzia Amaglobeli e Natia Andguladze vasculharam a
cidade atrás da figura misteriosa. Nada. Nenhum Zaza
Toidze.
Em Tbilisi, também nunca ninguém ouviu
falar dele. Os atuais funcionários da CEC desconhecem o nome
do “político". Embora Zaza seja um nome comum no
país, e Toidze um sobrenome nem tanto, o jornalista local
George Sepashvili afirmou que "seguramente se lembraria de um
nome como esse, se fosse um homem conhecido".
O único
Zaza Toidze que consta da lista telefônica oficial da cidade
foi ouvido por Caros Amigos. Por telefone, à repórter
Lana Nowikow, esse engenheiro da Telefon Service, que jamais
pertenceu a qualquer partido político e nunca soube da
existência de um homônimo, foi categórico: não
conhece o Brasil, não mandou dinheiro para o Corinthians, não
tem nenhuma empresa - "muito menos nas Ilhas Virgens" - e
gostaria muito de esclarecer o "equívoco".
Além
da origem do dinheiro, o Ministério Público paulista
quer saber como foi possível ao Corinthians registrar todos os
jogadores contratados. segundo se diz, pela MSI, na Confederação
Brasileira de Futebol (CBF), uma vez que, perante a legislação
esportiva, apenas clubes podem contratar jogadores e mantê-los
no elenco como profissionais remunerados. ''A gente quer saber como,
legalmente, é possível ocorrer uma negociação
triangular que contempIe todos os aspectos formais da lei. Alguma
coisa não bate", diz o promotor José Reinaldo
Guimarães Carneiro, um dos responsáveis pela
investigação do Gaeco. "Se o Corinthians negociou
com o Boca, por exemplo. há de haver o registro da saída
de dinheiro no Banco Central para dar fé ao negócio.
Não há. Se, por outro lado a MSI comprou o atleta e o
emprestou ao Corinthians, fica claro que há um terceiro clube,
na ponta final, que é realmente o detentor dos direitos do
jogador, de vez que a empresa MSI não pode ser ''dona'' do
atleta.
Em outras palavras. o promotor quer dizer o seguinte:
Tevez. por exemplo, já pertenceria a um clube de outro país,
que o emprestou ao Corinthians trabalhando sob o escudo da MSI.
Assim, se for o caso. ao mesmo tempo em que se lavariam vultosas
somas de origem desconhecida, se garantiriam contratualmente os
produtos - os jogadores - como valores agregados para futuras
negociações. Um negócio que seria da China, não
fosse - tudo indica da Rússia.
A NOVA MSI
Desde
que foi registrada na Junta Comercial de São Paulo, em outubro
de 2004, a MSI já trocou uma vez a razão social e duas
vezes os sócios. A última mudança ocorreu em 9
de fevereiro, quando ela deixou de ser uma empresa com capital de
1.000 reais, de dois advogados da Veirano - a banca que cuida dos
negócios cíveis de Kia-, para se transformar numa
empresa de capital de 13,442 milhões de reais (ainda não
integralizados), dos quais 9.946.330 serão aportados pela Just
Sports Incorporated e 3.360.260 pela Devetia Limited, ambas das Ilhas
Virgens Britânicas. Curiosamente, a Media Sport Investments, de
Kia - que tem sede em Londres e cujo diretor Nojan Bedroud afirma
desconhecer o que acontece na MSI do Brasil -, surge como sócia
minoritária, aportando recursos de 134.410 reais, o que não
o impede de ser indicado como diretor-presidente da empresa tão
logo seu visto de residência permanente no Brasil seja expedido
pelas autoridades da imigração.
Se fosse o caso,
uma nova alteração contratual como essa, de qualquer
empresa, poderia se constituir no mais singelo modelo legal de
lavagem de dinheiro no Brasil, passando incólume pelas
autoridades comerciais brasileiras, entre as quais as do Departamento
Nacional de Registro do Comércio e das Juntas Comerciais de
todo o país. Não requer prática e tampouco
habilidade. Basta a pessoa abrir uma empresa com capital social de
1.000 reais, por exemplo, e em seguida integralizar um vultoso aporte
financeiro de origem desconhecida - e não exigida - de um
paraíso fiscal qualquer.
O método, apontado como
banal por economistas do Banco Central, é a maneira mais fácil
de esquentar dinheiro sujo, dando-lhe o carimbo de legalidade cambial
e livrando-o de qualquer vigilância ou investigação.
"Com uma pseudovantagem adicional", ironiza um desses
economistas. "O dinheiro ainda ganha o status de entrar no país
na conta dos 'investimentos externos....
No caso da MSI. ela
não apenas engordou financeiramente. Com a recente alteração
contratual, expandiu o objeto social de atuação,
podendo agora gerenciar departamentos e associações
esportivas no país, e guindou o psicólogo Paulo Sérgio
Scudieri Angioni, ex-supervisor de Corinthians, Palmeiras, Fluminense
e Seleção Brasileira, à condição
de procurador da empresa no Brasil. Angioni, que deixou perplexos os
promotores do Gaeco ao confessar que não conhece as empresas
que representa, nada sabe sobre as operações
financeiras em curso, não tem acesso à contabilidade e
tampouco às contas bancárias e cumpre apenas
"formalidades", assinando documentos e cheques em branco.
"Do ponto de vista jurídico, Angioni está, com
conhecimento de causa, colocando a corda no pescoço ao cometer
crime de prevaricação", afirmam os promotores.
A
investigação não tem data para acabar. Todos os
envolvidos na rumorosa parceria serão ouvidos pelo Gaeco.
Todos os documentos produzidos a partir da parceria serão
periciados. A Procuradoria Geral da República em São
Paulo está pronta para se juntar aos promotores. Não
está distante a hipótese da quebra dos sigilos fiscal,
bancário e telefônico dos envolvidos. A MSI de Kia
continua na marca do pênalti.
(Caros
Amigos, março/2005, pp. 8-9)