VIVENDO
COM O PERIGO
ARENAFC,
www.arenafc.com, 26/1/2005
Antonio
Roque Citadini, vice-presidente de futebol do Corinthians, é
nosso primeiro entrevistado. Aqui ele denuncia um acordo entre
veículos de comunicação e a MSI, garante que
Tevez é melhor que Robinho e volta a mostrar ser contra a
polêmica parceria corintiana
VIVENDO
COM O PERIGO
Citadini recebeu nossa reportagem em
seu gabinete no TCE (Tribunal de Contas do Estado de São
Paulo) e, durante uma conversa de aproximadamente duas horas, manteve
o estilo que o fez popular em todo o Brasil. Sem meias palavras,
detalhou fatos importantes sobre o casamento MSI/Corinthians.
Por
FERNANDA BOSNICH e RAPHAEL CAVACO
Nos últimos
seis meses, bastante se discute sobre os próximos reforços
que podem desembarcar no Parque São Jorge. Também muito
se fala a respeito de valores estarrecedores pagos por jogadores,
sobre alguns que terão dificuldade em falar Português e
outro que usa chinelo em festa de gala.
Ao que parece, a tão
contestada parceira corintiana conseguiu reverter a situação
e hoje é vista com bons olhos até por quem inicialmente
não acreditava nas grandiosas promessas de Kia Joorabchian,
presidente da MSI. Bastou Carlitos Tevez se apoderar da camisa 10 do
Timão - mesmo que por enquanto somente nos treinos - para que
críticas e desconfianças fossem amenizadas.
Talvez o
que torcedores mais fanáticos não percebam é que
um clube não se mantém apenas com contratações
de "galácticos", como insistem em apelidar o atual
elenco alvinegro. Outros fatores envolvem a administração
e a trajetória de um clube centenário. E é sobre
isso que Citadini se dispôs a falar com a nossa equipe.
ArenaFC
- Você não esconde que o contrato firmado entre
Corinthians e MSI é de risco por ser frágil ao clube e
generoso à investidora. Com que argumentos você sustenta
essa afirmação?
CITADINI
- Na verdade eu não sou contra parcerias. Numa situação
normal de parceria você tem garantias ao clube, não
somente a de contratar jogador, mas de uma gestão sadia. Isso
porque se a parceira faz algo errado em matéria de tributos,
câmbio, questões fiscais, criminais, trabalhistas e
administrativas, a responsabilidade é do clube. O Tevez foi
contratado e não foi o Corinthians que fez o câmbio. O
pagamento foi feito de uma outra forma que ninguém sabe até
agora. Nossa divergência é por saber que há
investidores soviéticos por trás. Aliás, isso
foi escondido por um longo tempo, fomos nós que descobrimos.
No início eles se rotulavam como mega investidores ingleses.
Isso só apareceu depois que descobrimos o Kia, que tem acesso
a grupos russos e pessoas como Berezovisk e Abramovich. A verdade é
que hoje nós estamos torcendo para que a MSI não cometa
nenhum deslize diferentemente do que aconteceu com a "Hicks
Muse", quando o clube tinha uma co-participação
nos atos e sabia como tudo era encaminhado, concordava ou
discordava.
ArenaFC
- Mas o Kia sempre fala que tudo é decidido em
conjunto, não é verdade?
CITADINI
- Não. O contrato é de exclusiva gestão
da MSI. O contrato usa a palavra "exclusivo", e pelos
caminhos que eles decidem. Por isso a parceria é de altíssimo
risco. Ela seguramente será boa no primeiro ano, porque eles
precisam comprar jogadores, mas depois ninguém sabe o que pode
acontecer.
Para melhor esclarecer a situação
dos bilionários soviéticos, Citadini faz uma breve
explanação sobre a origem do fenômeno:
"Existem
grupos de investidores originários da Europa Oriental,
basicamente da Rússia e da Ucrânia, que ficaram ricos
nos últimos dez anos, no momento em que o Estado Soviético
foi dividido em vários países e, conseqüentemente,
as empresas estatais foram vendidas.
Embora existisse um regime
socialista, algumas pessoas privatizaram empresas de petróleo,
gás, comunicação, ferrovia entre outras. Com que
dinheiro não se sabe, nem de que forma. Isso deu origem a uns
20 bilionários da noite para o dia.
Junto a esse
enriquecimento veloz vieram as dúvidas e dificuldades. Eles
não poderiam permanecer apenas naquela região, pois se
o Governo sofresse mudanças os novos ricos poderiam perder
tudo e até serem presos, como de fato está ocorrendo em
alguns países. Então, onde aplicar seguramente o
dinheiro?
Saíram pelo mundo e começaram a enfrentar
dificuldades com regras de câmbio e leis. Até porque, se
fosse pela regra natural da economia de mercado eles não
teriam ficado ricos tão rapidamente.
Outro relevante
problema é a busca pelo status de rico. São pessoas que
têm 5 bilhões e não são reconhecidas. E aí
entra o futebol, que tem plenas condições de garantir a
visibilidade a essas pessoas. Pode-se ter 8 bilhões no banco e
ninguém saber, mas se 50 milhões são gastos para
a compra de um jogador ,todo mundo passa a lhe reconhecer".
ArenaFC
- Você está querendo dizer que o Brasil não
tem regras e que o Kia só quer aparecer?
CITADINI
- O Brasil não está preparado para receber esse tipo de
investidor problemático. Nosso país não tem
defesa. Poderiam atravessar a fronteira e comprar um clube alemão,
mas não conseguem por causa das regras, por isso vieram para
cá. Além disso, o futebol brasileiro está à
míngua. Aqui, com qualquer 10 milhões de dólares
você monta o maior time do Brasil e ganha qualquer campeonato.
Esse cenário vira um campo fértil para esse perfil de
investidor.
ArenaFC
- Então você acredita que a MSI não quer apenas
ganhar dinheiro?
CITADINI
- No caso do futebol o lucro é secundário. O futebol
serve como uma vitrine. Mais que ganhar dinheiro, eles precisam
aparecer para o mundo.
ArenaFC
- O que você teme que aconteça em médio
prazo?
CITADINI
- Eu penso que se esse negócio não der a visibilidade
que eles precisam ou o retorno de dinheiro que eles almejam, eles
simplesmente podem ir embora. E eles querem visibilidade mundial, não
local. Eles querem que as pessoas saibam que em um país da
América do Sul existe um negócio fantástico.
Temo muito pelo clube e acho que o nosso trabalho é de não
baixar a guarda, trabalhar diuturnamente para que a parceria não
cometa erros, porque os erros serão nossos também.
ArenaFC
- Mas não tem uma cláusula no contrato dizendo
que qualquer dano ou prejuízo é a parceria que arca?
CITADINI
- Aonde você vai achar a investidora? A única pessoa que
aparece é o Kia, que ninguém sabe onde estudou, quem é
o pai dele, onde fica a empresa dele ou a conta bancária.
Houve até dificuldade em saber quem era ele porque apareceram
cinco certidões de nascimento diferentes. Ele justifica
dizendo que é perseguido político saído do Irã
e precisava disso. Realmente isso ocorre, mas eu não sei quem
é o Kia. É uma situação complicada, o
Corinthians vai executar quem, procurar quem, bater em que porta? É
um contrato de parceria falho, porque com a Hicks a primeira
preocupação era de o clube crescer em infra-estrutura,
o que agora nem se comenta.
ArenaFC
- Então os corintianos podem esquecer o tão
sonhado estádio?
CITADINI
- Não vai ter estádio.
ArenaFC
- Quais são exatamente as obrigações da MSI
diante do Corinthians?
CITADINI
- O contrato estabelece uma única obrigação:
gastar inicialmente 15 milhões de dólares para montar o
time.
ArenaFC
- O valor gasto para trazer Tevez e companhia já ultrapassou
essa quantia.
CITADINI
- Sim, mas o dinheiro que o clube receberia para quitar dívida
de até 20 milhões de dólares até hoje não
apareceu.
ArenaFC
- O presidente do Corinthians diz que por causa da queda do dólar
é melhor aguardar mais um tempo.
CITADINI
- Com todo o respeito que eu tenho pelo senhor Alberto Dualib, essa
explicação não é convincente. Até
porque a queda do dólar é menor que os juros bancários
que estão sendo cobrados. Enquanto esperamos o dólar
subir os juros aumentam e a dívida também.
ArenaFC
- Então o problema crucial é a falta de
garantias ao clube?
CITADINI
- Sim. Os objetivos deles são claros, mas as mudanças
que eles vivem sofrendo também são rapidíssimas.
De uma hora para a outra eles se desinteressam por este negócio,
saem e deixam o Corinthians com uma mão na frente e a outra
atrás. Hoje nós estamos agarrados à medalhinha
de São Jorge torcendo para dar certo, nada mais.
ArenaFC
- É verdade que o presidente Dualib não está
necessariamente a par das contratações?
CITADINI
- No período inicial ele sabia de tudo. Quando a parceria foi
selada mudou. A contratação do zagueiro argentino Sebá,
por exemplo, ele só tomou conhecimento pela televisão,
assistindo, claro, o "Jornal da Globo".
ArenaFC
- Por falar nisso, como você avalia a cobertura da
imprensa até aqui com relação a esse tema?
CITADINI
- Uma parte estava completamente perdida nessas discussões.
Outra parte, que inclui a TV Globo e o jornal Folha de São
Paulo, fez acordo com a parceria. Em troca de apoiar a MSI, anunciam
jogadores e têm notícias em primeira mão. Isso
foi revelado pelos próprios membros da investidora. Por isso
tivemos uma cobertura pífia da Folha, que durante seis meses
abdicou do seu manual de redação e de toda preocupação
investigativa e passou a fazer matérias leves, como "O
Kia freqüenta o restaurante X", "o Kia está
namorando não sei quem".
ArenaFC
- Você sempre elogiou Carlitos Tevez. Você acha
que ele vale a quantia paga?
CITADINI
- O Tevez é o melhor jogador da América Latina nos
últimos três anos. Ele tinha que ter ganhado a Bola de
Ouro da Fifa no ano passado. A maior revelação do
futebol, inegavelmente superior ao Robinho e a qualquer outro.
Lembrem-se, eles querem status. Neste caso é pouco provável
que lucrem com a venda do jogador, mas com certeza tiveram
repercussão. Quanto ao valor, se fosse para ser baixo não
interessa, concorda? Evidente que com 20 milhões de dólares
você montaria o melhor time do país, contratando
jogadores só do Brasil. Mas isso não seria um negócio
cinematográfico, como eles querem.
ArenaFC
- Então se esse time não der certo daqui um tempo,
perder para o Palmeiras que investiu 30 vezes menos que o
Corinthians, pode gerar uma crise na parceria?
CITADINI
- Não, eu acho que não perde. A diferença para
os demais clubes vai ser tão grande que não há
condições de o Corinthians perder nada. Daqui seis
meses a diferença vai ser lunática, não
galáctica.
ArenaFC
- Você sempre foi contra a parceria. Com ela firmada, como está
sua relação hoje com o presidente Dualib?
CITADINI
- Minha relação com o presidente Dualib é
formal, cordial. Se eu disser que não mudou estarei sendo
hipócrita, mas não temos queixas um do outro.
Participei das primeiras negociações, até que eu
não quis mais. Para ser sincero, há um lado bom. Todo
mundo sabe exatamente as vantagens e desvantagens dessa parceria. Se
alguma coisa der errado, ninguém no Corinthians vai poder
chegar amanhã e dizer "eu não sabia que tinha
russo no meio".
ArenaFC
- E com o Kia?
CITADINI
- Nunca tive problemas e não me cabe julgar. Também
tenho uma relação formal e nunca quis trabalhar com
ele, embora tenha sido reiteradamente convidado. Não me
interessava, porque eu sei dos riscos.
ArenaFC
- Então você continuará como vice-presidente de
futebol do clube?
CITADINI
- Eu sou, mas não existe mais o cargo (risos). O Corinthians
não tem nenhuma intervenção no futebol. Quem
manda hoje é o Kia e acabou, isso está no contrato. É
uma gestão exclusiva da MSI, mas os cargos continuam
existindo, só que sem autonomia. Um exemplo claro foi o
Luizão, que acertou com o clube e na hora o Kia disse que não
queria e acabou.
ArenaFC
- Qual seu papel hoje?
CITADINI
- Tento impedir que se cometam grandes erros. Para isso eu acompanho
de perto, estou todo dia no clube, participo, questiono, eu digo
publicamente que não chegou o dinheiro para pagar as dívidas
do Corinthians etc.
ArenaFC
- Você é realmente um dos avalistas da dívida do
Corinthians? Quanto o clube deve?
CITADINI
- Eu não gosto de falar isso, é muito chato, mas eu
tenho aval. E nem por isso eu fui a favor da parceria. Quanto à
dívida, atualmente em banco mais ou menos 4 milhões,
algumas pendências trabalhistas, outras tributárias, num
montante inferior a trinta milhões de reais, que não é
nada.
ArenaFC
- A parceria é prevista para 10 anos e no contrato consta que
a diretoria é formada por dois integrantes do clube e dois da
MSI, sendo que a MSI tem o voto de Minerva. Até que ponto isso
pode atrapalhar uma futura eleição?
CITADINI
- Isso não existe. Na prática só o Kia manda.
Mas se amanhã mudar a diretoria e alguém que não
esteja comprometido com a parceria seja eleito, não tenho
dúvida que haverá problema.
ArenaFC
- Você pretende concorrer à presidência do
clube?
CITADINI
- Não... As pessoas falam muito disso, mas nunca foi uma coisa
que me estimulou. Eu sei que tem muita gente que quer.
ArenaFC
- O Kia mal chegou e já está até dando
autógrafo. Você já fez isso também?
CITADINI
- Dou autógrafo até hoje, se quer saber. É que o
pessoal está fazendo um esforço grande para criar uma
imagem menos problemática do Kia, mas eu não estou
preocupado, não é esse meu objetivo. E outra, eu jamais
vou aparecer na TV dando autógrafos, até porque eu
nunca fiz acordo com a Globo.
ArenaFC
- E o que você pensa sobre a preocupação dos
dirigentes de outros clubes diante da parceria corintiana?
CITADINI
- Eu falei para o Marcelo Portugal Gouvêa, presidente do São
Paulo e que mais comenta sobre a parceria, não se preocupar.
Afinal, o São Paulo não ganhou nada do Corinthians nos
últimos cinco anos, com parceria ou sem parceria, e certamente
vão continuar não ganhando. Mas entendo a preocupação,
pois nenhum clube terá condições de acompanhar
essas contratações.
ArenaFC
- Você diria que o Corinthians está vendido?
CITADINI
- O Corinthians tem um contrato ingrato, reconhecidamente perverso
para o clube. Se não interessar mais para MSI o negócio
daqui três meses, nós estamos nas mãos de São
Jorge.
(Entrevista
para o ArenaFC, 26/1/2005)