MUITO
ALÉM DO CAMAROTE DA BRAHMA
A
parceria Corinthians-MSI (nome fantasia de um fundo de investidores
soviético) inicia seu trabalho com muitos erros e perigosas
medidas.
As razões porque questionei a parceria são
conhecidas. O Corinthians, clube de tão grande penetração
social, não pode se juntar para gerir o futebol com sócios
ocultos representados por um único desconhecido operador de
mercado.
Investidores secretos e contrato leonino, em que o
Corinthians cede tudo, sem garantias ou qualquer proteção,
é o caminho certo para problemas.
A matéria
publicada pela revista Caros Amigos na edição de
Fevereiro/2005 com o título “A Escandalosa História
do Novo Corinthians” tudo esclarece sobre os parceiros, seus
negócios, atuação, audácia e perigo.
Mais preocupante, porém, que as discussões
jurídicas, econômicas e policiais que precederam a
parceria são os fatos decorrentes das primeiras medidas
tomadas pela MSI-Corinthians.
De início, é
preciso dizer que contratar jogador é sempre bom, melhor ainda
quando este é um craque. Nada, portanto, contra Tevez, Carlos
Alberto ou outro atleta qualquer como reforço. Vejamos no
entanto o que ocorre além da contratação de
jogadores.
1-Pagamentos feitos sem passar pelo Brasil.
Durante os seis meses de discussões sobre a parceria, por
pressão dos opositores, os defensores do negócio
afirmaram que toda contratação teria como intermediário
o Banco Central brasileiro. Por sugestão dos que se opunham à
parceria incluiu-se ao contrato uma cláusula chamada know
your client, que era na verdade um certificado de boa qualidade
da remessa do dinheiro para o Corinthians. O prometido foi esquecido.
E o que se vê é uma tentativa desesperada da MSI de
esconder a forma de pagamento dos atletas contratados. Estabeleceu-se
então um critério onde o Corinthians contrata e
misteriosas contas enviam dinheiro sem passar pelo Brasil, pelo Banco
Central ou pelo Corinthians. Estas medidas trarão no futuro
graves problemas para o Corinthians.
Como é sabido e
fartamente noticiado pelos jornais, logo após a CPI do
futebol, o Banco Central brasileiro passou a vistoriar periodicamente
contratações de clubes brasileiros com agremiações
estrangeiras. Em todas as situações em que o clube não
fez diretamente o pagamento, o BC puniu a agremiação
brasileira. Ainda há poucos dias foram divulgadas sanções
ao São Paulo, o mesmo já havia ocorrido ao Flamengo,
Botafogo, Palmeiras e tantos outros.
Os argumentos hoje usados
pela MSI para justificar o pagamento direto dando um “chapéu”
no BC são conhecidos e reiteradamente empregados por clubes
brasileiros em operações semelhantes. Histórias
tais como “A MSI comprou e doou ao Corinthians”, “Quem
comprou foi uma empresa do exterior”, “Foi um presente
para o Corinthians” etc. são repetições de
argumentos não aceitos pelo BC brasileiro.
Os próprios
advogados do Corinthians sabem disso e, se o contrato não
fosse tão ruim e deixasse o clube indefeso, não
aceitariam. A contratação de Tevez por um valor de
aproximadamente 20 milhões de dólares feita entre
Corinthians ao Boca Juniors e paga com uma transferência do
Canadá, segundo informa e Boca, está sendo investigada
até pelo BC argentino. Carlos Alberto, de quem a imprensa
pouco fala, foi adquirido por um fundo de investidores russos que
controla o Porto e também foi pago diretamente ao preço
de 7 milhões. Sebastian, adquirido do New Old Boys teria sido
pago diretamente no valor de 3 milhões de dólares se
bem que em uma conta errada.
Ao Corinthians que assinou um
contrato extremamente leonino cabe apenas aguardar a chegada da
notificação do Banco Central. Pouco poderá fazer
além de repetir argumentos já utilizados por clubes em
processos anteriores e que foram recusados pelo Banco
Central.
2-Jogadores contratados de clubes brasileiros.
Uma única contratação feita pelo MSI dentro do
Brasil, do jogador Marcelo Costa do São Caetano, longe de
trazer tranquilidade, aumentou as preocupações. O
pagamento teria sido feito por um terceiro, sem vínculos com o
Corinthians ou com a MSI, estranho ao clube e à empresa, e que
teria dado ao clube um cheque de 1 milhão de dólares em
pagamento ou garantia da operação.
3-Os
20 milhões de dólares que não chegam. Nos
meses em que se discutiu a parceria, o principal argumento que
estimulava conselheiros favoráveis à parceria a
defender o negócio era que a MSI pagaria imediatamente todas
as dívidas que o clube tinha. Não foram poucos
conselheiros que disseram que o contrato era ruim mas que havia
necessidade de o Corinthians obter dinheiro para saldar suas dívidas.
Por muitas vezes nas reuniões ocorridas nestes últimos
seis meses os dirigentes favoráveis à parceria,
notadamente os quatro que foram a Londres e à Geórgia
(presidente Alberto Dualib, sra. Carla Dualib, sr. Nesi Cury e sr.
Andres Sanchez) reafirmaram que o Corinthians teria suas dívidas
imediatamente quitadas. Ainda nas reuniões o próprio
presidente alertou que em 48 horas o clube resolveria todos os seus
problemas financeiros. No contrato distribuído quando das
discussões estabelecia-se o prazo de 15 de dezembro de 2004
para o início da liquidação das dívidas.
Pois bem, decorridos quase dois meses o que era um aporte de 20
milhões de dólares transformou-se num empréstimo
de 2 milhões de dólares, com o clube um hipotético
credor de 20 passando a ser real devedor de 2. Os argumentos
justificadores do adiamento “queda do dólar” etc,
soam mais como fragilidade do clube de que reais
justificativas.
4-PEPSI, não; Globo, sim.
Entre os defensores da parceria muitos destacavam a audácia
profissional que seria adotada pela MSI. Não foram poucos os
que festejaram a recusa em manter a publicidade da Pepsi na camisa,
uma vez que a MSI exigia 30 milhões anuais pela propaganda.
Esta seria uma estratégia de quem supostamente valoriza o
clube e não aceita pagamentos inferiores a 8 milhões,
montante que equipes como o Corinthians recebem por publicidade em
sua camisa. A notícia do “estratégico
profissionalismo” durou apenas 24 horas, ou seja, até o
momento em que o executivo da MSI disse para a Globo que os valores
do contrato já estavam bons e não precisava exigir mais
nada. Ficamos assim num paradoxo: para a publicidade na camisa uma
exigência alta a mostrar profissionalismo e audácia;
para os direitos de TV, um amadorismo extremado que se contenta com a
quantia já estabelecida. Contudo, tudo isso fica mais claro
quando olhamos os clubes do exterior Real Madri, Barcelona, Juventes,
que cobram pelos direitos de TV de três a cinco vezes o valor
de publicidade recebido pela camisa. Seria assim: da Pepsi, 30
milhões exigíveis, e, da Globo, no mínimo 90
milhões. Para a Pepsi se exigiu triplicar o valor, e da Globo
contentou-se com os 24 milhões atualmente pagos.
Estas
medidas aqui lembradas discutem apenas os atos públicos da
MSI, muito, mas muito mais teríamos a polemizar sobre
informações pouco conhecidas.
Diferentemente do
que acreditam uma parcela de dirigentes de futebol e de
jornalistas, o Brasil não é um país sem
instituições, aberto a todo tipo de esperteza e de
negócios sem regras. Não há surpresas em ver as
preocupações do BC, questionamentos do Ministério
do Trabalho, ou na ação do Ministério Público,
uma vez que o país é uma nação com
instituições consolidadas. Se os padrões do
Camarote da Brahma são daqueles que acreditam que somos uma
nação de vira-latas, sujeita a toda esperteza de uma
lúmpen burguesia, isto não ocorre no restante do país.
Para conquistar espaço no Camarote da Brahma basta uma boa e
motivada conversa com uma promoter. Felizmente os padrões do
país não são os do camarote da Brahma. O
vice-presidente da Fifa Julio Grondona, ao manifestar sua preocupação
sobre a ação de investidores como a MSI, desabafou
perplexo: “Nós estamos vivendo em um mundo onde o normal
é o anormal”. Creio que o dirigente argentino não
ficará frustrado ao saber que no Brasil o normal é
normal e o anormal é anormal.
Ainda que a Brahma não
ache isso em seu camarote.
ANTONIO ROQUE CITADINI
2005/02/09