Futebol
Brasileiro
CARGA
PESADA
Grandes
clubes do futebol brasileiro lutam para se livrar do peso provocado
pela área social e por outras modalidades, que causam rombo em
suas contas
Os
torcedores ainda não se deram conta, mas boa parte dos grandes
clubes brasileiros atravessa momento histórico. Depois de
várias décadas, o modelo administrativo dessas
agremiações está em colapso financeiro e prestes
a mudar. A tradicional convivência entre o clube freqüentado
por sócios e o departamento de futebol profissional, aquele
que realmente interessa à torcida, encontra-se em xeque e a
ruptura é iminente. Aliás, obrigatória desde a
aprovação da Lei 9.615 - a Lei Pelé -, segundo a
qual os clubes deveriam transformar seu departamento de futebol
profissional em empresa.
Encabeçam a lista de
protagonistas da mudança nada menos do que Flamengo e
Corinthians, as duas maiores potências populares do país.
E tal posição não é por acaso. Além
de virtudes, como a torcida, os dois compartilham problemas. É
o caso do rombo orçamentário de suas respectivas áreas
sociais, que em cada caso sugam cerca de R$ 500 mil do futebol todo
mês. Em outras palavras, são cerca de R$ 6 milhões
que deixam de ser investidos no time todo ano.
- A situação
fica complicada, principalmente se percebermos que com esse dinheiro
seria possível reforçar bem a equipe - diz o
vice-presidente de futebol do Corinthians, Antonio Roque Citadini, ao
lembrar que o Cruzeiro conseguiu montar o time campeão
brasileiro de 2003 com praticamente a metade desse valor.
Na
Gávea, o presidente Márcio Braga foi mais radical e
chegou a apontar a possibilidade de acabar com os demais esportes. -
No Flamengo, só o futebol e o remo são intocáveis.
Por mim, o clube segue poliesportivo, desde que se prove que a
modalidade é viável - afirmou o dirigente ao LANCE!.
E só para lembrar, em agosto de 2001, o clube chegou a
anunciar que acabaria com a maioria dos esportes amadores, fato que
não foi consumado.
NOVOS
TEMPOS, MENOS SÓCIOS
A redução
drástica do número de sócios que pagam a
mensalidade em dia é a justificativa mais usada para explicar
os rombos financeiros dos clubes sociais. Só para se ter
idéia, a Portuguesa teve mais de 90 mil associados no fim da
década de 70, início da de 80. Hoje não passam
de 5 mil. O que estaria por trás desse fenômeno?
De
acordo com os dirigentes, o inimigo número um dos clubes são
os condomínios residenciais. Se no passado esses complexos
contavam, no máximo, com salão de festas, nos últimos
20 anos a situação mudou. Agora se tornaram autênticos
centros esportivos, com piscinas (em alguns casos aquecidas), quadras
poliesportivas, sauna, campos de futebol society, sala de ginástica,
entre outras atividades. Ou seja, a pessoa seria motivada a não
sair de casa. Até a modernização de rodovias é
apontada como adversária das agremiações. - Veja
que, com as estradas de hoje, as pessoas podem chegar ao litoral sul
(do estado) em 30 ou 40 minutos. É mais um fator que concorre
com os clubes - aponta Citadini.
Com sua peculiar língua
afiada, o vice corintiano atira para todo lado quando o assunto trata
da escassez financeira dos clubes. Outro alvo é a famosa Lei
Pelé.
- Quando existia o passe, os clubes vendiam um ou
dois jogadores por ano e os problemas, tanto do futebol como do
parque social, estavam resolvidos - lembrou o vice corintiano.
Faltou lembrar, porém, que as dívidas dos
clubes, decorrentes, por exemplo, de ações
trabalhistas, esvaziam seus cofres muito antes da aprovação
da nova lei. Outro detalhe importante é enfatizar que a Fifa
acabou com o passe em transações internacionais em
1997. Citadini também cutuca o Ministério do Esporte e
o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Para o corintiano, a
Lei Agnelo-Piva, que poderia ser uma solução para os
clubes que possuem esportes olímpicos, simplesmente os
abandonou.
- Hoje o dinheiro é repassado para as
confederações dessas modalidades, que investem em novas
sedes em vez de repassarem para os clubes, onde o atleta treina e
onde a piscina e o ginásio precisam de manutenção.
Por isso eu acho que o destino das áreas sociais desses clubes
é a extinção - sentencia.
No Fluminense
o problema também aflorou. Em 1998, o clube montou equipe de
basquete feminino e contou com jogadoras renomadas, casos de Marta e
Silvinha. Coincidentemente, essa foi a temporada na qual os esportes
amadores tiveram o maior déficit. Dos cerca de R$ 150 mil
tirados do futebol todo mês, R$ 100 mil mantinham o
basquete.
- O esporte amador consome o futebol e não
gera receita porque não tem patrocínio - afirma o
presidente do Tricolor, David Fischel. Para ele, apesar de a lei
obrigar o futebol a ser administrado à parte, como empresa, a
mudança não é tão simples assim. - Se
fosse começar do zero, seria fácil. Mas com um passivo
enorme, é complicado. É difícil aplicar esse
modelo por causa do pagamento de déficit antigo. São
ações trabalhistas e cíveis e impostos atrasados
que desorganizam tudo.
SEPARAÇÃO
Tanto
os cartolas envolvidos diretamente com o futebol profissional como
especialistas do mercado apontam a separação do
departamento de futebol dos demais como solução para o
problema. A maioria afirma que, diante do atual cenário, no
qual os times não têm recursos nem para manter
revelações, não há cabimento sustentar
outras modalidades. O sucesso recente de times como o São
Caetano é justificado, em parte, pelo fato de terem uma área
social menor do que a dos clubes tradicionais. E na Europa, raros são
os casos entre os grandes clubes de futebol que possuem estrutura
social.
- Defendo que cada área sobreviva com seus
próprios recursos. Isso, sem sombra de dúvida,
colaboraria para melhorar muito a realidade do futebol brasileiro -
afirma o consultor e especialista em marketing esportivo e presidente
da Comissão de Futebol e Marketing, ligada ao Ministério
do Esporte, José Carlos Brunoro.
Porém, para o
advogado tributário e diretor jurídico do Palmeiras,
Piraci Oliveira, o cumprimento da lei não vai mudar nada. O
assunto tem chamado tanto a atenção que até um
livro será lançado (veja box).
- Quem pensa que
se tornar uma S/A (Sociedade Anônima) vai resolver, esqueça.
Na realidade, no caso de surgirem o Palmeiras S/A, o Corinthians S/A
ou o São Paulo S/A, sempre haverá a necessidade de se
ter um administrador por trás que, nesse caso, é o
próprio clube. A menos que se vendam essas S/As para grupos
empresariais, o que é pouco provável - diz Oliveira.
O
vice-presidente de finanças do Vasco, Amadeu Pinto da Rocha,
discorda de boa parte de seus colegas. Segundo ele, a separação
não funcionaria, pelo menos no caso do seu clube.
- O
futebol é imediato, dinâmico. Não é
possível prever gastos. Por exemplo: tivemos que vender o
Wescley agora, porque era um bom negócio para o jogador, e
teremos de comprar outro beque. O amador trabalha com patrocínios,
receitas, orçamentos. O futebol, não. Às vezes
temos de recorrer a empréstimos, até de amigos.
O
curioso na história é observar o comportamento dos
dirigentes das demais áreas dos clubes. A reportagem da LANCE
A MAIS procurou durante três dias diretores de tênis,
esportes terrestres, futsal, natação e vôlei dos
principais clubes. Não recebeu nenhuma resposta.
POLÍTICA
Se
a maioria dos dirigentes dos clubes que têm futebol
profissional e atividade social concorda que a situação
não pode ficar como está, o que, então, impede a
mudança dessa situação? A política
interna dos clubes.
A ruptura com o futebol praticamente
paralisaria os demais departamentos por falta de dinheiro e retiraria
poder e prestígio de dezenas de diretores de remo, tênis,
bocha, atletismo, natação, xadrez, dama, peteca,
futsal, entre outras modalidades.
- Muitas medidas em cada
clube não são tomadas porque se perde curral eleitoral.
Existem departamentos que são bases eleitorais. Mesmo dando
prejuízo, garantem a eleição. Infelizmente,
muita gente pensa pequeno, faz demagogia - afirma Radamés
Lattari, ex-diretor executivo de futebol do Flamengo.
NÃO
TENHO FUTEBOL. E DAÍ?
Será que a extinção
das áreas sociais e dos esportes amadores é inevitável
ou apenas resultado da má administração? Em
grandes cidades, como São Paulo e Rio, sobram exemplos de
clubes que sobrevivem no azul e com altas taxas de freqüência
sem possuir futebol profissional. São os casos, por exemplo,
do Club Athletico Paulistano e do Clube Paineiras do Morumby, na
capital paulista, e do Tijuca Tênis Clube entre os
cariocas.
Com 104 anos, um quadro de 24 mil sócios,
número que não muda há 20 anos, e taxa de
inadimplência de 1,5%, o Paulistano mostra que o sucesso é
possível.
De acordo com o presidente José Manuel
Castro Santos, não existem segredos para o sucesso. Basta
seguir regras básicas do mercado, como esforçar-se para
agradar ao cliente.
- A questão, pelo menos aqui no
Paulistano, é a seguinte: quanto mais o clube oferecer
benefícios ao sócio, maior será a freqüência
e menor a inadimplência.
No Paineiras, a realidade não
é diferente. O quadro associativo também é de
cerca de 25 mil pessoas, e mais de 95% pagam em dia. A filosofia do
clube é investir em atividades para crianças para
atrair os adultos.
E esse sucesso não satisfaz esses
dirigentes. Em São Paulo, os 20 principais clubes da cidade
formaram a Associação dos Clubes Sociais, Esportivos e
Culturais, com o objetivo de compartilhar problemas e soluções.
-
Realizamos discussões em grupos para falarmos dos problemas e
alternativas que cada um encontra. Isso ajuda a todos - diz o
presidente do Paineiras, Waldyr Arid.
Quem sabe esteja aí
mais uma proposta para aqueles que acham difícil sobreviver
sem receitas do futebol. A diversidade de atividades também é
apontada como o segredo do Tijuca, que conta hoje com 25 mil
associados.
- O clube manteve sua parte esportiva e criou uma
programação social. Fazemos tarde dançante para
a terceira idade, temos karaokê e um teatro com 200 lugares.
Recentemente, promovemos um show do João Bosco e tivemos a
nossa festa julina, que atrai 20 mil pessoas - conta o
vice-presidente sócio-cultural, Hildo Magno.
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NÚMEROS |
|
ROMBO |
|
INADIMPLÊNCIA |
|
FIDELIDADE |
|
FONTE: Revista Lance a Mais, lancenet.ig.com.br/lancea+, n. 204, 24 a 30/7/2004, p. 21. |
DICK
LAW CONFESSA: SOFREU NOS CLUBES
Hoje engajado no
mercado de jogadores, o americano Richard Law sofreu na pele o
resultado da complexa convivência entre o futebol profissional
e a área social de um grande clube. Assim foi quando era o
dirigente do fundo de investimento Hicks, Muse, Tate and Furst
(HMTF), antigo parceiro de Corinthians e Cruzeiro no Brasil.
-
Conviver com a complexa realidade política dos clubes é
difícil. Por isso procurava sempre me manter afastado quando
trabalhava com o Corinthians. Mas isso atrapalhava o planejamento -
afirma.
O conselho do empresário e investidor é
simples e remete a regras básicas do marketing
administrativo.
- Não basta abrir uma S/A e pensar que
tudo está resolvido. É preciso, sim, definir qual é
o seu negócio. Se for futebol, pense em futebol. Se for o
clube social, pense como clube social.
Outro ponto abordado
por Law e no qual mais se apegam os defensores do atual sistema é
a tradição.
- No passado, quando o futebol não
era profissionalizado era o social que o sustentava - diz. - Por
outro lado, a maioria dos grandes clubes do futebol europeu não
tem esse lado social. A maior exceção, talvez, seja o
Barcelona.
Brunoro, por sua vez, não se mostra otimista
com o futuro dos clubes sociais sem o socorro financeiro do futebol.
- Não existe atrativo mercadológico para essas áreas
- afirma.
A
DEBANDADA DOS SÓCIOS: CORINTHIANS JÁ TEVE 80 MIL
Sem
uma estratégia eficaz, como investir em novas atividades, os
grandes clubes se viram diante da concorrência dos condomínios
e do êxodo dos sócios.
|
EM QUEDA LIVRE |
||
|
CLUBE |
TEM CERCA DE |
JÁ TEVE MAIS DE |
|
Flamengo |
2 mil |
10 mil |
|
Vasco |
4 mil |
10 mil |
|
Botafogo-RJ |
1300 |
20 mil |
|
Fluminense |
3500 |
7 mil |
|
Corinthians |
10 mil |
80 mil |
|
Palmeiras |
15 mil |
50 mil |
|
São Paulo |
13 mil |
50 mil |
|
Portuguesa |
5 mil |
90 mil |
|
FONTE: Revista Lance a Mais, lancenet.ig.com.br/lancea+, n. 204, 24 a 30/7/2004, p. 23. |
||
PALMEIRENSE
LANÇA LIVRO SOBRE O ASSUNTO
A polêmica em
relação às mudanças na forma de
administrar os clubes já tem até bibliografia. Motivado
pela discussão do momento, o advogado tributário e
diretor jurídico do Palmeiras, Piraci Oliveira, vai lançar
"Clubes brasileiros de futebol e seus reflexos fiscais".
O
próprio material de divulgação descreve a obra
como aquela que "traz à tona a atual situação
fiscal e as ruínas das instituições no futebol
brasileiro. Aborda análise contábil dos mais
importantes clubes e também o questionamento das sucessivas
leis que vêm comprometendo o caixa dos clubes" e, segundo
o autor, pode culminar na insolvência dessas instituições
desportivas.
- Se houver mudança é para
pior.
Oliveira argumenta que um clube de futebol tem, em
média, tributação de 4,8% sobre seu faturamento.
Quando se tornar S/A, esse percentual sobe para até 20%.
-
Isso quer dizer que o prejuízo do futebol vai aumentar, já
que esse lado social deficitário continuará sugando
recursos, pois, mesmo estando separados, o administrador é o
mesmo: o próprio clube.
O advogado defende a união
dos clubes.
- É a única saída. Mesmo
porque esses clubes já estão em situação
irregular por não cumprirem a lei que os obriga a transformar
em empresa seu departamento de futebol profissional.
WAGNER
VILARON
*Colaborou Bernardo
Ferreira
(REVISTA
LANCE A MAIS, lancenet.ig.com.br/lancea+, n. 204, 24 a 30 de
julho de 2004, pp. 18-23)