ECONOMIA
E NEGÓCIOS
UM
SOCORRO PARA O FUTEBOL
O
governo prepara medidas para engordar o cofre dos times e renegociar
suas dívidas.
ANDRÉ
BARROCAL
Há
duas formas de olhar o futebol no Brasil. Nos gramados, o país
é campeão. O jogador brasileiro é considerado um
craque, os atletas são exportados a peso de ouro e disputados
a tapa por times de lugares tão distantes como a Rússia
e o Japão. Nenhuma outra seleção do planeta
causa tanta admiração nos adversários quanto a
Canarinho. Quando se olha o futebol nacional fora dos campos, sob o
ponto de vista empresarial, a situação é uma
verdadeira catástrofe.
Os estádios são
velhos, desconfortáveis, e o público anda cada vez mais
escasso. Os times devem à Previdência Social, não
pagam fornecedores e dão calote até nos próprios
jogadores. Como negócio, o futebol chegou ao fundo do poço,
e o Ministério dos Esportes resolveu se mexer para reverter a
situação. Vem aí o "pacote do futebol",
uma espécie de socorro do governo ao setor.
A idéia
é que depois das Olimpíadas de Atenas chegue às
mãos do presidente (e corintiano roxo) Luiz Inácio Lula
da Silva uma série de propostas para tirar o esporte mais
popular do País do buraco. Entre elas está a criação
de uma loteria batizada de Time-Mania. As equipes ficarão com
uma parte das apostas feitas pelos torcedores. Outra medida será
o parcelamento dos débitos trabalhistas, que atualmente somam
mais de R$360 milhões só com o INSS. E até o
BNDES deverá dar uma forcinha liberando verbas para a reforma
de estádios, já que está difícil arrumar
algum dinheiro emprestado nos bancos privados. Incluem-se ainda entre
as propostas que ainda estão sendo gestadas no Ministério
dos Esportes o fim dos direitos trabalhistas para atletas com
supersalários e um benefício financeiro às
equipes pequenas que investem na formação de jogadores.
Elas poderão ganhar uma comissão extra na hora de
vender seus craques aos clubes grandes. "Concluímos que o
futebol precisa de um apoio para se desenvolver como negócio.
Mas sem paternalismos", diz o ministro dos Esportes, Agnelo
Queiroz. Com essa ajuda, o ministro acredita que os rombos
financeiros do passado não vão se repetir no
futuro.
O pacote da bola será motivo de polêmica,
especialmente pela imagem que se tem dos problemas dos
clubes.
Pergunte a qualquer torcedor sobre a origem da crise
dos times e as respostas certamente serão as mesmas:
dirigentes incompetentes, administração ruim e, claro,
suspeitas de gatunagem que recaem sobre os cartolas.
"O
futebol brasileiro não é gerido de forma profissional",
diz a economista Elena Landau, ex-diretora do BNDES e c tualmente
ligada à administração do Botafogo. Na ótica
dos cartolas, a bancarrota tem outra razão. O fraco desempenho
da economia brasileira explicaria por que os estádios estão
às moscas. "Os torcedores estão sem dinheiro no
bolso para ir aos estádios", diz Roque Citadini,
vice-presidente de Futebol do Corinthians.
Os
piratas que copiam camisas, bonés
e bandeiras sem pagar um tostão em direitos autorais aos
clubes são outro sangradouro de dinheiro apontado por
Citadini. "E a lei que acabou com o passe dos jogadores também
nos prejudicou", completa o dirigente.
No Brasil,
sempre foi mais fácil pensar no que acontece dentro de campo
do que no futebol como uma atividades econômica que pode gerar
empregos e ajudar a engrossar o PIB. Calcula-se que esse esporte
movimente no país cerca de US$10 bilhões todo ano,
considerando-se direito de transmissão dos jogos, venda de
produtos, ingressos para as partidas. Os empregos gerados chegam a l
milhão. Se, como as grandes empresas, os clubes ganhassem
eficiência esses números cresceriam bastante. O pacote
de ajuda do governo pode ser o primeiro passo nessa direção,
mas é preciso cuidado para que a bandalheira não
continue e
os balanços dos times não sigam no vermelho. O ministro
da Coordenação Política, Aldo Rebelo, por
exemplo, tem simpatia pela idéia de o governo dar dinheiro até
mesmo a fundo perdido aos clubes. "O Estado precisa proteger um
patrimônio que faz pela: imagem do Brasil mais que o Itamaraty"
diz Rebelo, que esteve à frente da CPI que apurou
irregularidades na CBF. Seu ponto de vista vai dar pano para
manga."Qualquer ajuda oficial estará condenada ao
fracasso se o governo não exigir profissionalismo dos
dirigentes”, dis a botafoguense Elena Landau.
O
PACOTE DA BOLA
-Criação de uma loteria
para pagar dívida dos times;
-Renegociação
dos débitos trabalhistas;
-Financiamento do BNDES para
modernizar os estádios;
-Nova lei para venda de passe de
jogadores.
(Revista
Época, n. 322, 19/7/2004, pp. 48-49)
LEIA
MAIS:
-14/7/4: Carta à imprensa divulgando as medidas para reformulação do futebol.
-Conheça as medidas propostas ao governo
pelos clubes. (PDF)