NOTÍCIAS – 12/12/2004



SERÁ UM NOVO ABRAMOVICH OU UMA FACHADA?


Farra de gastos no Corinthians levanta suspeitas sobre a origem do investimento

Alex Bellos
THE GUARDIAN

A história parece familiar. Um empresário estrangeiro misterioso na faixa dos trinta e poucos anos, sem nenhuma experiência anterior em futebol, assume o controle de um dos maiores times do país. Ele imediatamente tritura o recorde de transferência do clube e promete fazer do time o melhor do continente. Contudo, não se trata de Inglaterra, Chelsea e Roman Abramovich, mas de Brasil, Corinthians e um empresário britânico chamado Kia Joorabchian. Na semana passada, o futebol sul-americano ficou em estado de choque com o anúncio de que Carlos Tevez estava se transferindo do Boca Juniors para o Corinthians por US$ 22 milhões.


Essa foi, de longe, a maior soma já paga por um clube brasileiro por um jogador. O negócio envolvendo Tevez, 20 anos, foi jogada admirável de Joorabchian, que opera a partir de Londres, cuja empresa Media Sport Investment prometeu investir outros US$ 35 milhões no clube. "Nosso plano é transformar o Corinthians num time de galácticos", disse.


Entretanto, nos 4 meses desde que Joorabchian chegou ao Brasil, seus planos têm despertado desconfianças. Os questionamentos se centraram nos investidores por trás da MSI e em possíveis vínculos com o oligarca russo Boris Berezovsky, que vive exilado na Grã-Bretanha. Joorabchian diz que são amigos e já fizeram negócios, mas insiste que Berezovsky não está por trás da MSI. Tem havido também especulações de que o homem por trás do plano é, de fato, o próprio Abramovich. O diário espanhol As declarou no último fim de semana que o dono do Chelsea possui 15% das ações da MSI, sugerindo que o negócio do Corinthians é parte de plano para controlar o mercado latino-americano. Sugestivamente, há relatos de que o iate de Abramovich, Le Grand Blue, foi visto no porto de Buenos Aires dias antes do negócio com Tevez ser anunciado. Joorabchian nega qualquer envolvimento com Abramovich.


O acordo de 10 anos entre MSI e Corinthians estipula que a empresa vai colocar US$ 35 milhões em dinheiro, cerca de US$ 20 milhões dos quais para saldar dívidas, em troca de 51% dos lucros futuros. A transferência de Tevez seria um extra, considerada por Joorabchian como "presente". Para críticos do acordo, não basta saber sobre Joorabchian e a MSI, uma empresa criada em agosto cujo endereço registrado é o de uma firma de contabilidade no centro de Londres.


Com estimados 25 milhões de torcedores no Brasil, o Corinthians é o 2.º time mais popular do País. O clube, que recebeu o nome do antigo time amador de Londres, venceu o Mundial de Clubes da Fifa em 2000, mas desde então o time afundou. Joorabchian espera transformar o Corinthians numa marca global.


Nascido no Irã e educado na Grã-Bretanha, Joorabchian surgiu pela primeira vez na mídia em 1999, quando ele e um sócio adquiriram 85% do jornal moscovita Kommersant usando fundo de investimento baseado nas Ilhas Virgens Britânicas. "Nós o vendemos a um grupo (Berezovsky)que estava interessado nele", disse, acrescentando que não fez mais nenhum negócio com Berezovsky depois disso. O negócio do Kommersant despertou especulações sobre o envolvimento de Berezovsky, que pareceu reforçado por comentários na imprensa brasileira atribuídos a Alberto Dualib, o presidente do Corinthians. Em transcrições de fita gravada, ele disse que em recente visita ao Reino Unido com Joorabchian os dois visitaram a casa de Berezovsky nas imediações de Londres.


Joorabchian nunca esteve envolvido com futebol, embora tenha vasto portfólio de interesses comerciais. No registro de diretorias da Companies House (equivalente da Câmara Brasileira de Comércio) ele forneceu duas datas de nascimento - ambas o deixam com 33 anos - e duas nacionalidades, canadense e britânica.


A cautela brasileira com relação a Joorabchian foi salientada pelo fato de que está usando Renato Duprat como intermediário. Duprat é figura controversa; dirigia hospital e plano de saúde que faliu e enfrenta processo judicial.


(O ESTADO DE S. PAULO, ESPORTES, 12/12/2004)