NOTÍCIAS – 11/12/2004


DRAMA MARCA A IDA DE TEVEZ PARA O CORINTHIANS


Negócio envolve mágoas, cifras astronômicas e várias acusações

Carlos Ares, EL PAIS
Em Buenos Aires


Iranianos suspeitos, mafiosos russos, brasileiros acusados de suborno, argentinos cúmplices que ocultam informação... A transferência do ano, de Carlos Tevez, do Boca Juniors da Argentina para o Corinthians do Brasil, por cerca de US$ 20 milhões, tem todos os ingredientes de um saboroso folhetim latino-americano, em que os protagonistas parecem desfrutar o êxito, a fama e o dinheiro. Menos a estrela do cartaz, que ganhará US$ 10 milhões por cinco anos de contrato, mas é o único que parece se sentir dolorido por alguma coisa e ainda fala de sentimentos.

Dente quebrado, boca sempre aberta como se a ferida do acidente caseiro que lhe marca o rosto desde que era menino o impedisse de respirar bem, sério, inocente, Tevez lamenta:

"Antes, quando tinha 18 ou 19 anos, eu saía mais que hoje. Ia dançar com meus amigos às quartas-feiras, quintas e sextas, mas Carlos Bianchi me dizia: 'Enquanto você render no campo, não há problema'. Não quero viver agora como um velho. Quero sair, ser feliz. Mas começaram a me perseguir, a dizer mentiras que faziam minha irmã e minha mãe sofrerem. Eu nunca bebi, e diziam que eu me embriagava. Por que fazem isso? Aqui há muita inveja. Na Argentina não cuidam dos ídolos. Agora entendo Maradona. A gente se sente como que expulso".

O que vai ser de você longe de casa, Tevez, 20 anos, um filho a caminho com sua ex-noiva, agora namorando Natalia Fassi, a modelo mais desejada do país, longe de sua mãe, de sua irmãzinha adorada e das mãos que levava aos treinos, dos amigos de Forte Apache com quem gostava de cantar? O que será de você nas mãos desses homens?

Um suposto grupo de investidores britânicos ligados ao milionário russo Boris Berezovski, que financiou na época a campanha eleitoral do ex-presidente Boris Ieltsin e depois foi funcionário de seu governo, acusado de tráfico de armas, crimes e delitos de corrupção, integram a empresa Media Sports Investments (MSI), cuja sede fica num paraíso fiscal do Caribe.

O iraniano Kia Joorabchian, residente em Londres, com passaporte britânico e canadense e documentos nos quais se lêem cinco nomes diferentes, a única face pública conhecida da MSI, tentou tomar o controle de algum clube dos grandes do Brasil associado a um médico brasileiro e empresário, Renato Duprat, que acaba de falir com uma empresa de seguro-saúde.

O projeto, que já tinha fracassado no final dos anos 90 em clubes brasileiros e argentinos que cederam o negócio do futebol para capitais privados, foi rejeitado em princípio pelo Palmeiras.

Mas os representantes da MSI convenceram o presidente do Corinthians, Alberto Dualib, e a maioria de que necessitavam entre os membros da diretoria do clube para que fosse aprovado o acordo, no qual estão dispostos a investir US$ 35 milhões.

A assembléia de representantes, que se opõe a ceder 51% da administração à MSI por dez anos, com opção de outros dez, apresentou uma denúncia aos tribunais brasileiros para que seja investigada a origem dos fundos, por irregularidades no contrato e por supostos subornos.

O Corinthians, de São Paulo, é um dos times mais populares do Brasil. Fundado em 1910, ganhou 25 torneios paulistas, três campeonatos nacionais e duas Copas do Brasil.

A mítica torcida dos Gaviões da Fiel salienta que o Corinthians conquistou em 2002 o único campeonato mundial de clubes, disputado no Rio e reconhecido pela Fifa. Um torneio do qual participaram, entre outros, o Real Madrid e o Manchester United. O mítico Rivelino, companheiro de Pelé no Brasil campeão do mundo no México 70, é sua maior glória esportiva.

Para dobrar as últimas resistências, Joorabchian prometeu à torcida do Corinthians que viajaria imediatamente para Buenos Aires para contratar Tevez. Dois domingos atrás ele saiu do campo do Vélez num carro blindado, cercado de guarda-costas iranianos.

Havia visto Mascherano jogar, o meio de campo do River Plate, outro dos jogadores argentinos que interessam à MSI, junto com o atacante Lisandro López, goleador do Racing e da Liga. Imediatamente fechou a contratação de Tevez, supostamente depois de "lutar contra as ofertas de importantes equipes européias", como o Atlético de Madri e o Bayern de Munique.

O presidente do Boca Juniors, Mauricio Macri, que desde 1996 até o final de 2004 já vendeu jogadores por US$ 155 milhões, disse sentir-se muito triste --"tinha convencido Carlitos para que ficasse até junho"--, e agora quer impor uma cláusula no estatuto do clube para que no futuro se impeça a "venda de jogadores antes de completarem 21 anos".

O Boca, que deverá pagar ao All Boys, onde Tevez jogou até os 13 anos, os direitos de formação, só receberá 80% do valor final de sua transferência. Os 20% restantes do contrato estão em nome de um testa-de-ferro. Claro que os diretores adversários de Macri afirmam que esses 20% pertencem na verdade ao próprio presidente do clube.

Tévez será apresentado no Corinthians em meados deste mês, quando finalizar sua participação com o Boca na Copa Sul-Americana. O rapaz que conquistou o Torneio Abertura de 2003 e que foi este ano o goleador e a figura da seleção da Argentina que recebeu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, sentia-se assediado pelas "mentiras dos jornalistas" que a imprensa de seu país publica, e queria ir embora.

Mas não parece muito feliz agora. Para animar, sua família e seus amigos lhe dizem que afinal estará a pouco mais de duas horas de avião de Buenos Aires. Carlitos olha para eles e diz: "Eu queria ficar para sempre no Boca. Mas agora, se me acostumar, quero ir mais longe ainda. Gostaria de jogar na Espanha".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


(UOL, Mídia Global, 11/12/2004)