NOTÍCIAS – 22/11/2004


“NÃO ROMPI COM DUALIB. SÓ QUERO O BEM DO CLUBE”


ADILSON BARROS

Um dos dirigentes mais polêmicos do futebol nacional, Roque Citadini combate a parceria com a MSI e entra em rota de colisão com o presidente Alberto Dualib.

Vice-presidente corintiano desde novembro de 2000, Antônio Roque Citadini sempre teve seu nome atrelado ao do presidente Alberto Dualib, que o tinha como homem de confiança desde que o indicou para cuidar do futebol alvinegro.

Citadini foi um dos articuladores da parceria com o fundo de pensão norte-americano Hicks, Muse, Tate & Furst, que ajudou o clube, na virada do milênio, a conquistar alguns dos mais importantes títulos da história do clube — aí incluído o Mundial Interclubes da Fifa, em 2001. A parceria ruiu em 2002 quando a empresa deixou de investir na América Latina e acabou deixando o Corinthians na mão.

Apesar do naufrágio da parceria, o relacionamento entre Dualib e Citadini continuava como antes, sem abalos. Até que um certo iraniano, Kia Joorabchian, até então um anônimo no cenário do futebol nacional, surgiu do nada interessado em investir US$35 milhões no clube. Um exultante Alberto Dualib levantou as mãos para o céu. Finalmente os problemas do clube seriam solucionados. Foi então que Citadini, o homem-forte, o braço direito, desconfiado das intenções do iraniano, resolveu peitar o presidente e organizou uma forte oposição à parceria com a MSI. A seguir, os principais tópicos de uma conversa que o DIÁRIO teve com Citadini no último final de semana. Na conversa, ele adimite publicamente, pela primeira vez, sua contrariedade ao projeto de parceria – algo que vinha fazendo antes apenas nos bastidores. No entanto, jura não ser um dissidente. Será?



ENTREVISTA: ROQUE CITADINI, VICE-PRESIDENTE DE FUTEBOL CORINTIANO

Diário – Porque tanta desconfiança em torno da MSI?

CITADINI – É uma empresa criada há pouco mais de 40 dias, que não tem história nenhuma. Como vamos estabelecer um contrato de 10 anos com um grupo que acabou de ser criado? E, no mínimo, arriscado.


Diário – E quanto às desconfianças que pairam sobre o iraniano Kia Joorabchian e seu envolvimento com o russo Boris Berezovski, que é investigado, inclusive, por envolvimento com tráfico de armas e assassinato?

CITADINI – Esse é um aspecto que nos causa profunda preocupação. Está confirmado o envolvimento entre Kia e Berezovski. O iraniano vendeu uma empresa de comunicação para o russo. Aliás, esse é o único negócio que Kia participou dos últimos anos. Pelo menos é o que sabemos. Ele nunca se envolveu com futebol.


Diário – O senhor era a favor da parceria com a Hicks Muse. No que ela difere da proposta da MSI?

CITADINI – Primeiro, eu ainda sou a favor da parceria com a Hicks. É uma empresa constituída há muitos anos nos Estados Unidos. Além disso, o contrato previa um investimento muito maior que o prometido pela MSI e era apenas para licenciamento da marca. O clube tinha total autonomia para cuidar do futebol. Pela proposta da MSI, eles cuidam de tudo e nós apenas assistimos. É muito ruim para o Corinthians. E tem mais, não está claro o quanto será investido nos próximos anos. Fala-se em montagem de times competitivos, mas isso é algo muito subjetivo. É preciso estar claro o montante a ser investido ano a ano.


Diário – Essa sua posição é completamente antagônica à do presidente Alberto Dualib. Os senhores estão rompidos?

CITADINI – De maneira alguma. Continuamos nos dando muito bem.


Diário – Houve rumores de que ele havia lhe dado uma sonora bronca por causa de sua oposição à parceria.

CITADINI – É uma fantasia. Primeiro porque a minha forma de agir não permite isso. Não sou dado a broncas e nem as recebo. Meu relacionamento com o presidente sempre foi cordial.


Diário – Mas hoje os senhores estão em posições opostas.

CITADINI – Ambos querem o bem do Corinthians. Acontece que o presidente quer resolver as coisas com a MSI muito rapidamente. Eu defendo uma ampla discussão, pois é um contrato que vai determinar como o clube vai funcionar nos próximos 10 anos. Quero deixar uma coisa bem clara: sou vice-presidente de Alberto Dualib. Sou situação. Acontece que o Corinthians mudou muito. Hoje, o Conselho Deliberativo está mudado, mais maduro e permite maior discussão. É uma democracia.


Diário – Uma das minutas do contrato com a MSI vazou para a imprensa. A empresa diz ter aceito as condições impostas pelos membros do Conselho de Orientação (CORI). O senhor leu esse novo contrato?

CITADINI – Primeiro, preciso registrar um protesto. O contrato deveria ter sido discutido internamente, mas mostraram para a imprensa, para a torcida. Isso está errado e contraria um cláusula do próprio contrato, que exige sigilo.
Segundo, li o contrato e nossas exigências não foram atendidas. A redação não está clara. Queremos que o dinheiro seja remetido com o aval dos bancos discriminados e não por bancos “tais como” os discriminados. (Na redação feita pela MSI, foi incluída a expressão “tais como”, que significa que outro banco, que não um dos exigidos pelo CORI pode dar o aval).


Diário – O que isso quer dizer; na prática?

CITADINI – Na prática, quer dizer que o contrato não poderá ser aprovado. Fizemos exigências e queremos que elas sejam cumpridas. É direito do clube.


Diário – O curioso é o senhor e os Gaviões da Fiel estar do mesmo lado. Vocês andaram rompidos nos últimos anos.

CITADINI – Fiquei sabendo de uma coisa. Quando foram à quadra da Gaviões mostrar o contrato, disseram para a torcida que a aprovação da parceria seria a única maneira de me afastarem do futebol. Mesmo assim, a torcida ficou contra. Não ligo para intriga. Quanto à minha relação com a torcida é a mesma. Eles têm direito de protestar. Não me preocupo com isso. (Foram à quadra da organizada, Kia Joorabchian, Renato Duprat, da MSI, e Andres Sanchez, conselheiro do clube).




(DIÁRIO DE S. PAULO, ESPORTES, 22/11/2004, p. C-5)