NOTÍCIAS – 25/10/2004

NADA DE TRAGÉDIA GREGA. SÓCRATES FAZ DO FUTEBOL UM MUSICAL DE DENÚNCIA


Entre uma cerveja e um cigarro, o ex-jogador acompanha a noite de estréia de sua peça de teatro em São Paulo

RODRIGO BERTOLOTTO
Em São Paulo

O convite para a estréia da peça já tinha sua marca pessoal: "Depois a gente toma uma gelada". Sócrates, porém, já sorvia os primeiros goles de cerveja no hall de entrada do teatro Gazeta, onde sua obra "O Futebol" divide o palco com o espetáculo de ilusionismo "The Oriental Magic Show".


"É uma expectativa de final de campeonato." Sua vantagem é que ele pode aliviar a tensão como nenhum jogador faz num vestiário de estádio.


Uma garota se aproxima atrás de um autógrafo, e ele dispara: "Vai pedir para aquele beiçudo feioso ali", apontando para o irmão Raí, que está posando para mais uma foto entre fãs femininas.


Os dois irmãos camisa 10 de grandes times e da seleção brasileira. Mas, agora aposentados, repetem o que revelavam no gramado. O voluntarioso, bom-moço, tático, técnico e são-paulino Raí virou um chefe de ONG que leva educação e esporte para a periferia de São Paulo. Já o fantasioso, contestador, cerebral e corintiano Sócrates continua fazendo arte.


Ele já tentou a pintura: "Cara, faz uns seis meses que parei. Vou voltar". Já se aventurou na música: "Tenho dois CDs em casa com músicas minhas, mas não entrego para ninguém".


Por outro lado, se firmou como cronista esportivo: "Eu sou paradão, só funciona a cabeça". Além de colunas pela imprensa, ele divide em Ribeirão Preto (SP), um programa de TV com Kajuru, desterrado apresentador demitido da Bandeirantes por suas declarações. "Fico lá só para segurar a língua dele e falo: 'Pára de falar besteira'", confessa antes de uma gargalhada.


Depois de dramaturgo, planeja agora virar radialista: "Um programa de MPB. Vou convidar meus amigos de pelada, o Fágner, o Chico Buarque. Só para falar de futebol."


As carreiras simultâneas sempre seguiram sua vida, afinal, ele é o "Doutor Sócrates", que, no início de carreira, dividia os treinos no Botafogo interiorano com as consultas na zona rural.


Mas ele não vê suas artes como fonte de renda. "Dinheiro só é bom para poder comprar umas cervejas", resume sua filosofia de vida. Um repórter puxa a conversa para o atual Corinthians, tão distante daquele da "Democracia Corintiana" de muitos títulos paulistas e pouca concentração em hotel antes dos jogos na década de 80.


"Tem uns bons moleques, e o Jô é excepcional, mas o time é muito limitado. Chegar na Libertadores é mais que um milagre", sentencia, enquanto o cigarro queima entre seus dedos.


É hora de entrar e se acomodar nas cadeiras. Raí brinca com um parente que fala alto: "Isso aqui não é estádio de futebol, não".


Começa a peça, entra um ator fazendo o papel de cameraman e fala: "Nem que o Citadini queira, mas esse cara é melhor que o Sócrates e o Raí juntos". O cara é o personagem Doca, um jogador de desponta para o sucesso.


A história se passa em um estúdio de televisão, na gravação de uma entrevista do craque. Um blecaute faz os personagens revelarem "seu lado mais humano", como Sócrates define. Apesar do nome do autor, está bem longe de uma tragédia grega. É uma comédia de costumes, com uma pinta de denúncia do mundo da bola. Tem o empresário ganancioso e mal educado, a maria-chuteira, a apresentadora fútil, a maquiadora-mulher-de-ex-jogador, o jornalista saudosista, a produtora estressada e o jogador no vértice de tudo isso.


"Eles dialogam no escuro. Todos ficam iguais. É uma colagem de sentimentos das pessoas atrás da indústria", explica o autor. O curioso é que a peça também é um musical, de canções com letras do ex-jogador e melodias de Kléber Mazziero, o diretor.


No final, desce um telão que mostra lances de Sócrates na Copa do Mundo de 1982 e de outros jogadores como Pelé, Garrincha e Zizinho.


A peça demorou três anos para ser realizada. Foi elaborada à distância, com os 314 km que separam a Ribeirão Preto de Sócrates e suas letras e diálogos da São Paulo de Kléber e sua montagem. Quando tempo ficará em cartaz não se sabe. A previsão é até 28 de novembro.


"Quis mostrar como o jogador é um oprimido, sufocado, tratado como criança. Eu sou uma exceção. Mas a regra é a opressão", se define diante da massa de jogadores pasteurizados da atualidade, que apelam para o "futebolês" para esconder suas idéias. O protagonista da peça parece descobrir isso quando, no escuro do estúdio, fala: "A gente é mercadoria".



(UOL Esporte, 25/10/2004)