Entre uma cerveja e um cigarro, o ex-jogador acompanha a noite de estréia de sua peça de teatro em São Paulo
RODRIGO BERTOLOTTO
Em São Paulo
O convite para a estréia da peça já tinha sua marca pessoal: "Depois a gente toma uma gelada". Sócrates, porém,
já sorvia os primeiros goles de cerveja no hall de entrada do teatro Gazeta, onde sua obra "O Futebol" divide o palco com o espetáculo de ilusionismo "The Oriental Magic Show".
"É uma expectativa de final de
campeonato." Sua vantagem é que ele pode aliviar a
tensão como nenhum jogador faz num vestiário de
estádio.
Uma garota se aproxima atrás de
um autógrafo, e ele dispara: "Vai pedir para aquele
beiçudo feioso ali", apontando para o irmão Raí,
que está posando para mais uma foto entre fãs
femininas.
Os dois irmãos camisa 10 de grandes
times e da seleção brasileira. Mas, agora aposentados,
repetem o que revelavam no gramado. O voluntarioso, bom-moço,
tático, técnico e são-paulino Raí virou
um chefe de ONG que leva educação e esporte para a
periferia de São Paulo. Já o fantasioso, contestador,
cerebral e corintiano Sócrates continua fazendo arte.
Ele
já tentou a pintura: "Cara, faz uns seis meses que
parei. Vou voltar". Já se aventurou na música:
"Tenho dois CDs em casa com músicas minhas, mas não
entrego para ninguém".
Por outro lado, se
firmou como cronista esportivo: "Eu sou paradão, só
funciona a cabeça". Além de colunas pela
imprensa, ele divide em Ribeirão Preto (SP), um programa de
TV com Kajuru, desterrado apresentador demitido da Bandeirantes por
suas declarações. "Fico lá só para
segurar a língua dele e falo: 'Pára de falar
besteira'", confessa antes de uma gargalhada.
Depois
de dramaturgo, planeja agora virar radialista: "Um programa de
MPB. Vou convidar meus amigos de pelada, o Fágner, o Chico
Buarque. Só para falar de futebol."
As
carreiras simultâneas sempre seguiram sua vida, afinal, ele é
o "Doutor Sócrates", que, no início de
carreira, dividia os treinos no Botafogo interiorano com as
consultas na zona rural.
Mas ele não vê
suas artes como fonte de renda. "Dinheiro só é
bom para poder comprar umas cervejas", resume sua filosofia de
vida. Um repórter puxa a conversa para o atual Corinthians,
tão distante daquele da "Democracia Corintiana" de
muitos títulos paulistas e pouca concentração
em hotel antes dos jogos na década de 80.
"Tem
uns bons moleques, e o Jô é excepcional, mas o time é
muito limitado. Chegar na Libertadores é mais que um
milagre", sentencia, enquanto o cigarro queima entre seus
dedos.
É hora de entrar e se acomodar nas
cadeiras. Raí brinca com um parente que fala alto: "Isso
aqui não é estádio de futebol, não".
Começa a
peça, entra um ator fazendo o papel de cameraman e fala: "Nem
que o Citadini queira, mas esse cara é melhor que o Sócrates
e o Raí juntos". O cara é o personagem Doca, um
jogador de desponta para o sucesso.
A história
se passa em um estúdio de televisão, na gravação
de uma entrevista do craque. Um blecaute faz os personagens
revelarem "seu lado mais humano", como Sócrates
define. Apesar do nome do autor, está bem longe de uma
tragédia grega. É uma comédia de costumes, com
uma pinta de denúncia do mundo da bola. Tem o empresário
ganancioso e mal educado, a maria-chuteira, a apresentadora fútil,
a maquiadora-mulher-de-ex-jogador, o jornalista saudosista, a
produtora estressada e o jogador no vértice de tudo isso.
"Eles dialogam no escuro. Todos ficam iguais. É
uma colagem de sentimentos das pessoas atrás da indústria",
explica o autor. O curioso é que a peça também
é um musical, de canções com letras do
ex-jogador e melodias de Kléber Mazziero, o diretor.
No
final, desce um telão que mostra lances de Sócrates na
Copa do Mundo de 1982 e de outros jogadores como Pelé,
Garrincha e Zizinho.
A peça demorou três
anos para ser realizada. Foi elaborada à distância, com
os 314 km que separam a Ribeirão Preto de Sócrates e
suas letras e diálogos da São Paulo de Kléber e
sua montagem. Quando tempo ficará em cartaz não se
sabe. A previsão é até 28 de novembro.
"Quis
mostrar como o jogador é um oprimido, sufocado, tratado como
criança. Eu sou uma exceção. Mas a regra é
a opressão", se define diante da massa de jogadores
pasteurizados da atualidade, que apelam para o "futebolês"
para esconder suas idéias. O protagonista da peça
parece descobrir isso quando, no escuro do estúdio, fala: "A
gente é mercadoria".