NOTÍCIAS – 12/10/2004

FUTEBOL

AINDA SOBRE ROMÁRIO E ZICO



MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
EDITOR DE OPINIÃO


Num programa esportivo dominical, o diretor de futebol do Corinthians, Roque Citadini, com sua gaiatice habitual, disse que a eleição do melhor jogador de futebol do mundo, organizada pela Fifa, não passa de uma jogada de marketing para promover os clubes europeus. Ainda que, na realidade, os melhores do mundo tendam a estar atuando mesmo no futebol da Europa -a NBA do esporte bretão-, Citadini tem razão ao menos num aspecto: listas de melhores e piores são cada vez mais usadas como factóides para produzir efeitos publicitários ou angariar atenção do público.


Essa mania irresistível de escolher melhores e piores atrai todo mundo e está presente em diversos ramos de atividade. O problema com as listas históricas é que quanto mais o tempo passa, mais candidatos surgem na disputa. Escolher os dez melhores filmes ou atores de cinema em 1950 era em tese mais fácil do que hoje. Daí que cada vez mais apareçam cortes e especializações: os melhores atores de musical ou os melhores discos de rock dos anos 60...



Romário foi bastante vivo ao se candidatar a melhor jogador do Brasil depois da era Pelé. Com isso, tirou da competição não apenas o Rei (sobre quem não pairam dúvidas) mas todo o Monte Olimpo da bola que o Brasil produziu até 1970, no qual figuram, entre tantos, Zizinho, Leônidas, Didi, Garrincha e Nílton Santos, para não falar em Gérson, Rivellino, Tostão e Jairzinho.


"Limados" esses monstros sagrados, Zico acabou sobrando como principal rival do Baixinho, embora haja quem possa preferir um Sócrates, um Falcão ou mesmo um Leandro -este o maior lateral-direito que vi jogar, escalado na seleção de todos os tempos pelo mestre Telê Santana.


Mário Magalhães, na última sexta, tratou do assunto e inclinou-se pelo craque rubro-negro, que dentro da área era "quase igual" a Romário e, fora, melhor. Não há dúvida de que Zico foi um jogador mais completo do que Romário. Lançava melhor, cabeceava melhor, fazia gols de falta e tinha, além da técnica, um sentido tático muito apurado. Ganhou tudo pelo Flamengo e fez um campeonato extraordinário na Itália pela fraca Udinese, mas faltou a Copa -e isso pesa. Tivesse erguido a taça e dificilmente alguém o contestaria.


É difícil negar que Zico, considerando todas essas virtudes, foi um jogador acima de Romário. Essas escolhas, no entanto, não são científicas e objetivas. A subjetividade é fundamental. E aqui, mais uma vez, concordo com o que disse Tostão numa entrevista a Juca Kfouri em seu divertido programa na rádio CBN. Se fosse para escolher apenas um deles para o meu time, Zico seria a melhor opção. Não dá, porém, para não levar em conta o encantamento que certos jogadores produzem, a capacidade que têm de inventar e surpreender, o estilo, o jeito de corpo, o drible, a maneira de tocar a bola... Nesse sentido, para o locutor que vos fala, Romário foi um craque de futebol mais fascinante do que Zico.



(Folha de S. Paulo, Folha Esporte, 12/10/2004)