NOTÍCIAS –
26/8/2004
PAPO
COM O JUCA
Juca Kfouri
SÃO
JORGE DESCONFIA
O
Cori, Conselho de Orientação do Corinthians, deu ao
clube sua maior vitória nos últimos tempos: impediu a
aprovação da parceria que seria consumada anteontem à
noite com uma empresa sem passado, a tal MSI, controlada pelo
bilionário russo Boris Berezovski, contra quem vigora um
decretação internacional de prisão, razão
pela qual não pode sair da Inglaterra – onde está
exilado graças à fortuna que possui, como se fosse um
refugiado político.
O Cori montou uma comissão
para desvendar os detalhes não explicados da parceria e tem
até o dia 30 de setembro para dar seu parecer, tempo
suficiente para torná-la letra morta.
O que o
Conselho Deliberativo aprovou depois, o pré-contrato, tem
apenas um significado: dar passagem à investigação
do Cori.
Um dos membros da comissão, o
vice-presidente do clube, Roque Citadini, membro do Tribunal de
Contas do Estado, acabou por simbolizar a oposição à
parceria nos termos em que estava posta, livrando o Corinthians de
uma aventura sem volta numa eventual tentativa de lavagem de dinheiro
no Brasil.
O iraniano Kia Joorabchian, testa de ferro de
Berezovski, aguardado como grande atração para
convencer os conselheiros corintianos, nem apareceu no Parque São
Jorge, convencido de que seria inútil depois que o sítio
LANCENET! e a rádio CBN revelaram quem estava por trás
da operação, representada, também, por Renato
Duprat – que quebrou o plano de saúde Unicór e o
hospital Duprat, em São Paulo, deixando milhares de clientes
na mão e mais de mil funcionários sem receber seus
direitos trabalhistas.
Convenhamos que uma empresa
estrangeira que queira entrar num país não poderia ter
como intermediário alguém com tal folha corrida, o que
sinaliza seu perfil.
A mulher de Berezovski, já que
ele não pode viajar, até esteve em São Paulo no
fim de semana, visitando o Parque São Jorge.
E o
escritório de advocacia Pinheiro Neto, um dos principais do
país, preferiu não dar a assessoria jurídica que
a tal MSI solicitou.
Enfim, o Cori impediu que as coisas
ficassem ruças no segundo clube mais popular do Brasil.
Por
mais compreensível que possa ser a excitação com
a oferta de dinheiro fácil neste momento difícil para
os clubes nacionais, vale a máxima que ensina que quando a
esmola é demais o santo desconfia.
E o Parque São
Jorge desconfiou.
Juca
Kfouri escreve nesta coluna às terças, quintas-feiras e
aos domingos.
(Lance!,
26/8/2004)