CORINTHIANS
ROQUE PAULEIRA
Conheça Antonio Roque Citadini, o
cartola do Corinthians que fala pelos cotovelos e incomoda muita
gente, dentro e fora do Parque São Jorge
POR
ARNALDO RIBEIRO
Não
case com preta nem torça para o Corinthians." Esse era o
lema do vovô Citadini, patriarca de uma família com
raízes em quatro lugares da ltália (Sicília,
Vicenza, Rovigo e Milão) e devidamente fincada no Brasil.
Antônio Roque preferiu acompanhar um tio ( "ovelha negra")
e adotou o Timão. Desde então, sua missão tem
sido converter cada cria dos Citadini ao corintianismo. Ao lado de
outros dois irmãos alvinegros (contra dois palmeirenses),
dividiu a família; meio corintiana, meio palmeirense.
Antônio
Roque Citadini, 50 anos, assumiu a vice-presidência do
Corinthians no ano passado, quando o time atravessava uma das piores
crises de sua história, acumulando derrotas. "sou
conselheiro e membro do Cori, que reúne os notáveis do
clube. Como participei da análise do contrato com a Hicks Muse
e dava palpite em tudo, me fizeram assumir o cargo."
De
fato, Citadini fala pelos cotovelos, não foge das perguntas e,
em menos de um ano, transformou-se num dos personagens mais
folclóricos do nosso futebol.
Novato no mundo da
cartolagem, parece estar se divertindo na nova atividade, bem
diferente daquela que o sustenta, a de conselheiro no Tribunal de
Contas do Estado de São Paulo. No meio do futebol, em que a
maioria dos dirigentes entra "ou para fazer carreira política
ou para ganhar dinheiro", em suas próprias palavras,
Citadini jura que não quer fazer nada disso. Só servir
o Corinthians.
A mudança, claro, teve um preço.
Primeiro, precisou aprender a dividir o tempo. As manhãs, ele
reserva ao tribunal. As tardes, ao Corinthians. Citadini diz que
abriu mão de alguns prazeres quando virou dirigente. Parou de
visitar o sítio em Capão Bonito (interior de São
Paulo) e estacionou sua produção literária –
já publicou três livros de direito e arquivou o quarto,
sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal. Porém, ainda arrumou
tempo para produzir uma biografia de Neco, o maior ídolo dos
primórdios do Corinthians, que será lançada em
breve.
A BRIGA COM MILTON NEVES
O principal hobby
de Citadini é alfinetar os outros. Sobretudo Palmeiras e São
Paulo. "Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento."
O velho dito popular paulista é a definição que
usa para o que considera a falsa imagem de modemidade dos rivais. Diz
que os dirigentes de ambos morrem de inveja da parceria com a Hicks e
até do CT de ltaquera. Sem se incluir, afirma que seu clube
tem os melhores cartolas do Brasil: "Como diz o Dualib (Alberto
Dualib, presidente do clube): “Ninguém nunca tapeará
quem tem 50 anos de 25 de Março” - referência à
rua onde comerciantes de origem árabe, como Dualib, aprenderam
tudo sobre negócios.
Tudo isso ele diz sem dosar as
palavras. "O futebol é curioso. Nos bastidores, vocês
não imaginam como os dirigentes xingam uns aos outros. Mas
publicamente é . aquela história de coirmão pra
cá, coirmão pra lá..." Com a "franqueza"
habitual, vem trombando também com jornalistas, como Milton
Neves, da Jovem Pan e da Traffic/Bandeirantes. "Chamei o
programa dele de 'Sub-Técnico' e a audiência de
'supertraço'. Ele ficou puto."
O cartola não
se incomoda de estender a polêmica para dentro do clube, ao
mesmo tempo que acha graça na mania da imprensa esportiva dé
ver crise em tudo ("Vindo de um tribunal, eu estou acostumado
com a discordância. Parece que no futebol ninguém
está."). Que o diga Wanderley Luxemburgo. Citadini repele
as mil e uma supostas "razões" da derrota do
Corinthians para o Grêmio na final da Copa do Brasil - Briga
entre os atletas por causa de bicho? Suruba na concentração?
"Perdemos porque não jogamos nada. É mais fácil
dizer que aconteceu algo do que admitir que o time jogou uma bolinha
e explicar o motivo." O diagnóstico dele é outro:
o time virou o fio. "Normalmente, o Wanderley levaria o time
para Serra Negra na semana do jogo, mas a equipe não só
ficou em São Paulo como quase não treinou. Ninguém
agüentava."
Ele admite que diverge muitas vezes do
técnico, mas assegura que nem por isso sondou o gremista
Tite.
Hoje, Citadini fala em nome do Corinthians mais do que o
presidente Dualib. Seu jeitão faz lembrar o do folclórico
Vicente Matheus, ex-presidente corintiano já falecido. A
comparação não o agrada: para ele, Matheus
falava muito e fazia pouco. "Ele ficou quase 40 anos aqui e não
construiu sequer um barracão."
Com opiniões
assim, surpreendentes, ele virou destaque permanente no noticiário
do clube. Tem até um site pessoal (www.citadini.com.br) para
divulgar suas idéias e onde compila os artigos de jornal que o
citam. Não é difícil imaginar que a
superexposição na mídia possa lhe render
vantagens no futuro. Mas ele nega enfaticamente que pretenda
concorrer a cargos políticos. Já em relação
a uma candidatura à presidência do clube, é menos
convicto. "Acho que não tenho o perfil. Os diligentes de
outros clubes não falam comigo nem me recebem."
Por
que será?
Colaboraram André Fontenelle,
Eduardo Cordeiro e Fábio Vo/pe
(REVISTA PLACAR, 10/7/2001, 28-29)