NOTÍCIAS – 3/10/2001
JOGADA DE MARKETING
HISTÓRIA
DO FUTEBOL SEM MARKETING
PAULO NASSAR
Caro
leitor, se você é um dos nove entre cada dez torcedores
da nova geração de corintianos que não tem a
mais vaga idéia de quem foi Manuel Nunes, o Neco, aproveite:
já se encontra nas livrarias o livro de Antonio Roque Citadini
— Neco, o Primeiro Ídolo —, que conta a história
daquele que foi endeusado, nos primórdios do Corinthians, pela
torcida alvinegra. Neco foi ídolo de um tempo em que o futebol
era entretenimento quase puro para os jogadores e para a torcida. O
amadorismo, no sentido de amar o clube, seu patrimônio,
história e seus torcedores, imperava ao lado da pobreza de
recursos: se a bola furasse em campo, o jogo acabava; se o uniforme
rasgasse, o jogador jogava quase pelado.
Ao contrário
do que acontece atualmente, em que explodem na mídia futricas
comerciais e de vaidades entre jogadores, no tempo de Neco, os
jogadores resolviam as suas diferenças em guerras, no campo e
nos vestiários, em que as armas eram as grossas cintas, que
seguravam os calções dos uniformes da época.
Pelo menos eram brigas mais divertidas e circenses, que lembram os
filmes do cinema mudo. Roque Citadini, que é atualmente o
vice-presidente de futebol do Timão, traça a trajetória
esportiva de Neco, entre 1913 e 1930.
Em cada um desses anos
descritos por Citadini, vamos encontrar os feitos e os gols do
artilheiro, herói dos primeiros títulos, e também
os primeiros passos, cheios de dificuldades, do Corinthians. O Timão
fundado em 1º de setembro de 1910, por um grupo de operários,
muitas vezes não tinha dinheiro nem para pagar o aluguel de
sua sede. Citadini nos conta que, no ano de 1913, em uma dessas
situações de inadimplência, que poderiam liquidar
com a recém-nascida agremiação, o “proprietário
trancou as portas do prédio, encerrando todos os bens do
clube: atas, taças, materiais esportivos, etc.
Tudo
ficaria preso até o pagamento dos débitos. Durante a
noite, Neco — ainda adolescente — e alguns colegas,
utilizando uma escada, pulam a janela, pegam todo o patrimônio
material do clube e desocupam a sede”. Personagem simples como
Neco, que sempre jogou no Corinthians, personifica, nas primeiras
décadas do século 20, a luta pela popularização
do futebol no Brasil, praticado, até então, somente por
clubes e atletas pertencentes às elites de São Paulo e
do Rio de Janeiro. O livro de Roque Citadini é também
um excelente retrato dos primeiros tempos de um futebol que antecede
a entrada do marketing como a 13° camisa de qualquer clube
moderno.
(A Gazeta Esportiva, 3/10/2001, p. 11)