Rio luta contra prazos e orçamento
Com todos os cronogramas
descumpridos e custo que já subiu 13 vezes, Jogos ainda podem
ficar sem a vela
Michel Castellar e Sílvio Barsetti
Com todos os prazos de entrega de obras descumpridos e um
orçamento que não pára de crescer - o custo do
Pan-Americano 2007 subiu 13 vezes, de R$ 386 milhões para R$ 5
bilhões -, os organizadores do evento consideram agora como
prioridade a liberação das obras na Marina da Glória.
Querem, assim, evitar que o Brasil seja o único país-sede
em 55 anos de competição a não promover a
tradicional disputa da vela.
O Ministério Público
Federal e o Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Iphan) são contrários às
obras na Marina por causa do impacto ambiental e travam na Justiça
uma briga com a prefeitura pela não liberação da
área para a construção de uma garagem de barcos
e de um shopping.
Cinco meses atrás, o Comitê
Organizador do Pan (Co-Rio) já temia que os atrasos na Marina
só deixariam o local preparado para os competidores de vela em
maio, muito próximo do início dos Jogos, em 13 de
julho. Com as últimas interrupções - a mais
recente ocorreu na quarta-feira, com a ida de policiais federais à
Marina -, o assunto voltou a inquietar o comitê.
O
Co-Rio nega que haja um plano B para a vela, mas a hipótese
não está descartada. O Iate Clube, na Urca, é
apontado por alguns velejadores como alternativa e poderia ser
utilizado para o Pan em caráter de emergência, desde que
passasse também por algumas reformas.
'Há um
psicodrama em torno da garagem de barcos. Esse equipamento é
exigido no Caderno de Encargos dos Jogos Pan-Americanos para que a
Marina da Glória possa receber competições
náuticas', disse o secretário municipal de Urbanismo,
Alfredo Sirkis, voz destoante no Partido Verde, em defesa do projeto
que alteraria a paisagem no parque público.
VELOCIDADE
As
obras seguem em ritmo acelerado a 7 meses do Pan. Depois de problemas
para a liberação de financiamento da Caixa, no total de
R$ 406 milhões, a Vila Pan-Americana está com sete dos
seus 16 prédios já em condições de
abrigar os atletas. A conclusão das obras no local está
prevista para fevereiro. São, ao todo, 1.480 apartamentos.
O
Complexo Olímpico do Autódromo de Jacarepaguá, a
3 quilômetros da Vila, é um dos principais centros
nervosos dos Jogos - abrigará disputas de basquete, natação,
nado sincronizado, ginástica artística, saltos
ornamentais e ciclismo de pista. As obras do complexo podem ser
consideradas as mais atrasadas: só devem ficar prontas em
junho.
No local, a Arena Olímpica, com capacidade para
15 mil pessoas, consumirá R$ 119,2 milhões, e, para
evitar novos atrasos no cronograma, o trabalho tem sido realizado
todos os dias da semana. No Parque Aquático, com custo de R$
74,8 milhões, o ritmo também é veloz. A única
obra modesta no complexo é o velódromo (R$ 9,8 milhões)
- que vai ser construído em 2007.
O Estádio João
Havelange, palco do futebol e do atletismo, está em uma fase
delicada, com a montagem dos arcos da cobertura. Seu valor pode
servir como referência para comparar o salto no orçamento
dos Jogos. No lançamento do projeto, em 2003, custaria R$ 166
milhões. Passou para R$ 229,8 milhões, R$ 237 milhões
, R$ 305 milhões , R$ 315 milhões e, de acordo com a
última estimativa da prefeitura, chegará a R$ 350
milhões.
Responsável pelo Complexo do Maracanã
(estádio, Maracanãzinho e Parque Aquático Júlio
de Lamare), o engenheiro Sérgio Emilião viu os gastos
com reformas no local praticamente triplicarem, de R$ 96 milhões
para R$ 250 milhões. O acabamento do complexo só deve
ser finalizado em maio. O parque aquático está pronto.
O estádio está previsto para ser liberado ainda este
mês e o Maracanãzinho, em abril.
Detalhes como
pintura e troca de assentos só serão providenciados
perto do início dos Jogos. 'Senão, teremos de refazer
tudo e gastar mais por causa dos maus torcedores', disse Sérgio
Emilião.
CUSTOS
O orçamento do
Pan, atualizado, conta com R$ 2 bilhões da prefeitura, R$ 1,4
bilhão da União e R$ 310 milhões do Estado.
Completam a receita R$ 690 milhões do Co-Rio e investimentos
da iniciativa privada.
Essas cifras não incluem
determinados gastos com infra-estrutura, como os R$ 628,5 milhões
do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara
ou os R$ 70 milhões do sistema de monitoramento das ruas por
câmeras (220), que o governo do Estado disse ter investido para
a realização dos Jogos.
(O Estado de S. Paulo, Esportes, 11/12/2006)