Governo invoca "segurança nacional" e dispensa licitação para o Pan
LEONARDO SOUZA
da Folha de S.Paulo, em
Brasília
Após convidar várias
empresas para participar de uma concorrência pública, o
governo dispensou a licitação para a escolha do
consórcio que prestará o serviço de
infra-estrutura e inteligência de segurança do
Pan-Americano do Rio --um contrato de R$161 milhões.
Uma
das companhias chamadas inicialmente, a Alcatel-Lucent, chegou a
apresentar orçamento informal de aproximadamente R$ 100
milhões --cerca de 40% a menos do que o valor cobrado pela
Motorola, empresa líder do consórcio selecionado pelo
governo.
Sem explicar por que optou pela Motorola nem como
chegou ao valor de R$161 milhões, o governo invocou questão
de "segurança nacional" para dispensar a licitação.
O Ministério da Justiça publicou a decisão, sem
nenhuma informação adicional, no "Diário
Oficial" da União no dia 12 deste mês, a apenas
cinco meses do início dos Jogos.
O valor gasto com a
parte de inteligência --solução integrada de
monitoramento, telecomunicação, computação
(hardware e software) e gerenciamento de dados-- representa 42% do
valor total que o Ministério da Justiça anunciou no ano
passado que investiria na segurança dos jogos.
A
dispensa da licitação surpreendeu várias
empresas de peso no setor. Além da Alcatel-Lucent e da
Motorola, foram convidadas a apresentar seus projetos, entre os dias
15 e 17 de agosto do ano passado, EADS (gigante européia dona
da Airbus), Promon e pelo menos dois outros consórcios
compostos por multinacionais.
Os convites a essas empresas
foram feitos pelo coordenador de Tecnologia da Informação
de Segurança do Pan, Odécio Carneiro, integrante da
Senasp (Secretaria Nacional de Segurança) --subordinada ao
Ministério da Justiça.
Durante as apresentações,
todas filmadas, os executivos das empresas foram comunicados que
seriam novamente chamados. Adelino Ferreira de Souza, um dos
diretores da Alcatel-Lucent, disse que os representantes da
coordenação de segurança dos Jogos informaram
que haveria licitação.
Para o Ministério
da Justiça, essa era uma interpretação
"cabível". As apresentações de
projetos, oportunidade em que muitas vezes os concorrentes informam
estimativas de custos, normalmente funcionam como etapa inicial da
licitação. Essa fase costuma ser importante para a
administração pública delimitar as
características dos produtos e serviços que serão
exigidos no edital.
Por meio de sua assessoria, a EADS
informou que aguardava a publicação de licitação
ou que a empresa fosse procurada novamente para uma tomada de preços.
Ressaltou que só veio a saber da opção do
governo após publicação no "Diário
Oficial".
"Não podemos julgar. Queremos
apenas entender por que foi tomada essa decisão [dispensa de
licitação]", disse José Antonio Vazquez,
diretor comercial da Alcatel-Lucent.
A decisão do
governo se baseou no artigo 24, inciso 9º, da lei 8.666, de
junho de 1993. "A expressão [segurança nacional]
foi utilizada largamente durante os governos militares e serviu para
embasar atos da mais diversa natureza", escreveu o advogado
Marçal Justen Filho, especialista na área de
licitações, em um de seus livros sobre o assunto.
"Não
basta o interesse da segurança nacional para a exclusão
de licitação. Trata-se de situações
excepcionais, que importam necessidade de sigilo [...] por colocarem
em risco a sobrevivência do Estado e da nação",
completou.
O decreto presidencial (2.295/97), que regulamentou
o inciso 9º do artigo 24 da lei 8.666, diz que ficam dispensadas
de licitação compra de equipamentos ou contratação
de serviços "quando a revelação de sua
localização, necessidade, característica do seu
objeto, especificação ou quantidade coloque em risco
objetivos de segurança nacional".
O decreto diz
também que "as dispensas de licitação serão
necessariamente justificadas, notadamente quanto ao preço e à
escolha do fornecedor ou executante, cabendo sua ratificação
ao titular da pasta ou órgão que tenha prerrogativa de
Ministro de Estado".
Algumas das empresas convidadas
tentam desde janeiro obter formalmente do Ministério da
Justiça informações sobre o processo de escolha.
No dia 30, por exemplo, a Alcatel-Lucent protocolou na Senasp um
requerimento sobre o caso.
No último dia 15, após
descobrir a dispensa de licitação, solicitou cópia
do processo administrativo que levou o ministério a optar por
esse instrumento. Não obteve resposta.
(Folha Online, Últimas Notícias, http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u113037.shtml, 23/02/2007, 10h21)