Quem se responsabiliza?
Se
as obras do Pan custassem o dobro, já seria um disparate. Mas
que custem dez vezes mais chega a ser pornografia
ERA
PREVISÍVEL que fosse acontecer. Na última sexta, o
governo federal liberou R$ 467 milhões (foi isso mesmo que
você leu, não está faltando nenhuma vírgula)
de verba extra para os Jogos Pan-Americanos do Rio.
Há
atrasos nos cronogramas da maioria das obras. Para concluir a reforma
do complexo do Maracanã, por exemplo, ainda estão
faltando R$ 84 milhões. Só agora as fundações
do estádio João Havelange começam a ser
erguidas, e as obras na Marina da Glória também estão
em ritmo Dorival Caymmi, ou seja, devagar, quase parando.
Eu
sempre disse aqui neste espaço que país de dólares
na cueca, de sanguessugas e que usa seu superávit para pagar
juros não pode vislumbrar ser sede de Olimpíada, Pan ou
Copa. Mas vá tentar conter o entusiasmo dos que têm a
ganhar com "obra$" do vulto das que estão sendo
realizadas no Rio, não é mesmo?
Para se ter uma
idéia do tamanho da encrenca, basta dizer que, até
agora, o governo federal já repassou mais de R$ 1,284 bilhão
ao Pan. Isso significa que já se gastou quase dez vezes mais
do que o valor orçado no projeto inicial, de R$ 135
milhões.
É de se perguntar quem foi o autor do
projeto e quem é que vai se responsabilizar. Que as obras
tivessem custado o dobro do que foi calculado inicialmente, já
seria um disparate. Mas que custem DEZ vezes mais do que isso chega a
ser pornografia.
Pois eu pergunto: quem se responsabiliza?
Quem errou o cálculo? O governo do Rio? A prefeitura carioca?
O senhor Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, o Comitê
Olímpico Brasileiro? Alguém tem de ser demitido de
forma sumária.
O nobre leitor por acaso se lembra da
pantomima ocorrida quando da última tentativa frustrada de
apresentar ao COI (Comitê Olímpico Internacional) o
projeto de uma Olimpíada no Rio? A apresentação
foi tão malfeita que lá na Europa o pessoal está
rindo até hoje. Pois é, se a piada não tivesse
custado dinheiro do nosso bolso, sem que ninguém fosse chamado
a prestar contas, nós também estaríamos
gargalhando.
Lembro, anos atrás, quando escrevi que a
tentativa de inventar que o Brasil tinha condições de
sediar uma Olimpíada não passava de golpe. À
época, a mulher do ministro das Relações
Exteriores escreveu uma carta ao Painel do Leitor acusando-me de
falta de patriotismo.
E agora, cá estamos, a seis meses
do início dos jogos, com o cronograma atrasado, com verbas
extras para a segurança do evento sendo inventadas de última
hora (ué, por acaso não se sabia que a segurança
no Rio seria uma questão-chave e para lá de complexa?)
e com dinheiro da Petrobrás, da Caixa Econômica e dos
Correios tendo de ser injetado às pressas no evento.
Vale
lembrar que estamos no país em que uma única passagem
subterrânea de pouco mais de 3 km, na região central de
São Paulo, acabou custando mais do que o túnel que
atravessa o canal da Mancha.
Ninguém tem nada contra
eventos que dêem destaque à nossa terra. Mas R$ 1,284
bilhão (por enquanto) é dinheiro que não acaba
mais. Para um país quebrado como o nosso, é tutu que
faz uma falta danada em obras de infra-estrutura ou emergenciais, na
saúde, na educação e na segurança.
BARBARA
GANCIA
(Folha de S. Paulo, Cotidiano, 12/01/2007, p. C-2)