OLIMPÍADA

Com truques no estatuto e COB como modelo, presidentes de confederações permanecem em média 12 anos no cargo

VALIDADE DE CARTOLAS IGUALA REINADO DE PELÉ


DA REPORTAGEM LOCAL

Em 12 anos, o esporte assiste à ascensão e queda de atletas como o nadador Alexander Popov (1992 a 2004), à trajetória do maior jogador de futebol em Copas (Pelé, de 1958 a 1970) e a três Olimpíadas. Segundo levantamento feito pela Folha, é, em média, o mesmo tempo que um dirigente fica no comando de uma confederação esportiva no país. O cálculo inclui os atuais mandatos até seu final.
Onze cartolas, que podem somar até 2008 mais de 15 anos à frente de suas modalidades, turbinam a média. O rei da longevidade é Roberto Gesta, que lidera a CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) desde 1987 e tem mandato até os Jogos de Pequim.
Ao lado de Yong Min Kim (taekwondo) e Coaracy Nunes Filho (desportos aquáticos), Gesta irá romper até o período máximo de 20 anos indicado para o mais importante cargo do esporte olímpico, o de presidente do COI.
"É uma média muito alta. Mas ela está ligada à maneira como o COB se estrutura, o que cria uma cultura", diz Katia Rubio, psicóloga, professora de educação física da USP e pesquisadora de esportes olímpicos. Autora dos livros "O Atleta e o Mito do Herói" (2001) e "Heróis Olímpicos Brasileiros" (2004), ela lembra que o COI, ao permitir mandato de dez anos com direito à reeleição, também influencia, mas não impede que as instituições adotem modelos próximos de sua realidade.
"As confederações não têm fins lucrativos e muitos dos presidentes não recebem salários. Mas não seguem o padrão de empresas e do governo, que exigem transparência e prestação de contas. O cargo não é remunerado, mas o presidente é, de alguma forma, com um fundo de reserva ou uma fonte de renda", diz Katia.
A situação é mantida em parte por armadilhas nos estatutos das entidades, como o do tênis de mesa, que restringe a presidência só ao atual gestor, ao seu vice ou a componentes da assembléia que estejam no cargo há pelo menos cinco anos de forma ininterrupta.
O COB não vê com maus olhos a longevidade, alegando que "a caminhada de um dirigente é longa, sobretudo para galgar postos no cenário internacional".
Embora raros, há críticos desse sistema. Pedro Gama Filho, o Doca, que assumiu a confederação de lutas após a morte do pai, diz que em sua seara há regras claras.
"Os caras fazem tudo para ficar. Mas vamos fazer como na Presidência da República, com mandato de quatro anos e direito a reeleição. Se não acontecer, o esporte fica engessado", afirma Doca, 29, que se diz o mais jovem entre os cartolas olímpicos nacionais.
A alegação para um novo mandato é quase sempre a mesma: a de que há mais por fazer. "Vou trabalhar estes quatro anos para desenvolver ainda mais o esporte no país", disse Vicélia Florenzano após ser reeleita ao quinto mandato na ginástica.


(CRISTIANO CIPRIANO POMBO E EVANDRO CÉSAR LOPES)


(Folha de S. Paulo, Folha Esporte, 06/02/2005, p. D-1)