Lei Piva
LEI PIVA AMPLIA "COMO ESTÁ
FICA" NO ESPORTE OLÍMPICO
Confederações têm maior
estagnação de poder da era Nuzman justo no 1º
ciclo pré-Jogos com dinheiro público
EVANDRO
CÉSAR LOPES
CRISTIANO CIPRIANO POMBO
DA
REPORTAGEM LOCAL
Desde que Carlos Arthur
Nuzman assumiu o COB, em 1995, nunca o comando das confederações
olímpicas foi tão igual.
Levantamento feito pela
Folha por ocasião das eleições nas entidades,
que ocorrem em sua maioria de agosto de 2004 a junho de 2005, revela
que, comparada com os dois ciclos anteriores, a preparação
para Pequim-08 começa diferente em só 2 dos 27 esportes
dos Jogos de Verão. Tênis e badminton são os
únicos a abrir a temporada com novos gestores.
Coincidência
ou não, pela primeira vez o esporte nacional pôde
iniciar um ciclo olímpico com as verbas da Lei Piva, que desde
2002 destina 2% da arrecadação das loterias da Caixa
Econômica aos comitês olímpico e paraolímpico.
No
ciclo para os Jogos de Sydney, de 1997 a 2000, o primeiro iniciado
com Nuzman no COB, seis confederações trocaram de
comando. Na caminhada a Atenas-04, o número subiu para
sete.
Agora, mesmo com oito confederações ainda em
processo de eleição, já é possível
dizer que a renovação na cartolagem quase estagnou.
Isso porque, das oito, só basquete, hipismo e levantamento de
peso têm a chance de designar um presidente diferente nos
pleitos que ocorrem até o meio do ano. E em só uma
delas a mudança é iminente: a de hipismo, que será
assim a única a ter duas trocas de comando seguidas. A
explicação está no estatuto, que exige maioria
de 70% dos votos para quem busca a reeleição.
Não
foram incluídos no levantamento as confederações
dos esportes de neve e gelo.
Prova da pouca rotatividade no setor
com a Lei Piva, que em 2004 destinou mais de R$ 68 milhões ao
fundo olímpico, é que algumas entidades registram cinco
ou mais mandatos ininterruptos de seus comandantes, como o atletismo,
a ginástica e a vela.
"Em termos de trabalho, quatro
anos não são nada. E quem tem está fazendo um
trabalho tem que continuar", afirma João Tomasini, da
canoagem, que disse não ter interesse de que o seu tempo no
poder fosse divulgado -ele dirige a CBCa desde 1989.
"O
dinheiro da Lei Piva deu melhores condições para
trabalhar. Então, é normal o cara se entusiasmar a
seguir. Para quem tem patrocínio, fica melhor ainda",
declara Luís Manuel Barreto, que presidiu a confederação
de badminton nos dois ciclos anteriores e decidiu sair por considerar
a prestação de contas burocrática e se ver sem
apoio do COB.
A opinião de que um mandato é pouco é
quase unânime no meio e vem junto com outro argumento: o de que
a realização do Pan-07 no Rio exige tempo para que os
cartolas mostrem serviço.
A exceção é
a CBF, incluída no levantamento, mas a única que não
recebe verba da Lei Piva.
O COB disse ver na continuidade "um
sinal de que a comunidade de um determinado esporte aprova o trabalho
que está sendo feito por aquele presidente".
O comitê,
cujo mandatário (Nuzman) está há dez anos e três
mandatos no cargo, defende que "a Assembléia Geral é
autônoma e independente para escolher seus representantes,
modelo adotado praticamente no mundo todo".
As raras trocas
são a duras penas, como provam as duas únicas do atual
ciclo olímpico. No badminton, mais tranqüila, após
o presidente abrir mão da reeleição, a oposição
venceu, com um só voto de diferença. No tênis,
Nelson Nastás foi tirado do poder após disputa que
resultou num boicote de atletas que levou o país à
terceira divisão da Copa Davis.
(Folha de
S. Paulo, Folha Esporte, 06/02/2005, p. D-1)
SAIBA MAIS
ARGENTINA IMPÕE LIMITE
DE MANDATO PARA LIBERAR VERBA
DA REPORTAGEM LOCAL
O
governo argentino firmou uma norma básica para a liberação
de recursos públicos que daria o que falar aqui: só
federações que se comprometam a restringir a no máximo
dois os mandatos de seus presidentes podem receber a verba
estatal.
Se valesse no Brasil, 13 das 27 confederações
dos Jogos de Verão não teriam hoje direito a receber o
repasse da Lei Piva.
A mudança vem sendo implantada por
Claudio Morresi, secretário de Esporte do presidente Néstor
Kirchner. Ele diz que tomou como base a Reforma Constitucional de 94,
que permite só uma reeleição à
Presidência. "Restringir a dois mandatos é um jeito
de manter uma renovação saudável."
Para
ilustrar, assessores do secretário usam dado publicado no
diário "Clarín": só 49 de 227
entidades esportivas estariam aptas a usar verba pública.
Mas
a medida não é retroativa, e as instituições
terão um tempo para adotá-la. Morresi cita que até
Julio Grondona, presidente da AFA desde 79, e Antonio Rodríguez,
que dirige o comitê olímpico desde 77, poderão
ter verbas caso, agora, se comprometam a não superar dois
mandatos. (CCP E ECL)
(Folha de S. Paulo, Folha Esporte,
06/02/2005, p. D-1)