Pan, mundial de futebol e Olimpíadas


Tenho lido, na mídia, matérias, artigos e editoriais criticando os gastos feitos pelo governo federal para a realização dos Jogos Pan-americanos no Rio de Janeiro. Até a escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede dos jogos das Américas foi alvo de críticas, o que me pareceu um tanto ridículo e provinciano, além de hipócrita, pois trata-se de esconder nossos problemas de segurança pública. Na verdade, essa crítica revela um traço de colonialismo, já que, nos países desenvolvidos, existem problemas tão ou mais graves de segurança, basta lembrar as tragédias de Munique e Atlanta. Logo, o caminho é resolver os problemas de segurança pública e não mudar os jogos de cidade-sede.

A principal crítica é de que os gastos são extraordinários e elevados, e que não vale a pena, num país com tantas carências, investir numa competição internacional. Não estamos nos referindo às criticas justas ao mal uso dos recursos públicos ou desvios e irregularidades, o que não só devemos condenar, como punir os responsáveis. Mas isso não significa concordar com aquelas dirigidas ao próprio presidente Lula, sobre os investimentos para a realização dos jogos.

Essa crítica, envolta em ares de escândalo, revela a pequenez e mesquinhez dos que a fazem, já que, se os Jogos Pan-americanos forem bem-sucedidos, o Brasil terá, pela frente, não somente a realização da Copa do Mundo de futebol em 2014, como poderá se candidatar, com chances reais, a sede das Olimpíadas num futuro bem próximo.

Não há limites para os ganhos em imagem e prestígio para o país com a realização de tais eventos. Caso contrário, as nações desenvolvidas e mesmo as pobres não gastariam bilhões de dólares para a realização de eventos esportivos e culturais. E, também, há que se destacar a construção de estruturas permanentes para a prática de esportes, ao lado da reurbanização de áreas decadentes e a instalação de equipamentos de cultura e lazer. Ou seja, se o Brasil tiver sucesso no Pan e na atração desses outros eventos, afirma-se como liderança, ganha a nossa imagem e identidade cultural, sem falar no impacto para o desenvolvimento do turismo. Como decorrência dos investimentos em infra-estrutura, haverá ganhos sociais, como a modernização e readequação de equipamentos que, após os jogos, serão colocados à disposição das comunidades, incentivando a prática de esportes pela juventude.

Só para lembrar, foram construídos o Estádio Olímpico João Havelange, o Complexo Esportivo do Autódromo e o Complexo Esportivo Deodoro, com centros de tiro, hipismo, campo de hóquei sem grama, piscina para competição de pentatlo, além da vila do Pan, com 1.480 apartamentos. O Maracanã, o Maracanãzinho e o parque aquático Julio Delamare foram reformados, além da readequação do centro de convenções do RioCentro. Um senhor equipamento de esporte, lazer e cultura que ficará para a cidade do Rio de Janeiro. Por fim, temos ainda todo investimento em segurança pública, com um Centro de Operações Tecnológicas, com 5 mil computadores e 400 câmaras de controle, e o treinamento de policiais e de especialistas em inteligência, além de 10 mil jovens das comunidades da cidade, também treinados como guias cívicos.

A própria experiência de organizar os jogos, construir essa infra-estrutura esportiva e gerenciar os recursos humanos e materiais é um aprendizado e herança para a realização da Copa do Mundo e para as Olimpíadas. É preciso aprender com os erros, evitar gastos desnecessários e desvios, incorporar mais a iniciativa privada, com parcerias, e, principalmente, generalizar para todo país uma política nacional de esportes, cultura e lazer, dirigida fundamentalmente à juventude brasileira.

Temos que colocar na rua essa política pública, em parceria do governo federal com estados, municípios, sociedade civil e iniciativa privada, para que o Brasil não venha a ser um grande Rio de Janeiro da violência e do crime organizado. Esse é o desafio, e dele faz parte a realização dos Jogos Pan-americanos.


(artigo publicado no Jornal do Brasil, em 21 de junho de 2007)


JOSÉ DIRCEU

(Blog do Dirceu, http://blogdodirceu.ig.com.br/materias/439501-440000/439805/439805_1.html, 22/06/2007)