Por que os americanos não gostam de futebol?
Marco
R. Della Cava
em San Francisco
No
dia 4 de julho, Marcus Beisel e seu clã ficaram colados diante
da TV aqui. Eles assistiram com expectativa e depois horror sua amada
Alemanha perder na prorrogação em uma das semifinais da
Copa do Mundo de futebol, cuja decisão que será jogada
no domingo, em Berlim -entre Itália e França- será
assistida por mais de um bilhão de pessoas. (Sim, com
B.)
Enquanto isso, Jeff Wong, um fã ávido de
esportes, não notou qualquer evento marcado para o Dia da
Independência (dos Estados Unidos) que fosse digno de sua
atenção, de forma que levou sua família para uma
feira na vizinha San Rafael. Brinquedos, animais e
jazz.
Recapitulando. No momento em que acontece um jogo da
Copa do Mundo, um americano vê um balé atlético
épico envolvendo gerações de orgulho étnico,
o outro vê uma chance de brincar com uma cabra.
Não
há como duvidar da profunda desconexão que persiste
entre aqueles neste país fanático por esportes que
respeitam e adoram o que os magistrais brasileiros chamam de "o
jogo bonito" e aqueles que não.
Beisel, um
banqueiro de 35 anos e filho de imigrantes alemães, cresceu
nesta cidade com diversidade cultural jogando futebol e assistindo
jogos com sua família. "Não se trata apenas de um
jogo para nós, faz parte de nossa identidade cultural",
ele disse. "Cada equipe reflete a cultura de seu país. Os
jogadores brasileiros dançam. Os alemães jogam com
força física e precisão. É muito mais do
que apenas um esporte."
Wong, um designer de 48 anos
cujos pais vieram da China para a Área da Baía, se
apaixonou por beisebol e futebol americano, no qual atua como
treinador nas horas vagas. "Certamente é divertido jogar
futebol, mas assistir é duro", disse Wong, que tem dois
filhos, um dos quais joga futebol. "Eu não encontro o
mesmo nível de estratégia intensa como temos em nossos
esportes."
E a lista de críticas cresce a partir
daí, com as principais acusações sendo a de que
o jogo não possui gols suficientes e, pior, é
simplesmente tedioso.
Apesar de alguns argumentarem que o
futebol não tem futuro neste país, outros indicadores
apontam para o fato de que o esporte pode estar no caminho da
respeitabilidade popular. Certo, pode ser uma caminhada longa e lenta
por um beco que poderá levar a um volume de torcedores capaz
de incomodar o hóquei.
Entre as evidências do
avanço do futebol estão:
-Há uma liga
profissional nacional (a Major League Soccer tem 12 times) com astros
atraentes (Landon Donovan continua a paixão das garotas) e
cobertura da televisão (basicamente no cabo, mas tem). A
maioria dos jogadores recebe na faixa intermediária dos cinco
dígitos, apesar de alguns astros como o fenômeno
adolescente do D.C. United, Freddy Adu, ganhar mais de US$ 500 mil
por ano.
"Nós estamos otimistas, porque atualmente
o esporte é atrativo para um público amplo, dos jovens
jogadores de futebol e seus pais até os torcedores fanáticos
do futebol europeu que querem ver jogos ao vivo", disse Don
Garber, o comissário da Major League. "Não é
a NFL, mas temos 10 anos, contra (um futebol americano que é
jogado aqui há) mais de 100 anos."
-A Copa do
Mundo, que ocorre de quatro em quatro anos, está atraindo
índices de audiência na televisão que representam
um crescimento em comparação às copas
anteriores.
"A audiência cresceu 90% em comparação
à Copa de 2002", disse o vice-presidente sênior da
ESPN e guru de pesquisa Artie Bulgrin, se referindo à Copa do
Mundo do Japão/Coréia do Sul, que não teve muita
audiência aqui porque a maioria dos jogos foi exibida em
videoteipe devido à diferença de fuso horário. A
ABC/ESPN comprou recentemente os direitos para transmissão da
Copa em inglês para os Estados Unidos até 2014.
"Nós
sentimos que este é um esporte em grande crescimento",
disse Bulgrin. "E é o tipo de audiência que
queremos -jovens e de boa renda."
-Forças
demográficas estão decididamente a favor de um futuro
sucesso do futebol no país da bola ovalada.
O
crescimento do futebol "espelhará o aumento da população
imigrante neste país", disse Roland Lazenby, um
historiador de esportes da Universidade Politécnica da
Virgínia. "O futebol americano poderá sempre
predominar, mas já nesta Copa do Mundo você está
vendo bares e cafés cheios de pessoas de etnias diferentes
assistindo juntas. É uma coisa pequena mas
significativa."
Quase aconteceu nos anos 70
Se
você está ouvindo risos, eles seriam cortesia dos
detratores do futebol. Nada os estimula mais do que o sucesso
iminente do futebol. Para eles, esperar a explosão do futebol
aqui é igual a "Esperando Godot".
Afinal, há
30 anos, o palco estava armado para o futebol roubar os americanos de
seus passatempos favoritos. Nos dias de glória da North
American Soccer League (NASL), mais de 20 equipes disputavam o título
em cidades por todo o país. O epicentro da mania por futebol
era Nova York, cujo Cosmos contava com Pelé e Franz
Beckenbauer em seu elenco e, em uma ocasião em 1977, recebeu
77 mil torcedores para um jogo no Giants Stadium.
Mas como a
discoteca, a trilha sonora da época, a NASL logo murchou,
seguida por um grande silêncio.
"O futebol na
América teve todas as chances. Nós rejeitamos o
futebol, é justo dizer", disse o estudioso de esportes
Frank Deford, que fica feliz em dizer os motivos para o futebol lhe
fazer torcer o nariz.
"Não há gols
suficientes e os empates não fazem sentido", disse
Deford.
Na verdade, esta Copa do Mundo não está
ajudando a causa pró-futebol. Vários jogos das fases
finais foram decididos nos pênaltis após nenhum gol em
120 minutos de jogo; o torneio apresentou uma média de 2,36
gols por jogo, a mais baixa desde 1990.
Mas Deford não
pára por aí. "Há uma falta de proficiência
no jogo. Deus não nos criou para usar nossos pés e
cabeças. Apesar do que os jogadores de futebol fazem com seus
pés e cabeças ser extraordinário, é tão
extraordinário quanto girar pratos."
E nem o faça
falar sobre a regra do impedimento, que impede que os atacantes se
aproximem do gol adversário mais do que o último
defensor desta equipe.
"Isto é simplesmente
não-americano", disse Deford. "Nos esportes e na
sociedade nossa mentalidade é de avançar, avançar,
avançar. Do século 19 em diante, nós não
nos sentimos atraídos pelo futebol. É como se gostar
dele não estivesse no nosso DNA."
A torcida
"futebol não vai pegar" gosta de se apoiar nas
forças sociais passadas e atuais para defesa de seu
argumento:
-O futebol tem raízes na Grã-Bretanha,
que exportou o jogo para suas colônias há cerca de 150
anos. Não surpreende termos dito não.
"A
América sempre buscou ser independente da Grã-Bretanha,
de forma que a incapacidade do futebol de se fixar aqui realmente é
um produto de forças históricas", disse Randy
Roberts, um historiador da Universidade Purdue. "Também
vale a pena notar que os esportes que ganham popularidade em qualquer
cultura tendem a ter grande apelo junto às classes mais
baixas. Isto vale para o futebol no restante do mundo e para esportes
como beisebol aqui."
-Enquanto o futebol permanecer o
esporte casual da classe média suburbana e de seus filhos no
primário, ele não penetrará em nossa cultura
popular.
"Futebol nos Estados Unidos parece se tratar de
fazer pais e filhos se sentirem bem, um local onde é legal ser
mais ou menos, desde que você esteja se divertindo", disse
Wong, o arquiteto e treinador de futebol americano de meio
período.
"Os esportes são um espelho da
vida, o que pode ajudar as crianças a perceberem onde se
encaixam. Você vai ser o sujeito que pode dar o passe para o
touchdown vencedor ou não? O futebol não parece
promover isto."
-Nossos melhores atletas não se
interessam pelo esporte, eliminando a possibilidade de vermos surgir
um Michael Jordan do futebol por aqui.
"As crianças
neste país podem crescer jogando futebol, mas a maioria parece
parar de jogá-lo cedo porque perdem o interesse", disse
Deford. "No final, isto prova que é um jogo que não
agrada nossos maiores atletas."
Garber da MLS contesta
isto, apontando que Eddie Johnson, um jogador afro-americano da
seleção nacional que inicialmente jogava futebol
americano e basquete em seu colégio na Flórida.
"Não
me venha dizer que ele não é um grande atleta",
disse Garber. "E ele optou pelo futebol."
Quanto ao
futebol ser inerentemente tedioso em comparação aos
esportes favoritos americanos como beisebol e futebol, Donovan, que
nasceu no Sul da Califórnia e joga no Los Angeles Galaxy,
disse que tal conversa "vem de uma geração mais
velha de americanos, pessoas que não cresceram com ele e têm
dificuldade em aceitar que será um grande esporte".
A
teoria política
Alguns argumentam que a posição
contra o futebol tem resquício de política.
"Há
uma linha de conservadorismo que eu acho que freqüentemente está
ligada a este lobby antifutebol", disse Franklin Foer, editor do
"The New Republic" e autor do "Como o Futebol Explica
o Mundo: Um Olhar Inesperado Sobre a Globalização".
"Não se trata de (futebol estar) no nosso DNA. Se trata
de nossa história. Dizer que o futebol nunca será
grande aqui pressupõe que a cultura americana é
estática."
Mas toda esta argumentação
tende a atacar o óbvio (futebol nunca será tão
grande quanto o futebol americano e não é atraente para
a TV comercial) e ignorar o incontestável (há motivos
para pessoas dos recantos mais distantes do planeta adorarem este
jogo).
O que o observador casual do jogo pode não
perceber é que o atrativo do futebol está baseado em
sua simplicidade. Ele não necessita nem mesmo de uma bola, mas
algo que lembre uma bola (a lenda diz que Pelé começou
chutando uma bola de meia) para se jogar. Pode ser necessário
dinheiro para formar uma equipe profissional, mas mesmo o mais pobre
dos pobres pode jogar futebol.
Outro apelo poderoso do futebol
é que as vitórias em campo -especialmente os triunfos
de seleções nacionais que repercutem muito além
dos estádios da Copa do Mundo- representam momentos breves mas
luminosos para países que, em termos geopolíticos, não
desfrutam de tal estatura. O Brasil é o rei do futebol, já
tendo conquistado a Copa do Mundo cinco vezes; mas o país não
possui um poder proporcional na ONU ou em outros encontros de cúpula
políticos globais.
Para os jogadores, o sucesso depende
menos de exigências específicas de tamanho -algo quase
certo no basquete e no futebol americano- e mais de determinação
e desejo. O herói já aposentado da Argentina, Diego
Maradona, tinha apenas 1,65 metro, um duende esquivo com pernas
grossas. Um dos principais atacantes da atualidade, o tcheco Jan
Koller, supera os zagueiros com seus 2,02 metros. Parece que há
espaço para todos com coração.
E, talvez
mais importante que tudo, o ritmo do jogo atrai culturas cujas
histórias dramáticas se estendem por séculos,
quando não milênios. As partidas são menos
batalhas decisivas (lançador contra batedor) e mais como
óperas em dois atos, onde se levantar para pegar uma cerveja
no meio do jogo seria tão impensável quanto sair para
tomar um copo de vinho no meio de uma ária.
"O
futebol é uma grande encenação da paixão
para grande parte do mundo", disse Paddy Agnew, um
correspondente do "Irish Times" em Roma, que está
cobrindo a Copa do Mundo na Alemanha. "As pessoas com quem falo
estão felizes com o fato da única superpotência
do mundo não ser muito melhor do que é. Se também
conquistassem isto, aí seria o fim. O que o restante do mundo
poderia aspirar?"
Agnew disse que os motivos para os
Estados Unidos não serem tão loucos por futebol quanto
o resto do mundo "são puramente culturais, e não
há nada de errado nisto".
Assim como nossas
crianças gravitam para o beisebol, futebol americano e
basquete, as crianças na Irlanda são atraídas
pelo futebol gaélico e o "hurling", que "têm
muito a ver com uma declaração de nossa independência
da Inglaterra quanto qualquer outra coisa", ele disse. "Seus
esportes são sua identidade."
Assim, será
que o futebol será algum dia parte de nossa identidade
nacional?
Há exércitos alinhados atrás de
cada resposta. Mas se as chances fossem calculadas, elas
provavelmente se inclinariam para um "Sim", com um
asterisco apontando "tempo indeterminado".
Afinal,
este país é inclusivo em sua essência, louco por
esportes e ávido por vencer. Assim, o futebol poderá
muito bem encontrar um lar aqui, talvez com alguns ajustes
locais.
"Não há dúvida de que o
futebol crescerá neste país. Não se esqueça,
nada nos estimula mais do que a derrota", disse Lazenby, o
historiador da Politécnica da Virgínia, se referindo à
eliminação precoce da seleção americana
nesta Copa do Mundo.
"É claro, nós
poderíamos acabar criando aqui nosso próprio estilo de
futebol, para tratar de alguns problemas do jogo", ele disse.
"Que tal um futebol sem goleiros? Isto seria algo."
(UOL Mídia Global, USA Today, 07/07/2006)