O Engenhão é nosso...


Com investimento de R$ 350 milhões, mais que o dobro do previsto, Estádio João Havelange está de pé


SILVIO BARSETTI


O Estádio Olímpico João Havelange atende exigências das federações internacionais de futebol (Fifa) e de atletismo (IAAF) e tem tudo para ser o grande centro esportivo dos Jogos Pan-Americanos. A obra impressiona pela beleza e localização: situa-se numa área carente na zona norte do Rio, em frente à Estação Ferroviária do Engenho de Dentro, ao redor de ruas residenciais, entre casas simples e pequenas favelas, onde não há prédios altos e as opções de lazer inexistem.


Orçado inicialmente em R$ 166 milhões, o estádio, já apelidado de Engenhão, deve sair por R$ 350 milhões. É um empreendimento da prefeitura do Rio e teve seu prazo de entrega adiado algumas vezes. A previsão inicial datava de julho de 2005. Mas só ficará à disposição do público bem próximo dos Jogos, em julho. A intenção de seus gestores é realizar um amistoso, dia 23 junho, para marcar sua inauguração.


Chegou-se a cogitar meses atrás a possibilidade de a Seleção Brasileira principal ser convidada para o evento, hipótese descartada por causa da participação da equipe, nesse período, da Copa América, na Venezuela. Dessa forma, o mais provável é que haja um jogo entre uma seleção carioca e um combinado com representantes de outros estados.


O Engenhão dispõe de nove vestiários, quatro deles com 200 metros quadrados cada, banheiras térmicas, ar-condicionado e áreas anexas para aquecimento. O sistema de drenagem é dos mais modernos, com o reaproveitamento de grande quantidade da chuva, a partir de reservatórios programados para a captação da água, que será utilizada em serviços de limpeza e para regar o campo.


Para o arquiteto Carlos Porto, de 65 anos, um dos autores do projeto do Complexo, o funcionamento do estádio não pode ficar dependente da estrutura física, desenhada com o objetivo de oferecer conforto a atletas e público. “É preciso a garantia de que o espectador será orientado por funcionários treinados e conduzido com inteira segurança aos seus lugares, ficando assegurado o seu retorno aos mesmos caso necessite, ou deseja, dali se ausentar para utilizar os serviços que lhe são oferecidos pelas instalações disponíveis: sanitários, bares, lojas, pontos de encontro, etc”, explica.


As áreas totais construídas no terreno que abrigava galpões para manutenção de trens ferroviários é de 182 mil metros quadrados. O Engenhão pode receber 45 mil pessoas.


Mas há atrás dos gols áreas enormes que possibilitam uma expansão. Num primeiro momento, se houver um sinal verde da prefeitura ou de quem assumir a responsabilidade pelo estádio, teria condições de ser ampliado para acolher até 60 mil espectadores.


Se a candidatura do Brasil à Copa de 2014 for confirmada, o Estádio Olímpico João Havelange passaria por uma reforma mais elaborada e, de acordo com Carlos Porto, poderia ter capacidade para até 80 mil pessoas - estaria assim cotado para a abertura ou festa de encerramento do Mundial, embora houvesse a concorrência direta do Maracanã e de estádios de São Paulo e Minas Gerais.


“Em termos de segurança, iluminação, automação, o Engenhão não deve nada a nenhum estádio do mundo. É claro que você pode encontrar alguns com acabamento mais sofisticado e isso tem uma explicação simples: com um custo duas ou três vezes superior, é mais fácil”, comentou Carlos Porto, torcedor do Botafogo e faixa preta em judô.


Como esportista, ele projetou uma cobertura de “aspecto flutuante”, em que quatro grandes arcos tubulares chamam a atenção pela imponência. Sua sustentação ondulada passa a impressão de movimentos comuns em competições envolvendo atletas. “É para imaginar com aquele conjunto da cobertura a trajetória do salto de um atleta ou o percurso traçado no ar do vôo espetacular do goleiro, as curvas dos quiques da bola e os gestos de braços e mãos da multidão saudando seus times de coração e seus ídolos.”


A intenção da prefeitura é deixar a gestão do Engenhão para algum grande clube de futebol da cidade, tão logo seja encerrado os Jogos Parapan-Americanos, em agosto.



Fla, Fogão e Flu na briga

Flamengo e Botafogo já foram sondados. O Fluminense também entrou na lista dos possíveis administradores do estádio. As negociações vão ser retomadas em breve. As pistas de atletismo, três ao todo, duas delas em dimensões olímpicas, não podem ser esquecidas na discussão. Há um projeto ainda tímido de abrir essas pistas para comunidades carentes vizinhas ao estádio. Isso esbarra, porém, no receio de que esse espaço possa ser utilizado sem o devido cuidado. Antes disso, é preciso finalizar as obras, principalmente a da passarela que vai ligar a estação ferroviária ao estádio. Por ali, estima-se, podem chegar ao Engenhão até 25 mil pessoas por hora.


(Jornal da Tarde, Esportes, 04/06/2007)