Futebol/Campeonato
Brasileiro
Após 20 anos, Brasileirão de 1987 ainda gera confusão
Jorge
Corrêa, especial para a GE.Net
São
Paulo (SP) - Quando todos achavam que um dos capítulos mais
polêmicos do futebol brasileiro estava superado, ele reaparece
20 anos depois, mais quente do nunca. Após o São Paulo
ter conquistado seu quinto título nacional, cobrou a “Taça
das Bolinhas”, feita pela Confederação Brasileira
de Futebol (CBF) quando o a competição foi criada nos
moldes atuais, em 1971. Segundo estabelecido na época, ela
ficaria em definitivo com o time que fosse tricampeão de forma
consecutiva ou vencesse o torneio cinco vezes de forma
alternada.
Essa polêmica, no entanto, voltou às
ruas e às salas de diretoria dos clubes, tanto tempo depois .
A torcida do Flamengo estaria se organizando em um site de
relacionamentos e em blogs de torcedores para promover uma passeata
na cidade do Rio de Janeiro – que contaria com a presença
de ex-jogadores e flamenguistas famosos – contra a CBF,
exigindo que a entidade máxima do futebol brasileiro reconheça
o titulo nacional do Flamengo.
Alheia a essa polêmica, a
CBF já disse que o troféu vai para o São Paulo,
apenas não tendo decidido oficialmente a data da entrega.
Personagens importantes em 1987, voltaram a falar sobre o assunto.
Atualmente no comando do Atlético-MG, Emerson Leão –
que estreou como treinador exatamente no Sport naquele torneio –
acha absurda a mobilização do Flamengo. “Essa
situação toda é muito ridícula. O que
aconteceu dentro de campo deve ser mantido. O que foi assinado tem
que ser cumprido. É ridículo um time querer mudar um
regulamento 20 anos depois”, disse o ex-goleiro à
GE.Net.
Até mesmo Zico, treinador do Fenerbahce da
Turquia e principal jogador do Flamengo na época, resolveu
falar sobre o assunto. “Todos sabem que a CBF não
reconhece o Flamengo em função de brigas políticas.
Mas nós, jogadores, e não os dirigentes, ganhamos o
titulo de 1987 dentro do campo, com suor, derrotando vários
adversários e o Internacional, que foi um grande rival, na
final e isso é o que importa”, disse o Galinho, em
entrevista ao jornal O Dia.
Toda a confusão começa
com o Campeonato Brasileiro de 1987, quando Sport e Flamengo
ganharam, respectivamente, o Módulo Amarelo e o Módulo
Verde daquele ano, mas a CBF acabou reconhecendo apenas a equipe
pernambucana como vencedora porque os cariocas se recusaram a
enfrentar os finalistas do outro módulo.
“O São
Paulo vai apenas seguir o regulamento de quando o Campeonato
Brasileiro foi criado em 1971. Reconhecemos que a Copa União
foi tão importante quanto o Campeonato Brasileiro, mas
legalmente e em homenagem a nossa torcida, a taça é
nossa e ela vai ficar no Morumbi, com muita alegria”, explica
João Paulo de Jesus Lopes, assessor especial da presidência
do time paulista.
Mas o Flamengo, baseado no que foi acordado
na época da polêmica, pediu ao São Paulo, em uma
carta oficial encaminhada ao presidente do clube, que o Tricolor
paulista não aceite receber o troféu, e caso o faça,
que encaminhe ele para a Gávea. Segundo o clube carioca, o
Clube dos 13, que comandava a Copa União e era encabeçado
pelo presidente do São Paulo na época, Carlos Miguel
Aidar. A entidade reconheceu o Flamengo como único campeão
brasileiro de 1987.
“Por esta razão, apesar de
saber que o presente procedimento não seria necessário,
tendo em vista que Vossa Excelência (presidente do São
Paulo, Juvenal Juvêncio) é um homem honrado e autêntico
cavalheiro, e diante do estreito relacionamento entre os clubes, o
Flamengo vem notificar o São Paulo para que se abstenha de
receber o troféu referente à conquista de cinco
campeonatos brasileiros, ou, se o fizer, providencie a imediata
entrega do referido troféu na Gávea, único local
onde legitimamente poderá ser exibido”, diz a carta
flamenguista.
Apesar de a CBF não confirmar, a “Taça
das Bolinhas” deverá ser entregue ao São Paulo na
cerimônia oficial de premiação, após
partida contra o Grêmio, no dia 11 de novembro, pela 36ª
rodada do Campeonato Brasileiro, quando time volta ao estádio
do Morumbi pela primeira vez depois de ter conquistado o
pentacampeonato nacional matematicamente. Nos bastidores, no entanto,
a entidade teme a revolta de flamenguistas.
Entenda a história
– Insatisfeitos com a CBF, os principais clubes do futebol
brasileiro criaram o Clube dos 13, entidade que os representaria e
comandaria um liga de futebol independente da entidade e que
substituiria o Campeonato Brasileiro, a partir de 1987. Então
foi criada a Copa União, com Atlético-MG, Bahia,
Botafogo, Coritiba, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense,
Goiás, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, Santa
Cruz, São Paulo e Vasco.
Paralelamente, a CBF também
fez o seu Campeonato Brasileiro, o chamado Módulo Amarelo, que
contou com Atlético-GO, Atlético-PR, Bangu, Criciúma,
CSA-AL, Ceará, Guarani, Internacional-SP, Joinville, Náutico,
Portuguesa, Rio Branco-ES, Sport, Treze e Vitória. O
América-RJ estava incluído, mas abandonou a competição,
pois não concordou em estar no Módulo Amarelo. Tentando
acabar com a dissidência, a CBF propôs que o campeão
de cada um dos torneios se enfrentassem para definir quem seria o
campeão brasileiro.
A confusão piorou quando
Sport e Guarani disputavam a final do Módulo Amarelo e cada
equipe venceu uma das partidas. Assim, a definição foi
para a prorrogação, quando houve empate sem gols. Na
disputa de pênaltis, os dois times decidiram interromper as
cobranças alternadas quando estava empatado por 11 a 11. Então
o Clube dos 13 desistiu da proposta de final com o vencedor do
torneio da CBF e declarou o Flamengo campeão brasileiro,
depois de vencer o Internacional na final da Copa União.
Ainda
tentando evitar esse problema, a CBF criou um quadrangular que seria
disputado em janeiro de 1988 entre os dois primeiros colocados dos
dois torneios, o que não foi aceito por Flamengo e
Internacional. Mesmo assim, a entidade manteve a disputa apenas com
Guarani e Sport e os pernambucanos sagraram-se campeões
brasileiros de 1987, pelo menos para a CBF, ao empatar o jogo de ida
por 1 a 1, e vencer a partida decisiva por 1 a 0, com gol do zagueiro
Marco Antônio.
(Gazeta Esportiva, http://www.gazetaesportiva.net/ge_noticias/bin/noticia.php?chid=129&nwid=19561, 02/11/2007, 19h58)