sem
licença
CVM investiga Palmeiras e Guarani
Clubes
captaram dinheiro junto a torcedores sem autorização da
entidade que controla o mercado de capitais do país
Órgão
alertou sobre ofertas de participação em direitos
federativos de jogadores e confirma a tramitação de
avaliação interna sigilosa
ELVIRA
LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO
Dois
clubes de futebol paulistas, Palmeiras e Guarani, estão sob
investigação da CVM (Comissão de Valores
Mobiliários), ""xerife" do mercado de capitais,
por terem captado dinheiro dos torcedores sem autorização
do órgão regulador.
O Palmeiras foi questionado
pelo lançamento da ""Cesta de Atletas", uma
espécie de clube de investimento, em que o torcedor aposta na
valorização dos jogadores integrantes da cesta. O
Palmeiras esperava arrecadar R$ 9,5 milhões. Foi forçado
a suspender o plano em julho, após notificação
da CVM.
O Guarani, de Campinas, enfrenta problemas por causa
do projeto ""Torcedor Vip". Em dificuldades
financeiras, com dívidas de mais R$ 60 milhões, o clube
criou um programa em que o torcedor lhe empresta dinheiro, por três
anos, e, no período, ganha ingressos para os jogos no Brinco
de Ouro.
Em princípio, o Guarani criou um simples plano
de empréstimo e não teria de registrá-lo na CVM.
Mas, o contrato tem uma cláusula que oferece a possibilidade
de o torcedor transformar o empréstimo em aplicação
de risco, com remuneração baseada na valorização
dos jogadores -tipo de aplicação da alçada do
órgão.
A investigação transcorre
em sigilo na CVM, que apenas confirma a existência do processo.
Há dois meses, a comissão alertou ao mercado de
capitais de que detectara situações que podem
configurar captação irregular de poupança
popular nas ofertas ao público de investimentos em ""direitos
federativos"" de atletas profissionais dos clubes
alviverdes.
A primeira irregularidade estaria no o fato de
eles não terem registrado os planos de captação
na CVM. O alerta recomendava analisar tais ofertas com cautela e
racionalidade.
A CVM passou a examinar as iniciativas dos
clubes de futebol com mais rigor, depois da experiência
negativa do Fluminense. O clube carioca criou, em 96, a empresa de
investimentos Torcedor S.A., com rendimento atrelado à
valorização dos jogadores. Logo depois, o clube
enfrentou uma má-fase e foi rebaixado para a terceira
divisão.
A Torcedor S.A só acumulou prejuízos,
sofreu uma investigação da CVM e acabou por fechar o
capital em 2006, por determinação do órgão
regulador. A maior parte dos cotistas doou o aplicado ao clube.
O
ex-presidente e atual conselheiro do Fluminense David Fischel diz que
aplicações baseadas na venda de jogadores tornaram-se
investimentos de alto risco, com a Lei Pelé, que garante ao
jogador o direito de dispor sobre seu destino ao término do
contrato. Para ele, a CVM está certa ao se preocupar com tais
captações.
O superintendente de Registros de
Valores Mobiliários da CVM, Carlos Alberto Rebello Sobrinho,
diz que o torcedor de futebol é movido por impulso e paixão.
""Esses sentimentos não são boas companhias
na hora da decisão de investimento. O torcedor pensa apenas se
vai ser bom o time. O investidor racional, consciente, que a gente
busca ao regular o mercado, não está presente no
ambiente do esporte. Por isso, precisamos proteger ainda mais esse
investidor", afirma ele.
Aos clubes, que alegam que os
planos de captação são de caráter
privado, por se destinarem apenas aos respectivos torcedores, a CVM
responde que pouca coisa pode ser mais pública do que um plano
destinado a torcedor de futebol, cujos times arrebatam multidões.
(Folha de S.Paulo, Folha Esporte, 02/10/2007)