Promotoria
investiga isenção dos clubes no IPTU
NO PROJETO DA
PREFEITURA, CLUBES DE FUTEBOL E TURFE NÃO TERIAM DE PAGAR
IMPOSTO PREDIAL. MINISTÉRIO PÚBLICO QUER SABER O QUE
OFERECERÃO EM TROCA
O Ministério
Público vai investigar, por meio de ação
judicial, quais serão as contrapartidas dos clubes
beneficiados com a isenção do IPTU.
Pelo projeto da
prefeitura enviado à Câmara Municipal na semana passada,
o Jockey Clube e entidades da capital com fins desportivos -incluindo
times de futebol que usam áreas públicas cedidas pelo
município- continuarão livres do imposto
predial.
Antes, a gestão Gilberto Kassab (PFL) já
havia revogado, no início de agosto, um decreto de José
Serra (PSDB) que previa a tributação dos clubes em 2,5%
sobre o valor da área construída em espaço
público. Na ocasião da revogação, foi
constituída uma comissão para formular, em 90 dias,
possíveis alternativas à cobrança -entre elas as
contrapartidas sociais.
A nova lei apresentada ao Legislativo,
porém, não especifica como serão essas
contrapartidas. O artigo 24 do projeto diz que a isenção
está condicionada a "programas nas áreas de
educação, saúde, esporte, lazer e cultura"
-não é apontado, contudo, como e onde os projetos devem
ser desenvolvidos. No caso do Jockey, a isenção será
retroativa a 2005 e 2006, e não haverá obrigação
de contrapartidas. "Essa "dádiva" (isenção)
da prefeitura é mais um argumento a favor da nossa ação
(que pede a licitação de áreas públicas
usadas por clubes). Nunca ficou comprovado que esses clubes oferecem
projetos sociais. Com a lei, será necessário um rigor
na fiscalização dessas contrapartidas. Vamos fazer isso
com ação judicial", afirmou ontem o promotor de
Justiça da Habitação e da Cidadania José
Carlos de Freitas.
Para Freitas, a lei que prevê ajustes no
IPTU aos contribuintes a partir do próximo ano concede aos
clubes outro benefício além das áreas cedidas.
Ele citou como exemplo os mais de 40 mil m2 cedidos a São
Paulo e Palmeiras na área onde estão hoje os centros de
treinamentos dos times, na Barra Funda (zona oeste).
"O que
justifica os clubes não pagarem pela área construída
dentro de terreno da prefeitura?", argumentou.
Consultada
pela reportagem, a Secretaria Municipal de Finanças não
informou o valor que deixará de arrecadar com a isenção
aos clubes.
"Não entendi a isenção total
ao Jockey, o turfe é um jogo de azar. Isso terá de ser
melhor explicado", afirmou o vereador e ex-judoca Aurélio
Miguel (PL), que defende a isenção aos clubes
desportivos mediante a apresentação de programas
sociais.
Recuo
No
decreto revogado em agosto, estavam incluídos para pagar
imposto predial 14 clubes, entre eles Palmeiras, São Paulo,
Corinthians e Portuguesa. Juntos, esses clubes ocupam uma área
de 640.059 m2 e cujo valor venal (usado para calcular o IPTU) foi
estimado em R$ 139,6 milhões.
Os clubes amadores deveriam
recolher por ano o equivalente a 1,5% do valor venal, e os
profissionais, 2,5%. Do total, 25% poderiam ser pagos em obras ou
serviços sociais. O maior valor teria de ser recolhido pelo
Corinthians, com R$ 836 mil mensais.
(Diego Zanchetta e
Fábio Grellet)
(Folha de S. Paulo, Folha Cotidiano, 17/10/2006, p. C-9)